Judeus e cristãos novos em Portugal e no Brasil [com indicação de curso]

13 Maio, 2008

O Laboratório de Estudos sobre Tolerância (LEI), da USP, disponibiliza, através do portal Rumo à Tolerância, o curso on line (no Moodle) Inquisição e Intolerância na Península Ibérica e no Brasil (2008.). O curso é gratuito, e conta com professores e pesquisadores da USP envolvidos na ampla pesquisa sobre a herança dos bnei anussim, ou marranos, em Portugal e no Brasil.

Muita gente não sabe, mas o Brasil foi formado (naquela parte portuguesa ou européia de nossa identidade étnica ou cultural) por judeus que foram forçados a se converterem ao catolicismo na Península Ibérica no final do século XV e início do XVI. Calcula-se que havia pelo menos 200.000 judeus em Portugal na época das conversões forçadas, até a expulsão em 1497. Os que não tiveram condições de emigrar (houve um fluxo de emigração principalmente para a Holanda), permaneceram em solo português, muitos deles praticando a religião judaica clandestinamente.

Esses judeus convertidos ficaram conhecidos como cristãos novos (ou cristianos nuevos, ou ainda batizados em pé, por receberem batismo já adultos), e em termos hebraicos como anussim, que quer dizer “forçados”. Seus descendetes, portanto, são os bnei anussim, os filhos dos forçados. Quando a Igreja na Península Ibérica percebeu que a conversão dos judeus não era sincera (e como poderia ser?), estabeleceu-se o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, que tinha como missão monitorar os cristãos novos e as atividades judaizantes.

Fugindo da Inquisição e seus terrores, muitos cripto-judeus portugueses e espanhóis vieram para as colônias na América, sobretudo para o Brasil. Pra se ter uma idéia, das treze naus da esquadra de Cabral, quando chegou ao Brasil, onze delas tinham (supõe-se) capitães cristãos novos. As capitanias hereditárias, uma espécie de Parceria Público Privada da época, foram arrendadas principalmente por empreendedores de origem judaica, que também foram os primeiros investidores na florescente e próspera indústria do açúcar, e quase todos os bandeirantes eram também cristãos novos.

De fato, aquilo que chamamos de “elemento português” na formação do Brasil é, na verdade, um elemento judeu, de um tipo muito específico (o judeu forçado à converção ao catolicismo). Isso, entre outras coisas, que dizer que muitos brasileiros são descendentes de judeus perseguidos pela Inquisição.

Então, é fundamental, para entendermos nossa herança e formação, resgatar essa história e bem compreendê-la. A iniciativa da professora Anita Novinsky e do LEI são, portanto, de grande valia. Segue abaixo a ementa do curso.

A conversão forçada de todos os judeus em Portugal ao catolicismo (1497), iniciou a era dos cristãos novos, também conhecidos como “conversos” ou “marranos”. Interesses econômicos, apoiados no fato de que muitos convertidos seguiam a religião judaica em segredo, levaram à criação do Tribunal do “Santo” Ofício da Inquisição, em Portugal no ano de 1536, que teve a duração de perto de três séculos. Portugueses e brasileiros de origens judaicas sofreram perseguições, confiscos e humilhações. Poetas, mulheres, homens ilustres, em Portugal e no Brasil, perderam suas vidas, num processo anti-semita, que afetou todas as instituições da época, inclusive a Companhia de Jesus, e cujas conseqüências se fizeram sentir na época, como no Brasil de hoje.


Resposta a um anti-sionista

9 Maio, 2008

Quando escrevi o post passado, sobre os 60 anos de Israel, eu esperava algum comentário que demonstrasse “repulsa”, “vergonha” ou “recusa” quanto às minhas palavras, e à própria celebração da existência do Estado de Israel. Também esperava que tivesse que me posicionar com clareza, então, faço-o (mais uma vez): eu sou sionista. Acredito e defendo o direito de uma pátria nacional judaica naquele território chamado por alguns de Palestina histórica. Sou também um seguidor da Torá, que assegura direitos ao estrangeiro como nenhum outro documento no mundo, anterior, contemporâneo ou posterior. Portanto, nas palavras do Rabino Shulam: os árabes podem não ter direito à Terra, mas têm diretos na Terra. Isso quer dizer que sou a favor da reconciliação, da paz e dos direitos de árabes e palestinos - direitos já assegurados aos que são cidadãos israelenses (veja essa reportagem da BBC - que definitivamente não é Sionista ou pró-Israel).

