CONTRA-SENSO

INCOLORES IDEIAS VERDES SONHAM FURIOSAMENTE

Babelfisher

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Francis Schaeffer (1912 – 1984) foi um dos mais importantes personagens do cenário cristão protestante no pós-guerra por ter labutado e conseguido (claro, não na mesma medida) reinserir o Cristianismo como um elemento de crítica e construção intelectual, político e artístico quando estava praticamente ausente do ambiente público como motor criativo e valorativo com significância. De modo geral, as escolhas para um jovem cristão nos EUA ou na Europa Ocidental era o tradicionalismo cristão obscurantista e sem fundamentação (fechado ao diálogo com seu tempo); as correntes teológicas cristãs liberais que tornavam a fé num símbolo vazio (“creia, mas saiba que é uma bobagem”); o Existencialismo ateu (em seu auge);   ou o Comunismo e alguma forma de militância de esquerda (que ainda era uma forma ideológica com teleologia, dando algum propósito).

A proposta “schaefferiana”, nesse contexto inóspito, era manter a antítese entre o Cristianismo e outros “-ismos”, mas em diálogo com eles; ou seja, o pensamento cristão precisava se sustentar na refrega demonstrando sua relevância como um sistema total de vida que fizesse sentido e desse respostas mais coerentes, amplas e de maior escopo que seus concorrentes. Trocando em miúdos, a ideia era retornar ao espírito combativo, filosófica e culturalmente instigante que marcou a passagem da fé cristã de uma seita oriental abstrusa para um construto de pretensões civilizacionais (ainda que esta não fosse a exata ideia dos Pais da Igreja até o século IV).

Num momento crítico como o seu, Schaeffer precisava apresentar a relevância cristã mesmo para a ala simpática e interessada de sua audiência – a maior parte dela bem convencida pelo discurso neo-ortodoxo de afastamento do debate, adequado ao feitio liberal. Não por acaso, Schaeffer desenvolveu uma apologética ilustrada, que apontasse a não contradição necessária entre fé e razão, por um lado, e a demonstração da existência de crenças que exigiam o assentimento de vontade mesmo nos sistemas filosóficos mais apegados à noção de “fato”, “justificação racional” ou “dados empíricos”.

O grande mérito da obra de Schaeffer, contudo, estava baseada na oposição de ideias quando havia propostas, sistemas que queriam tanto descrever a realidade, quanto oferecer um programa de ação em que não apenas o indivíduo encontrasse lugar e propósito, mas também a coletividade encontrasse consumação de desígnio. Contudo, enquanto recebia jovens em seu chalé na Suíça, os pós-estruturalistas, pós-modernos e pós-soviéticos esmigalhavam todas as oposições tornando cada uma e todas elas em discursos opressores, instrumentos de violência. Como a Modernidade não conseguiu cumprir o que prometera, a Verdade e a Justiça, seus herdeiros (de seu método, para ser mas preciso, a revolução) entenderam que era melhor arrasar o terreno – destruir todas as vias e construções, mergulhar tudo na rasa camada de incerteza, distração e negrume. Como no V Círculo do Inferno, todos devem ficar mergulhados, cabeças submersas – e os que põem a cabeça para fora, são agarrados e destroçados pelos vigilantes demoníacos sempre bem dispostos a cumprir sua função. Sim, é esta a punição devida aos “violentos” que ousam “totalizações” ou “sistemas-mundo”.

Não por acaso, Schaeffer seja visto hoje, por alguns, com um quê quixotesco, ultrapassado, démodé. Concordo que tem alguma coisa moderna demais no conceito de “verdade” schaefferiano, contudo, foi cunhado no momento em que seus oponentes não-cristãos também eram otimistas quanto à existência e apreensão de uma. O maior problema a ser enfrentado não é  mais a tentação da síntese, da fusão do Cristianismo com elementos nuclearmente contrários e irreconciliáveis consigo, como querem os liberais; mas o ideal de tolerância, de convivência passiva (travestida de pacifismo e cordialidade). Não havendo mais a desmedida da pretensão à verdade, a síntese não é necessária – antes é um ataque à diversidade; o que se deve perseguir é a pluralidade de significados atribuídos.

A tal tolerância é uma espécie de atitude blasé, está baseada na indiferença – “não me importa; viva e deixe viver, morra e deixe morrer, morra ou deixe viver, viva e deixe morrer…”. Nesse Ágora reina um barulho infernal, a polissemia, a Babel mais trágica que a primeira: os homens tornam a ela para confundirem-se voluntariamente. Se nada refere-se a coisa nenhuma em última instância, e como ninguém ou nada pode referenciar os significados… fingem entender e fingem contemplar. A moda é demonstrar como alguma coisa, um discurso, se contradiz lindamente, como a fala se desfaz, como o sentido desmaia frente à lupa desconstrucionista.

Restam somente, e portanto, somente as coisas mais absolutamente imediatas – afinal, esse negócio de dissimular cansa -, os instintos (esses sim, continuam bastante universais) e as simplificações: na música, na literatura, nas belas artes, no cinema, na política, na religião… É o pior dos mundos possíveis para Schaeffer. Por quê? Porque é o universo da razão morta. A fé bíblica, judiaco-cristã, é afeita ao debate, à voz, ao logos. Não é por acaso que tenha encontrado no seu nascedouro (e como parteira) a filosofia grega, que a forçou vozear-se, transformar em conceito o que aprendeu na vivência da história da revelação. A religião hebraica afastou-se de Babel e aproximou-se de Atenas ou de Alexandria não por acaso – encontrou o lampejo de afeição pela ordem, pela verdade, pelo bom, pelo belo. Pelo Uno.

Mas agora… agora há somente esse atoleiro. E como nos livrar dele? Como diz Adélia Prado, “não respondo pergunta difícil, rapaz”. Mas imagino alguma coisa. Deus tinha um propósito nas Leis, um desígnio para a Torá – vivida por Israel tal como deveria ser, a nação tornar-se-ia numa “vitrine”: Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente.

O segredo torna para a prática, vivência. Comunidade. A maior marca de Schaeffer, seu maior legado para nosso tempo, é a subversão da prática comunitária. Ainda vivo, acho, entendeu que seu sistema apologético funcionava nem tanto pela força argumentativa e demonstrativa. Mas pelo contexto em que era ouvido: sua casa, onde as palavras tinham o aporte da coerência. O problema é que se há alguma coisa largamente disseminada e praticada em nossos dias é a distância entre palavra e ação. Isso porque as ações são hipócritas? Curiosamente, não.

Ao contrário de tempos atrás, quando mantinham-se discursos, muitos e grandiosos, de virtudes e propósitos que eram desencontrados com a prática, hoje, temos o fim dos discursos prescritivos, éticos ou mesmo morais, que são contraditos na práticas da pessoas: quem diz não haver sentido, justiça, verdade, beleza, amor não percebe, mas ainda se casa, tem filhos, vota, cumpre leis, estabelece relações baseadas em expectativas de cumprimento de um contrato social, pinta quadros, vai a museus… e na ação, como já dizia Maurice Blondel, que o sentido está encrustado e não pode ser negado.

O que as pessoas precisam, é perceber esse detalhe.

Há muita coisa em português de e sobre Francis Schaeffer – é só perguntar ao Oráculo; e no Brasil há uma “casa” herdeira de seu legado (faça uma visita).

Escrito por André Tavares

03/12/2009 em 18:47

Tristezas de Trópico

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Se o Estado que oprime os fracos é abominável; o que usa os fracos é temível.

Num artigo anterior, motivado pela questão da consciência negra, tangenciei o problema da particularidade do caso brasileiro, e como gerações de intelectuais, cientistas e homens cultos se debruçaram sobre o problema da nossa identidade, do que nos constituía, e como as respostas foram múltiplas diante de um mesmo dado de sermos uma nação de mistura. Mistura degenerativa, segundo alguns, o que explicaria nosso atraso, nossa flexibilidade moral, nossa disposição para a preguiça e lassidão; para outros, mistura era o signo do encontro, da cordialidade, do experimento, da tolerância, da aurora de uma nova civilização (que Freyre chamava de “dos Trópicos”).

Mas a natureza dos dados e as leituras interpretativas não foram satisfatórias para o maior interessado em conhecer a respostas, o Estado Novo de Getúlio que precisava de uma ideologia para a constituição de uma nova unidade nacional inspirada num modelo fascista. Mistura não era interessante, nem como experimento na contra-mão do espírito daquele tempo, nem como constatação de que não passávamos de uma multidão de aleijados pela diluição das raças.

Ficamos, pois, sem uma resposta sobre o que somos, até hoje. Mas, de certo modo, a versão culturalista, de Freyre e Ramos, prevaleceu no imaginário e nas representações: o mito da mistura das raças, da democracia racial, do “país do futuro” foi muito útil para o Brasil do pós-guerra, para os populistas, para os militares, para os últimos 20 anos de hegemonia esquerdista. Antes que alguém me acuse de contradição, explico-me. A contradição é justamente esta: se na instância política vivemos a era das ações afirmativas, da denúncia de uma tal espoliação dos negros e índios por brancos, de penas compensatórias para crimes históricos e desmantelamento da ideologia da integração brasileira; por outro lado temos a propaganda, discurso e reprodução da própria ideia de mestiçagem que estaria na base da nossa riqueza cultural. Não por acaso, o slogan publicitário do Governo Federal é “Brasil, um país de todos” estampado em multicor.

O mito da democracia racial continua de pé. Dessa vez o “dado ideológico” é o mesmo, mas a questão resume-se na disputa de quem o porá ou pôs em prática. O petismo lulista, como sempre, estabelece-se como um ponto de ruptura, de inauguração de tudo o que não foi feito ou posto em prática anteriormente (como ressalta Reinaldo Azevedo, o bordão de Lula é “nunca antes na história desse país…“), e a democracia racial surge como o resultado da ação estatal para promoção da acensão do estrato negro à plena cidadania. Se antes o país e o Estado eram fruto de uma fusão causalmente anterior, agora a fusão é desmistificada como uma ideologia conservadora, e o Estado (no sentido esquerdista) é quem propiciará a equalização das diferenças, dando cabo à tensão (já que as raças decalcam as classes ou vice-versa): é o próprio vislumbre do fim da história.

Se a pressa getulista valeu-se da mestiçagem como dado a priori da integração, escondendo e suprimindo suas contradições e injustiças, a pressa lulista quer integrar sua solução com a maior velocidade possível para apresentar dados de que concluiu o projeto de inclusão. Se há meio século atrás a propaganda era a produção de imagens, de “tipos”, de ficções que transformavam o país numa passarela carnavalizada e a mestiçagem num apelo afetivo (ou sexual), hoje propaganda são os números, os gráficos, as estatísticas de quantos, quando e como alcançam o diploma superior, os postos de emprego, as vagas em elencos e em painéis de publicidade. Não interessa, nem lá nem cá, se há consistência nas alegações do projeto.

Não adianta fazer uma corrida em que todos ganham, nem calçar com concretos os melhores corredores: a igualdade não está na linha de chegada, mas nas condições iniciais. Enfiar jovens sem instrução básica, sem cultivo nem recursos no ensino superior e dizer com isso ter alcançado metas de integração inéditas é tão ou mais criminoso que convencê-los e aos outros de que não são discriminados. Tão criminoso quanto prometer que na passagem de “escravo” para “operário” se daria a abolição, é dizer que o diploma assegurará respeito e dignidade. Se no Brasil, de fato, houver discriminação racial da forma como postulam certas pessoas, negros portando diplomas não serão melhor tratados ou menos discriminados. Se o racismo no Brasil não é uma questão de base econômica, mas a questão econômica e social são seus reflexos, não terminará com a ascensão sócio-econômica dos “afro-descendentes”. Se, contudo, terminar ou diminuir, não é racismo, mas preconceito social – e os tantos “não-negros” miseráveis e pobres não incluídos nos programas comporão uma nova minoria discriminada.

