Sobre cavalos, homens e política
Ao ex-presidente Gen. João Batista Figueiredo é atribuída a frase algo cômica “o cavalo é um animal apolítico”; a truculência da frase, porém, esconde um sentido que pode nos interessar. Na fábula “A revolução dos Bichos”, de George Orwell, o cavalo entre todos os animais da fazenda onde se deu a revolução é o que mais se doou num esforço de trabalho que sobrepujou-lhe as forças. Apostando toda sua fé na boa fé dos líderes da nova ordem, entendeu que devia esforçar-se em todos os seus recursos na cooperação da construção da nova sociedade das bestas. Acordando cada dia mais cedo, retirando-se para o descanso cada vez mais tarde, termina por esgotar-se, pondo sangue pelas ventas. Os comandantes revolucionários recompensam-lhe a fidelidade enviando-o para um lugar de descanso: a fábrica de salame. Seu corpo debilitado, trocado por alguns trocados, converteu-se na sua última doação.
Incapaz de compreender o que se passava à sua volta, inábil para perceber a mudança nos rumos e no desaparecimento da “vida pública” na fazenda, o cavalo é, de fato, o tipo apolítico. A ausência da racionalidade na vida, a destituição de uma vida contemplativa, reflexiva, a bios theoretikós, torna impossível a prática da política, da bios politikós. Pensar que o homem relegado ao trabalho, ao mero sustento das condições da vida biológica, o zoón, pode se erigir como sujeito político é um contra-senso. Como nos diz Hannah Arendt, o animal laborans é um solitário membro de espécie, alienado de sua condição humana, de abertura reflexiva. O projeto democrático para uma sociedade de massas parece incompatível com o princípio da solidão contemplativa, necessária para o exame da realidade, absolutamente determinante para a saúde do debate no espaço público.
A relação entre razão e política é tão íntima, que não se pode esperar de uma civilização que renuncia ao chamado da vida do espírito menos que a supressão da liberdade e a deterioração da posição do homem. Contudo, tanto para gregos como para cristãos, parece claro que nem todos os
homem quererão a honestidade e integridade intelectual como fundamento do debate e diálogo político, muito menos o status de equidade no espaço público, fazendo da política um campo de retórica e armadilhas discursivas. Como realizar o homem, animal racional, no ideal do homem político, na biós politikós? É preciso compreender os laços entre ambos e as vias de uma à outra.
Manifesto em apoio à Universidade Presbiteriana Mackenzie
Pessoal, estamos diante de uma matéria grave. A Constituição brasileira garante a todo cidadão a segurança e a proteção contra toda forma de descriminação e preconceito. Contudo, certos grupos ligados ao movimento homossexual estão tentando distinguir um grupo destacado-o dentro da sociedade com base meramente em sua preferência sexual, e tentando fazer garantir por leis específicas direitos que não só vão além daquilo que garante a Magna Carta para todos, mas também atentam contra outro princípio pétreo, base da democracia, que é a liberdade de consciência. Todos que se opõem à homossexualidade por princípio, em qualquer instância (moral, ética ou religiosa), estão sendo rotulados como “homofóbicos”. Ora, homofobia é um termo psiquiátrico, se não me engano, que designa o comportamento psicopata de sujeitos que atacam e matam homossexuais; o conceito foi pervertido para designar mesmo quem é intelectualmente, ou seja, por princípios, contrário à prática da homossexualidade. Os cristãos são o principal alvo dessa campanha. Devo dizer que um cristão não tem qualquer base para agir violentamente contra um homossexual, não pode apoiar leis que inibam a prática homossexual por força e coerção, mas pode manifestar sua opinião e guardar seus princípios. E este direito está na Constituição. Recentemente a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, passou a ser alvo de forte campanha de oposição por haver manifestado os princípios cristãos que a norteiam, mais especificamente num pronunciamento a respeito da homossexualidade. O manifesto que segue abaixo é uma reação de repúdio à mordaça ideológica que se quer colocar na sociedade brasileira por ação de grupos homossexuais e aliados. Eu a subscrevo.
UNIVERSIDADE MACKENZIE: EM DEFESA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO RELIGIOSA
A Universidade Presbiteriana Mackenzie vem recebendo ataques e críticas por um texto alegadamente “homofóbico” veiculado em seu site desde 2007. Nós, de várias denominações cristãs, vimos prestar solidariedade à instituição. Nós nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado. Ora, nossa liberdade de consciência e de expressão não nos pode ser negada, nem confundida com violência. Consideramos que mencionar pecados para chamar os homens a um arrependimento voluntário é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nenhum discurso de ódio pode se calcar na pregação do amor e da graça de Deus.
Como cristãos, temos o mandato bíblico de oferecer o Evangelho da salvação a todas as pessoas. Jesus Cristo morreu para salvar e reconciliar o ser humano com Deus. Cremos, de acordo com as Escrituras, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Somos pecadores, todos nós. Não existe uma divisão entre “pecadores” e “não-pecadores”. A Bíblia apresenta longas listas de pecado e informa que sem o perdão de Deus o homem está perdido e condenado. Sabemos que são pecado: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, rivalidades, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (Gálatas 5.19). Em sua interpretação tradicional e histórica, as Escrituras judaico-cristãs tratam da conduta homossexual como um pecado, como demonstram os textos de Levítico 18.22, 1Coríntios 6.9-10, Romanos 1.18-32, entre outros. Se queremos o arrependimento e a conversão do perdido, precisamos nomear também esse pecado. Não desejamos mudança de comportamento por força de lei, mas sim, a conversão do coração. E a conversão do coração não passa por pressão externa, mas pela ação graciosa e persuasiva do Espírito Santo de Deus, que, como ensinou o Senhor Jesus Cristo, convence “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).
Queremos assim nos certificar de que a eventual aprovação de leis chamadas anti-homofobia não nos impedirá de estender esse convite livremente a todos, um convite que também pode ser recusado. Não somos a favor de nenhum tipo de lei que proíba a conduta homossexual; da mesma forma, somos contrários a qualquer lei que atente contra um princípio caro à sociedade brasileira: a liberdade de consciência. A Constituição Federal (artigo 5º) assegura que “todos são iguais perante a lei”, “estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Também nos opomos a qualquer força exterior – intimidação, ameaças, agressões verbais e físicas – que vise à mudança de mentalidades. Não aceitamos que a criminalização da opinião seja um instrumento válido para transformações sociais, pois, além de inconstitucional, fomenta uma indesejável onda de autoritarismo, ferindo as bases da democracia. Assim como não buscamos reprimir a conduta homossexual por esses meios coercivos, não queremos que os mesmos meios sejam utilizados para que deixemos de pregar o que cremos. Queremos manter nossa liberdade de anunciar o arrependimento e o perdão de Deus publicamente. Queremos sustentar nosso direito de abrir instituições de ensino confessionais, que reflitam a cosmovisão cristã. Queremos garantir que a comunidade religiosa possa exprimir-se sobre todos os assuntos importantes para a sociedade.
