Lógica do sul no centro
O governo provisório de Honduras entrou com uma queixa contra o Brasil no Tribunal Internacional de Haia por causa da forma como o governo e a diplomacia brasileira tem atuado no caso Zelaya, o presidente deposto e que encontra-se há semanas entrincheirado na embaixada tupiniquim em Tegucigalpa. A queixa, então, referir-se-ia à ingerência do Brasil sobre questões soberanas hondurenhas, coisa tão séria a ponto de poder desvirtuar o processo de instabilidade política em uma crise institucional e mesmo conflito civil.
A ministra Dilma Housseff falou à imprensa, e disse que não teme a queixa no tribunal internacional por ser uma reivindicação ilegítima, pois de um governo golpista. Honduras não precisa lá de muito mais evidências da ingerência do Planalto e do Itamarati: o Brasil insiste em sombrear ardilosamente a questão ao deturpar a nomenclatura. Golpe é quando as instituições e os processos são ignorados e desrespeitados, e um governo legítimo é deposto. Muito bem, o que aconteceu em Honduras foi a deposição de Zelaya pela Suprema Corte e Parlamento hondurenhos por um processo constituicional. Deixar Zelaya no poder é que seria anticonstitucional.
Curiosamente a mídia brasileira e o governo insistem em acusar a Justiça e o Parlamento de Honduras de “golpistas” – como isso poderia ser possível ao se cumprir a própria constituição? O apoio a Zelaya e o esforço dos governos de esquerda da América Latina para restituí-lo a presidência é claramente um ultraje à soberania hondurenha. Mas, claro, tudo é um problema de lógica – cumprir a constituição contra um bandido representante do narcopoder é golpe; entretanto, ninguém no Brasil disse nada quando Chávez rasga a constituição venezuelana a seu bel prazer, cerceia o direito à liberdade de expressão, e coisas tais.
Tudo, ao que parece, resume-se a uma questão de lógica, de ponto de vista. Se o Tribunal der ganho a Honduras, é parte do “esquema anti-democrático de direita”, se der ganho ao Brasil, cumpre seu papel – simples assim.
Lógica do sul
O Mercosul vai se tornando uma organização muito curiosa. Ao invés de cumprir tão somente seus objetivos de cooperação econômica entre países do Cone Sul, passará a ser também um clube promotor da democracia. Isso porque a entrada da Venezuela no bloco parece não se dar por justificativas econômicas ou pela perspectiva de fortalecimento do mercado regional, mas quase exclusivamente para promover a ampliação da democracia naquele país.
O raciocínio é simples: a Venezuela não poderia entrar por não cumprir as exigências democráticas dos protocolos do Mercosul, como liberdade de imprensa, direitos civis, transparências nas eleições (essas coisas); como ela não cumpre; então, que tal incluí-la e aí, quem sabe, Chávez não resolva adotar os padrões dos outros países participantes? Bom, nesse caso o parlamento brasileiro entenderia a participação como plenamente justificável (ao menos o relator do parecer, Tasso Jereissati do PSDB-CE, se diz convencido e vai mudar seu parecer).
A Venezuela entra se der “garantias concretas de avançar na consolidação do respeito à democracia”. Agora, só uma pergunta: como é que o menino maluquinho (pra dizer o mínimo) pode dar qualquer garantia? E como os parceiros podem confiar em qualquer coisa que possa prometer Chávez? A não ser que… bem, a não ser que a Venezuela cumpra os padrões se tornado o padrão.
Isso justificaria o emprenho do PT na promoção da inclusão (juntamente com o presidente Lugo do Paraguai) e a aprovação já concedida pela Argentina e Uruguai. O sonho desse pessoal todo é ter relações abertas com as FARC, conseguir eleições, reeleições e rereeleições, fazer mudanças na constituições com quem edita um artigo num blogue, e coisas afins. Parece um contra-senso, mas faz sentido.
Atualização [28/10 17:10]: lí agora mesmo no Nota Latina (via Norma Braga) que o governo de Chávez aprovou o “tombamento” de um sem número de propriedades. Tornando-as “patrimônio cultural”, os proprietários não podem se dispor delas sem autorização do governo. Dada a quantidade de prédios “tombados” e suas características, a medida pode ser uma manobra contra a propriedade privada na Venezuela.
O conceito de “natureza” é bíblico?