Programas de renda mínima, cotas e coisas semelhantes não resolverão com seriedade qualquer dos problemas aos quais se pretende sanar. Quisesse o atual governo entrar para história, implementasse uma reforma no ensino fundamental e médio – em oito anos já teríamos uma turma de formandos saindo dos colégios públicos para grandes universidades, à qual se sucederiam outras tantas. Quisessem resolver o problema, seguissem o passos da Coreia do Sul, investindo maciçamente nos fundamentos, progredindo em metas até o ensino superior, considerando o tempo necessário para uma tal transformação. Mas aqui, não. Temos pressa. Pressa de dominar a máquina, pressa de estabelecer os domínios, pressa pra dizer que aqui as coisas serão diferentes.

Aliás, quiséssemos resolver o problema, deixaríamos de lado a tara pelo diploma, a ilusão da solução hegeliana dos conflitos pelo Estado, da educação escolar como panaceia. Quiséssemos resolver o problema, faríamos como disse Abraham Joshua Heschel, passaríamos das “generalizações da raça para a singularidade da face humana”. A questão racial no Brasil e seu atual tratamento não passa de outro uso político da mesma demanda, de outra manobra legitimadora de um projeto político, de outra infidelidade. Eu retiraria todas as minhas esperanças daqui, porque se o ódio é racial, o mercado não o vai derrotar: pode erradicá-lo como faz com tudo o mais ao custo da desumanização. A cultura como mera instrução num programa compulsório de ensino não dará cabo dele, na medida em que, no máximo, trocará as elites e reproduzirá uma inversão do mesmo pecado.

É que somos o país dos papéis, das múltiplas vias autenticadas, dos carimbos, dos mandos e desmandos, do palavrório, da oração pública que fingindo piedade narra os próprios méritos diante da audiência. Somo o país do serviço público de grau superior: altos salários, seguridade e segurança, pouco trabalho, direitos adquiridos e nenhum serviço, nenhuma inovação, nenhum compromisso, nenhum calo, nenhuma noção de responsabilidade com o bem público. A mudança demora, séculos, às vezes. Mas aqui, não. Andy Warhol ficaria tonto  se visse como aqui se pratica o ready-made.

Mas este é o tipo de artigo que se escreve para ser atacado. Mas não é o que eu quero. Sou brasileiro: acho que sou misturado o suficiente para entrar nessa categoria. Mãe “branca”, descendente de portugueses e espanhóis (de “pureza” absolutamente duvidosa), pai nordestino filho de mãe judia e pai caboclo. Sou minimamente informado, sei um tantinho de coisas que fazem ciente do legado escravagista do país como uma mancha de vergonha; e sou cristão, o que pede que me identifique e opte pelos desgraçados no mundo. E toda essa condição me faz ter ódio ao que se faz nesse país, o ludibriamento pela falsa justiça, pela equidade falaciosa.

De agora em diante, os méritos já não são pelo que se faz, mas por alguma coisa que se é; não se constitui as bases de constituição e autonomia, mas proclama-se, declara-se, constitui-se praticamente, da mesma forma que Isabel. Vestir aqueles mesmos sofismas às avessas só tornam o ridículo ainda maior. Mas, quem sabe, seja apenas isso mesmo… desnudar-se implicaria em encarar feiuras intoleráveis.

Escrito por André Tavares

30/11/2009 em 11:47

Batendo na meretriz*

com um comentário

Resolvi publicar aqui um comentário sobre o texto Uma boa velhinha, de Léo Cruz Souza, indicado por André Egg por ocasião de nosso debate suscitado pelo artigo sobre o dia da consciência negra. Como isso aqui depende daquilo lá, é bom ler o artigo antes, obviamente. Eu não conheço o Léo, e digo a ele que o espaço está aberto aqui para o debate – e explico que não comentei diretamente em seu blogue porque seria muito extenso: se há muito a ser dito, melhor escrever uma resposta.

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Se compreendi bem, o problema levantado é que o Nazismo foi um movimento, se não ambiguamente cristão, cristão de todo, apoiado por cristãos, e pelas instituições cristãs, sobremodo a Igreja Católica. Assim, o Nazismo tem menos a ver com o materialismo, ateísmo ou evolucionismo do que alguns (ou muitos) dizem, e tem profundas raízes no Cristianismo.

Os argumentos de Léo Cruz Souza baseiam-se na filiação cristã dos principais membros do partido nazista, no não rompimento formal do partido com as igrejas cristãs (católica ou protestante), no uso de termos e referências cristãs por Hitler e elementos do partido e a ausência de resistência sistemática dos cristãos: a Igreja fez alianças com os nazistas, que não foram sequer excomungados; boa parte dos membros das SS eram católicos praticantes, e o ambiente cultural e religioso alemão era cristão.

A explicação capaz de dar coerência a esses fatos, para Léo, é que o Nazismo é cristão, ou que o Cristianismo não veria incoerência em ser nazista, já que o antissemitismo é uma invenção cristã, não só Católica, mas principalmente protestante na Alemanha pela larga influência de Lutero. A tese do Nazismo como doutrina derivada do darwinismo estaria descartada ou diminuída.

O artigo de Léo Cruz Souza é, para mim, equivocado. Primeiro, a Igreja e a hierarquia não foram passivas em relação ao Nazismo, e isso está patente nas excomunhões. Sim, Léo diz que a Igreja excomungou somente Goebbels, e somente por haver se casado perante um pastor protestante (com uma protestante divorciada). No entanto, Goebbels não foi excomungado, mas se excomungou. Explico: a excomunhão na Igreja Católica pode se dar por pronunciamento, quando um membro da Igreja comete uma falta ou tem um comportamento suspeito e o caso é submetido a um tribunal eclesiástico. Mas quando o membro da Igreja comete um ato sabidamente contrário aos dogmas, que implica em excomunhão, não há julgamento, a excomunhão é automática, ou ipso facto (no ato do delito), também chamada latae sententiae.

Ora, se Goebbels se excomungou (e Léo sabe disso), Hitler e os nazistas católicos estavam excomungados no ato de seus delitos… e só poderiam retornar à comunhão com a Igreja mediante suspensão da sentença pelo próprio Papa. Veja bem: a questão não é nunca ter havido um pronunciamento de excomunhão por parte da Igreja, mas de nunca ter havido uma revogação da excomunhão. É que esperamos que a excomunhão seja uma espécie de apoteose, evento ou coisa assim – como se fosse usado como arma política, sendo na verdade uma questão eclesiástica. Houve sim a excomunhão de todo criminoso nazista na Alemanha.

Mas isso pode ser pouco para alguns. Contudo, depois das eleições de 30, quando os nazistas conseguiram grande quantidade de votos, o arcebispo de Mainz excomungou todos os membros do partido e proibiu a entrada de grupos uniformizados nas igrejas, seguido da afirmação no Osservatore Romano: “pertencer ao Partido Nacional-Socialista de Hitler é irreconciliável com a consciência católica”. Na conferência anual seguinte de bispos, adotou-se a ação do bispo de Mainz como padrão, salvaguardando a distinção entre os “membros” e “seguidores” (eleitores) do Partido Nazi, o que foi feito igualmente em relação aos partidos comunistas-ateístas nos anos 20 – ou seja, ninguém seria excomungado por votar no partido Nazi, como não foi por votar no PC. Contudo, as paróquias deveriam alertar os católicos a respeito da antítese entre Nazismo e Cristianismo, como se vê no conteúdo da Carta Pastoral: “Eles (Nazistas) colocam raça antes de religião; rejeitam o Antigo Testamento, incluindo os Dez Mandamentos; negam a autoridade do Papa por estar fora da Alemanha; planejam uma igreja nacional; colocam os «sentimentos morais da raça alemã» como o critério para toda a moralidade” (conferir o texto de Barton, citado ao final desse artigo).

No campo político, a Igreja era representada pelo Partido de Centro, parte do “Catolicismo Político”, que fazia oposição depois da ascensão de von Pappen (que foi expulso do Partido de Centro), quando a descrença nos valores democráticos fez com que os alemães confiassem seu destino ao regime forte ditatorial e de extrema direita. A maior parte dos eleitores cristãos do Partido Nazista estava mais atraída pela promessa de solução da grave crise e pela desconfiança causada pelo desastre da República de Weimar do que exatamente pela ideologia antissemita. Claro, caíram numa armadilha que contou com o despertamento dos sentimentos há muito geridos na alma germânica, entre eles, a abertura e disposição em relação a regimes “fortes” ou ditatoriais.

Os clérigos que demonstravam simpatia em relação ao regime foram isolados, e permaneceram assim até que o golpe derradeiro fosse dado em 33, quando passaram a gozar do apoio do Reich. A ênfase nesses indivíduos não faz justiça à história de centenas de padres e religiosos que arriscaram e perderam suas vidas em alguma forma de resistência – tal como a existência dos kapos nos campos de concentração e extermínio não implica em vilania para os outros judeus prisioneiros. Não se sabe ao certo, mas por volta de 800.000 judeus foram salvos por católicos, muitos deles escondidos em conventos, monastérios e dependências paroquiais. A Rádio Vaticano foi a primeira a transmitir internacionalmente a denúncia de massacre de judeus e católicos na Polônia ocupada, enquanto os Aliados permaneciam em silêncio.

Há outro engano grave na argumentação de Léo: o Reichskonkordat não foi uma aliança. A Santa Sé não assina tratados como acontece normalmente entre dois Estados, daí o uso dos “acordos” ao longo da história. Sua motivação é basicamente uma: na ausência de garantias de direitos e/ou seguridade para a Igreja num determinado Estado, ela procura assegurá-los por meio de uma Concordata. Com a separação entre Igreja e Estado e a secularização, o número de acordos desse tipo cresceu – e no caso da Alemanha, a luta de Bismarck contra a Igreja Católica (a Kulturkampf) havia impedido a assinatura de um entre a Santa Sé e a Alemanha, visto que Bismarck queria desmantelar o poder e influência católica na unificação . Havia apenas concordatas com localidades e regiões. Nos momentos críticos da década de 30 a Igreja tentou assegurar a liberdade dos clérigos, a coleta de contribuições, a liberdade da prática religiosa católica e a proteção da autonomia da Igreja (ou seja, de seus bispos). Isso era necessário porque era sabido que: (i) Hitler e o partido Nazi tinham planos de nacionalização da Igreja Católica, (ii) extirpou todos os partidos da base democrática em março de 33, (iii) os elementos pagãos da ideologia nazista não só não davam mostras de enfraquecimento, mas se avultavam, (iv) era preciso estabelecer uma base para alguma resistência.

O Reichskonkordat era tecnicamente um tratado, e colocava a questão da ingerência do Estado Nazista sobre os bispos e a Igreja Católica inconvenientemente no âmbito ou com implicações nas relações internacionais e diplomáticas – visto que o Vaticano também é um Estado e que a comunidade católica tem forte solidariedade. As igrejas protestantes alemãs não possuíam este recurso – eram alemãs – seus acordos eram entre alemães e o Estado Alemão, fugir do domínio sem ser dissolvido era impossível. Outro ponto que tornava os protestantes mais vulneráveis era a fraca hierarquia e a falta de unidade doutrinária: se um bispo não pode tomar parte ou decisões unilateralmente e desconsiderando a posição papal, as denominações protestantes não só são fruto de cisões, como estabelecem certa autonomia.