Manifestamos, portanto, nosso total apoio ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil publicado no ano de 2007 e reproduzido parcialmente, também em 2007, no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por seu chanceler, Reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Se ativistas homossexuais pretendem criminalizar a postura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devem se preparar para confrontar igualmente a Igreja Presbiteriana do Brasil, as igrejas evangélicas de todo o país, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Congregação Judaica do Brasil e, em última instância, censurar as próprias Escrituras judaico-cristãs. Indivíduos, grupos religiosos e instituições têm o direito garantido por lei de expressar sua confessionalidade e sua consciência sujeitas à Palavra de Deus. Postamo-nos firmemente para que essa liberdade não nos seja tirada.
Um comentário sobre “Apedeuta e digital”
Pessoal, a Carol fez um comentário tão bom sobre o meu texto anterior, e tão superior a ele, que decidi que o mínimo que deveria fazer era publicá-lo com o devido destaque. Bom, alguns podem pensar que faço isso somente pelo fato (suficiente) de que ela é minha esposa; a isso só posso responder com o convite à leitura do que segue. Carol, obrigado.
Caro André, seu post é extraordinário. Ao lê-lo relembrei dos ensinamentos de Hugo de São Vitor aos seus discípulos, legado contido na obra Didascálicon – “São três as regras mais necessárias à leitura: saber o que se deve ler, em que ordem se deve ler, como se deve ler”. O impressionante é que para os medievais não bastava apenas saber esta regra, era preciso compreender que o trabalho intelectual tem como fim último a Verdade, a busca da compreensão de que o mundo (e tudo o que nele há) possui uma ordem; criando o mundo Deus o dota de racionalidade, por isso deveríamos nos debruçar sobre as coisas com seriedade, mas isso só é possível, dentro da visão medieval, se restaurarmos nossa capacidade de conhecer dentro do modelo da Sapiência (Deus, a Verdade). Nossos amigos do Medievo ressaltavam, então, que é preciso um retorno a essência humana (o movimento da razão humana que percebe que por si só não pode conhecer). Pensando sobre isso, Hugo propõe que a semelhança do homem com Deus é restaurada pelo conhecimento. Ponto interessante e desafiador para nossa mente (pós) moderna, que vê o conhecimento como uma coisa descompromissada. Mas olhar para os medievais nos ensina uma coisa interessante: que para desenvolver bem nossa vida intelectual é necessário saber organizar nossa própria busca pelo saber, é necessário permitir-se ordenar pelo divino, então é necessário comprometer-se consigo e com a Verdade.
Se nossos amigos medievais tiverem razão, nosso compromisso por aprender as coisas é na verdade e em última instância algo capaz de nos remeter à nossa Origem – o próprio Deus -, então deveríamos nos aproximar do saber com um mínimo de respeito e humildade. É justamente isso: se tem uma coisa que aprendo com os medievais e que admiro neles é que para eles aproximar-se da sabedoria é aproximar-se do Transcendente, então não dá para fazê-lo mais ou menos, ou fingir fazê-lo para aparentar aos outro um pseudo intelectualismo, porque, no fundo, o pseudo seria na verdade aquele que engana a si mesmo, uma vez que falseia um relacionamento com o Saber que na verdade não possui… É, meu amigo… quem sabe para este não caiba também aquela parábola do joio e do trigo? Triste somos nós quando mentimos para nós mesmos, tristes somos quando para alcançar reconhecimento fingimos uma amizade com a Sabedoria. Ai de nós quando a Verdade nos julgar, se tudo o que tivermos feito for falsear.
Abraços, Carol.
Apedeuta e digital
Ouvi, não me lembro onde, que Geza Vermes reclamara que depois da publicação do Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, em 1922, todo mundo ia se tornar perito no paralelismo entre fontes judaicas e Novo Testamento, e nessas coisas de hermenêutica e exegese. Se Vermes disse isso ou não, eu não sei, mas vale muito o espírito da censura. A quantidade de ferramentas, não só no campo das ciências bíblicas, mas em quase todos, disponíveis e cada vez mais acessíveis, sobretudo com a digitalização de documentos, artigos e obras inteiras, causa espanto. E o que espanta dobrado é seu efeito mais esdrúxulo, o especialista instantâneo, munido do CRTL+F e do Google, pronto a citar as mais diversas obras e autores. Óbvio, e é desnecessário dizer, que não leu nada do que invoca nem estudou nem domina as técnicas e bases metodológicas necessárias.
Um dos maiores horrores para Mortimer Adler era o leitor de comentadores, de obras secundárias, sumários e resumos “críticos” explicativos e “digestivos”, que dispensa a leitura dos autores originais, ou melhor, dos textos originais dos grandes autores, os famigerados clássicos. Se a dura reprimenda era dirigida ao fuçador de companions, de guias rápidos e similares, hoje Adler se escandalizaria com o uso irresponsável e generalizados das obras completas digitais. O bacharel de hoje além de péssimo leitor, incapaz de extrair o conteúdo de um texto, de compreender um autor, é capaz de aventurar-se nas mais sofisticadas críticas e de elencar antes do mais básico e simples exame uma enxurrada de material crítico e refutações…
Numa aula do Pe. Libanio SJ, professor emérito da FAJE, impressionou-me seu relato de um passeio pela antiga biblioteca dos professores, vedada aos alunos, com o Pe. Vaz SJ, em que este ia indicando para o então aluno Libanio as obras mais importantes e que deveriam acompanhá-lo durante a vida acadêmica. Lê-los todos foi uma tarefa vitalícia, tomou toda a trajetória de 60 anos de estudos. O domínio de cor – que quer dizer, como recentemente ressaltou Norma Braga, de coração -, a internalização muito própria dos conceitos numa síntese coerente e abrangente me fez pensar bastante. Outros discípulos da pedagogia inaciana, meus professores, possuem a mesma desenvoltura, e essa virtude não está na fagocitose de uma quantidade enorme de informação e de dados, mas numa estrutura muito sólida e funcional que permite o bom manuseio das ferramentas. A erudição não é a base da construção da vida acadêmica, mas o resultado de uma forma autêntica (ou seja, que confere autoridade), íntegra, de intelectualidade.
É verdade que todo discurso moralista tende a ver sua época como a pior, a seus pares como os mais baixos. Gostaria de não cometer esse erro; mas a conjunção de um ambiente acadêmico que forma qualquer coisa menos intelectuais e meios de pesquisa instantâneos produzem uma falsa sensação de produção e apropriação de conhecimento. E desovam uma quantidade enorme de falsos especialistas cheios de incompreensão sobre os termos, temas e desenvolvimentos do campo que pretendem expor. A diligência e “teimosia paciente” de um Avicena ou Averróis, debruçado em trinta leituras do De Anima de Aristóteles até poder exclamar entendi!, desaparecem no falso brilho proporcionado pela pretensa extensão da memória e da inteligência pelos loci virtuais. A tragédia é que isto é um retrato de mim, inclusive.