Ao que tudo indica, não.

O ponto de partida para a filosofia foi a reflexão sobre a natureza, a physis, que está longe de poder ser igualada com o nosso conceito moderno de natureza ou de física, mas estão de algum modo relacionadas. A physis diz respeito ao princípio ou à substância que está na base da realidade de todas as coisas, e se esse é seu estatuto, é aquilo que dá coesão e ordenação para o mundo – daí que conhecendo esta substância primordial detém-se o princípio razoável de tudo o mais que existe.
Ainda que a investigação sobre a physis tenha chegado a um impasse logo que se tenha colocado aos pré-socráticos a dificuldade de se afirmar o conhecimento sobre ela, e que os socráticos e os sofistas tenham abandonado (grosso modo) a questão, um ponto permaneceu perene na imagem de natureza dos gregos: a natureza (ou o cosmos) é uma realidade perpétua, incriada – nada mais distante para os gregos que a ideia de criação.
Mesmo depois do encontro e síntese entre a filosofia e a tradição bíblica a tensão sobre o conceito de natureza parace ter permanecido, e se a perspectiva deísta emergiu como uma fórmula atraente na Modernidade não parece ser por outro motivo senão pela autonomia da natureza como uma máquina projetada por uma Mente Absoluta. O conhecimento de uma máquina autônoma prescinde da necessidade de estar informado sobre as finalidades ou desígnios (telos) que porventura o projetista tivesse em mente – ainda que muito diferente do interesse pré-socrático, a noção moderna de natureza compartilha uma certa noção grega de independência ao menos como condição intelectiva.
Contudo, a ideia bíblica de natureza está de tal modo em oposição a isto que preferimos charmá-la de “ideia de criação“. Isso porque (i) muito diferentemente dos gregos, o mundo é criado, tem início e finalidade (propósito, fim) estabelecidos por um divindade transcendente que independe dele, e (ii) não é na phisis ou na substância do mundo que encontra-se a chave para a compreensão da realidade, mas na relação com o Criador.
Como dito acima, havia uma tensão ainda na Idade Média, isso porque os medievais, num negócio que ficou conhecido como nominalismo, insistiam em procurar as relações de significado na natureza com a revelação (o que acabou por constituir a base do empirismo e para a ciência moderna). Contudo, a “tentação” de um modelo fechado é sempre presente e não tardou que aparecessem as formulações galilaica e newtoniana que apresentavam a noção de necessidade, que outra vez parecem “trancar” o mundo natural.
O conceito de criação, por outro lado, mesmo como criação ordenada possuidora de leis internas que a regem, mantém a abertura que aponta para o Criador. Essa abertura repousa sobre a noção de pessoalidade – o universo, segundo a Bíblia, é uma realidade pessoal, pois Deus é um ser pessoal que se relaciona com sua criação, sendo que é essa mesma relação que confere sentido a todas as coisas. Isso não quer dizer que no “livro da natureza” possamos encontrar o mesmo conteúdo do “livro da revelação”, mas que a criação aponta para uma abertura inerente.
Entre o conceito de natureza e o de criação há, portanto, um abismo tão grande quanto a noção de pessoa.
Sto. Agostinho de Hipona

Santo Agostinho de Hipona
Hoje, 28 de agosto, é o memorial de Santo Agostinho de Hipona (data de sua morte), uma das mais importantes figuras do Cristianismo e, sem dúvida, do Ocidente. Eu gostaria de ter mais tempo e largueza de saber pra falar alguma coisa sobre Agostinho. Na falta dos dois, digo somente que nasceu em Tagaste no ano de 354 e morreu durante o cerco de Hipona pelos Vândalos em 430. Sua mãe, Sta. Mônica (cujo dia dedicado foi ontem, 27 de agosto), era cristã e seu pai, pagão – Tagaste era uma cidade púnica fortemente pagã (mesmo no quarto século da Era Comum), e o jovem Agostinho passou por uma juventude de desregramento, tornando-se depois ao Maniqueísmo (heresia que perturbará o Cristianismo por muito tempo). Estudou em Cartago e sua formação em retórica será um ponto relevante para sua aproximação com o Cristianismo.