O custo da Corcordata para a Igreja foi a extinção do Partido de Centro, ou seja, Hitler punha fim ao incômodo da ação do Catolicismo Político, coisa ansiada desde Bismarck. E aqui eu teria algumas perguntas: Chamberlain e Daladier acordaram com Hitler, isso faz deles nazistas? Stalin e a URSS assinaram um tratado de vilania ainda maior com Hitler; isso faria dele um nazista, ou simpatizante do Nazismo? Obviamente, não. Pois então, o raciocínio tampouco é aplicável à Igreja.

O fato de Hitler ter usado frases que aludiam a supostos “serviços a Deus”, o fato de nunca ter rompido verbalmente com o Cristianismo não são prova, absolutamente, de que era ou continuava cristão. Levantar isso até como “evidência” ultrapassa qualquer bom-senso. Além do que, do momento em que Hitler e o Partido Nazista endeusavam a raça, o povo alemão, a nação alemã e doutrinavam uma espécie de religião racista, já está mais do que caracterizada a completa discordância com o Cristianismo. Relativizar e dizer que Hitler era cristão é tão cínico quanto a prática cristã de Hitler. O fato de serem culturalmente cristãos, terem surgido numa cultura cristã, não faz dos nazistas cristãos; antes, faz com que seus crimes e comportamento sejam julgados de acordo com o métron da ética e justiça cristãs.

A partir de 1935 a hostilidade nazista contra as igrejas, e particularmente a Igreja Católica, revelou a contradição e antítese. Primeiro, a religião cristã passou a ser atacada por ser herdeira e fundamentada no Antigo Testamento, ou seja, era semita em alguma medida. A resposta da Igreja foi a encíclica Mit brennender Sorge (1937) que enfatizou drasticamente a inversão entre Nazismo e Cristianismo, e condenando qualquer doutrina racista como contrária à fé cristã no seguinte Sílabo contra o Racismo (de 1938).

Sobretudo, dizer que Nazismo nunca fora “materialista” como o Comunismo (convenientemente trocado por “stalinismo”) é desconhecer o âmago da doutrina nazi: a raça, a determinação e escatologia biológicas. No Comunismo, ao menos, há a “abertura” à ação humana como agentes na história. O Nazismo é muito mais materialista, por sua base naturalista, que o comunismo. E o naturalismo nazista é, indubitavelmente, uma cria do romantismo épico germânico (de Wagner) e o evolucionismo. Não é fortuito que o nazismo procurou uma justificativa científica para a superioridade da raça ariana, e também não é sem motivo que tenha procurado as fontes pagãs teutônicas e germânicas. O Nazismo é, de cabo a rabo, resultado de tudo o que é exatamente anti-cristão: raça, escatologias e teleologia secularizadas modernas, paganismo.

Eu não faço com isso uma defesa irrestrita da Igreja Católica ou do Cristianismo na Alemanha, mas igualar ou aproximar, como Léo Cruz Souza faz, Cristianismo e Nazismo nessas bases é, no mínimo, criminoso. Usando uma citação de Lutero, tirado de “Dos judeus e suas mentiras”, que demonstra corretamente a raiz profunda do antissemitismo no Cristianismo, crê haver desmentido a tese (não só de Olavo de Carvalho) que associa darwinismo e nazismo… Mas até na questão do antissemitismo há que se fazer distinções. Hitler estava certo: pode fazer o que fez por causa da base antissemita e anti-judaica que o Cristianismo construiu ao longo de mil e quinhentos anos. Mas a natureza do antissemitismo nazista é distinto: o ódio ao judeu é racial, é ontológico. O antissemitismo cristão é derivado das querelas teológicas e religiosas, é herdeiro do anti-judaísmo cristão desenvolvido desde os Pais da Igreja. O antissemitismo cristão nunca propôs, de fato, uma solução de extermínio nos moldes nazistas. Mesmo o pior capítulo do antissemitismo cristão, a Inquisição Espanhola, possuía uma via de assimilação (ainda que mínima).

O conflito social e cultural do Cristianismo com o Judaísmo produziu injustiças, muitas injustiças. Mas seu núcleo era a necessidade cristã de ver a maior prova de sucesso possível acontecer: os irmãos mais velhos aceitarem o Evangelho. Novamente, eu não estou justificando nada do que foi feito com os judeus pelos cristãos, nem as doutrinas cristãs antijudaicas. Somente enfatizo que a necessidade cristã é o universalismo – enquanto o Nazismo é a diferença (a preservação da raça pura). O Cristianismo queria englobar (ou incluir), o Nazismo queria destruir o que via como ameaça fundamental, a anti-raça judaica. Na religião racial Nazista, o demônio, o zênite é o judeu, não como cultura, religião ou “casta”, mas como raça – da mesma maneira que não se converte ratos em outra coisa, mas somente os extermina para cessar a praga, os judeus deveriam ser extirpados. De maneira ou outra, os judeus viveram nas sociedades cristãs por quase dois milênios – e quando as perseguições se tornavam insuportáveis ou decretava-se expulsões, era em Roma, sob o governo papal, que muitos encontravam abrigo e segurança, visto que desde Gregório, o Grande, perseguir os judeus é proibido pela Igreja.

Ora, não será isso suficiente para discernir diferença brutal entre Cristianismo e Nazismo mesmo no campo da torpeza antissemita?

Sobre a resistência cristã, não foi assim tão pequena como é dito. Adjetivos como “covarde”, “colaborador”, “impassível” são fáceis de emendar aos cristãos pos facto. Mas, os partizans, mesmo os comunistas, não eram também cristãos, filhos de cristãos, criados num ambiente cristão? Israel tem não poucas árvores plantadas em memória aos “justos entre as nações” que resistiram escondendo ou ajudando vítimas a fugirem e sobreviverem. É a forma como se pode resistir contra e dentro da máquina nazista. Quem lutou em exércitos não eram, da mesma forma, “culturalmente cristãos”? O silêncio e covardia cristãos não foram tão grandes assim – afinal o Nazismo foi derrotado… inclusive por nações cristãs.

E mesmo nos pecados, curioso, somos iguais; muitos que podiam ter feito algo, não fizeram, não só clérigos: os russos deixaram de fazer frente no front oriental, o que deixou a Polônia como área perfeita pra o extermínio; os ingleses, franceses, americanos que contra-atacavam sabiam dos campos, dos embarques, dos trens que nunca tiveram as linhas bombardeadas, os fornos danificados, as plataformas arruinadas… mesmo com caças e bombardeiros sobrevoado-os. Tampouco a comunidade judaica norte-americana, distante geograficamente, rica e com poder fez o que pode, antes guardou silêncio temendo represálias internas (vide Elie Wiesel, A Jew Today). Se a Igreja não fez tudo o que podia, se aceitarmos essa premissa, muitos Estados, muitos grupos, não fizeram – seja por medo, seja por impossibilidade. A explicação, logicamente, não pode estar simplesmente no fato de ser cristão.

Os cristãos ficaram em silêncio porque o Cristianismo já não tinha ou era uma força política e cultural considerável e relevante. A secularização e o liberalismo na Alemanha e na França esterilizaram o ambiente público da influência cristã/religiosa e os teólogos liberais trataram de reconduzir a religião para seu novo campo, a interioridade privada. Do ponto de vista ortodoxo, já não era Cristianismo… ou era aleijado.

As igrejas cristãs erraram, as culturas cristãs falharam. É verdade, o Nazismo construiu as ferrovias para Auschwitz inclusive com ideias cristãs. E a Cristandade teá que lidar com isso, e pensar em como aconteceu e como não acontecer novamente. A Igreja poderia ter sido enfática e contra a perseguição aos judeus, e não foi. No melhor texto atual que conheço sobre o assunto, Rhonheimer deixa claro como a recusa da Igreja em denunciar abertamente o antissemitismo nazista, por temer confrontar o seu próprio, custou caro. Entretanto, por mais que alguns dos subsídios para o Nazismo tenham sido acumulado pelas doutrinas e práticas cristãs, isso não faz com que o Cristianismo possa ser reduzido ou aproximado em cumplicidade ao projeto Nazi. Mas, repito, a demora em agir, a impassividade clama pela atribuição de responsabilidade, e, com certeza, o Cristianismo tem seu quinhão. Tanto quanto todos os envolvidos na história.

Por último, diria que há elementos suficientes para uma crítica ao Cristianismo em vários fatos e contextos. Contudo, reduzir o Cristianismo ao zeitgeist para enfraquecê-lo e tornar mais fácil o embate é, a meu ver, uma grave falta intelectual. O contexto cristão na Alemanha e na Europa é um dado, e isso tem consequências – mas o conceito Cristianismo não se esgota aí. O Cristianismo estava do lado oposto quando oprimido pelo Império Romano, pelo Império Soviético, pelo próprio Reich; a Igreja Católica estava, no Brasil contemporâneo, pela CNBB, dando suporte à Caravana da Cidadania (que era logisticamente amparada pelas Comunidades Eclesiásticas de Base); bispos católicos, pastores protestantes e rabinos liberais foram presença decisiva na implementação e inclusão dos Direitos Humanos na constituição da ordem mundial pós-guerra. Esses contextos não são Cristianismo, não o esgotam, mas junto com toda a história demonstram a sua força, amplitude e valor, e as ambiguidades e riscos a que está sujeito.

O Cristianismo europeu do século XX, sobretudo da primeira metade, é o que sobrou do esvaziamento que sofreu desde o século XVII… quando as desgraças decorrentes aconteceram, quer-se cobrar o preço em sua conta? Ou melhor, quer-se imputar-lhe a responsabilidade integral como agente operante?

Sobre o uso do Holocausto para a justificativa de ataques ao Cristianismo e à Igreja, recomendo o texto do Rabino Dalin. Recomendo também a leitura do livro do Pe. Edward Flannery (A Angústia dos Judeus: história do anti-semitismo. São Paulo: Ibrasa). O texto do Pe. Martin Rhonheimer é importante, porque pretende justamente expor os erros da Igreja no período pré-guerra. Muito elucidativo é o artigo de Dennis Barton (Hitler’s rise to power) sobre o papel e atitude da Igreja Católica e católicos nos anos 30 na Alemanha.

* Nota: O título refere-se ao dito «Ecclesia casta et meretrix» (Igreja virgem e meretriz), que resume a situação, não só da Igreja Católica, mas do Cristianismo, de cometer erros mil, mas acertos também. Seus pecados não podem obliterar completa e derradeiramente seus méritos – atacando a meretriz, fere-se também a virtuosa.

Notas sobre a democracia brasileira

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Por que precisamos de uma direita?

Em pronunciamento recente, Lula manifestou sua satisfação (ou felicidade?) com o fato de que as próximas eleições seriam concorridas somente por candidatos “de esquerda”. A afirmação do presidente é sintomática, e é um indício de que a agenda “gramsciana” encontra-se adiantada na medida em que torna-se patente que para a opinião pública a moralidade política e democrática situa-se, na geografia das ideias, à esquerda do espectro ideológico. Para o “homem de rua” o comprometimento ético confunde-se com a doutrina esquerdista. Sem “uma gota de sangue” os valores socialistas ganham plausibilidade não somente nas estruturas sociais, conduzindo as políticas públicas e o planejamento, mas também, e mais importante, na mente, na subjetividade das pessoas.