A solução para isso não é a restrição do movimento de digitalização, que já é um fato consolidado, queira ou não a indústria editorial. Ao contrário do que acontece com a música digital, sua distribuição e compartilhamento pelas redes, que acaba acumulada em gigabytes (ou terabytes) em HDs e nunca ouvida de fato pelos usuários, a quantidade de obras e recursos disponíveis para os interessados em temas ilustrados exige ainda mais o preparo, orientação e seriedade. Exige muito mais da educação clássica, justamente aquela que anda fora da moda. Hoje as teorias do aprendizado insistem numa tal “inteligência múltipla”, dinâmica, ou “inteligência do hiperlink”, sem saber do que isso trata exatamente ou o que isso implica na compreensão de elementos da alta cultura. Quanto mais isso é martelado, mais parece crescer a razão dos medievais no seu modelo do trívio e quadrívio.
Novamente, qual seria solução? Parece ser a mesma antiga resposta: alguns poucos livros, bem lidos e, portanto, compreendidos. Fazer silenciar, ao menos internamente, os gritos urgentes de assimilação das novidades e disponibilidades, e aquietar-se junto aos pés daqueles que são o cânon da civilização ocidental. Depois disso feito, quem sabe, mirar as capilaridades contemporâneas. Isso é muito conservador? Tomara. Difícil de realizar? Bastante. Mas, como diziam os gregos (Platão), chalepá tá kalá – as coisas belas são difíceis. Difíceis e veneráveis, exigem respeito e esforço, sobretudo se não quisermos ver grandes coisas recitadas com a mesma displicência de um comercial de biscoitos.
Retratação
Caros amigos e leitores deste blogue,
Eu estou ausente do blogue há muito tempo. Quando não há nada para escrever, é melhor não tentar; mas volto agora a escrever por um motivo grave. Muita gente sabe que sou de origem judaica e que sou cristão, durante quase dez anos me identifiquei com o movimento de judeus e descendente de judeus conhecido como Judaísmo Messiânico. O termo denomina tanta coisa hoje, que pode provocar de simpatia a repulsa em que o ouve. O fato é que participei do movimento, frequentei uma congregação, quem sabe a maior do movimento no Brasil. Casei-me lá. Trabalhei lá. Escrevi aqui e em outros lugares sobre o tema, defendi (e defendo) uma expressão judaica da fé cristã, e uma rememoração das raízes judaicas do Cristianismo. Por vezes isso soou como uma proposta de desnaturação da fé cristã e um ataque às suas formas históricas legítimas (sim, continuo achando que há expressões históricas ilegítimas do Cristianismo).
Sou jovem, vivi pouco. E o tempo que passou me fez encontrar gentes, pessoalmente ou em livros, que me ensinaram muita coisa, e arrefeceu aquele fervor partidário da juventude. Dizem que isso é amadurecimento. Deus ajude que seja. O quê eu aprendi, tanto de Judaísmo como de Cristianismo me fez romper com o Judaísmo Messiânico na forma da congregação de onde eu era membro, juntamente com minha esposa. Não havendo outra congregação de judeus crentes que mantenha a ortodoxia cristã, estamos ligados à Igreja Esperança, em Belo Horizonte, pastoreada pelo mui querido Pr. Guilherme Carvalho. Para lá fomos, um grupo de amigos nessa jornada. Cometemos muitos erros – teológicos, doutrinários, de mera opinião, enfim – e agora precisamos nos retratar. Em meio ao luto, à vergonha, escrevemos um documento, uma retratação pública em que reconhecemos nossos erros junto à Igreja, pedimos perdão e reconciliação. Este documento está aqui. Peço aos amigos que o leiam.
Gostaria de dizer que sou um Benjamim, um Benjamim de Souza, descendente de judeus portugueses que vieram parar no interior da Bahia, guardaram sua identidade, mesmo depois de crerem no Cristo, há muito tempo atrás. Sou um Tavares, marrano mineiro. Sou um Lopez Martins, marrano espanhol, cuja família está nos registros da Inquisição em Córdoba. Mas sou isso aos pés da Cruz, e o Crucificado me capturou – e se Ele me separou do convívio com o Povo, se esta é a minha vergonha, que seja para Sua Glória. Não me esqueço de Jerusalém, mas minha língua se grudou ao palato, de choro. Minha mão direita desfalece, de tristeza. Mas a Cidade foi por Ele eleita por Sua morada, eternamente. Que meus olhos possam vê-Lo sobre ela assentado, glorificado e reinante. Deus, dai-me forças.
Vive o Povo de Israel,
Porque a Igreja vive;
Vive a herança dos Nossos Pais,
Porque vive a Sua Palavra;
É Eterno o Trono de David,
Porque Seu Trono é Eterno;
Vivemos nós os desgarrados de Judá,
Porque estamos n’Ele;
Vivo eu aqui e assim,
Porque Ele teve misericórdia.
Sião
“O Senhor preferiu Jerusalém por sua morada”, foi o verso que ouvi, lindamente entoado, numa missa na sexta-feira passada, na Capela Santo Inácio, na Faculdade Jesuíta, em Belo Horizonte.
Batendo na meretriz*
Resolvi publicar aqui um comentário sobre o texto Uma boa velhinha, de Léo Cruz Souza, indicado por André Egg por ocasião de nosso debate suscitado pelo artigo sobre o dia da consciência negra. Como isso aqui depende daquilo lá, é bom ler o artigo antes, obviamente. Eu não conheço o Léo, e digo a ele que o espaço está aberto aqui para o debate – e explico que não comentei diretamente em seu blogue porque seria muito extenso: se há muito a ser dito, melhor escrever uma resposta.
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Se compreendi bem, o problema levantado é que o Nazismo foi um movimento, se não ambiguamente cristão, cristão de todo, apoiado por cristãos, e pelas instituições cristãs, sobremodo a Igreja Católica. Assim, o Nazismo tem menos a ver com o materialismo, ateísmo ou evolucionismo do que alguns (ou muitos) dizem, e tem profundas raízes no Cristianismo.
Os argumentos de Léo Cruz Souza baseiam-se na filiação cristã dos principais membros do partido nazista, no não rompimento formal do partido com as igrejas cristãs (católica ou protestante), no uso de termos e referências cristãs por Hitler e elementos do partido e a ausência de resistência sistemática dos cristãos: a Igreja fez alianças com os nazistas, que não foram sequer excomungados; boa parte dos membros das SS eram católicos praticantes, e o ambiente cultural e religioso alemão era cristão.
A explicação capaz de dar coerência a esses fatos, para Léo, é que o Nazismo é cristão, ou que o Cristianismo não veria incoerência em ser nazista, já que o antissemitismo é uma invenção cristã, não só Católica, mas principalmente protestante na Alemanha pela larga influência de Lutero. A tese do Nazismo como doutrina derivada do darwinismo estaria descartada ou diminuída.
O artigo de Léo Cruz Souza é, para mim, equivocado. Primeiro, a Igreja e a hierarquia não foram passivas em relação ao Nazismo, e isso está patente nas excomunhões. Sim, Léo diz que a Igreja excomungou somente Goebbels, e somente por haver se casado perante um pastor protestante (com uma protestante divorciada). No entanto, Goebbels não foi excomungado, mas se excomungou. Explico: a excomunhão na Igreja Católica pode se dar por pronunciamento, quando um membro da Igreja comete uma falta ou tem um comportamento suspeito e o caso é submetido a um tribunal eclesiástico. Mas quando o membro da Igreja comete um ato sabidamente contrário aos dogmas, que implica em excomunhão, não há julgamento, a excomunhão é automática, ou ipso facto (no ato do delito), também chamada latae sententiae.