Após converter-se à fé ortodoxa da Igreja Católica (ortodoxo no sentido de “correto” em oposição às variações heréticas, não em relação com a Igreja Oriental) em 386, e cerca de dez anos depois foi sagrado bispo de Hipona, onde permaneceu até sua morte. Agostinho foi um autor prolífico, escrevendo comentário bíblicos, obras apologéticas e filosóficas. Fortemente influenciado pelo neo-platonismo, lançou as bases do pensamento cristão medieval (mais luminoso do que os Iluministas nos deixam imaginar); e fez contribuições da maior ordem ao Cristianismo Ocidental. Combatendo os pelagianos, Agostinho recusou e combateu a ideia de que o homem pode escolher se tornar ou ser bom, alcançando o mérito da salvação diante de D’us.
A oposição agostiniana a esta formulação convoca outros pontos importantes no corpo teórico do santo: o pecado original e a eleição. O pecado original choca as sensibilidades modernas, mas quer dizer simplesmente (!) que a Queda foi de tal radicalidade que o humanidade está comprometida em seu cabeça, Adão. A natureza humana está comprometida, sendo incapaz de discernir, escolher e praticar o bem. A amplitude absoluta da Queda, curiosamente, torna a obra de Cristo ainda maior e dá a medida de sua radicalidade: na ressurreição, Jesus “reencabeçou” a humanidade, dando-lhe um novo início e regenerando-a. Aí sim, podemos fazer o bem.
Eu fiz intencionalmente uma interpolação entre Agostinho com Irineu de Lion porque acho bastante parecidos nesse ponto e ajuda a deixar o pensamento agostiniano mais claro, acho. Na verdade, o bispo de Hipona faz uma boa leitura de Romanos, seguindo e desdobrando a tradição paulina. Se o homem não pode ser meritório da salvação, ela se dá por uma ação soberana e volitiva de D’us, e d’Ele somente. É a base da eleição. Para mim, Agostinho é um ótimo expositor do pensamento e compreensão de Paulo a respeito das Escrituras Hebraicas e do papel do Messias. Não é à toa que é o patrono dos “judeus do Cristianismo”, os reformados calvinistas (e dos luteranos também, ou meio… aff!).
O que direi por mim? Penso que Agostinho é o grande herdeiro da tradição filosófica Alexandrina (o neo-platonismo), mas isso quer dizer mais do que aparenta: é o receptáculo de uma tradição de reflexão sobre a Torá e os Profetas que remonta a Philo de Alexandria, legada ao Cristianismo alexandrino (Clemente, Orígenes), participantes na formação do tal neo-platonismo. Agostinho sedimenta a ideia judaico-farisaica da História e sua teleologia (propósito) n’A Cidade de Deus, bem como a noção de soberania de D’us. Para mim, a ideia de eleição agostiniana tem ecos farisaicos (Deus num ato volitivo perdoa os pecados e no faz justos – ver a liturgia em torno do Yom Kippur e os Yamim Noraim, o Dia do Perdão e os Dez Dias Terríveis que o antecipam) – eu devo esse raciocínio largamente a Gordon Clark.
Agostinho funda, nas palavras de Hannah Arendt, “o abismo da interioridade”, essa noção tão cara a nós ocidentais, e tão mal compreendida. Confissões é uma obra seminal não somente em termos de literatura, é o estatuto de uma nova antropologia: o homem como um cosmo interno, de fato. Claro, isso está presente em outras tradições, mas em nenhuma toma a forma inovadora dada por Agostinho.
Para os judeus, legou a alcunha de “povo testemunha” que deveria ser tolerada… não é a melhor solução, mas isso foi a base para a (ainda que pouca) tolerância cristã aos judeus no medievo (ok, eu estou dourando a pílula).
Seja para quem for, Agostinho é um autor essencial e imprescindível para compreender qualquer coisa por essas bandas.
Vive la liberté, la vélo liberté
Minha esposa esteve em Paris, em ‘98, e sempre diz que a cidade é linda – o que muita gente diz, é verdade, mas a Carol sempre percebe coisas em detalhes muito peculiares, que me interessam bastante, por isso o “Paris é linda” que ela profere tem outro significado para quem a conhece (óbvio que muitas outras pessoas com bom gosto, ou com gosto parecido com o dela ou com o meu terão uma opinião similar); refere-se aos parques, às pessoas e a cidade integradas de alguma maneira mais saudável, lugares pequenos e simples mas gostosos para comer ou tomar um café, leitores em bancos de praças, ou lendo no horário de almoço sobre uma toalha estendida num gramado, as crianças e os velhos, essa coisas.