Um certo leitor deste blog, chamado gabriel, escreveu o seguinte comentário a respeito do post e seu conteúdo:

Mesmo com todo o respeito e admiração que tenho pelo povo e pela cultura judaica, ainda assim não consigo esconder a repulsa que sinto pelo grupo judaico-sionista. É estranho como estes não percebem que o mesmo mote que os move, é também o de atuais seus agressores: a legitimação divina.

Movidos por uma premissa tão distante da racionalidade necessária para o entendimento entre culturas, é difícil distinguir qualquer um dos lados como agressor ou agredido. E o que dizer de definir aquele que seria o “verdadeiro grupo escolhido dos céus”, como se coubesse tamanho despautério na diplomacia contemporânea. Mas pelo visto, não sendo estruturada no racionalmente plausível, a tal disputa só resta o caminho da guerra. E enquanto houver grupos que baseiam demarcações territoriais - ou quaisquer intentos que caibam apenas no campo da legalidade terrena - em determinações divinas, haverá conflitos e mortes em consequência.

Vale ressaltar, que aqueles que servem de guias e propagadores dos embustes sionistas (aí incluso o autor deste post) têm tanta culpa por cada cadáver no solo de Israel quanto os terroristas, que não passam de mais uma instância nesta cadeia.

Com premissas tão próximas me pergunto: como um sionista se distingue de um homem-bomba, tendo em vista a legitimidade de suas motivações?

Gostaria de responder ao gabriel, mas de forma não específica, porque ele se parece mais com um leitor genérico, ou seja, reproduz aqui uma série de erros e definições no mínimo equivocadas  - o que não lhe retira o direito de opinião e posicionamento, mas pede que arque com o ônus de exprimí-la publicamente (como eu também faço) e em blog alheio (o que não é um problema, aliás, qualquer um é bem vindo a ler e opinar aqui…).

Vejamos então o que um típico anti-sionista, cheio de sensibilidades e incapaz de fazer distinções pensa, e onde entendo que erra.

Primeiro, o sionismo não é um movimento religioso. Ele tem uma expressão religiosa entre os religiosos que são sionistas e representam suas crenças e legitimação em seu campo de interpretação da realidade a partir da exegese do texto sagrado por seus sábios. Mas qualquer um que se disponha a estudar a história do Sionismo sabe que o movimento é fundamentalmente secular. Theodor Herzl, pai do Sionismo, era um jornalista judeu austro-húngaro assimilado, que ao cobrir o Affaire Dreyfus na iluminada França viu que mesmo ali o “problema judaico” permanecia, assim como nos países menos avançados em termos democráticos e em tolerância; em qualquer lugar, viu Herzl, onde houver judeus, haverá anti-semitismo. A única forma de resolução para a  questão judaica, era a constituição de um lar nacional judeu.

Ora, onde está, em Herzl, a busca ou uso de “legitimação divina”? Ou, ainda mais explícito, o caso do proto-sionista Moses Hess - um comunista secularista que vui a eclosão de anti-semitismo no que seria a Alemanha dali a pouco tempo. Mesmo retornando ao Judaísmo, o fez na forma “panteísta de Espinoza”… francamente, muito distante de qualquer ortodoxia judaica, e muito mais uma doutrina filosófica que exatamente religiosa.

David Ben-Gurion, o pai do Estado de Israel propriamente dito, ainda que defendendo um lar judaico, estabeleceu as bases do estado em características seculares (desde sua definição do que é um judeu, profundamente diferente da definição rabínica tradicional), e desafiou a ortodoxia judaica (curiosamente, o uso da Estrela de David ao invés de uma menorá é uma provocação aos religiosos).

Contudo, isso não exclui os matizes religiosos do Sionismo, que existem e são bastante influentes tanto em Israel como na Diáspora. E isso me leva ao segunto problema do raciocínio anti-sionista representado acima.

A menos que gabriel seja um positivista ou pitagórico, acredito que em todas as vezes que usa a palavra racionalidade queira dizer secular ou secularidade, ou seja, que para tornar plausível e haver entendimento entre disputas e conflitos, no caso, internacionais, é preciso que todos os envolvidos se abstenham de seus pressupostos não-racionais. É a velha ladainha de Westphalia: retiramos a religião das questões, e os conflitos se acabam (ou são mais facilmente resolúveis). Isso não deu certo com os Estados Nacionais, não funcionou com os Estados laicos - e toda a paz que se conseguiu na Europa, se conseguiu com os Estados Protestantes ou por ação dos protestantes reformados.

Portanto, as demandas religiosas podem não ser redutíveis a fórmulas racionais - mas isso não as torna menos relevantes. Nem retirá-las da mesa de negociação tornou as coisas mais fáceis. Contudo, é possível pensar em pressupostos religiosos ou teológicos que facilitem o debate e a paz ou que conduzam unicamente ao conflito e guerra. E nesses termos, a posição árabe-muçulmana é mais complicada: todo território que já foi conquistado pelo Islam é do Islam, e se porventura caiu nas mãos dos infiéis, é dever do muçulmano recuperá-la. Isso torna a mesa de negociações e o direito internacional ocidental inviável.