Ora, se Goebbels se excomungou (e Léo sabe disso), Hitler e os nazistas católicos estavam excomungados no ato de seus delitos… e só poderiam retornar à comunhão com a Igreja mediante suspensão da sentença pelo próprio Papa. Veja bem: a questão não é nunca ter havido um pronunciamento de excomunhão por parte da Igreja, mas de nunca ter havido uma revogação da excomunhão. É que esperamos que a excomunhão seja uma espécie de apoteose, evento ou coisa assim – como se fosse usado como arma política, sendo na verdade uma questão eclesiástica. Houve sim a excomunhão de todo criminoso nazista na Alemanha.
Mas isso pode ser pouco para alguns. Contudo, depois das eleições de 30, quando os nazistas conseguiram grande quantidade de votos, o arcebispo de Mainz excomungou todos os membros do partido e proibiu a entrada de grupos uniformizados nas igrejas, seguido da afirmação no Osservatore Romano: “pertencer ao Partido Nacional-Socialista de Hitler é irreconciliável com a consciência católica”. Na conferência anual seguinte de bispos, adotou-se a ação do bispo de Mainz como padrão, salvaguardando a distinção entre os “membros” e “seguidores” (eleitores) do Partido Nazi, o que foi feito igualmente em relação aos partidos comunistas-ateístas nos anos 20 – ou seja, ninguém seria excomungado por votar no partido Nazi, como não foi por votar no PC. Contudo, as paróquias deveriam alertar os católicos a respeito da antítese entre Nazismo e Cristianismo, como se vê no conteúdo da Carta Pastoral: “Eles (Nazistas) colocam raça antes de religião; rejeitam o Antigo Testamento, incluindo os Dez Mandamentos; negam a autoridade do Papa por estar fora da Alemanha; planejam uma igreja nacional; colocam os «sentimentos morais da raça alemã» como o critério para toda a moralidade” (conferir o texto de Barton, citado ao final desse artigo).
No campo político, a Igreja era representada pelo Partido de Centro, parte do “Catolicismo Político”, que fazia oposição depois da ascensão de von Pappen (que foi expulso do Partido de Centro), quando a descrença nos valores democráticos fez com que os alemães confiassem seu destino ao regime forte ditatorial e de extrema direita. A maior parte dos eleitores cristãos do Partido Nazista estava mais atraída pela promessa de solução da grave crise e pela desconfiança causada pelo desastre da República de Weimar do que exatamente pela ideologia antissemita. Claro, caíram numa armadilha que contou com o despertamento dos sentimentos há muito geridos na alma germânica, entre eles, a abertura e disposição em relação a regimes “fortes” ou ditatoriais.
Os clérigos que demonstravam simpatia em relação ao regime foram isolados, e permaneceram assim até que o golpe derradeiro fosse dado em 33, quando passaram a gozar do apoio do Reich. A ênfase nesses indivíduos não faz justiça à história de centenas de padres e religiosos que arriscaram e perderam suas vidas em alguma forma de resistência – tal como a existência dos kapos nos campos de concentração e extermínio não implica em vilania para os outros judeus prisioneiros. Não se sabe ao certo, mas por volta de 800.000 judeus foram salvos por católicos, muitos deles escondidos em conventos, monastérios e dependências paroquiais. A Rádio Vaticano foi a primeira a transmitir internacionalmente a denúncia de massacre de judeus e católicos na Polônia ocupada, enquanto os Aliados permaneciam em silêncio.
Há outro engano grave na argumentação de Léo: o Reichskonkordat não foi uma aliança. A Santa Sé não assina tratados como acontece normalmente entre dois Estados, daí o uso dos “acordos” ao longo da história. Sua motivação é basicamente uma: na ausência de garantias de direitos e/ou seguridade para a Igreja num determinado Estado, ela procura assegurá-los por meio de uma Concordata. Com a separação entre Igreja e Estado e a secularização, o número de acordos desse tipo cresceu – e no caso da Alemanha, a luta de Bismarck contra a Igreja Católica (a Kulturkampf) havia impedido a assinatura de um entre a Santa Sé e a Alemanha, visto que Bismarck queria desmantelar o poder e influência católica na unificação . Havia apenas concordatas com localidades e regiões. Nos momentos críticos da década de 30 a Igreja tentou assegurar a liberdade dos clérigos, a coleta de contribuições, a liberdade da prática religiosa católica e a proteção da autonomia da Igreja (ou seja, de seus bispos). Isso era necessário porque era sabido que: (i) Hitler e o partido Nazi tinham planos de nacionalização da Igreja Católica, (ii) extirpou todos os partidos da base democrática em março de 33, (iii) os elementos pagãos da ideologia nazista não só não davam mostras de enfraquecimento, mas se avultavam, (iv) era preciso estabelecer uma base para alguma resistência.
O Reichskonkordat era tecnicamente um tratado, e colocava a questão da ingerência do Estado Nazista sobre os bispos e a Igreja Católica inconvenientemente no âmbito ou com implicações nas relações internacionais e diplomáticas – visto que o Vaticano também é um Estado e que a comunidade católica tem forte solidariedade. As igrejas protestantes alemãs não possuíam este recurso – eram alemãs – seus acordos eram entre alemães e o Estado Alemão, fugir do domínio sem ser dissolvido era impossível. Outro ponto que tornava os protestantes mais vulneráveis era a fraca hierarquia e a falta de unidade doutrinária: se um bispo não pode tomar parte ou decisões unilateralmente e desconsiderando a posição papal, as denominações protestantes não só são fruto de cisões, como estabelecem certa autonomia.
O custo da Corcordata para a Igreja foi a extinção do Partido de Centro, ou seja, Hitler punha fim ao incômodo da ação do Catolicismo Político, coisa ansiada desde Bismarck. E aqui eu teria algumas perguntas: Chamberlain e Daladier acordaram com Hitler, isso faz deles nazistas? Stalin e a URSS assinaram um tratado de vilania ainda maior com Hitler; isso faria dele um nazista, ou simpatizante do Nazismo? Obviamente, não. Pois então, o raciocínio tampouco é aplicável à Igreja.
O fato de Hitler ter usado frases que aludiam a supostos “serviços a Deus”, o fato de nunca ter rompido verbalmente com o Cristianismo não são prova, absolutamente, de que era ou continuava cristão. Levantar isso até como “evidência” ultrapassa qualquer bom-senso. Além do que, do momento em que Hitler e o Partido Nazista endeusavam a raça, o povo alemão, a nação alemã e doutrinavam uma espécie de religião racista, já está mais do que caracterizada a completa discordância com o Cristianismo. Relativizar e dizer que Hitler era cristão é tão cínico quanto a prática cristã de Hitler. O fato de serem culturalmente cristãos, terem surgido numa cultura cristã, não faz dos nazistas cristãos; antes, faz com que seus crimes e comportamento sejam julgados de acordo com o métron da ética e justiça cristãs.