Ao contrário do bolchevismo, que pretendia primeiramente o controle das instituições sociais e dos meios de produção para depois promover as mudanças estruturais, a “nova esquerda” pós-Segunda Guerra percebeu no embate cultural e político o verdadeiro campo de disputa. A conquista de corações e mentes é a via mais segura para um propósito tão amplo; e a Revolução Russa já havia dado duas lições importantes para a esquerda: (i) o determinismo marxista havia sido desmentido por um bando de camponeses semi-medievais liderados por cossacos semi-letrados, e (ii) o sangue que uma revolução derrama cobra um preço alto demais em termos de opinião pública em outros países, o que dificulta a duplicação do mecanismo.

Em lugar da rudeza e frenesi da sublevação e da frieza cínica de um regime totalitário, que precisa criar um aparato para controle, censura e supressão das dissidências difícil de gerir e sustentar por muito tempo, é preciso a geração de uma situação social a que as pessoas queiram se submeter e, consequentemente, manter. Um sistema que mantenha coisas como gulags precisa gerar um nível de alienação e terror nas massas muito maior do que qualquer sociedade burguesa (por isso Arendt está muito certa quando localiza nazismo e comunismo no mesmo âmbito), e basta que um número mínimo de indivíduos e grupos sejam jogados para situações limite para que a plausibilidade que sustenta o contexto se desfaça.

Sociedades industriais e pós-industriais não se submeteriam facilmente ao batismo de fogo revolucionário nem a um regime totalitário nos moldes stalinistas, visto que sua complexidade oferece vias de desalienação e disseminação de informação virtualmente impossíveis de controlar (veja que a China precisa manter um exército de trabalhadores simplórios em indústrias modernas e controlar firmemente a circulação de informação não oficial, criando uma monstruosidade composta de controle tradicional na superestrutura e controle hipertécnico na infraestrutura). Noutro artigo já comentei que desde o domínio da bomba, o destino da estrutura soviética estava decidido, o marxismo voltou-se para a kulturkampf, e a teoria revolucionária cedia lugar ao “marxismo democrático”. Pode ser uma relação absolutamente espúria, mas foi o que o partido nazista fez na Alemanha – depois de um golpe fracassado, Hitler investiu na militância partidária, na propaganda e no engajamento de certos segmentos corporativos e profissionais estratégicos (como os médicos, como sugere “Arquitetura da Destruição”), e conseguiu o poder pelas urnas.

A Teoria da Hegemonia desenvolvida por Gramsci é uma estratégia bastante simples e largamente adequada para este cenário, e audaciosa por questionar o modelo determinista e escatológico do marxismo clássico (na verdade, parece-me que Gramsci inverteu Marx: transformar pela mudança de valores e não pela posse coletiva dos meios de produção é marxianamente um contra-senso). A base da ação encontra-se, portanto, na educação e na persuasão, no inculcamento dos “valores de esquerda”, na transformação da mentalidade, auferindo uma nova cosmovisão e mudando as bases da cultura. Segundo Finocchiaro, a primeira providência é produzir uma clivagem, uma oposição que ao invés de produzir simplesmente um conflito, promova a dominação de um dos lados por outro com a permissão ou concordância do primeiro. Para tanto é preciso “eliminar” os elementos (intelectuais, sobretudo) “não-engajados”, ou ostracizando-os ou rotulando-os (casos paradigmáticos no Brasil: Gilberto Freyre, Bruno Tolentino, Nelson Rodrigues, Gustavo Corção) atribuindo-lhes pertença à posição “conservadora” (no sentido mais negativo que o termo possa assumir) – todo ator deve ser reconhecido como um agente partidário de uma “classe”.

A educação ganha a maior relevância nesse cenário. No caso brasileiro, a esquerda vive a dizer horrores da ditadura (e isso não é uma justificação para o regime militar), e esfumaça o fato de que a universidade ficou praticamente intocada pelos milicos, e lá o pensamento marxista-esquerdista prosperou e informou a intelectualidade, formadores de opinião, professores, políticos e a cabeça da classe média brasileira. De certa maneira, o golpe terminou por prestar um serviço à esquerda no Brasil ao impedir a ação dos marxistas daquele tipo mais obtuso, numa espécie de “seleção” que beneficiou os “revisionistas” (colocando-os em contato, até, com o que havia de mais “avançado” em termos de teoria marxista lá fora ao exilá-los, coisa que dificilmente teriam ficando por aqui, ou só teriam décadas depois devido ao atraso nacional em relação à produção intelectual externa).

Outra provisão dos militares foi o término do ensino clássico, substituído pelo cientificismo positivista. Desprovido de tudo o que era interessante e formador na cultura, as escolas incumbidas da tarefa da “educação universal” promovida pelo Estado deram seguimento ao emburrecimento e estupidificação enlatadas, em massa. Na esteira apareceram os “construtivistas” e “piagetianos” que associados ao discurso de saberes “do oprimido” celebravam o embrutecimento. A educação foi tornada em “ferramenta política” – não quero julgar aqui as intenções de Paulo Freire em sua “pedagogia do oprimido”,  mas segundo ele mesmo, “a alfabetização (…) associada sobretudo a certa práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica” (FREIRE, A Importância do Ato de Ler).

Freire, o ídolo de 11 em cada 10 pedagogos, segundo críticos, não passa de uma mistura indisfarçável de Makarenko e Gramsci (a menos, é claro, para os pedagogos que não dão notícias de nem um, nem outro). E os educandos do projeto brasileiro são gente em preparação para o tal “exercício de questionamento e reflexão sobre sua condição”, claro, de acordo com as premissas da teoria da hegemonia. Esse exercício, em larga medida, constitui-se meramente no questionamento da noção de autoridade: do professor, dos pais, dos agentes do Estado, dos mais velhos… é a formação de um exército em estado permanente de desordem mental, nada sabendo de fato, sofrendo somente de uma raiva e irritação constantes.

Não por acaso, o MEC anda à polvorosa tentando assassinar no berço a ideia de educação doméstica (o homeschooling) e grita a plenos pulmões o monopólio estatal da educação compulsória – a família e a comunidade são ambientes perigosos por portarem valores “tradicionais” até que uma certa engenharia social os transforme em ferramentas de situação social oposta. De um lado o sucateamento do ensino de matemática, português (gramática e a literatura clássica), ciências (a não ser o uso doutrinário de elementos úteis contra o Cristianismo, por exemplo), e, de outro, o ensino marxista de história, geografia, a “educação sexual”, o ensino de “literatura” e todo o lixo possível como equiparável à alta cultura tornam a educação em outra coisa que não a formação de indivíduos integrados psicológica e comunitariamente. Tudo o que sobra é essa legião de furiosos.

A ação contra-hegemônica trata de esvaziar a “direita”, fazendo toda a imagem do conservadorismo associada às oligarquias obtusas e tacanhas e ao empresariado que está longe de qualquer exercício político ou intelectual coerente, e que pensa somente que qualquer governo está justificado desde que não interfira demasiadamente nos negócios (ou que os impulsione; daí as experiências bem sucedidas em polos chineses de “socialismo de mercado”, ou na intervencionismo seletivo da política econômica brasileira). Toda a imoralidade, anti-ética, corrupção e malignidade ficam conferidos ao outro espectro ideológico num falso maniqueismo. Não creio ser exagero dizer que essa “revaloração” toca até esquemas de teodiceia: o mal, todo ele, é fruto do conservadorismo, e o bem, a soteriologia está associada aos novos valores da esquerda. Veja que por muito tempo os petistas e esquerdistas em geral eram gente da qual era impossível pensar o pecado da corrupção e traição das “causas populares”; toda a desgraça brasileira, a bandidagem, é responsabilidade dos “demônios de direita”. O Cristianismo, até, precisa tornar-se uma “religião de esquerda” para encontrar justificação.

Lula não está errado, mesmo PT e PSDB estão do mesmo lado do espectro, estão em oposição dentro da mesma matiz. Ambos compartilham a origem uspeana, radicalmente marxista (aos incautos: radicalmente, i.e., na raiz). A realização de eleições sem candidatos de direita, sem uma posição madura do outro lado do espectro é um péssimo sinal. A esterilidade e recursividade são sinais de que a democracia vai mal, a ausência de debate real é um sinal dos tempos. E qualquer esquerdista que se quiser democrata (se isso ainda for possível depois das definições) haverá de concordar comigo que a ausência de bons oponentes conservadores é um sintoma de uma doença aguda. Crer nos “valores de esquerda” e em toda esta visão de mundo é esquecer-se de que é construída por homens, feita por homens e, portanto, atende a intenções de homens; e o homem, de esquerda ou direita, é caído, é mau e injusto. Se as monarquias caíram, em parte, porque entendeu-se que o poder total na mão de um só homem era o risco maior de opressão (então melhor mantê-lo no maior número possível de mãos), podem ressuscitar pela criação do Leviatã da hegemonia (e homogeneização), os homens todos cingidos por um só sistema, excluído o diálogo e a situação de reflexão.

Qual consciência?

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Nem Zumbi dos Palmares, nem Nina Rodrigues.

Escrever sobre assuntos que tocam as sensibilidades e o brio de comunidades, grupos ou mesmo particulares é bastante melindroso, e fazê-lo em momentos especialmente significativos pode ser leviano. Espero que eu não seja imprudente ao tratar da consciência negra justamente no dia que lhe foi dedicado. Gostaria de deixar claro que não sou racista, nem sou contra a luta por condições dignas para as pessoas – e não estou fugindo da questão: os negros e mulatos estão numa situação singular de indignidade ou injustiça.

Contudo, não creio que haja motivos para celebrar a consciência negra, principalmente pelos modos como a “luta” se dá; percebo (ainda que seja míope) mais des-conscientização, ou (sem neologismos) alienação sobre o que de fato parece estar no cerne da questão. Antes que se reúnam pedras para as mãos zelosas, acredito que haja racismo no Brasil, mas de características distintas e nativas, que não pode combatido ou evidenciado pelas técnicas metodológicas, teoria social ou discurso importados dos EUA ou alhures.

O racismo brasileiro não tem raízes compartilhadas com os modelos de segregação praticados por colonias anglo-saxãs (protestantes), que queriam não o mero exercício econômico, mas a formação/transposição cultural a partir de ideais mais ou menos bem estabelecidas desde seu início. O racismo segregacionista sulista nos EUA ou a organização do sistema de pilarização afrikaner (base do Apartheid) foram reforçados pelo ideal de preservação de uma matriz cultural de estirpe cristã ameaçável pelo contágio ou miscigenação. E isso não é exclusivo da colonização americana, foi a solução moderna para a mediação do conflito entre católicos e protestantes (vide Bélgica e Holanda como contraponto à tragédia francesa de São Bartolomeu), e era a base da formação dos guetos e alijamento dos judeus (algo desejável tanto pela sociedade cristã como pela estrutura religiosa rabínica).

O negro aparece nesse instante como o outro indesejável por ameaçar o projeto cultural que detinha poder e gerência. O elemento escravo estava restrito à atividade econômica, tolerado como um equipamento desajeitado e calado ou inexistente no plano da cultura e política. Reconhecê-lo nessas instâncias é por em risco a estrutura sócio-cultural de uma experiência societária que fugira do conflito no Velho Mundo. Irônico.