Eu nunca fui a Paris. Alguns amigos foram. Um casal que eu prezo demais e muito devo fez um roteiro bastante cultural (museus e essas coisas, mas é o que eles tinham que fazer naquele momento, não é uma censura), e trouxeram percepções que me ajudaram a entender as origens romanas do culto cívico francês estampadas na arquitetura parisiense. Um outro amigo, um sujeito bastante provinciano, gostador de certos hábitos simplórios (se eu ainda morasse onde ele mora, seria muito mais feliz), ficou encantado com a quantidade de “leitores públicos”. Quem sabe o clima parisiense ajude, acho que ler no calor de Belo Horizonte é impossível (hoje, Domingo, finais de julho, brilha um sol maravilhosamente quente, sem aquele ardor invernado ou a cresta do verão, e 23°), e áreas arborizadas não parecem ser projetadas para leitores por aqui (tente ler na Praça da Liberdade…).
Mas deixemos estas considerações sobre a Cidade Luz, porque o que quero falar é outra coisa sobre Paris. É o Vélib’, ou vélo libre, ou sistema público de aluguel de bicicletas que foi implantado em meados de 2007 e está fazendo dois anos. O princípio é simples, a logística, complicada. Uma empresa de publicidade outdoor ganhou, por licitação (?), o direito de explorar todos os expositores públicos da cidade, em troca, ou melhor, como parte do contrato, mantém o serviço, bancando as bicicletas, o pessoal e a manutenção. Bem, publicidade ou o monopólio dos anúncios de rua em Paris deve dar um dinheiro absurdo – a JCDecaux arcou com os mais de $ 100 milhões (de dólares?) para iniciar o serviço, contratou um corpo de 200 funcionários para a manutenção e é responsável por tudo por um período de 10 anos. Além disso, todo o dinheiro dos aluguéis pagos pelos usuários vai para a prefeitura, sem falar de uma taxa anual de US$ 4 milhões para os cofres públicos. Isso parece plano de ganhos de marketing multi nível, mas tudo bem, vou acreditar nos dados que li na Wikipedia… (se meu inglês me traiu, alguém ajude).
O usuário paga uma taxa para utilizar o Vélib’ de €1 por dia, €5 por semana ou €29 por ano. Pronto, estando habilitado é possível alugar uma bicicleta quantas vezes quiser durante o período contratado, mas por 30min por vez; se for preciso, pare num outro posto, devolva a primeira e pegue outra, e assim por diante… cada período adicional com a mesma bicicleta implica em uma “multa”. Isso é para circular as bicicletas. Há 10 mil unidades distribuídas em 750 postos de locação, e o sistema tem previsão de ser dobrado logo (leia dados interessantes no Transporte Ativo).
Problemas? Claro. 3.000 unidades roubadas no primeiro ano; 20% dos casos de avaria são causados por vandalismo; postos da periferia não suprem a demanda pela manhã, e no mesmo período não há vagas suficiente para recolhimento no centro (as bicicletas dos postos periféricos confluem para lá…), que mais tarde não atende os ciclistas que querem ir para casa no fim do dia. Mas tirando o problema com os ogros, as dificuldades demonstram que o parisiense adotou o sistema, usa e quer mais. As taxas de vandalismo são altas para os padrões europeus, mas a JCDecaux deveria fazer um teste por aqui – a técnica do “bode na sala” ajuda muito nessas horas.
Eu nunca fui a Paris, mas parece que tudo o que dá certo lá ganha a aura de charme parisiense. As bicicletas da Vélib’ são lindas, robustas mas elegantes, parecem gostosas de usar (apesar das parcas 3 marchas e os quase 25 quilos), e estão cheias daquele modo civilizado francês. Devolvem algum romantismo às ruas da cidade… eu diria isso se estivesse lá. Mas eu nunca fui a Paris.