A partir de 1935 a hostilidade nazista contra as igrejas, e particularmente a Igreja Católica, revelou a contradição e antítese. Primeiro, a religião cristã passou a ser atacada por ser herdeira e fundamentada no Antigo Testamento, ou seja, era semita em alguma medida. A resposta da Igreja foi a encíclica Mit brennender Sorge (1937) que enfatizou drasticamente a inversão entre Nazismo e Cristianismo, e condenando qualquer doutrina racista como contrária à fé cristã no seguinte Sílabo contra o Racismo (de 1938).
Sobretudo, dizer que Nazismo nunca fora “materialista” como o Comunismo (convenientemente trocado por “stalinismo”) é desconhecer o âmago da doutrina nazi: a raça, a determinação e escatologia biológicas. No Comunismo, ao menos, há a “abertura” à ação humana como agentes na história. O Nazismo é muito mais materialista, por sua base naturalista, que o comunismo. E o naturalismo nazista é, indubitavelmente, uma cria do romantismo épico germânico (de Wagner) e o evolucionismo. Não é fortuito que o nazismo procurou uma justificativa científica para a superioridade da raça ariana, e também não é sem motivo que tenha procurado as fontes pagãs teutônicas e germânicas. O Nazismo é, de cabo a rabo, resultado de tudo o que é exatamente anti-cristão: raça, escatologias e teleologia secularizadas modernas, paganismo.
Eu não faço com isso uma defesa irrestrita da Igreja Católica ou do Cristianismo na Alemanha, mas igualar ou aproximar, como Léo Cruz Souza faz, Cristianismo e Nazismo nessas bases é, no mínimo, criminoso. Usando uma citação de Lutero, tirado de “Dos judeus e suas mentiras”, que demonstra corretamente a raiz profunda do antissemitismo no Cristianismo, crê haver desmentido a tese (não só de Olavo de Carvalho) que associa darwinismo e nazismo… Mas até na questão do antissemitismo há que se fazer distinções. Hitler estava certo: pode fazer o que fez por causa da base antissemita e anti-judaica que o Cristianismo construiu ao longo de mil e quinhentos anos. Mas a natureza do antissemitismo nazista é distinto: o ódio ao judeu é racial, é ontológico. O antissemitismo cristão é derivado das querelas teológicas e religiosas, é herdeiro do anti-judaísmo cristão desenvolvido desde os Pais da Igreja. O antissemitismo cristão nunca propôs, de fato, uma solução de extermínio nos moldes nazistas. Mesmo o pior capítulo do antissemitismo cristão, a Inquisição Espanhola, possuía uma via de assimilação (ainda que mínima).
O conflito social e cultural do Cristianismo com o Judaísmo produziu injustiças, muitas injustiças. Mas seu núcleo era a necessidade cristã de ver a maior prova de sucesso possível acontecer: os irmãos mais velhos aceitarem o Evangelho. Novamente, eu não estou justificando nada do que foi feito com os judeus pelos cristãos, nem as doutrinas cristãs antijudaicas. Somente enfatizo que a necessidade cristã é o universalismo – enquanto o Nazismo é a diferença (a preservação da raça pura). O Cristianismo queria englobar (ou incluir), o Nazismo queria destruir o que via como ameaça fundamental, a anti-raça judaica. Na religião racial Nazista, o demônio, o zênite é o judeu, não como cultura, religião ou “casta”, mas como raça – da mesma maneira que não se converte ratos em outra coisa, mas somente os extermina para cessar a praga, os judeus deveriam ser extirpados. De maneira ou outra, os judeus viveram nas sociedades cristãs por quase dois milênios – e quando as perseguições se tornavam insuportáveis ou decretava-se expulsões, era em Roma, sob o governo papal, que muitos encontravam abrigo e segurança, visto que desde Gregório, o Grande, perseguir os judeus é proibido pela Igreja.
Ora, não será isso suficiente para discernir diferença brutal entre Cristianismo e Nazismo mesmo no campo da torpeza antissemita?
Sobre a resistência cristã, não foi assim tão pequena como é dito. Adjetivos como “covarde”, “colaborador”, “impassível” são fáceis de emendar aos cristãos pos facto. Mas, os partizans, mesmo os comunistas, não eram também cristãos, filhos de cristãos, criados num ambiente cristão? Israel tem não poucas árvores plantadas em memória aos “justos entre as nações” que resistiram escondendo ou ajudando vítimas a fugirem e sobreviverem. É a forma como se pode resistir contra e dentro da máquina nazista. Quem lutou em exércitos não eram, da mesma forma, “culturalmente cristãos”? O silêncio e covardia cristãos não foram tão grandes assim – afinal o Nazismo foi derrotado… inclusive por nações cristãs.
E mesmo nos pecados, curioso, somos iguais; muitos que podiam ter feito algo, não fizeram, não só clérigos: os russos deixaram de fazer frente no front oriental, o que deixou a Polônia como área perfeita pra o extermínio; os ingleses, franceses, americanos que contra-atacavam sabiam dos campos, dos embarques, dos trens que nunca tiveram as linhas bombardeadas, os fornos danificados, as plataformas arruinadas… mesmo com caças e bombardeiros sobrevoado-os. Tampouco a comunidade judaica norte-americana, distante geograficamente, rica e com poder fez o que pode, antes guardou silêncio temendo represálias internas (vide Elie Wiesel, A Jew Today). Se a Igreja não fez tudo o que podia, se aceitarmos essa premissa, muitos Estados, muitos grupos, não fizeram – seja por medo, seja por impossibilidade. A explicação, logicamente, não pode estar simplesmente no fato de ser cristão.
Os cristãos ficaram em silêncio porque o Cristianismo já não tinha ou era uma força política e cultural considerável e relevante. A secularização e o liberalismo na Alemanha e na França esterilizaram o ambiente público da influência cristã/religiosa e os teólogos liberais trataram de reconduzir a religião para seu novo campo, a interioridade privada. Do ponto de vista ortodoxo, já não era Cristianismo… ou era aleijado.
As igrejas cristãs erraram, as culturas cristãs falharam. É verdade, o Nazismo construiu as ferrovias para Auschwitz inclusive com ideias cristãs. E a Cristandade teá que lidar com isso, e pensar em como aconteceu e como não acontecer novamente. A Igreja poderia ter sido enfática e contra a perseguição aos judeus, e não foi. No melhor texto atual que conheço sobre o assunto, Rhonheimer deixa claro como a recusa da Igreja em denunciar abertamente o antissemitismo nazista, por temer confrontar o seu próprio, custou caro. Entretanto, por mais que alguns dos subsídios para o Nazismo tenham sido acumulado pelas doutrinas e práticas cristãs, isso não faz com que o Cristianismo possa ser reduzido ou aproximado em cumplicidade ao projeto Nazi. Mas, repito, a demora em agir, a impassividade clama pela atribuição de responsabilidade, e, com certeza, o Cristianismo tem seu quinhão. Tanto quanto todos os envolvidos na história.