No Brasil não havia projeto social além da cristianização ad hoc: ser um território cristão (católico), habitado por cristãos. O que pudesse jogar com estas linhas precárias, era válido. Se nas experiências protestantes os muros eram intransponíveis, aqui a fronteira é tênue; o português misturador não conhecia restrições e logo estávamos misturando sangue, sêmen, saliva, suor e daí para os outros apetites com-fundirem-se… A ausência da ideia de um mundo a ser construído, tornava a colônia Brasil num caldeirão muito distinto do “tubo de ensaio” de outras terras.

A obra monumental de Gilberto Freyre procurou descrever essa distinção do caso brasileiro; sem negar a violência da escravidão e do patriarcalismo conseguiu, a meu ver, demonstrar sua natureza distinta, singular – o que altera significativamente o viés de análise. Essa mistura era fruto do caráter não-moderno da constituição social brasileira, e nossos problemas começam a aparecer justamente com a tentativa tardia de impor contornos modernos, subsumindo as inadequações ao novo paradigma – que, obviamente, não haveriam de desaparecer.

A importação de teorias racialistas coincidem com a República (ou final do Império) – Nina Rodrigues procura as causas do “atraso” brasileiro justamente na miscigenação, agente da degeneração genética. Daí as políticas de branqueamento que impactou definitivamente a seleção dos grupos de imigrantes no final do século XIX, início do XX: italianos, alemães, eslavos e europeus em geral foram aceitos – chineses e sul-asiáticos, não (não sei como explicar o caso japonês, mas Freyre cita documentação a respeito da rejeição dos sino-asiáticos).

Além disso, a ruptura brutal com o sistema de solidariedade tradicional, patriarcal, substituído às pressas pela ordem positiva-racional(?), como adequações (maquiadas) feitas a toque de caixa para a chegada do século XX, deixaram os negros libertos pela abolição fora novo projeto de nação. Europeizar-se era preciso, portanto, eliminar o exótico, necessário. Como nos EUA sulino, o negro era o outro a ser tolerado nos quintais, cozinhas e favelas, mas não na cultura, na política e na construção do país.

Não cairei no erro de identificar o racismo brasileiro com desigualdade econômica. Mas, de fato, ter sido colocado à margem provocou o empobrecimento e desapoderamento da população negra ou afro-descendente no país pela estigmatização. Explico-me. Depois da Guerra de Secessão, os EUA conseguiram o grande feito de tornarem-se o país com uma capacidade de assimilação ímpar de grupos diversos no American Way of Life. Anglo-saxões, mediterrâneos, eslavos, irlandeses, até mesmo os judeus se integraram. A falha foi incorporar os negros. E eu tenho uma suspeita de que o estigma tenha um papel nisso.

Todos os outros grupos não são exatamente identificáveis à primeira vista. Não há como exercer preconceitos, não há como rotulá-los como inimigos ou ameaças à sociedade ou projeto social. Porém, com os grupos que insistem em carregar signos de distinção é possível o preconceito, e os judeus são o melhor exemplo que me vem à cabeça. Mas o negro e o mulato (agora, também os latinos), a marca da diferença negativa é imediata. Mil meliantes brancos não são ameaça imediata, pois são indistinguíveis; um negro é.

Como é isso? Parece que é preciso portar os símbolos de adesão ao projeto. Vestir-se como, portar-se como, fazer como, esconder o estigma. Freyre já falava de um “branqueamento” de acordo com a ascensão social – não de fato, mas por consenso. Um branco é um incluso, um negro é um excluso – um negro incluso era “branco”.

Há um decalque entre situação econômica e social vulnerável e preconceito racial, existe uma sobreposição. Isso não reduz coisa a outra, mas indica uma afinidade eletiva. O racismo no Brasil não parece estar baseado numa teoria racialista, não houve tempo para que se difundisse no imaginário brasileiro (vide Artur Ramos) e nossa composição cultural e étnica são prova da miscigenação.

O problema é que muito do que se diz pelo movimento negro ou que se faz na política de ações afirmativas parte do princípio de que estamos divididos entre brancos e negros, segregados e distinguidos racialmente. Não estamos. Nossas distinções são sociais e econômicas – e derivam da condição de quem podia ou não podia ser incluído no projeto moderno de nação. A maioria desabilitada era afro-descendente (mas também euro-descendente, porque mulata).

O problema que se precisa sanar é a exclusão – e a isso se dá o nome, erroneamente, de racismo. E o dia 20 de novembro é outra sombra de ironia: Zumbi dos Palmares não queria a sujeição à coroa portuguesa, nem a erradicação da escravidão no quilombo. Não queria ser incluído, nem incluir. É um paradigma ruim, creio eu. A questão não é uma consciência negra, é uma consciência brasileira. É a formação de um projeto que retome nossas raízes, nosso experimento assistemático e riquíssimo que nos contemple como mistura e possibilidade – para isso não me servem nem Nina, nem Zumbi.

Minas, Patrus e o PT

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Patrus Ananias é petista e mineiro. Pena que o PT não seja mineiro.

Minas Gerais é muito peculiar. É um estado que tem a síntese saudável entre tradição e modernidade, entre progresso e status quo não apenas tida por possível mas também crida em andamento, claro, num suposto projeto mineiro de mineiridade. O “meio-termo” mineiro é antológico na política nacional e entrou em cena em momentos tensos da República – e quando transmutou-se em sublevação, apoiou o Getúlio, a personificação do tradicionalismo progressista.

Ao mesmo tempo que católica, muito católica, tradicionalista como só a diocese de Mariana pode ser, Minas tem um largo comprometimento com a “Teologia da Libertação” e a militância social como manifestação de um dos aspectos mais evangélicos (o socorro ao oprimido) – é o estado de D. Hélder Câmara. Não pratica o sincretismo marqueteiro e escandaloso da Bahia, mas suas comunidades negras praticam ritos e conservam dialetos africanos com descrição e certa pureza; e Belo Horizonte tem mais terreiros do que se possa imaginar (há quem diga que esta é uma cidade mágica).

A Minas dos velhos redutos, das tradicionais famílias, a mesma dos Neves, é também petista; Belo Horizonte é governada por esquerdistas nesse naipe há quase vinte anos (de Patrus a Márcio Barbosa). Não queria usar as velhas e gastas imagens, mas todos os mineiros suspiram orgulhosos ao repetir que Minas é o cadinho do Brasil, a síntese brasileira, o laço que uniu as pontas do país, o estado da integração nacional. Petistas e Tucanos mineiros adoram apontar a política estadual como exemplo, ao contrário da rinha paulista.

E é nessa toada que falou o ministro Patrus Ananias na visita que fez à Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia, aqui mesmo em Belo Horizonte. Sem dizer diretamente que era pré-candidato ao governo, sem nomear de disputa a corrida contra Fernando Pimentel, sem reconhecer o papel eleitoral das eleições de diretoria no próximo dia 22, Patrus está fazendo campanha. E dessa vez tem o partido todo, ao que parece, consigo – somente a chapa de Reginaldo Lopes (deputado federal pelo PT-MG, favorito até agora) não o apoia, preferindo Pimentel.

O Processo de Eleições Diretas (PED) é o mecanismo democrático do PT para eleger a diretoria do partido, cada militante filiado tem um voto de peso idêntico, e a questão é a mesma dos últimos tempos pós-mensalão: como reconstruir a imagem do partido? Em Minas, a resposta é “construir alianças, voltar-se para fora”. Tanto Patrus quanto Pimentel defendem a ideia, é a resposta mineira. Mas isso não combina com o PT. Pimentel parece ter perdido apoio da base sobretudo por conta da aproximação com o governador Aécio Neves (PSDB) e apoiado um candidato laranja para a prefeitura de BH (Márcio Lacerda), crendo que Aécio o apoiaria na candidatura ao governo em 2010. Parece que o governador percebeu o barco afundar e vai preparando seu vice, Anastasia, para a campanha.

A situação de Patrus não parece ser melhor: é muito querido pelas bases, sempre lembrado como um grande prefeito de Belo Horizonte, sem acusações contra si, com larga amplitude de diálogo, desde setores populares a intelectuais e religiosos (é professor da PUC-MG); mas falta-lhe força para atravessar o mar de sargaços das tramas e interesses partidários. Patrus parece ser uma boa pessoa, é elegante, honesto e demonstra dignidade. Patrus é mineiro e petista.

O problema é que o PT não é, definitivamente, mineiro.

Patrus precisava somente de um aceno de Lula para legitimá-lo frente ao partido. E isso seria o mínimo que o presidente poderia fazer para o ministro encarregado da engenharia da política social do país. Em 2006 seria suficiente para que Lula rodasse o interior de Minas apresentando Patrus como o responsável pelo Bolsa Família que os famintos do estado votariam nele, e não haveria reeleição de Aécio. Mas Patrus, segundo ele mesmo, preferiu não se utilizar do programa do governo federal para ganhar uma eleição. Mas novamente Lula boicota seu importante subordinado – na reunião da FAO sobre segurança alimentar realizada há poucos dias, onde pretendia apresentar o Brasil como modelo de atuação contra a fome e desnutrição, Lula não levou e não deu destaque a Patrus. Deixou-o aqui no Brasil.

O PT é um partido de esquerda, e isso é o suficiente para que eu não seja petista. Mas isso não quer dizer que precisasse ser burro, estúpido, anti-lógico na hora de computar as forças e estratégias. Por alto, a quantidade de nomes importantes do partido que se retiraram e buscaram ou fundaram outras legendas é significativa. Marina Silva teve seu trabalho à frente do Ministério do Meio Ambiente inviabilizado por Dilma Rousseff (diga-se de passagem, mineira) em nome do tal PAC. Saiu e está se cacifando: por causa de sua pré-candidatura pelo PV já obrigou a própria Dilma e Serra a incluírem a questão ambiental em seus pacotes de campanha (Dilma, repentinamente, passou a ser interessadíssima em sustentabilidade, e será chefe da comissão brasileira na reunião sobre mudanças climáticas em Copenhagen).

Ciro Gomes, da base aliada, foi rejeitado e enxotado – agora declara apoio a Aécio e retirará sua candidatura se o mineiro for escolhido candidato pelo PSDB. Heloísa Helena fez o mesmo em relação a Marina. Se o PT fosse um pouco mais mineiro, soubesse ouvir, comer pelas beiradas, articular e aguardar a vez, saber retirar-se para expandir-se, ficaria no poder décadas… Como não é, as outras forças estão entocadas, esperando que o próprio Partido dos Trabalhadores destrua sua base com um projeto de supremacia e autossuficiência. O fiel da balança, o PMDB, é como os ratos: quando começarem a aparecer no convés, temos certeza de que o navio está afundando.

Ah!… Minas.

PS: Escrevi esse texto no blogue antigo, em 2006, que ainda é muito adequado, sobretudo em relação às manobras do PT e PSDB.

Escrito por André Tavares

18/11/2009 em 17:09

Ubuntu 9.10 “Karmic Koala”

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Karmic Koala Wallpaper

Já fazem alguns dia que o Ubuntu 9.10 saiu, e desde então quem se interessa já leu, ou deveria ter lido, uma grande quantidade de análises muito bem feitas – o que anula a pertinência de que eu faça aqui uma outra e sem qualquer acuidade, visto que sou, declaradamente, um jacu. Ma gostaria de registrar algumas impressões.