Curioso: os computadores das estações da Vélib’ rodam Windows, e é frequente acontecer de o usuário encontrar uma certa tela azul no monitor… Muito desse artigo foi tirado do verbete Vélib’ da Wikipedia. Vale a pena conhecer a página do serviço, aqui (há tradução para inglês e espanhol), e esse vídeo meia-boca no Uol (blegh! – não gosto do Uol, não sei por quê). No verbete da Wikipedia há a menção de um projeto para aluguel de pequenos carros elétricos… adeus romantismo…
Google Chrome OS, outra vez
Esse negócio de blogue é interessante. Sobretudo quando a gente não deixa de expor a própria touperice e ponto de partida – nunca isso fica completamente claro, mas quando fazemos algum esforço para tal, os resultados são interessantes para o bem da boa informação. Ou ao menos para a correção do que pode ser informação errada e incompleta. Estou escrevendo isso aqui por causa do artigo anterior (estou evitando a palavra inglesa post, não por xenofobia – gosto do idioma inglês, muito útil – mas pra respeitar o português que tem tantas palavras bonitas e interessantes. Pra não usar uma versão naturalizada, “pouste” na mesma lógica de “blogue”, uso artigo, mas sem a seriedade e pretensão que o termo tem em português; gostaria de poder usar “nota” ou “texto”, mas é insuficiente).
Os argumentos do texto (eita!) são poucos e parecem que no meu estilo (se eu tiver algum) ficam pouco claros. Mas em resumo: (i) o Google Chrome OS não é um assassino de distros GNU/Linux, muito menos do Ubuntu, (ii) o Google Chrome OS não será uma solução definitiva e inovadora pra o problema e necessidades de um usuário comum, mesmo um jacu, (iii) o Google poderia, ao invés de criar uma nova distribuição ou SO baseado no kernel do Linux, “atrelar seu cavalo ao carro do Ubuntu” (como disse LeMay), e (iv) a forma como a notícia foi recebida e está sendo comentada é desproporcional, como quase tudo em tecnologia (alguém disse que superestimamos a tecnologia nas projeções de curto prazo, subestimamos quando pensamos a médio, e ridicularizamos quem prevê o futuro daqui a 15, 20 anos – e geralmente os profetas acertam).
Bom, o que eu devo reconsiderar: (i) o Google Chrome OS vai ter impacto, sim, (ii) ele é mais que vaporware, mas seu efeito é comparado a um, (iii) fanfarronice faz parte do negócio e da celebração das marcas, fazer o quê?
Há um aspecto que o Daniel, que não indicou possuir página ou blogue, muito sabiamente ressaltou num comentário que fez no texto abaixo. Indicando esse texto do Maddog (esse cara é muito bom, sabido como uma cobra), fez perceber que há alguns aspectos, pelo menos (e pode haver muitos outros possíveis), que o Chrome OS vai favorecer e contribuir para o desenvolvimento do Software Livre: (i) menos gente irá usar programas proprietários e SOs como Windows ou MacOS, (ii) alguém usando Chrome por que simpatiza com o Google é um usuário a menos do Internet Explorer (e quanto mais gente usando outros navegadores diferentes, mais os programadores e empresas terão que pensar em formas de suas páginas rodarem bem em todos eles ou nos principias, ou ainda criarem a demanda de uma linguagem/padrão que todos respondam bem), (iii) o bug #1 no LaunchPad (plataforma da Canonical que lista, discute e tenta resolver problemas do Ubuntu, grosso modo) não é 99% dos computadores do mundo rodarem Windows? Pois é, o bug não é que todos eles passarem a usar Ubuntu, mas outros SOs; se o Chrome OS abrir o caminho para o fim do monopólio, ótimo. Além disso, (iv) seja lá o que o Google faça com o kernel, código terá que ficar aberto, e saberemos o que foi mudado. Assim, (v) os desenvolvedores e produtores de periféricos e hardware terão que dar suporte para o Chrome OS, produzindo alguma coisa que no final será aberto, dando oportunidade para os desenvolvedores e outras distros GNU/Linux se valerem do que for produzido e lançado no mercado. Dito de outro modo, acaba ou diminui bastante a dificuldade do Linux com compatibilidade e drivers.
Isso tudo porque o mercado respeita o Google – e mesmo que o Chrome OS não tenha chegado ao público, os fabricantes já estão pensando em como darão suporte ao derivado do Linux (é, o Linux que eles insistiram em ignorar). E o Maddog diz uma coisa muito sensata: se houvesse apenas um computador pessoal por pessoa no planeta, seriam 6,3 bilhões de máquinas. Há mais que isso, possivelmente. Isso quer dizer muito, muito espaço para muitas distribuições e propostas no mercado de computadores pessoais.