O Estado de Israel foi fundado com a aprovação de uma entidade reconhecida inclusive pelos que tiveram o voto vencido - e o não reconhecimento da resolução é o mesmo que rejeitar a legitimidade da entidade. Se os árabes reconhecem a ONU e hoje usam a resolução 181 para que Israel retorne às fronteiras determinadas pelo documento, precisam reconhecer o direito de existência de Israel. O que, definitivamente, não querem fazer. Israel ampliou suas fronteiras em ‘48, ‘53 e ‘67 em guerras de agressão iniciadas pelos países árabes (Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque), e as anexações estão previstas na Convenção de Genebra - todo país agredido tem direito de anexar áreas estratégicas para sua defesa enquanto estiver ameaçado.

Quanto ao problema da distinção entre gressores e agredidos, basta a todo anti-sionista, ou qualquer um interessado no embasamento das coisas, ler o White Paper, relatório britânico durante o Mandato da Palestina, que descreve o que a população árabe fez aos judeus refugiados na Palestina. Basta que se estude e ouça os arquivos de audio de rádios e de jornais árabes na época. Basta ver quem iniciou o ataque em maio de ‘48, ‘53, ‘67, ‘73…

Basta olhar a vida de um árabe cidadão israelense, ou um druso, ou um bérbere, ou um samaritano, ou um cristão sírio, maronita, grego ou romano em Israel. E depois compara com o que passa cada uma dessas pessoas em territórios árabes. Tente um gabriel da vida tentar cidania israelense (o que fará como em qualquer outro país democrático) e no Egito… somente tente.

Se gabriel não consegue, ainda, distinguir entre um sionista e um homem-bomba em termos de premissas e finalidades, eu vou tentar ajudar. Um sionista tenta estabelecer um Estado em bases democráticas, e é confrontado com vontades contrárias que intentam o extermínio do povo judeu “empurrando-os para o mar”. Um sionista combate soldados em termos militares, um homem-bomba explode crianças, jovens em bares, religiosos em sinagogas, trabalhadores em ônibus.

Por fim, em termos religiosos, não há que se definir o verdadeiro povo escolhido; em termos religiosos isso já está estabelecido, de maneira distinta, claro, em cada fé. Mas é curioso notar que há também uma religião secular, a qual gabriel parece professar, que estabelece a culpa pela presença de idéias teo-referentes. E esse tipo de coisa terminou no Terror na França e nos gulags soviéticos.

Embuste, me parece, é esconder desinformação num discurso cheio de sensibilidades… francamente, quem não sabe distinguir, que não emita juízo - e olha que quem disse isso foi um racionalista: Descartes.


60 anos

9 Maio, 2008

Neste mês de maio o moderno Estado de Israel comemora sessenta anos de existência. São sessenta anos bastante judaicos - muitas tristezas e muitas alegrias; muito progresso e riquezes, mas também incertezas e carestia; ameaças, mas também permanência. No final, sempre, permanência. Com um Estado judeu não seria diferente; tudo o que temos feito ao longo de três mil e quinhentos anos (ou mais) é perdurar, permanecer - ser. E celebrar a alegria e reviver os dramas de ser judeu.

Quem sabe seja exatamente isso que desespere nosso inimigos e intensifique seu ódio: apesar de seus esforços (Faraó, Amaleque, Senaquerib, Nabucodonozor, Antíoco, Tibério, Verpasiano e Tito, Adriano, Isabel e Fernando, Dom Manuel, Lutero, Tzares tantos, Hitler, Stalin, Kadafi, Nasser, Arafat, Ahmadinejad…), somos judeus, e sempre somos. Humilhação, cerceamento, pesados impostos, deportação, seqüestro, conversão forçada, morte… meu D’us, quantas formas para tentar nos fazer negar o que nos fizeste ser…

E dois mil anos depois de sermos expulsos do lugar que insistem em chamar de Palestina histórica, nome que os malvados romanos deram à Terra de Israel depois da expulsão (pensando que assim nos esqueceríamos dela), sem partir de uma metrópole como os europeus fizeram, foi reconstituída uma pátria nacional judaica - no lugar que ouviu outra vez crianças, jovens e velhos falando a língua hebraica, a língua da Torá, que por tantos e tão escuros anos foi nossa pátria e a arca que nos resguardou até esse momento.