Por último, diria que há elementos suficientes para uma crítica ao Cristianismo em vários fatos e contextos. Contudo, reduzir o Cristianismo ao zeitgeist para enfraquecê-lo e tornar mais fácil o embate é, a meu ver, uma grave falta intelectual. O contexto cristão na Alemanha e na Europa é um dado, e isso tem consequências – mas o conceito Cristianismo não se esgota aí. O Cristianismo estava do lado oposto quando oprimido pelo Império Romano, pelo Império Soviético, pelo próprio Reich; a Igreja Católica estava, no Brasil contemporâneo, pela CNBB, dando suporte à Caravana da Cidadania (que era logisticamente amparada pelas Comunidades Eclesiásticas de Base); bispos católicos, pastores protestantes e rabinos liberais foram presença decisiva na implementação e inclusão dos Direitos Humanos na constituição da ordem mundial pós-guerra. Esses contextos não são Cristianismo, não o esgotam, mas junto com toda a história demonstram a sua força, amplitude e valor, e as ambiguidades e riscos a que está sujeito.
O Cristianismo europeu do século XX, sobretudo da primeira metade, é o que sobrou do esvaziamento que sofreu desde o século XVII… quando as desgraças decorrentes aconteceram, quer-se cobrar o preço em sua conta? Ou melhor, quer-se imputar-lhe a responsabilidade integral como agente operante?
Sobre o uso do Holocausto para a justificativa de ataques ao Cristianismo e à Igreja, recomendo o texto do Rabino Dalin. Recomendo também a leitura do livro do Pe. Edward Flannery (A Angústia dos Judeus: história do anti-semitismo. São Paulo: Ibrasa). O texto do Pe. Martin Rhonheimer é importante, porque pretende justamente expor os erros da Igreja no período pré-guerra. Muito elucidativo é o artigo de Dennis Barton (Hitler’s rise to power) sobre o papel e atitude da Igreja Católica e católicos nos anos 30 na Alemanha.
* Nota: O título refere-se ao dito «Ecclesia casta et meretrix» (Igreja virgem e meretriz), que resume a situação, não só da Igreja Católica, mas do Cristianismo, de cometer erros mil, mas acertos também. Seus pecados não podem obliterar completa e derradeiramente seus méritos – atacando a meretriz, fere-se também a virtuosa.
Minas, Patrus e o PT
Patrus Ananias é petista e mineiro. Pena que o PT não seja mineiro.
Minas Gerais é muito peculiar. É um estado que tem a síntese saudável entre tradição e modernidade, entre progresso e status quo não apenas tida por possível mas também crida em andamento, claro, num suposto projeto mineiro de mineiridade. O “meio-termo” mineiro é antológico na política nacional e entrou em cena em momentos tensos da República – e quando transmutou-se em sublevação, apoiou o Getúlio, a personificação do tradicionalismo progressista.
Ao mesmo tempo que católica, muito católica, tradicionalista como só a diocese de Mariana pode ser, Minas tem um largo comprometimento com a “Teologia da Libertação” e a militância social como manifestação de um dos aspectos mais evangélicos (o socorro ao oprimido) – é o estado de D. Hélder Câmara. Não pratica o sincretismo marqueteiro e escandaloso da Bahia, mas suas comunidades negras praticam ritos e conservam dialetos africanos com descrição e certa pureza; e Belo Horizonte tem mais terreiros do que se possa imaginar (há quem diga que esta é uma cidade mágica).
A Minas dos velhos redutos, das tradicionais famílias, a mesma dos Neves, é também petista; Belo Horizonte é governada por esquerdistas nesse naipe há quase vinte anos (de Patrus a Márcio Barbosa). Não queria usar as velhas e gastas imagens, mas todos os mineiros suspiram orgulhosos ao repetir que Minas é o cadinho do Brasil, a síntese brasileira, o laço que uniu as pontas do país, o estado da integração nacional. Petistas e Tucanos mineiros adoram apontar a política estadual como exemplo, ao contrário da rinha paulista.
E é nessa toada que falou o ministro Patrus Ananias na visita que fez à Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia, aqui mesmo em Belo Horizonte. Sem dizer diretamente que era pré-candidato ao governo, sem nomear de disputa a corrida contra Fernando Pimentel, sem reconhecer o papel eleitoral das eleições de diretoria no próximo dia 22, Patrus está fazendo campanha. E dessa vez tem o partido todo, ao que parece, consigo – somente a chapa de Reginaldo Lopes (deputado federal pelo PT-MG, favorito até agora) não o apoia, preferindo Pimentel.
O Processo de Eleições Diretas (PED) é o mecanismo democrático do PT para eleger a diretoria do partido, cada militante filiado tem um voto de peso idêntico, e a questão é a mesma dos últimos tempos pós-mensalão: como reconstruir a imagem do partido? Em Minas, a resposta é “construir alianças, voltar-se para fora”. Tanto Patrus quanto Pimentel defendem a ideia, é a resposta mineira. Mas isso não combina com o PT. Pimentel parece ter perdido apoio da base sobretudo por conta da aproximação com o governador Aécio Neves (PSDB) e apoiado um candidato laranja para a prefeitura de BH (Márcio Lacerda), crendo que Aécio o apoiaria na candidatura ao governo em 2010. Parece que o governador percebeu o barco afundar e vai preparando seu vice, Anastasia, para a campanha.
A situação de Patrus não parece ser melhor: é muito querido pelas bases, sempre lembrado como um grande prefeito de Belo Horizonte, sem acusações contra si, com larga amplitude de diálogo, desde setores populares a intelectuais e religiosos (é professor da PUC-MG); mas falta-lhe força para atravessar o mar de sargaços das tramas e interesses partidários. Patrus parece ser uma boa pessoa, é elegante, honesto e demonstra dignidade. Patrus é mineiro e petista.
O problema é que o PT não é, definitivamente, mineiro.
Patrus precisava somente de um aceno de Lula para legitimá-lo frente ao partido. E isso seria o mínimo que o presidente poderia fazer para o ministro encarregado da engenharia da política social do país. Em 2006 seria suficiente para que Lula rodasse o interior de Minas apresentando Patrus como o responsável pelo Bolsa Família que os famintos do estado votariam nele, e não haveria reeleição de Aécio. Mas Patrus, segundo ele mesmo, preferiu não se utilizar do programa do governo federal para ganhar uma eleição. Mas novamente Lula boicota seu importante subordinado – na reunião da FAO sobre segurança alimentar realizada há poucos dias, onde pretendia apresentar o Brasil como modelo de atuação contra a fome e desnutrição, Lula não levou e não deu destaque a Patrus. Deixou-o aqui no Brasil.
O PT é um partido de esquerda, e isso é o suficiente para que eu não seja petista. Mas isso não quer dizer que precisasse ser burro, estúpido, anti-lógico na hora de computar as forças e estratégias. Por alto, a quantidade de nomes importantes do partido que se retiraram e buscaram ou fundaram outras legendas é significativa. Marina Silva teve seu trabalho à frente do Ministério do Meio Ambiente inviabilizado por Dilma Rousseff (diga-se de passagem, mineira) em nome do tal PAC. Saiu e está se cacifando: por causa de sua pré-candidatura pelo PV já obrigou a própria Dilma e Serra a incluírem a questão ambiental em seus pacotes de campanha (Dilma, repentinamente, passou a ser interessadíssima em sustentabilidade, e será chefe da comissão brasileira na reunião sobre mudanças climáticas em Copenhagen).