#1. Ubuntu amigável e fácil de instalar. É impressionante como está intuitivo e simples a instalação e configuração do sistema! Creio que a maior dificuldade que um usuário sem experiência – é, o jacu – poderá enfrentar é particionar um HD, coisa que, eu me lembro bem, envolve receios e implica cuidados. A instalação dentro do Windows continua sendo uma das grandes sacadas da Canonical e dos desenvolvedores.

#2. Leveza e beleza. O novo tema Human, o splashscreen e toda a prometida correção de centenas de pequenos bugs que atrapalhavam a experiência do usuário fizeram uma grande diferença. Uma coisa que suscitava preconceito em muitos usuários era aquela aparência meio ‘98. Não que fosse tosca, mas deixava alguma suspeita para quem vê em cosméticos indicativo de confiabilidade. Agora isto está quase resolvido desde a instalação padrão. Os aplicativos e ferramentas, como o controlador de som, está bem feito e funcional, os ícones se integram bem ao ambiente (no meu caso, GNOME).

#3. Melhora da experiência do usuário final. Eu uso um HP mini, e uma coisa curiosa é que há somente uma jack que serve tanto para a entrada como saída de som – o sistema precisa identificar o que está conectado. No Jaunty eu nunca consegui usar microfone, que não era identificado (nem o do próprio netbook). Agora o controlador identifica, lista, regula tudo, e ficou uma beleza. Isso faz toda a diferença para um jacu que quer o computador funcionando pra fazer o que precisa fazer. Isso é só um exemplo, mas acontece com outros aplicativos e funções.

#4. Boot mais rapido. Ahn… o Ubuntu tá apostando corrida sozinho, eu já estava satisfeito com o Jaunty, mas se eles querem me dar mais… ok, eu aceito! ;o)

#5. Nem tudo são rosas… e a vida é difícil. Como dizia um professor de Física que tive, “rapadura é doce, mas não é mole”. Já disse que são detalhes que podem decidir a escolha de um SO pelo usuário final (eu e a torcida do Flamengo, eca!). O Karmic veio com alguns problemas. Uma das facilidades que se tornou fundamental para mim foi o botão do meio (do mouse, o wheel) com a função “colar” – é só selecionar e depois clicar com o tal botãozinho que está feito. No touchpad o Ubuntu emula o terceiro botão no canto esquerdo do quadrado… bom, isso não funciona no Karmic. Com um mouse, ok, com o touchpad, não – diacho! Isso irrita! E não há solução à vista – antigamente com uma simples edição do xorg.conf, resolvia-se, agora como não há mais um arquivo xorg.conf… não sei o que fazer. E outra coisa chata: um pau no X que não me deixa abrir as janelinhas do botão direito… dá pra acreditar?

Conclusão: eu estou parecendo torcedor do América Mineiro, que chama os outros para ir ao campo torcer para o time, e lá chegando se desfaz em lágrimas e reclamações sobre o time. Mas vale a pena instar e migrar. Os problemas que listei não são impeditivos e devem ser restritos à configuração da minha máquina. Entre em sintonia com a liberdade com o Karmic Koala.

Nota: Não instale o gsynaptics para tentar consertar o problema com o touchpad – o problema com o X parece ser fruto disso; eu desinstalei o programa e voltou as janelas voltaram ao normal.

Atualização #1: para obter a facilidade da emulação do terceiro botão do mouse no touchpad, faça o seguinte (no GNOME): Sistema » Preferências » Aplicativos de Sessão. Isso abrirá um caixa, e na aba “Programas Iniciais”, clique em “Adicionar”, e no campo “Comando”, insira synclient RTCornerButton=2 e nos campos “Nome” e “Comentário”, coloque o que lhe aprouver, mas nomeie e comente, porque depois vc pode identificar o processo caso tenha que desfazê-lo. Na próxima vez que o sistema for iniciado, o terceiro botão estará emulado no canto direito superior no touchpad. Para ter efeito imediato, abra o Terminal, e digite o mesmo comando (synclient RTCornerButton=2), e dê Enter. Pronto, efeito do botão/scroll do mouse habilitado instantaneamente.

Atualização #2: Precisei reinstalar o Ubuntu no meu netbook. Se você possui um, é melhor não instalar a versão padrão. O único problema é que não há o desktop-switcher, para sair daquele ambiente medonho do UNR e ter a paz do tradicional GNOME… tive que remover tudo e adicionar os elementos (barras, ícones, etc) na mão.

Atualização #3: A área do desktop não exibe volumes, ícones ou atalhos, para passar a exibir o conteúdo e colocar “coisas” lá, é o seguinte:

É simples, o Desktop não está é “exibido” propriamente. Está na pasta Desktop (ou Área de Trabalho) mas não é mostrada. A solução é abrir o “Editor de Configurações” (Aplicativos » Sistema » Editor de Configurações – se não estiver presente, vá em Sistema » Preferências » Menu Principal que vai abrir uma janela; na coluna da esquerda, selecione Sistema e na caixa da direita, clique em Editor de Configurações, quando vc abrir o menu Aplicativos, estará lá). Uma vez o Editor de Configurações aberto, na coluna da esquerda, clique em “Apps”, depois, abaixo, em “nautilus”, e em “desktop”: na caixa da direita, habilite “volumes visible” – isso é suficiente para destrancar a Área de Trabalho. Se vc quiser, marque as outra opções para exibir o ícone da lixeira, computador, etc. Espero que tenha ajudado. O problema todo é fazer essa volta pra alguma coisa tão simples. É que o programinha que fazia a mudança de ambiente do UNR para o GNOME convencional (Desktop-switcher), que estava presente na edição passada, andou gerando conflitos e não estava estável até o momento do lançamento, por isso não está incluído.

Obrigado ao Thiago, que chamou a atenção para o problema.

Escrito por André Tavares

11/11/2009 em 19:19

Publicado em CULTURA LIVRE, Ubuntu

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Lógica do Sul onde já não há referências

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Vinte anos depois, quem parece ter vencido?

Há um termo técnico em História cunhado, se não me engano, pelo pessoal da École des Annales para designar os eventos grandiosos que servem de marco e sinaleiros na historiografia, os eventos de curta duração. Um dos mais importantes do final do século XX, ou aquele que demarcou o fim do século passado, foi a queda do Mudo de Berlim. Contudo, a consequência mais importante da curta duração é seu contraponto, a longa duração: o que aconteceu entre um e outro marco histórico para que alguma coisa tenha se tornado um ponto de distinção, uma referência para “discernir os tempos”?

O que aconteceu nos anos e nas décadas anteriores à queda do muro? O que ele de fato representa, mais do que a irradiação do momento nos deixa perceber? Num mundo de dicotomias, era a vitória do “lado” capitalista e a derrocada da proposta “socialista”, a afirmação da hegemonia norte-americana (ou estadunidense?) e (bobagem) o “fim da história” do sr. Fukuyama. Eu, hoje, tendo a pensar que não. Primeiro porque os movimentos revolucionários não são  nem nacionais nem de blocos, logo, a União Soviética já havia se tornado, desde os anos 60, algo absolutamente superado em termos de expansão do comunismo ou de estratégia revolucionária – e isso está bem atestado na obra de Merleau-Ponty, Gramsci e pelo desenvolvimento da bomba atômica.

No campo intelectual, o comunismo não era mais uma bandeira operária, os operários já não eram mais, há muito, a classe mais explorada e destinada a produzir a luta final entre as classes. Eram gente que se beneficiava do capitalismo ainda que comendo das migalhas (veja bem, migalhas não quer dizer que é pouco – um sistema que produz migalhas assim tem que ser levado a sério), não eram mais os oprimidos fundamentais, eram parte do mercado – foi só serem inseridos como consumidores, e o problema estava resolvido. Os “oprimidos” se tornaram uma miríade, uma colcha de retalhos de pessoas “marginalizadas”, e tudo o que estivesse prensado por conta de alguma norma, lei ou princípio, tudo o que fosse criminoso, era oprimido. E tudo o que estivesse dentro da legalidade dos princípios, opressor ou agente da opressão.

Paralelo a isso, o sistema produtivo socialista foi um fiasco total e não conseguiu demonstrar qualquer superioridade, na vida do cidadão(?) soviético a falta de gêneros era comum, a fila para produtos “de luxo” (como papel higiênico) era a norma, e se isso acontecia para privilegiar a economia de base e a produção militar, o fracasso é ainda maior: a indústria soviética era suja (ecologicamente) e improdutiva, o equipamento militar tinha que obedecer a regra da saturação ao invés da qualidade (vide o Mig’s versus F’s; M’s versus AK’s) – até nas Olimpíadas o homem soviético era uma criação, uma ficção laboratorial e propagandística (não quero desmerecer os grandes atletas, mas havia suspeitas graves de dopping).

Um sistema econômico incapaz de fornecer uma vitrine, e que precisava erguer uma cortina de ferro para que seus súditos não vissem a grama do vizinho (nesse caso, mais verde de fato) e acreditassem na propaganda de que viviam nas melhores condições do mundo, ficou obsoleto quando a guerra e a confrontação militar já não eram uma opção desde, com já disse, os anos 60.

A “Destruição Mútua Garantida” no campo bélico fez o confronto migrar outra vez para o campo da cultura e da política.  O processo de desmantelamento da URSS já havia começado com Krushev; a questão era de tempo para preparar as novas bases numa rede de kulturkampf. Não por acaso a esquerda se espalhou como aliada e protetora de todas as periferias: os árabes, o leste e sudoeste asiático, a África e a América Latina. Em termos de geografia social e cultural, os “movimentos sociais” entraram em cena largamente, sobretudo nos EUA e Europa – sem a proposição de um modelo: o realismo operário afundou com o bloco soviético, então a função agora não era afirmadora e comparativa, mas de simples desconstrução das grandes tradições e garantia de espaço para toda e qualquer expressão (sobretudo as ruins), o que terminou por desvirtuar mesmo as culturas tradicionais, as mesmas que se dizia querer dar voz. A politização da cultura, a necessidade de “engajamento” ou atribuição de rótulos ideológicos empobreceu os cenários culturais e intelectuais – o Brasil perdeu muito nesses termos, sobretudo depois da Semana de 22.

Quando o muro caiu, o movimento esquerdista-comunista já não dependia de uma estrutura estatal-militar para manter-se. O teatro mal feito de 09 de novembro de ‘89 não passou de um cavalo de Troia.

No Ocidente o ganhador foi o capitalismo internacional, esse espaço e modo de fazer riquezas com transações anônimas e gigantescas, ideal para dinheiro criminoso – narcotráfico, tráfico humano/escravagismo, tráfico de armas, etc. Segundo dados da ONU (vejam bem, da ONU), o crime organizado lava entre 300 bilhões e 1 trilhão de dólares anualmente nas bolsas internacionais. Esse mesmo capitalismo internacional vai minando as estruturas institucionais nacionais, pregando a ingerência de entidades (sempre) internacionais e a privação e diminuição dos órgãos nacionais. E aparece de tudo, de Banco Mundial até campanhas de vacinação e (o uso) da crise ecológica/climática.

Curiosamente, um dos maiores parceiros do capital internacional é a China, o gigante que se finge de gentil e inofensivo que vai preparando uma máquina para os seus próprios propósitos ocultos na capa sob a capa do esquizofrênico socialismo de mercado. O lado de cá do muro agora cambaleia enfraquecido e entregue a todos os seus inimigos: a renovada Jihad Islâmica, a China e os inimigos da sociedade aberta.