E então vieram muitos, de muitos lugares, de muitas cores, de muitas línguas: ashkenazim, sefaradim, mizrahim, falashas, temanim, bene Israel, bnei menashe, cuchin, judeus de kaifeng; falantes de yídish, ladino, berber, etc… morenos, loiros, ruivos, hindus, chineses, negros, árabes… Israel é um cadinho de gentes que se reúnem e se unem sob a Estrela de David que tremeluz altiva.

Nos alegramos, chorando ao mesmo tempo. Chorando por Sderot, por Gilad Shalit. Mas alegres, porque hoje qualquer judeu no mundo tem um lugar onde buscar socorro. Am Israel chai! Vive o povo de Israel!


Notas de um usuário final [a partir de um Eee Pc]

30 Abril, 2008

Pronto, aqui estamos. Depois de alguma dificuldade com o pen drive e um tanto de receio em fazer a instalação, eu fiz: instalei o Ubuntu (Hardy) no Eee. O tutorial da comunidade (ver post abaixo) é muito bom e dá dicas valiosas, apesar de serem poucas as necessárias, de fato. O que pode ser um problema é que o how to é baseado no Gutsy, e tem algumas coisas lá que ou não existem ou não são necessárias aqui. E há coisas (microfone e wireless, por exemplo) que eu não sei se estão funcionando.

Mas parando de reclamar, o que é interessante é a versatilidade do Ubuntu, visto que o Eee é quase uma arquitetura nova… Voltando a reclamar, o boot (tenho que achar uma palavra melhor pra isso) é bem mais lento (o tutorial já avisava disso, e propõe um paliativo) que o Xandros, o que me faz pensar porque cargas d’água a Asus não colocou Ubuntu nativo. Uma resposta possível é que ele, Xandros, é mais parecido com o Windows®, o que evidencia um problema a ser superado: o paradgma windows like…

Se o Eee é silencioso por um lado, esquenta um pouquinho, por outro; nada que incomode, mas do teclado sobe um quentor. Realmente o SSD (o HD do Eee) de 4Gb pode se tornar um problema, o que pode me forçar a comprar um cartão SD, porque acho o pen drive inseguro (fico receoso de alguém, sobretudo eu mesmo, dar um esbarrão…). A relação custo benefício começa a cair um pouco, mas aida vale muito a pena.

Resumindo: gostei do Eee, vou me acostumando com seu tecladinho apertado (mas incrivelmente funcional); o Ubuntu está satisfatoriamente instalado (e eu prefiro um pouco menos de desempenho do que instalar uma distro específica das que estão aparecendo, e que possa faltar suporte). No quesito mobilidade ele é mesmo imbatível, e com um cartão de memória fica tudo afiado. Sinceramente eu acho que a Asus encontrou um filão, e os sub-notes são irreversíveis.

Por fim, gostaria de agradecer ao André Noel pelas dicas, antes e depois de eu adquirir o Eee (obrigado!). Espero somente que num futuro próximo tenhamos a arquitetura plenamente suportada pelo Ubuntu - é muito interessante isso de máquinas feitas for Linux.


Notas de um usuário final [Eee!]

30 Abril, 2008

Ontem chegou meu Eee Pc. Uma maravilha, é o que posso dizer. Ao contrário do que parece pelas fotos na internet, a tela não é assim tão pequena, ou  não tão pequena que incomode; é suficiente eu diria. A tal da cor “branca”, na verdade, é meio perolada… gostei disso, afinal é um pouco menos trabalhoso. O que pesou na compra, como disse em outro post foi o preço: R$ 900,00 na Comprafacil.com. Sim, novecentos porque, me parece, quando você faz sua primeira compra, a loja dá um desconto generoso de 10%, ou seja, uma parcela no meu caso. Muito bom. E apesar do produto se esgotar toda semana, o pessoal foi rápido em enviar (um conselho: use o desconto da primeira compra, se você tiver, para comprar um bom pen drive - tem Kingston a bons preços).

O sub notebook é rápido, o boot é o mais veloz que eu já vi, e o Xandros é até competente, mas não dá: parece que você está preso num palm. Logo senti falta do GNOME e das funcionalidades do Ubuntu. Mas antes de falar disso, ressalto outras qualidades: o Eee é realmente discreto. Dentro do case preto que o acompanha, passou batido por alguns amigos quando eu disse que era uma agenda - é compacto, o que tira um pouco o efeito psicológico de leveza (eu disse psicológico e um pouco, afinal, 900 gramas são 0.9 Kilo… ¬¬). Outra característica que chama a atenção é o silêncio absoluto; tá certo que um processador de 900Mhz não exige um cooler escandaloso, mas ainda assim é um feito, eu acho.