Seja como for, então, devemos (ou devo eu) esperar que o Chrome OS seja um sucesso, que muita gente que usa Windows (seja o 7, seja o Azure ou Gazelle) migre para um sistema gratuito na rede baseado em Linux. E depois descubra que há vida para além das janelas. O Chrome pode ser o primeiro buraco na parede por onde as pessoas atravessem. E lá fora, ou melhor, aqui fora, o mundo é grande: eu já conheci um porco-espinho, um texugo, um pato, uma espécie curiosa de salamandra, uma corsa, um gibão, uma garça, um carneiro-montês, e estou espantado com um híbrido de antílope e lebre (coisa impressionante; veja eles todos aqui e aqui); mas também conheci um indiozinho que já morreu, e um mágico empático.
É isso aí.
Chrome OS: vaporcomputing?
Todo mundo razoavelmente interessado em novidades em informática está a ouvir as notícias sobre o sistema operacional do Google baseado em seu navegador, o Chrome. Sistemas Operacionais alocados na internet não são exatamente uma novidade – há cerca de um ano e meio o Eric já havia me apresentado o eyeOS, e havia um outro chamado YouOS (que me parece estar descontinuado). A ideia é simples: rodar um sistema operacional e seus aplicativos num servidor pela internet (certo, desenvolvedores, é só uma explicação para jacus) a partir de um “terminal burro”, com estrutura apenas para acessar a rede e realizar procedimentos simples localmente (provavelmente o que estiver relacionado com vídeo e armazenamento local, como num pendrive ou coisa assim). [nota: o Luiz Cruz, do Zona livre (blogue dentro da INFO Online) chama a atenção para três outros sistemas baseados na rede: o Jolicloud, o Midnux e o gOS. Juro que vi a reportagem do Luiz agorinha, 19 de julho...]
A ideia é inteligente e interessante do ponto de vista econômico implica no barateamento das máquinas uma vez que poderão ser muito mais simples e menos robustas, sendo que o investimento fica todo concentrado dos servidores, formando uma espinha dorsal que sustenta as operações e transfere o processamento bruto para um “cérebro”, um centro de processamento. Eu mesmo uma vez postei aqui sobre um tiny desktop (ou thin client) que antecedeu o anúncio do EeePC Desktop e similares.
Mas como toda ideia, as primeiras tentativas geralmente não são bem entendidas e quase nunca vigoram. Isso muda, claro, quando uma grande empresa que já possui um nome no mercado que goza de prestígio junto ao público e consumidores resolve investir na ideia, seja desenvolvendo sua versão, seja comprando e incorporando a iniciativa de outrem. Claro, existem exceções, como o Twitter, que começou e está aí (acho).
Parece que a mesma coisa vai acontecendo com o Google Chrome OS. Veja bem, isso, o conceito de um webOS, já estava aí, continua com as mesmas dificuldades, mas o peso do momento provém do atrelamento do nome e marca Google. Curioso, porque já se fala de um sistema viável, de uma disputa final entre a Microsoft com seu Azure ou Gazelle (a versão Windows nas nuvens) e o Chrome OS, e mesmo um golpe final nas distribuições GNU/Linux mais populares, como o Ubuntu. A gama e o escopo das projeções são assustadoramente superestimadas para alguma coisa que ainda nem foi vista, provada e testada – o que está sendo celebrado, até agora, é a marca e imaginário Google. Claro, a empresa merece isso, mas não é o suficiente; sinceramente, eu não gostaria de ver um fenômeno como os fanboys da Apple com relação à empresa de Mountain View.
Certo, o Google é legal, mas vejamos que a empresa está perdendo a cabeça. O Chrome é um navegador legal, oportuníssimo em sua proposta de dar prioridade às páginas e não ao próprio programa, sua janela e botões. Mas não é tão bom quanto o Mozilla Firefox, por alguns motivos. Primeiro, a abertura para desenvolvimentos e a quantidade de adicionais desenvolvidos por terceiros para o Firefox é absurda, e é difícil que o Chrome consiga algo assim (me parece que há alguma dificuldade em desenvolver add-ons ele, não?). Segundo, Renai LeMay frisa nesse artigo muito interessante no ZDNet Australia, que o Firefox é um programa independente e não enpurra (pressiona) consigo a agenda de mais ninguém. Terceiro, o Chrome não é tudo isso que parece ser. Não mesmo. [nota #2: gosto de ver o que escreve o Maurício Moraes, do Na trilha do Google, mas pra mim, a análise sobre a questão e sua interpretação do artigo do LeMay são equivocados...]