Ciro Gomes, da base aliada, foi rejeitado e enxotado – agora declara apoio a Aécio e retirará sua candidatura se o mineiro for escolhido candidato pelo PSDB. Heloísa Helena fez o mesmo em relação a Marina. Se o PT fosse um pouco mais mineiro, soubesse ouvir, comer pelas beiradas, articular e aguardar a vez, saber retirar-se para expandir-se, ficaria no poder décadas… Como não é, as outras forças estão entocadas, esperando que o próprio Partido dos Trabalhadores destrua sua base com um projeto de supremacia e autossuficiência. O fiel da balança, o PMDB, é como os ratos: quando começarem a aparecer no convés, temos certeza de que o navio está afundando.
Ah!… Minas.
PS: Escrevi esse texto no blogue antigo, em 2006, que ainda é muito adequado, sobretudo em relação às manobras do PT e PSDB.
Ubuntu 9.10 “Karmic Koala”
Já fazem alguns dia que o Ubuntu 9.10 saiu, e desde então quem se interessa já leu, ou deveria ter lido, uma grande quantidade de análises muito bem feitas – o que anula a pertinência de que eu faça aqui uma outra e sem qualquer acuidade, visto que sou, declaradamente, um jacu. Ma gostaria de registrar algumas impressões.
#1. Ubuntu amigável e fácil de instalar. É impressionante como está intuitivo e simples a instalação e configuração do sistema! Creio que a maior dificuldade que um usuário sem experiência – é, o jacu – poderá enfrentar é particionar um HD, coisa que, eu me lembro bem, envolve receios e implica cuidados. A instalação dentro do Windows continua sendo uma das grandes sacadas da Canonical e dos desenvolvedores.
#2. Leveza e beleza. O novo tema Human, o splashscreen e toda a prometida correção de centenas de pequenos bugs que atrapalhavam a experiência do usuário fizeram uma grande diferença. Uma coisa que suscitava preconceito em muitos usuários era aquela aparência meio ’98. Não que fosse tosca, mas deixava alguma suspeita para quem vê em cosméticos indicativo de confiabilidade. Agora isto está quase resolvido desde a instalação padrão. Os aplicativos e ferramentas, como o controlador de som, está bem feito e funcional, os ícones se integram bem ao ambiente (no meu caso, GNOME).
#3. Melhora da experiência do usuário final. Eu uso um HP mini, e uma coisa curiosa é que há somente uma jack que serve tanto para a entrada como saída de som – o sistema precisa identificar o que está conectado. No Jaunty eu nunca consegui usar microfone, que não era identificado (nem o do próprio netbook). Agora o controlador identifica, lista, regula tudo, e ficou uma beleza. Isso faz toda a diferença para um jacu que quer o computador funcionando pra fazer o que precisa fazer. Isso é só um exemplo, mas acontece com outros aplicativos e funções.
#4. Boot mais rapido. Ahn… o Ubuntu tá apostando corrida sozinho, eu já estava satisfeito com o Jaunty, mas se eles querem me dar mais… ok, eu aceito! ;o)
#5. Nem tudo são rosas… e a vida é difícil. Como dizia um professor de Física que tive, “rapadura é doce, mas não é mole”. Já disse que são detalhes que podem decidir a escolha de um SO pelo usuário final (eu e a torcida do Flamengo, eca!). O Karmic veio com alguns problemas. Uma das facilidades que se tornou fundamental para mim foi o botão do meio (do mouse, o wheel) com a função “colar” – é só selecionar e depois clicar com o tal botãozinho que está feito. No touchpad o Ubuntu emula o terceiro botão no canto esquerdo do quadrado… bom, isso não funciona no Karmic. Com um mouse, ok, com o touchpad, não – diacho! Isso irrita! E não há solução à vista – antigamente com uma simples edição do xorg.conf, resolvia-se, agora como não há mais um arquivo xorg.conf… não sei o que fazer. E outra coisa chata: um pau no X que não me deixa abrir as janelinhas do botão direito… dá pra acreditar?
Conclusão: eu estou parecendo torcedor do América Mineiro, que chama os outros para ir ao campo torcer para o time, e lá chegando se desfaz em lágrimas e reclamações sobre o time. Mas vale a pena instar e migrar. Os problemas que listei não são impeditivos e devem ser restritos à configuração da minha máquina. Entre em sintonia com a liberdade com o Karmic Koala.
Nota: Não instale o gsynaptics para tentar consertar o problema com o touchpad – o problema com o X parece ser fruto disso; eu desinstalei o programa e voltou as janelas voltaram ao normal.
Atualização #1: para obter a facilidade da emulação do terceiro botão do mouse no touchpad, faça o seguinte (no GNOME): Sistema » Preferências » Aplicativos de Sessão. Isso abrirá um caixa, e na aba “Programas Iniciais”, clique em “Adicionar”, e no campo “Comando”, insira synclient RTCornerButton=2 e nos campos “Nome” e “Comentário”, coloque o que lhe aprouver, mas nomeie e comente, porque depois vc pode identificar o processo caso tenha que desfazê-lo. Na próxima vez que o sistema for iniciado, o terceiro botão estará emulado no canto direito superior no touchpad. Para ter efeito imediato, abra o Terminal, e digite o mesmo comando (synclient RTCornerButton=2), e dê Enter. Pronto, efeito do botão/scroll do mouse habilitado instantaneamente.
Atualização #2: Precisei reinstalar o Ubuntu no meu netbook. Se você possui um, é melhor não instalar a versão padrão. O único problema é que não há o desktop-switcher, para sair daquele ambiente medonho do UNR e ter a paz do tradicional GNOME… tive que remover tudo e adicionar os elementos (barras, ícones, etc) na mão.
Atualização #3: A área do desktop não exibe volumes, ícones ou atalhos, para passar a exibir o conteúdo e colocar “coisas” lá, é o seguinte:
É simples, o Desktop não está é “exibido” propriamente. Está na pasta Desktop (ou Área de Trabalho) mas não é mostrada. A solução é abrir o “Editor de Configurações” (Aplicativos » Sistema » Editor de Configurações – se não estiver presente, vá em Sistema » Preferências » Menu Principal que vai abrir uma janela; na coluna da esquerda, selecione Sistema e na caixa da direita, clique em Editor de Configurações, quando vc abrir o menu Aplicativos, estará lá). Uma vez o Editor de Configurações aberto, na coluna da esquerda, clique em “Apps”, depois, abaixo, em “nautilus”, e em “desktop”: na caixa da direita, habilite “volumes visible” – isso é suficiente para destrancar a Área de Trabalho. Se vc quiser, marque as outra opções para exibir o ícone da lixeira, computador, etc. Espero que tenha ajudado. O problema todo é fazer essa volta pra alguma coisa tão simples. É que o programinha que fazia a mudança de ambiente do UNR para o GNOME convencional (Desktop-switcher), que estava presente na edição passada, andou gerando conflitos e não estava estável até o momento do lançamento, por isso não está incluído.
Obrigado ao Thiago, que chamou a atenção para o problema.