De fato, o Xandros não dá. Pra mim não. Como disse acima, aquele layout de palm é muito inadequado, até parece que a Asus não se leva a sério… apesar de ser um sub notebook o Eee não é um handheld. Bom, quem sabe para alguns felizes compradores seja pouco mais que isso em termos de funções, mas eu penso em usá-lo para executar tarefas que também poderia fazer num desktop. Logo que pude foi atrás dos tutoriais para instalação do Ubuntu. Bom, aí foi uma pequena odisséia.

O melhor tutorial para instalação é o da comunidade, que ensina a maneira mais fácil de criar um pen drive bootável (meudeusdoceu, que palavra horrível). Entretanto, tem umas coisas nos tutoriais que me deixa irritado, entre elas, aquelas dúvidas que só um jacu poderia ter e que o compositor do passo-a-passo nem imagina… ou poderia eventualmente imaginar. Não estou culpando ou reclamando do pessoal dedicado que faz o melhor possível para servir a comunidade, só que isso às vezes causa desespero. Olhe bem, na criação de um flash drive capaz de boot, há a seguite instrução:

wget http://www.startx.ro/sugar/isotostick.sh
chmod u+x isotostick.sh
sudo ./isotostick.sh ubuntu-7.10-desktop-i386.iso  /dev/sdX1

É fácil e claro, e até eu que não entendo direito o que está se passando posso copiar e colar no terminal. Contudo simplesmente não funcionava! Sempre e repetidamente dava erros cada vez mais estranhos e indecifráveis, e eu tentei resolver das mais variadas formas, buscando solução no Google, e nada… Na madrugada, pelo Gtalk (via Pidgin), o André Noel me deu umas dicas, mas nada…

Fui dormir vencido. Pela manhã fiz outra tentativa, indicando apropriadamante o caminho (path) para o arquivo .iso, mas continuava dando erro (já havia tentado isso na noite anterior). Já sem saber o que fazer, achando que o problema era o pen drive, me passou uma coisa pela cabeça: e se for necessário que o arquivo .sh esteja no mesmo diretório que o arquivo .iso? Bingo! Quando fiz isso, deu certo. Impressionante:deu certo… Agora, não custava nada alguém ter dito que isso é uma condição para o comando… reconheço que isso pode estar dito na sintaxe, mas analfabeto que sou, precisaria da indicação.

Feito isso, espetei o Kingston no Eee, configurei o boot, e pronto. Lá estva Ubuntu 8.04 - The Hardy Heron inteiro e redondo. É verdade que é preciso fazer algumas configurações como indica suficientemente bem o tutorial. E o resto… o resto é história.


Hebraico bíblico [clássico/antigo] no Ubuntu

29 Abril, 2008

Quem estuda ou trabalha com línguas clássicas sabe como é um verdadeiro martírio conseguir inserir caracteres (e principalmente caracteres mais específicos) em editores de texto eletrônicos. Mesmo em soluções proprietárias (e existem algumas, mas nunca cheguei a usá-las de fato) são pouco práticas e difíceis de configurar - geralmente, o que se consegue é um editor dotado de um teclado virtual contendo os caracteres. Bom, isso até resolve quando se quer uma palavra ou uma frase, ou mesmo um trecho relativamente curto. Mas imagine digitar textos inteiros ou quando ao compor um trabalho é preciso inserir várias vezes palavras e frases, repetidamente… muito incômodo.

Para nos situarmos, hebraico clássico ou antigo não é como o hebraico moderno, apesar de guardarem muita proximidade (muito mais do que, por exemplo, grego antigo e grego moderno) - mas eu diria que o hebraico clássico é mais plástico, mais composto em nuances (obviamente - teríamos ao menos o arcaico, bíblico, bíblico tardio e talmúdico). Não é suficente ter um teclado hebraico ou configurá-lo para idioma hebraico (que seria o moderno), ou usar fontes clássicas (o teclado não permitiria usar os recursos da fonte).

A solução num mundo proprietário é comprar soluções caras - freqüentemente, proibitivamente caras para gente como eu; mas no universo open source a coisa pode, e é, muito diferente. A começar pelo fato de que, até o Ubuntu 7.10 (The Gutsy Gibbon), havia as opções de teclado hebraico lyx e phonetic, além do normal (se não me engano havia um extended), que conjugadas com fontes adequadas (na verdade, a coisa dá certo é com o lyx), davam conta do recado, oferecendo letras e caracteres especiais (notação vocálica, ou niqqudot). Eu mesmo consegui, pela primeira vez na vida usar com satisfação hebraico bíblico em meu editor de texto - OpenOffice.