Mas nem tudo está perdido no Google, obviamente. O Android é um sistema muito interessante para mobiles, e sua força está, entre outras coisas, ser fruto de uma parceria da empresa com outras tantas interessadas. E sendo aberto, tem grandes possibilidades de superar mesmo a Apple como melhor sistema para plataformas móveis. Curiosamente, a Google segue o caminho oposto no caso do Chrome OS. Como diz LeMay, ao invés de aliar-se à Canonical (empresa/fundação por trás do desenvolvimento do Ubuntu) e dar um impulso gigantesco à mais bem sucedida distribuição GNU/Linux em termos de aceitação de usuários finais (e mesmo gente experiênte que precisa de boas ferramentas e estabilidade), resolve criar e começar uma nova distro, baseada no kernel do Linux.Isso pode significar, inclusive, fuçar nas políticas de segurança do sistema e coisas do gênero. Vem besteira por aí.
Serviços de internet, e-mail, navegadores, isso tudo é um gênero de atividade. Um SO, com certeza e até um jacu pode perceber isso, é outra. O Google pode meter os pés pelas mãos e ainda criar problemas para as iniciativas que vêm dando certo.
Há um conceito interessante em informática que é curiosamente pouco utilizado, mesmo que, para mim ao menos, ele seja muito útil para explicar muita coisa: vaporware. Refere-se a programas anunciados por empresas e desenvolvedores e que antes de ser lançado provoca frisson no mercado e afeta os humores e tendências, sem, contudo, aparecer de fato – seja porque era uma mentira (nunca existiu verdadeiramente), seja porque o ciclo de desenvolvimento foi ultrapassado e as expectativas não foram cumpridas.
Para mim, o Chrome OS cheira a vaporware, um fafarrão. Está excitando as espectativas mais do que é sensato, e clivando as iniciativas que importam. Não sei não…
uorcaráundi: alsa e pulse-audio
Eu sou um jacu, mas mesmo eu não entendo por que o pulse-audio continua incluso por padrão no Ubuntu. Esse driver ou gerenciador de áudio só atormenta os usuários que possuem máquinas com placas de som esquisofrênicas (e isso é até comum…). Mas isso é uma pergunta a ser respondida por algum desenvolvedor que me acha mais que um jacu e nem vai se dignar explicar o detalhe aqui.
Bem, como usuários normais podem se livrar o pulse-audio? Seguindo esse tutorial passado pelo Igor Miguel (@igorpensar – eita!)eu dei um jeito no danado, e vou tomar a liberdade de replicar os comandos pra quem tem HDA Intel (é, a placa de som). Não sei se dá certo com outros tipos, mas o Igor disse que na placa HDA nVidia.
killall pulseaudio
sudo apt-get remove pulseaudio
sudo apt-get install esound
sudo rm /etc/X11/Xsession.d/70pulseaudio
Geralmente, pra quem usa Skype® é preciso (ou bom) configurar o programa para usar o HDA Intel (alsa-mixer).
***
Para quem anda problemas com as atualizações do kernel e o alsa, há um tutorial no blogue do Tirloni para atulaizar para o 1.0.20. É fácil de fazer, até eu fiz. Não vou duplicar os comandos aqui, então visitem o Tirloni. Isso é interessante sobretudo para quem tem um HP mini série 1000, como eu, que vive dando pau com as atualizações do kernel – por que cargas d’água o 1.0.20 já não está nos repositórios? Bom, outro desenvolvedor deve saber o detalhe da questão também.
Abraço.
Quatro anos com o Ubuntu
Algumas coisas me levaram a usar Linux. Fora as questões teóricas, que espero poder tratar em outros artigos com mais tempo, houve a iniciativa do meu amigo Igor Miguel que no distante 2005 me emprestou um CD do Kurumim depois de me mostrar como instalar o Linux em dual boot (não há outra forma de escrever isso, não?) com Windows®. Eu fiquei muito empolgado ao ver aquilo tudo, afinal, eu achava que o Linux era alguma coisa para geeks e iniciados que soubessem operar uma tela preta com um processador (melhor que prompt) de comando.
