contra-senso

Gospel Star é coisa do capeta*

Publicado em TEOLOGIA, TEORIA SOCIAL por André Tavares em 31/08/2007

Eu não sei nada sobre hinologia, mas a coisa que eu sei remonta àquelas memórias de infância ou da tenra juventude que grudam naquelas partes mais profundas da mente, funcionando como um filtro ou seletor afetivo e poderoso. Lembro-me de folhear um livreto de Gérson Rocha, alguma coisa sobre como esses são tempos terríveis e de como se comportaria a igreja verdadeiramente fiel. Bom, depois de falar de doutrina e ortodoxia, o autor debandou a falar sobre a invasão da “música de satã” dentro das igrejas, que deveriam preservar a “santa música” (leia-se Cantor Cristão e similares). Música de satã era o rock, o samba, o foró e toda e qualquer manifetação rastreável e viva na cultura popular. Música santa, ou sacra, eram os bons e velhos hinários que remontavam à época dos reformadores – sem paralelo no universo dito secular.

Lembro-me do comentário de meu pai: Gérson Rocha parece não saber, mas tenho certeza que sabia, que as músicas dos reformados eram melodias populares, de taverna, usadas para fixar o sermão e a catequese na mente dos fiéis que compareciam aos serviços. Pela lógica do Gérson, era a mais pura música de satã, tanto que algum príncipe ou princesa pediu que Lutero e sua música de buteco fossem silenciados. O problema de Gérson Rocha, compartilhado pelo evangelicalismo brasileiro, é o horror à identificação com a na cultura contemporânea, em seus próprios dias. É um fruto menor (essa coisa da música), mas não menos perverso, de uma certa atitude cristã negadora de sua inserção no mundo, de seu papel que, grosso modo, é estar presente, fazer-se presente e testemunhar no presente.

C. S. Lewis diz, por meio de Screwtape, nas Cartas do Diabo a seu aprendiz, que os homens têm um defeito muito importante, que deve ser muito bem explorado: pensam apenas no futuro. Ignoram ou desprezam o presente, esse ponto de contato com a Eternidade e com as coisas Eternas (verdade que o passado é importante, porque é uma instância das coisas “já eternizadas, porque feitas”, mas mesmo ele vai sendo esquecido… resta o futuro, onde cabem todas as fantasias e blasfêmias da pretensa autonomia humana e seus delírios contra a Soberania – esta é minha interpretação do que Lewis diz).

Pela categorização do Lewis, o Gérson Rocha (e similares), são de um tipo melhorzinho, entretanto. São cheios de fobia pelo presente, mas ainda buscam alguma coisa no passado… ainda que sem muito senso crítico e auto-consciência. Se reconhecessem a origem de suas música e a atitude para com o presente, por assim dizer, da maior parte dos reformados, sua postura diante da cultura de seus dias seria menos infantil (francamente, música de satã é dureza…) e sua influência, de maior escopo.

O pior tipo, a meu ver, é esse limbo atual. Limbo por falta de palavra melhor agora: não é o presente, de modo algum, pois padece do mesmo horror, e não é uma forma de ligação a um passado “editado” e fictício como o de Gérson Rocha. Parte do evangelicalismo atual se isola e se esquiva cuidadosamente do diálogo crítico com a cultura e sociedade em que está inserido em nome de um papel futuro, mas completamente nebuloso, e desconhece completamente sua origem, seu passado e a genealogia de sua crença – que passa então a ser uma infinidade de recortes teológicos ou quasi teológicos ad hoc. É sem passado, não é presente, e vai perdendo mesmo até o contato com o futuro… é uma grande fantasia, um simulacro.

E o limbo, me parece, é isso: a recusa do diálogo crítico, da presença (testemunho) no presente, e a inserção sonâmbula. Sumiu-se com o rótulo “música de satã”, o que aparentemente é bom; entretanto, incorporam um atitude inerte – zumbis que agem como o século quer, incapazes que são de transformá-lo ou confrontá-lo.

Então, proliferam os Gospel Stars, os famosos evangélicos, as feiras de mídia e produção – a linguagem para as massas. Acabam produzindo “música de satã”, não pela música, mas porque deixamos Screwtape e seus asseclas utilizarem bem sua fraqueza.

*Essa expressão é, originalmente, de Riverson Silva, estudante de Letras, professor de literatura brasileira e intelectual picareta (ele assim o quis!).
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4 Respostas

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  1. René said, on 20/04/2008 at 11:01

    Pode crer irmão, é por aí… Verdadeiros (verdadeiros?) zumbis inertes e impotentes ou talvez sem disposição para o combate com o presente século.
    E daí… Pela brecha entra todo tipos de distorção e satã??? Bom… ele adora isso!

  2. margareth malta said, on 18/08/2008 at 18:00

    Ei, André, realmente sou ignorante, mas estou e quero aprender, o louvor evangélico então etnão agrada ao Senhor?
    As “novas” músicas dos “novos stars” evangélicos não são bençãos?? Me responda!
    Grata Margareth

  3. André Tavares said, on 18/08/2008 at 21:36

    Cara Margareth,

    obrigado pelo comentário. Olha, eu não sei se isso agrada ou não a D’us… quem sou eu para julgar esse tipo de coisa? Mas eu sou radicalmente contrário a tudo isso que tem se apresentado no universo evangelical brasileiro. Sobretudo na figura dos stars. E mercado e culto à personalidade puro e simples – e perverso. Sinceramente, creio que não pode haver coisa pior do que um evento que não se sabe se é um show ou um culto, uma apresentação performática ou uma reunião piedosa…

    É de meter medo.

  4. margareth malta said, on 25/03/2009 at 20:28

    Olá, André,
    Depois de muito tempo “passei” por aqui novamente, lí sua resposta, agradeço sua atenção. Mas pondero que é bíblico “Deus habita no meio dos louvores, é seu prazer ouvir…. então é só cantar, a Cristo exaltar….” Bom estar aqui e poder “falar” com você!!
    Grande abraço!
    Margareth Malta


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