Escrito por André Tavares

11/11/2009 em 18:15

E contando…

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Escrito por André Tavares

04/11/2009 em 16:10

Publicado em POLÍTICA

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Lógica do sul no centro

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O governo provisório de Honduras entrou com uma queixa contra o Brasil no Tribunal Internacional de Haia por causa da forma como o governo e a diplomacia brasileira tem atuado no caso Zelaya, o presidente deposto e que encontra-se há semanas entrincheirado na embaixada tupiniquim em Tegucigalpa. A queixa, então, referir-se-ia à ingerência do Brasil sobre questões soberanas hondurenhas, coisa tão séria a ponto de poder desvirtuar o processo de instabilidade política em uma crise institucional e mesmo conflito civil.

A ministra Dilma Housseff falou à imprensa, e disse que não teme a queixa no tribunal internacional por ser uma reivindicação ilegítima, pois de um governo golpista. Honduras não precisa lá de muito mais evidências da ingerência do Planalto e do Itamarati: o Brasil insiste em sombrear ardilosamente a questão ao deturpar a nomenclatura. Golpe é quando as instituições e os processos são ignorados e desrespeitados, e um governo legítimo é deposto. Muito bem, o que aconteceu em Honduras foi a deposição de Zelaya pela Suprema Corte e Parlamento hondurenhos por um processo constituicional. Deixar Zelaya no poder é que seria anticonstitucional.

Curiosamente a mídia brasileira e o governo insistem em acusar a Justiça e o Parlamento de Honduras de “golpistas” – como isso poderia ser possível ao se cumprir a própria constituição?  O apoio a Zelaya e o esforço dos governos de esquerda da América Latina para restituí-lo a presidência é claramente um ultraje à soberania hondurenha. Mas, claro, tudo é um problema de lógica – cumprir a constituição contra um bandido representante do narcopoder é golpe; entretanto, ninguém no Brasil disse nada quando Chávez rasga a constituição venezuelana a seu bel prazer, cerceia o direito à liberdade de expressão, e coisas tais.

Tudo, ao que parece, resume-se a uma questão de lógica, de ponto de vista. Se o Tribunal der ganho a Honduras, é parte do “esquema anti-democrático de direita”, se der ganho ao Brasil, cumpre seu papel – simples assim.

Escrito por André Tavares

29/10/2009 em 14:57

Lógica do sul

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O Mercosul vai se tornando uma organização muito curiosa. Ao invés de cumprir tão somente seus objetivos de cooperação econômica entre países do Cone Sul, passará a ser também um clube promotor da democracia. Isso porque a entrada da Venezuela no bloco parece não se dar por justificativas econômicas ou pela perspectiva de fortalecimento do mercado regional, mas quase exclusivamente para promover a ampliação da democracia naquele país.

O raciocínio é simples: a Venezuela não poderia entrar por não cumprir as exigências democráticas dos protocolos do Mercosul, como liberdade de imprensa, direitos civis, transparências nas eleições (essas coisas); como ela não cumpre; então, que tal incluí-la e aí, quem sabe, Chávez não resolva adotar os padrões dos outros países participantes? Bom, nesse caso o parlamento brasileiro entenderia a participação como plenamente justificável (ao menos o relator do parecer, Tasso Jereissati do PSDB-CE, se diz convencido e vai mudar seu parecer).

A Venezuela entra se der “garantias concretas de avançar na consolidação do respeito à democracia”. Agora, só uma pergunta: como é que o menino maluquinho (pra dizer o mínimo) pode dar qualquer garantia? E como os parceiros podem confiar em qualquer coisa que possa prometer Chávez? A não ser que… bem, a não ser que a Venezuela cumpra os padrões se tornado o padrão.

Isso justificaria o emprenho do PT na promoção da inclusão (juntamente com o presidente Lugo do Paraguai)  e a aprovação já concedida pela Argentina e Uruguai. O sonho desse pessoal todo é ter relações abertas com as FARC, conseguir eleições, reeleições e rereeleições, fazer mudanças na constituições com quem edita um artigo num blogue, e coisas afins. Parece um contra-senso, mas faz sentido.

Atualização [28/10 17:10]: lí agora mesmo no Nota Latina (via Norma Braga) que  o governo de Chávez aprovou o “tombamento” de um sem número de propriedades. Tornando-as “patrimônio cultural”, os proprietários não podem se dispor delas sem autorização do governo. Dada a quantidade de prédios “tombados” e suas características, a medida pode ser uma manobra contra a propriedade privada na Venezuela.

Escrito por André Tavares

28/10/2009 em 18:07

O conceito de “natureza” é bíblico?

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Ao que tudo indica, não.

Centrum Naturae

O ponto de partida para a filosofia foi a reflexão sobre a natureza, a physis, que está longe de poder ser igualada com o nosso conceito moderno de natureza ou de física, mas estão de algum modo relacionadas. A physis diz respeito ao princípio ou à substância que está na base da realidade de todas as coisas, e se esse é seu estatuto, é aquilo que dá coesão e ordenação para o mundo – daí que conhecendo esta substância primordial detém-se o princípio razoável de tudo o mais que existe.

Ainda que a investigação sobre a physis tenha chegado a um impasse logo que se tenha colocado aos pré-socráticos a dificuldade de se afirmar o conhecimento sobre ela, e que os socráticos e os sofistas tenham abandonado (grosso modo) a questão, um ponto permaneceu perene na imagem de natureza dos gregos: a natureza (ou o cosmos) é uma realidade perpétua, incriada – nada mais distante para os gregos que a ideia de criação.

Mesmo depois do encontro e síntese entre a filosofia e a tradição bíblica a tensão sobre o conceito de natureza parace ter permanecido, e se a perspectiva deísta emergiu como uma fórmula atraente na Modernidade não parece ser por outro motivo senão pela autonomia da natureza como uma máquina projetada por uma Mente Absoluta. O conhecimento de uma máquina autônoma prescinde da necessidade de estar informado sobre as finalidades ou desígnios (telos) que porventura o projetista tivesse em mente – ainda que muito diferente do interesse pré-socrático, a noção moderna de natureza compartilha uma certa noção grega de independência ao menos como condição intelectiva.

Contudo, a ideia bíblica de natureza está de tal modo em oposição a isto que preferimos charmá-la de “ideia de criação“. Isso porque (i) muito diferentemente dos gregos, o mundo é criado, tem início e finalidade (propósito, fim) estabelecidos por um divindade transcendente que independe dele, e (ii) não é na phisis ou na substância do mundo que encontra-se a chave para a compreensão da realidade, mas na relação com o Criador.

Como dito acima, havia uma tensão ainda na Idade Média, isso porque os medievais, num negócio que ficou conhecido como nominalismo, insistiam em procurar as relações de significado na natureza com a revelação (o que acabou por constituir a base do empirismo e para a ciência moderna). Contudo, a “tentação” de um modelo fechado é sempre presente e não tardou que aparecessem as formulações galilaica e newtoniana que apresentavam a noção de necessidade, que outra vez parecem “trancar” o mundo natural.

O conceito de criação, por outro lado, mesmo como criação ordenada possuidora de leis internas que a regem, mantém a abertura que aponta para o Criador. Essa abertura repousa sobre a noção de pessoalidade – o universo, segundo a Bíblia, é uma realidade pessoal, pois Deus é um ser pessoal que se relaciona com sua criação, sendo que é essa mesma relação que confere sentido a todas as coisas. Isso não quer dizer que no “livro da natureza” possamos encontrar o mesmo conteúdo do “livro da revelação”, mas que a criação aponta para uma abertura inerente.

Entre o conceito de natureza e o de criação há, portanto, um abismo tão grande quanto a noção de pessoa.

Escrito por André Tavares

27/10/2009 em 16:04

Sto. Agostinho de Hipona

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Santo Agostinho de Hipona

Santo Agostinho de Hipona

Hoje, 28 de agosto, é o memorial de Santo Agostinho de Hipona (data de sua morte), uma das mais importantes figuras do Cristianismo e, sem dúvida, do Ocidente. Eu gostaria de ter mais tempo e largueza de saber pra falar alguma coisa sobre Agostinho. Na falta dos dois, digo somente que nasceu em Tagaste no ano de 354 e morreu durante o cerco de Hipona pelos Vândalos em 430. Sua mãe, Sta. Mônica (cujo dia dedicado foi ontem, 27 de agosto), era cristã e seu pai, pagão – Tagaste era uma cidade púnica fortemente pagã (mesmo no quarto século da Era Comum), e o jovem Agostinho passou por uma juventude de desregramento, tornando-se depois ao Maniqueísmo (heresia que perturbará o Cristianismo por muito tempo). Estudou em Cartago e sua formação em retórica será um ponto relevante para sua aproximação com o Cristianismo.

Após converter-se à fé ortodoxa da Igreja Católica (ortodoxo no sentido de “correto” em oposição às variações heréticas, não em relação com a Igreja Oriental) em 386, e cerca de dez anos depois foi sagrado bispo de Hipona, onde permaneceu até sua morte. Agostinho foi um autor prolífico, escrevendo comentário bíblicos, obras apologéticas e filosóficas. Fortemente influenciado pelo neo-platonismo, lançou as bases do pensamento cristão medieval (mais luminoso do que os Iluministas nos deixam imaginar); e fez contribuições da maior ordem ao Cristianismo Ocidental. Combatendo os pelagianos, Agostinho recusou e combateu a ideia de que o homem pode escolher se tornar ou ser bom, alcançando o mérito da salvação diante de D’us.

A oposição agostiniana a esta formulação convoca outros pontos importantes no corpo teórico do santo: o pecado original e a eleição. O pecado original choca as sensibilidades modernas, mas quer dizer simplesmente (!) que a Queda foi de tal radicalidade que o humanidade está comprometida em seu cabeça, Adão. A natureza humana está comprometida, sendo incapaz de discernir, escolher e praticar o bem. A amplitude absoluta da Queda, curiosamente, torna a obra de Cristo ainda maior e dá a medida de sua radicalidade: na ressurreição, Jesus “reencabeçou” a humanidade, dando-lhe um novo início e regenerando-a. Aí sim, podemos fazer o bem.

Eu fiz intencionalmente uma interpolação entre Agostinho com Irineu de Lion porque acho bastante parecidos nesse ponto e ajuda a deixar o pensamento agostiniano mais claro, acho. Na verdade, o bispo de Hipona faz uma boa leitura de Romanos, seguindo e desdobrando a tradição paulina. Se o homem não pode ser meritório da salvação, ela se dá por uma ação soberana e volitiva de D’us, e d’Ele somente. É a base da eleição. Para mim, Agostinho é um ótimo expositor do pensamento e compreensão de Paulo a respeito das Escrituras Hebraicas e do papel do Messias. Não é à toa que é o patrono dos “judeus do Cristianismo”, os reformados calvinistas (e dos luteranos também, ou meio… aff!).

O que direi por mim? Penso que Agostinho é o grande herdeiro da tradição filosófica Alexandrina (o neo-platonismo), mas isso quer dizer mais do que aparenta: é o receptáculo de uma tradição de reflexão sobre a Torá e os Profetas que remonta a Philo de Alexandria, legada ao Cristianismo alexandrino (Clemente, Orígenes), participantes na formação do tal neo-platonismo. Agostinho sedimenta a ideia judaico-farisaica da História e sua teleologia (propósito) n’A Cidade de Deus, bem como a noção de soberania de D’us. Para mim, a ideia de eleição agostiniana tem ecos farisaicos (Deus num ato volitivo perdoa os pecados e no faz justos – ver a liturgia em torno do Yom Kippur e os Yamim Noraim, o Dia do Perdão e os Dez Dias Terríveis que o antecipam) – eu devo esse raciocínio largamente a Gordon Clark.