Vale a pena citar, e depois o Igor me contou, que se interessou pelo pinguim depois de uma palestra sobre software livre na Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE/UEMG). Profissionais e programadores: não subestimem o poder de suas falas públicas. Elas podem convencer e ser reproduzidas.
De primeira eu zerei o HD, tirei o Windows (cansei de colocar o ®) e instalei o Kurumin. Bem, funcionou, mas por causa de um problema antigo com modens ADSL via usb, eu fiquei sem internet, além disso, não conseguia entender de jeito nenhum como é que se instalava programas (como assim não tem arquivo .exe?). Mas eu havia gostado do que vi e das coisas que estava lendo sobre o assunto. De repente, eu descobri que havia um mundo de pessoas envolvidas em projetos os mais diversos mais que tinham em comum serem abertos, livres. Isso me fez pensar um monte de coisas sobre os processos criativos e tals. Mas isso não vem ao caso aqui.
Resumindo, usei o Kurumin por algum tempo, depois que reinstalei o Windows e fui aprendendo a usar o sistema, mas sem internet. Sempre achando que o problema de conexão era devido a algum problema da distribuição, fui atrás de outras opções. Numa banca perto de casa, em Nova Lima, encontrei uma Revista do Linux com o Ubuntu 5.04 (Hoary Hedgehog – alguma coisa como “o porco espinho cinzento”?). Achei estranho o nome Ubuntu. Mas interessante. A primeira coisa que me interessou foi o GNOME; o KDE era interessante, mas tudo o que era distinto ou alternativo ao Windows passou a me interessar, e as duas barrinhas e organização do GNOME logo ganharam minha simpatia.
Minha experiência no Linux foi finalmente plena com o 6.06, Dapper Drake. O problema da conexão com a internet foi resolvido com um duplo movimento: primeiro, usar o cabo ethernet ao invés do usb (eu nem sabia pra que servia aquele cabo estranho na caixa do modem). Segundo, chamar um técnico da Velox pra me dizer que o cabo ethernet estava quebrado, e substitui-lo por outro, apto.
Lembro de ter postado muita coisa no antigo blogue (lá no blogger). Fiquei feliz e satisfeito, me sentindo um verdadeiro geek. É impressionante o quanto o Ubuntu evoluiu, tornando-se uma distribuição madura e capaz de guiar o usuário jacu, como eu. Alguns amigos passaram a usar a distribuição recentemente, e vendo e comparando sua migração com a minha, as coisas estão realmente mais fáceis, seja no desktop seja no laptop. Passei de um para outro, e hoje rodo Ubuntu (UNR) num laptop HP mini. Funciona bem, mesmo quando há problemas. Contei alguns aí em baixo, em outros artigos.Vale tentar pensar o que não mudou na minha atitude como usuário e que precisam mudar. Primeiro, aprender shell e saber como é que o sistema funciona de fato. Claro, isso significa tempo, mas é um bom compromisso. Segundo, contribuir mais com os fóruns. Não nego que a maioria esmagadora das vezes que fui ao fórum foi para ir atrás de soluções para problemas que tive. Seria bom participar contribuindo. Tentei ajudar no Rosetta com a tradução da distro, mas nada demais. Mas acho que uma grande coisa está aí: são quatro anos usando GNU/Linux, três deles usando exclusivamente Ubuntu (sem usar Windows). De certa forma, é um feito, não meu, obviamente, mas do Ubuntu e da comunidade GNU/Linux. Parabéns.
Caravana
Caravan foi composta por Juan Tizol em ‘37. É um classico do jazz, e por causa das influências latinas trazidas por Tizol (trompetista portorriquenho) tem variações exóticas e é considerada a primeira composição de jazz latino (ou latin jazz). Achei interessante postar aqui por alguns motivos (além de ser boa música), entre eles, a curiosa semelhança em alguns momentos com Take Five (sobretudo no piano, Ellington, que executou a música pela primeira vez, e Tizol parecem ter sido uma influência grande para Dave Brubeck; e, veja bem, eu digo alguma semelhança e alguma influência) e pelos elementos que soam bastante semelhantes com a bossa (sem entrar no mérito do que é anteior a que – eu acho que a bossa é uma espécie de jazz carioca – mas é a opinião de um jacu). A versão acima é recente, mas eu gostei. Genial.