Contudo, para minha surpresa, no Ubuntu 8.04 (The Hardy Heron), ao fazer a configuração das opções de teclado, nas disposições estava listada o Biblical Hebrew (Tiro). Olha, foi um daqueles momentos em que você pensa na beleza do software livre… alguém, um programador de muita consciência e discernimento, incluiu uma configuração específica de teclado, que por sua vez deve ter sido “compilado” por um programador não menos cônscio e discernente, e também generoso. O fato é que com essa disposição de teclado é possível digitar não somente notações vocálicas mas também notas de cantilação, ou te’amim! E o mais impressionante, em fontes não específicas, como sans sefif ou freesans…

Então vejamos como fazer. No Ubuntu (GNOME) vá em

Sistema » Preferências » teclado

Na caixa de diálogo clique em adicionar, e

Em Disposições selecione Israel;

Em Variantes selecione Biblical Hebrew (Tiro).

Pronto. Para ajudar na alternância entre os teclados, outra vez na caixa de diálogo (disposições), marque a opção Disposição separada para cada janela (assim a seleção de teclado no editor de texto pode ser diferente do browser, por exemplo).

Outra dica interessante é adicionar o botão de seleção de teclado na barra do GNOME:

Clique com o botão direito num ponto de qualquer uma das barras onde você quer incluir o botão (eu previro no canto inferior direito, ao lado das áreas de trabalho):

Adicionar ao painel » na caixa de diálogo selecione Indicador do Teclado.

Pronto, agora é só clicar em cima do botão que as disposições se alternam na ordem em que foram acrescentadas nas preferência do teclado.

Para mais ajuda, há um bom tutorial para hebraico e grego no Linux aqui.

Uma ótima fonte hebraica (com pontuação vocálica e contilação) está disponível no site da Society of Biblical Literature (recursos e fonte).

Ah!, você não usa Linux? Quer usar? Então comece aqui.


Meme: cinco ótimos livros e um para apodrecer na estante

28 Abril, 2008

Nesse negócio de blog você percebe que vai virando alguma coisa quando começam a convidá-lo para coisas bacaninhas como um meme. Pois bem, este é o meu primeiro - fui convidado pelo Djavan Fagundes (obrigado!). Antes de apresentar minha lista digo que vou me ater à literatura, nada de livros “técnicos”. Vejamos, então:

  • CINCO ÓTIMOS LIVROS
  1. DOSTOIÉVSKI - O Idiota
  2. KOSINSKI - Pássaro Pintado
  3. GARCIA MÁRQUEZ - Cem anos de solidão
  4. BELLOW - O planeta do Sr. Sammler
  5. SPIEGELMAN - Mauss
  • Para apodrecer na estante

KAFKA - Investigações de um cão

Sei que não vale, mas preciso explicar porque indiquei um conto e não um livro todo e porque um Kafka para o esquecimento na prateleira. Mesmo sendo de um gigante, eu simplesmente não consigo terminar de ler o texto… já recomecei incontáveis vezes, mas não prospera minha leitura. Não entendo bem, uma vez que venci o tortuoso A Toca, no mesmo volume. Bom, vai saber; quem sabe um dia…

Vendo daqui, é engraçado: três autores judeus que, juntamente com Garcia Márquez, são todos “contemporâneos”; e apenas um gigante… Bom, quem sabe porque a proposta seja “cinco ótimos livros”, e não “os cinco melhores livros já escritos em minha opinião”. Podem ser os que agora mais me causam impacto. É isso, acho.

Gostaria de convidar o Gustavo Nagel, André Egg e Riverson.


Negando o Holocausto [por vias mais sutis]

28 Abril, 2008

Ano passado (’07) um chain mail, uma daquelas correntes de e-mail irritantes, causou problemas ao anunciar que o ensino sobre o Holocausto havia sido banido na Inglaterra, e relembrava o  que disse Eisenhower sobre o risco da tragédia ser esquecida e desacreditada por quem não a viu. Como um retardatário, eu recebi a dita mensagem e, impactado, acrescentei um textinho e compartilhei a “notícia” com amigos mais próximos. Rapidamente, gente atenta entre os destinatários, retornaram apontando que a informação já fora contestada e desmascarada como sendo mais uma lenda na internet.

Contudo, o frisson causado (pelo e-mail, ainda em 2007) foi tamanho, que o governo britânico foi a público para desmentir o boato - a BBC publicou dois artigos sobre o caso (aqui e aqui) e há uma boa entrada na Wikipedia sobre o caso. Mas, curiosamente, a emenda saiu pior que o rasgão: de fato, o boato se alastrou na palha seca de fatos muito desconcertantes. Professores em algumas cidades com grandes comunidades muçulmanas gostariam ou estavam evitando assuntos “emotivos e controversos”, e que feriam as sensibilidades dos alunos anti-sionistas e/ou que não criam na realidade histórica do Holocausto. Para não contrariar o que aprendiam fora da escola, a melhor solução seria não tocar nessas questões.