Agostinho funda, nas palavras de Hannah Arendt, “o abismo da interioridade”, essa noção tão cara a nós ocidentais, e tão mal compreendida. Confissões é uma obra seminal não somente em termos de literatura, é o estatuto de uma nova antropologia: o homem como um cosmo interno, de fato. Claro, isso está presente em outras tradições, mas em nenhuma toma a forma inovadora dada por Agostinho.

Para os judeus, legou a alcunha de “povo testemunha” que deveria ser tolerada… não é a melhor solução, mas isso foi a base para a (ainda que pouca) tolerância cristã aos judeus no medievo (ok, eu estou dourando a pílula).

Seja para quem for, Agostinho é um autor essencial e imprescindível para compreender qualquer coisa por essas bandas.

Escrito por André Tavares

28/08/2009 em 20:11

Marc Chagall – “Solitude”

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Escrito por André Tavares

24/08/2009 em 01:13

Publicado em CULTURA LIVRE

No Twitter #1

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«O Twitter é uma espécie de telefone-sem-fio; é como pássaros pousados na rede elétrica ou telefônica. Só que agora circulam por dentro de cabos ópticos.»

Escrito por André Tavares

28/07/2009 em 15:12

Publicado em CULTURA LIVRE

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Sal e fogo: o amargor do nostálgico e a esperança na técnica

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Eu sigo o Alon Feuerwerker (@AlonFeuerwerker), e já conhecia o blogue dele há algum tempo. Por meio do Twitter chamou a atenção para uma entrevista do Saramago para o Prosa Online, descontente com as considerações do escritor português a respeito do serviço de micro-blogging. Entre elas:

[o Twitter] Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

Eu concordo com o Saramago, a maneira como a internet é utilizada está largamente errada – sim, isso é um juízo de valor. E o culpado não é o Twitter nem a própria internet, e nem sequer sabe-se como é que se dará jeito no problema. Mas qual o problema? Sofisticação. Não, não estou falando do hype ou do in, estou falando de formação, cultivo do gosto. Aprendi com uma coisa com o próprio Alon: há espaço [no jornalismo] para a não neutralidade, desde que assumida. Assumo meu posto: sou aristocrático quanto à educação, e nesse ponto acho que mesmo gigantes discordantes como Platão e Nietzsche concordam, acredito que há um “gostar direito”. E não, eu não estou dentro desses limites, sou meio judeu, descendente de sefarditas e de nordestinos. Sou pobre e mal educado.

Mas não gosto do efeito cultural das camadas médio-letradas (é assim que diz?), mesmo eu estando aí ou limitado a isto mesmo. A paideia não se faz adequadamente pelo mercado ou pelos projetos estatais de educação universal – ter Os Pensadores nas bancas a preços populares ou Grandes Compositores a R$10,90 não fará de nenhum de seus compradores instruídos naquilo que estão consumindo. São coisas que exigem apresentação, mediação, instrução, cultivo e tempo. Não temos nada disso. Os professores da rede pública nem passam nem perto dessa construção… nem Paulo Freire.

Saramago está certo, o Twitter acaba sendo o veículo, o portador de um sintoma: poucas palavras, pouco desenvolvimento, instantaneidade, rapidez e fluidez. Culpa do serviço? Novamente, não! O Twitter é fantástico. Eu sigo gente que eu queria saber o que lê, o que ouve e o que chama a atenção – quero que me instruam (ingenuidade minha, eu sei). Eu quero compartilhar coisas que acho interessantes com amigos e a quem mais quiser. E muita gente bem formada, muito mais inteligente e cultivada que eu faz isso, e muito melhor.

Saramago está certo, rumamos para o monossilábico, para o grunhido, para o nada, e a escrita vai definhando (vide o próprio Saramago). Alon está certo, o Twitter é uma grande ferramenta. 140 caracteres foram o meio de organizar protestos estudantis nas Filipinas em 2001, e exerceram papel importante na Revolução Laranja na Ucrânia em 2004, e hoje em dia na China… Mas as mudanças não se fazem somente pelos meios de que se dispõe – Saramago e Feuerwerker sabem disso. Gutemberg era tecnologia, revolução na forma de tipos móveis, seu invento mudou a face da Terra. Mudou? Nem tanto, logo veio a ideia de copyright. Uma história interessante, quero falar disso depois. A Bíblia na mão de todo crente mudou alguma coisa? Sim, estilhaçou a Cristandade, deu motor à Reforma, fez uma enorme diferença. Mas a Bíblia na mão do povo produziu o evangelicalismo popular, tosco e inculto, desconhecedor da tradição dos pais, zombador da erudição. Grunhidos. No final são apenas os lados da mesma moeda: o sal amargo e os fogos de artifício.

A mudança promovida pela popularização me parece ser apenas da posição dos agentes, de suas roupagens. O drama continua o mesmo, pior eu diria. Mais feio. Quando o profeta dizia “de Sião sairá a Lei e a Palavra de D’us de Jerusalém” queira o Eterno que não estivesse se referindo à invenção da imprensa.

Eu vou continuar usando o Twitter, vou continuar escrevendo coisas que não resistiriam a dois minutos de escrutínio de um conhecedor verdadeiro dos assuntos que palpito. Serei sempre, no máximo, um médio letrado. Mas gostaria de ser mais que isso, ou o mais íntegro que puder, ainda que seja somente reconhecendo a condição. Ah!, sim, tenho provas que é possível micro-blogging de qualidade, Gustavo Nagel e seu estilo aforístico. É possível escrever bem até de futebol: André Egg, mas eu queria mais vê-lo falar sobre música erudita brasileira. Há como ser discípulo de Paulo Freire e escrever reflexões respeitáveis: Igor Miguel; ou ser um autodidata endiabrado em línguas semíticas antigas: Érike Lourenço.

No final desse post, espero que Nietzsche e Platão estejam errados. Que tuitar e ser um bom escritor seja possível. E que um dia eu seja mais que um médio-letrado.

Nota: eu escrevi um texto nesse blogue sobre o problema da internet libertária, fica o apontador pra quem quiser ler.

Vive la liberté, la vélo liberté

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Minha esposa esteve em Paris, em ‘98, e sempre diz que a cidade é linda – o que muita gente diz, é verdade, mas a Carol sempre percebe coisas em detalhes muito peculiares, que me interessam bastante, por isso o “Paris é linda” que ela profere tem outro significado para quem a conhece (óbvio que muitas outras pessoas com bom gosto, ou com gosto parecido com o dela ou com o meu terão uma opinião similar); refere-se aos parques, às pessoas e a cidade integradas de alguma maneira mais saudável, lugares pequenos e simples mas gostosos para comer ou tomar um café, leitores em bancos de praças, ou lendo no horário de almoço sobre uma toalha estendida num gramado, as crianças e os velhos, essa coisas.

Eu nunca fui a Paris. Alguns amigos foram. Um casal que eu prezo demais e muito devo fez um roteiro bastante cultural (museus e essas coisas, mas é o que eles tinham que fazer naquele momento, não é uma censura), e trouxeram percepções que me ajudaram a entender as origens romanas do culto cívico francês estampadas na arquitetura parisiense. Um outro amigo, um sujeito bastante provinciano, gostador de certos hábitos simplórios (se eu ainda morasse onde ele mora, seria muito mais feliz), ficou encantado com a quantidade de “leitores públicos”. Quem sabe o clima parisiense ajude, acho que ler no calor de Belo Horizonte é impossível (hoje, Domingo, finais de julho, brilha um sol maravilhosamente quente, sem aquele ardor invernado ou a cresta do verão, e 23°), e áreas arborizadas não parecem ser projetadas para leitores por aqui (tente ler na Praça da Liberdade…).

Mas deixemos estas considerações sobre a Cidade Luz, porque o que quero falar é outra coisa sobre Paris. É o Vélib’, ou vélo libre, ou sistema público de aluguel de bicicletas que foi implantado em meados de 2007 e está fazendo dois anos. O princípio é simples, a logística, complicada. Uma empresa de publicidade outdoor ganhou, por licitação (?), o direito de explorar todos os expositores públicos da cidade, em troca, ou melhor, como parte do contrato, mantém o serviço, bancando as bicicletas, o pessoal e a manutenção. Bem, publicidade ou o monopólio dos anúncios de rua em Paris deve dar um dinheiro absurdo – a JCDecaux arcou com os mais de $ 100 milhões (de dólares?) para iniciar o serviço, contratou um corpo de 200 funcionários para a manutenção e é responsável por  tudo por um período de 10 anos. Além disso, todo o dinheiro dos aluguéis pagos pelos usuários vai para a prefeitura, sem falar de uma taxa anual de US$ 4 milhões para os cofres públicos. Isso parece plano de ganhos de marketing multi nível, mas tudo bem, vou acreditar nos dados que li na Wikipedia… (se meu inglês me traiu, alguém ajude).

O usuário paga uma taxa para utilizar o Vélib’ de €1 por dia, €5 por semana ou €29 por ano. Pronto, estando habilitado é possível alugar uma bicicleta quantas vezes quiser durante o período contratado, mas por 30min por vez; se for preciso, pare num outro posto, devolva a primeira e pegue outra, e assim por diante… cada período adicional com a mesma bicicleta implica em uma “multa”. Isso é para circular as bicicletas. Há 10 mil unidades distribuídas em 750 postos de locação, e o sistema tem previsão de ser dobrado logo (leia dados interessantes no Transporte Ativo).

Problemas? Claro. 3.000 unidades roubadas no primeiro ano; 20% dos casos de avaria são causados por vandalismo; postos da periferia não suprem a demanda pela manhã, e no mesmo período não há vagas suficiente para recolhimento no centro (as bicicletas dos postos periféricos confluem para lá…), que mais tarde não atende os ciclistas que querem ir para casa no fim do dia. Mas tirando o problema com os ogros, as dificuldades demonstram que o parisiense adotou o sistema, usa e quer mais. As taxas de vandalismo são altas para os padrões europeus, mas a JCDecaux deveria fazer um teste por aqui – a técnica do “bode na sala” ajuda muito nessas horas.

Eu nunca fui a Paris, mas parece que tudo o que dá certo lá ganha a aura de charme parisiense. As bicicletas da Vélib’ são lindas, robustas mas elegantes, parecem gostosas de usar (apesar das parcas 3 marchas e os quase 25 quilos), e estão cheias daquele modo civilizado francês. Devolvem algum romantismo às ruas da cidade… eu diria isso se estivesse lá. Mas eu nunca fui a Paris.

Curioso: os computadores das estações da Vélib’ rodam Windows, e é frequente acontecer de o usuário encontrar uma certa tela azul no monitor… Muito desse artigo foi tirado do verbete Vélib’ da Wikipedia. Vale a pena conhecer a página do serviço, aqui (há tradução para inglês e espanhol), e esse vídeo meia-boca no Uol (blegh! – não gosto do Uol, não sei por quê). No verbete da Wikipedia há a menção de um projeto para aluguel de pequenos carros elétricos… adeus romantismo…

Escrito por André Tavares

26/07/2009 em 18:00

Sim, eu tuito

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kevin-dyna-moe

Escrito por André Tavares

22/07/2009 em 23:34

Chicken à la carte

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Escrito por André Tavares

21/07/2009 em 16:30

Sambô, Rock’n Roll

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Escrito por André Tavares

20/07/2009 em 17:51

Publicado em música

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