Lógica do sul no centro
O governo provisório de Honduras entrou com uma queixa contra o Brasil no Tribunal Internacional de Haia por causa da forma como o governo e a diplomacia brasileira tem atuado no caso Zelaya, o presidente deposto e que encontra-se há semanas entrincheirado na embaixada tupiniquim em Tegucigalpa. A queixa, então, referir-se-ia à ingerência do Brasil sobre questões soberanas hondurenhas, coisa tão séria a ponto de poder desvirtuar o processo de instabilidade política em uma crise institucional e mesmo conflito civil.
A ministra Dilma Housseff falou à imprensa, e disse que não teme a queixa no tribunal internacional por ser uma reivindicação ilegítima, pois de um governo golpista. Honduras não precisa lá de muito mais evidências da ingerência do Planalto e do Itamarati: o Brasil insiste em sombrear ardilosamente a questão ao deturpar a nomenclatura. Golpe é quando as instituições e os processos são ignorados e desrespeitados, e um governo legítimo é deposto. Muito bem, o que aconteceu em Honduras foi a deposição de Zelaya pela Suprema Corte e Parlamento hondurenhos por um processo constituicional. Deixar Zelaya no poder é que seria anticonstitucional.
Curiosamente a mídia brasileira e o governo insistem em acusar a Justiça e o Parlamento de Honduras de “golpistas” – como isso poderia ser possível ao se cumprir a própria constituição? O apoio a Zelaya e o esforço dos governos de esquerda da América Latina para restituí-lo a presidência é claramente um ultraje à soberania hondurenha. Mas, claro, tudo é um problema de lógica – cumprir a constituição contra um bandido representante do narcopoder é golpe; entretanto, ninguém no Brasil disse nada quando Chávez rasga a constituição venezuelana a seu bel prazer, cerceia o direito à liberdade de expressão, e coisas tais.
Tudo, ao que parece, resume-se a uma questão de lógica, de ponto de vista. Se o Tribunal der ganho a Honduras, é parte do “esquema anti-democrático de direita”, se der ganho ao Brasil, cumpre seu papel – simples assim.
Lógica do sul
O Mercosul vai se tornando uma organização muito curiosa. Ao invés de cumprir tão somente seus objetivos de cooperação econômica entre países do Cone Sul, passará a ser também um clube promotor da democracia. Isso porque a entrada da Venezuela no bloco parece não se dar por justificativas econômicas ou pela perspectiva de fortalecimento do mercado regional, mas quase exclusivamente para promover a ampliação da democracia naquele país.
O raciocínio é simples: a Venezuela não poderia entrar por não cumprir as exigências democráticas dos protocolos do Mercosul, como liberdade de imprensa, direitos civis, transparências nas eleições (essas coisas); como ela não cumpre; então, que tal incluí-la e aí, quem sabe, Chávez não resolva adotar os padrões dos outros países participantes? Bom, nesse caso o parlamento brasileiro entenderia a participação como plenamente justificável (ao menos o relator do parecer, Tasso Jereissati do PSDB-CE, se diz convencido e vai mudar seu parecer).
A Venezuela entra se der “garantias concretas de avançar na consolidação do respeito à democracia”. Agora, só uma pergunta: como é que o menino maluquinho (pra dizer o mínimo) pode dar qualquer garantia? E como os parceiros podem confiar em qualquer coisa que possa prometer Chávez? A não ser que… bem, a não ser que a Venezuela cumpra os padrões se tornado o padrão.
Isso justificaria o emprenho do PT na promoção da inclusão (juntamente com o presidente Lugo do Paraguai) e a aprovação já concedida pela Argentina e Uruguai. O sonho desse pessoal todo é ter relações abertas com as FARC, conseguir eleições, reeleições e rereeleições, fazer mudanças na constituições com quem edita um artigo num blogue, e coisas afins. Parece um contra-senso, mas faz sentido.
Atualização [28/10 17:10]: lí agora mesmo no Nota Latina (via Norma Braga) que o governo de Chávez aprovou o “tombamento” de um sem número de propriedades. Tornando-as “patrimônio cultural”, os proprietários não podem se dispor delas sem autorização do governo. Dada a quantidade de prédios “tombados” e suas características, a medida pode ser uma manobra contra a propriedade privada na Venezuela.
O conceito de “natureza” é bíblico?
Ao que tudo indica, não.

O ponto de partida para a filosofia foi a reflexão sobre a natureza, a physis, que está longe de poder ser igualada com o nosso conceito moderno de natureza ou de física, mas estão de algum modo relacionadas. A physis diz respeito ao princípio ou à substância que está na base da realidade de todas as coisas, e se esse é seu estatuto, é aquilo que dá coesão e ordenação para o mundo – daí que conhecendo esta substância primordial detém-se o princípio razoável de tudo o mais que existe.
Ainda que a investigação sobre a physis tenha chegado a um impasse logo que se tenha colocado aos pré-socráticos a dificuldade de se afirmar o conhecimento sobre ela, e que os socráticos e os sofistas tenham abandonado (grosso modo) a questão, um ponto permaneceu perene na imagem de natureza dos gregos: a natureza (ou o cosmos) é uma realidade perpétua, incriada – nada mais distante para os gregos que a ideia de criação.
Mesmo depois do encontro e síntese entre a filosofia e a tradição bíblica a tensão sobre o conceito de natureza parace ter permanecido, e se a perspectiva deísta emergiu como uma fórmula atraente na Modernidade não parece ser por outro motivo senão pela autonomia da natureza como uma máquina projetada por uma Mente Absoluta. O conhecimento de uma máquina autônoma prescinde da necessidade de estar informado sobre as finalidades ou desígnios (telos) que porventura o projetista tivesse em mente – ainda que muito diferente do interesse pré-socrático, a noção moderna de natureza compartilha uma certa noção grega de independência ao menos como condição intelectiva.
Contudo, a ideia bíblica de natureza está de tal modo em oposição a isto que preferimos charmá-la de “ideia de criação“. Isso porque (i) muito diferentemente dos gregos, o mundo é criado, tem início e finalidade (propósito, fim) estabelecidos por um divindade transcendente que independe dele, e (ii) não é na phisis ou na substância do mundo que encontra-se a chave para a compreensão da realidade, mas na relação com o Criador.
Como dito acima, havia uma tensão ainda na Idade Média, isso porque os medievais, num negócio que ficou conhecido como nominalismo, insistiam em procurar as relações de significado na natureza com a revelação (o que acabou por constituir a base do empirismo e para a ciência moderna). Contudo, a “tentação” de um modelo fechado é sempre presente e não tardou que aparecessem as formulações galilaica e newtoniana que apresentavam a noção de necessidade, que outra vez parecem “trancar” o mundo natural.
O conceito de criação, por outro lado, mesmo como criação ordenada possuidora de leis internas que a regem, mantém a abertura que aponta para o Criador. Essa abertura repousa sobre a noção de pessoalidade – o universo, segundo a Bíblia, é uma realidade pessoal, pois Deus é um ser pessoal que se relaciona com sua criação, sendo que é essa mesma relação que confere sentido a todas as coisas. Isso não quer dizer que no “livro da natureza” possamos encontrar o mesmo conteúdo do “livro da revelação”, mas que a criação aponta para uma abertura inerente.
Entre o conceito de natureza e o de criação há, portanto, um abismo tão grande quanto a noção de pessoa.