O problema apareceu primeiro num relatório da Historical Association (a respeito do problema curricular), e sua raiz está na proposta educacional inglesa mais recente baseada numa abordagem que contemplasse mais adequadamente o multiculturalismo presente nas salas de aula. Como nesse caso os temas tratados acirravam os animos políticos e militâncias das comunidades, muitos professores, obviamente, não souberam como realizar a tarefa sem cortar e costurar os tópicos dos programas, principalmente em história.

Mais uma vez aí está ele, o multiculturalismo. Lindo, resplandescente, sofisticado, tolerante, e cheio de corretude política - um típico produto da orgulhosa sociedade plural  Esse despropósito não passa de moralismo, o mais desarranjado, armado por quasi intelectuais cheios de ressentimento contra tudo, mas sobretudo contra si. Ao invés de apresentar os fatos e pontos de vista interpretativos academicamente válidos, a disciplina se tornou palco de defesas ideológicas dogmáticas - são as cotas aplicadas às idéias: vamos ensinar sobre o Holocausto, mas não vamos falar sobre as Cruzadas para dar equilíbrio ao conflito com os muçulmanos… muito esperto.


Notas de um usuário final [Ubuntu 8.04 "The Hardy Heron"]

27 Abril, 2008

Pronto, está aqui diante de mim, enquanto escrevo estas palavras, um computador pessoal muito modesto rodando a mais recente versão do Ubuntu (8.04), The Hardy Heron, ou “A Garça Durona”. Para obtê-la, fiz o de sempre: site oficial do Ubuntu, clica no anúncio, escolher versão e servidor, e sete horas de download depois, queimo a imagem num CD. Boot pelo CD, carrega o “sistema” e aí aparece uma supresinha: agora é possível ir direto pra instalação sem carregar a sessão live, e de cara a garça pede pra você escolher o idioma em que conversarão - e a durona fala mais de vinte…

O processo de instalação do Ubuntu está ficando cada vez mais rápido e mais enxuto. Desde a primeira versão que usei (5.10) não sentia muita dificuldade, mas está ficando melhor - sobretudo para o usuário que já tenha feito uma instalação, e quando não há que se configurar a máquina para dual boot com o Windows®. Resumindo, poucos passos no processo, cada vez mais “next, next, finish”. Em menos de meia hora (com download de pacotes de linguagem durante a instalação) eu estava com o tudo pronto.

O sistema carrega mais rápido, e me pareceu mais “suave”. Dito de uma vez: é o bom e velho Ubuntu, cumprindo o que promete, e se tornando, definitivamente, uma distro perfeita para usuários finais, como eu, ou anda mais jacús. Agora, há algumas coisas de que eu não gostei: primeiro, vir com Firefox 3 beta foi um erro, uma série de complementos (todos os que eu uso, por sinal) não são suportados ainda; segundo, o sistema não reconheceu a resolução do meu monitor e punha em 640×480, insistentemente, o que me levou ao terceiro problema: mudanças nas disposições de itens nos menus. “Telas e placas de vídeo” (que me permitiria corrigir o problema) não estava mais em “Administração”, mas em “Aplicações » outras” e não selecionado a princípio. Demorei quase uma hora para resolver o problema, sobretudo depois instalei o drive restrito pra placa GeForce. Mas felizmente consegui desabilitar o driver, reiniciei o X, abri o gerenciador de monitores, e, consultando o manual no meu CRT, descobri que ele tem um parentesco com os da IBM… selecionei um primo rico com características parecidas, e agora estou com 1024×768 com placa habilitada.

Mas quem é bom entendedor já percebeu que, surpreendentemente, para um sistema operacional rodando numa máquina feita de retalhos, os problemas listados acima são irrisórios. Todos os meus amigos que me visitam, ao verem os efeitos do Compiz e a versatilidade do Ubuntu, ficam curiosos e pedem ajuda para testá-lo em seus PC’s. Tudo o que era preciso para media e retoques estava preparado pela comunidade no fórum em português. A garça durona tem um vôo gracioso e seguro - só é rústica com a concorrência.

Quer saber mais?

http://www.ubuntubrasil.org/comece

http://www.ubuntubrasil.org/


E se o Iran for abertamente ameaçado?

16 Abril, 2008

Se os Estados Unidos fizerem uma declaração aberta de que atacarão o Iran, o que pode acontecer? Já se especulava que após a invasão do Iraque, os americanos entrariam num ciclo longo de intervenções militares na região, numa cadeia de crises com interesses regionais. Os alvos mais prováveis seriam a Síria, que é governada pelo partido Baath, o mesmo de Saddam, e que possui armas biológicas e químicas, ou o Iran, que tem um presidente esquentado e um programa nuclear suspeito, além de finandicar, armar e terinar grupos terroristas, como o Hizbollah. Muita gente, inclusive eu, se perguntou por que os EUA, ja que aleganva ameaças, não atacaram a Coréia do Norte que quase certamente controla ogivas nucleares, e mesmo que não tenha está muito bem servida com armamentos convencionais e um milhão de soldados (o maior contingente do mundo, acho).

A resposta para essa pergunta ajuda a entender o ataque ao Iraque. Não atacaram a Coréia porque não é necessário - o regime comunista norte-coreano já se incumbiu de destruir o país. A miséria é a realidade da maior parte da população, seguida dos males mais imediatos de um regime fechado: subnutrição e doenças causada pela falta de gêneros alimentícios e medicamentos. A posição irredutivelmente fechada de Pyongyang vai-lhe custando o próprio povo. A maior preocupação seria com os vizinhos Coréia do Sul e Japão, mas a presença militar americana na região é forte. Os norte-coreanos não passam de marimbondos bravos - poem causar alguma dor, mas só isso.

O Oriente Médio, ao contrário, guarda energia. Muita energia. Energia que a China precisa em quantidades galopantemente maiores, podendo pagar por isso; o que significa altos montantes nas mãos de regimes com anseios belicosos - clientela para os russos e suas armas de baixo custo e larga produção. Caso os americanos atacassem o Iran isso incitaria os chineses a se moverem para proteger reservas de energia de seu interesse na região, sobretudo depois de ter firmado acordos com os iranianos. Os russo por sua vez, veriam nessa situação uma ótima oportunidade de, solidarizando-se com o Iran, se oporem aos EUA, numa tentativa de se impor novamente a partir de uma posição de influência na Ásia antagônica a Washington.

Não me parece fortuito que McCain, candidato Republicano, tenha sugerido excluir a Rússia do G8. O fato é que mais que colaborar ou “jogar” com os americanos e europeus, os russos estão consolidando apoio e influência na Ásia, o que vem acontecendo através do SCO - Shanghai Cooperation Organisation - que aparentemente é de cunho econômico e tecnológico, mas vai demonstrando seu real propósito de formação de um grupo, um outro pólo, na Ásia e leste europeu. Reunindo a Rússia e satélites, e China, a solidariedade de Shanghai urge por se estender ao Iran, Índia e Paquistão. A Índia estaria interessada somente na cooperação econômica e tecnológica e provavelmente resistira aderir ao grupo à medida em que as pretensões militares fiquem evidentes - ainda que mais tarde possa integrar-se.

Pode acontecer que uma ameaça clara de ataque ao Iran antecipe esforços de fortalecimento do grupo, e a própria inclusão da República Islâmica. Pode também provocar um volume crítico de tensão entre China, Rússia e EUA, todos membros do Conselho de Segurança da ONU - o que também pode acontecer se os dois primeiros apoiarem a indicação de um membro islâmico para o conselho, como quer Ahmadinejad.

Ameça aberta certamente aumentará a apreensão entre Israel e os vizinho árabes - como um aliado local dos EUA, Israel pode se tornar, como na Guerra do Golfo I, um saco de pancadas para árabes e muçulmanos. O problema é que agora os ataques podem ser mais ferozes e a reação israelense mais agressiva.

O ciclo de intervenções militares americanas no Oriente Médio já ultrapassou níveis estratosféricos em termos de gastos. Um novo ataque a outro país aumentaria os valores requisitados ao congresso num momento de séria recessão econômica nos EUA; com a proximidade das eleições presidenciais e. em seguida, eleições parlamentares, pode ser politicamente muito custoso manter esse nível de presença militar ativa. Simultaneamente, grupos terroristas radicais islâmicos podem intensificar suas atividades numa nova onda de atentados no Ocidente, “punindo” países que apoiarem os americanos - pressionando ainda mais a opinião pública contra a atuação americana na política internacional.

Parece ser uma sinuca: retirar as tropas do Iraque pode ser o suficiente para uma explosão de violência na região e a formação de uma nova república islâmica, como o Iran (shiita) ou o Afeganistão Taleban (sunita). Por outro lado, manter as tropas implica em estabilizar a situação - o que não é possível sem aplicar duros golpes aos financiadores/incitadores do caos no Iraque. Retirada ou intensificação podem significa, por vias diversas, o aumento da influência da China e Rússia entre os países da região, o que inevitavelmente retrairia os americanos.

De fato, é uma forca.