Gospel Star é coisa do capeta*
Eu não sei nada sobre hinologia, mas a coisa que eu sei remonta àquelas memórias de infância ou da tenra juventude que grudam naquelas partes mais profundas da mente, funcionando como um filtro ou seletor afetivo e poderoso. Lembro-me de folhear um livreto de Gérson Rocha, alguma coisa sobre como esses são tempos terríveis e de como se comportaria a igreja verdadeiramente fiel. Bom, depois de falar de doutrina e ortodoxia, o autor debandou a falar sobre a invasão da “música de satã” dentro das igrejas, que deveriam preservar a “santa música” (leia-se Cantor Cristão e similares). Música de satã era o rock, o samba, o foró e toda e qualquer manifetação rastreável e viva na cultura popular. Música santa, ou sacra, eram os bons e velhos hinários que remontavam à época dos reformadores – sem paralelo no universo dito secular.
Lembro-me do comentário de meu pai: Gérson Rocha parece não saber, mas tenho certeza que sabia, que as músicas dos reformados eram melodias populares, de taverna, usadas para fixar o sermão e a catequese na mente dos fiéis que compareciam aos serviços. Pela lógica do Gérson, era a mais pura música de satã, tanto que algum príncipe ou princesa pediu que Lutero e sua música de buteco fossem silenciados. O problema de Gérson Rocha, compartilhado pelo evangelicalismo brasileiro, é o horror à identificação com a na cultura contemporânea, em seus próprios dias. É um fruto menor (essa coisa da música), mas não menos perverso, de uma certa atitude cristã negadora de sua inserção no mundo, de seu papel que, grosso modo, é estar presente, fazer-se presente e testemunhar no presente.
C. S. Lewis diz, por meio de Screwtape, nas Cartas do Diabo a seu aprendiz, que os homens têm um defeito muito importante, que deve ser muito bem explorado: pensam apenas no futuro. Ignoram ou desprezam o presente, esse ponto de contato com a Eternidade e com as coisas Eternas (verdade que o passado é importante, porque é uma instância das coisas “já eternizadas, porque feitas”, mas mesmo ele vai sendo esquecido… resta o futuro, onde cabem todas as fantasias e blasfêmias da pretensa autonomia humana e seus delírios contra a Soberania – esta é minha interpretação do que Lewis diz).
Pela categorização do Lewis, o Gérson Rocha (e similares), são de um tipo melhorzinho, entretanto. São cheios de fobia pelo presente, mas ainda buscam alguma coisa no passado… ainda que sem muito senso crítico e auto-consciência. Se reconhecessem a origem de suas música e a atitude para com o presente, por assim dizer, da maior parte dos reformados, sua postura diante da cultura de seus dias seria menos infantil (francamente, música de satã é dureza…) e sua influência, de maior escopo.
O pior tipo, a meu ver, é esse limbo atual. Limbo por falta de palavra melhor agora: não é o presente, de modo algum, pois padece do mesmo horror, e não é uma forma de ligação a um passado “editado” e fictício como o de Gérson Rocha. Parte do evangelicalismo atual se isola e se esquiva cuidadosamente do diálogo crítico com a cultura e sociedade em que está inserido em nome de um papel futuro, mas completamente nebuloso, e desconhece completamente sua origem, seu passado e a genealogia de sua crença – que passa então a ser uma infinidade de recortes teológicos ou quasi teológicos ad hoc. É sem passado, não é presente, e vai perdendo mesmo até o contato com o futuro… é uma grande fantasia, um simulacro.
E o limbo, me parece, é isso: a recusa do diálogo crítico, da presença (testemunho) no presente, e a inserção sonâmbula. Sumiu-se com o rótulo “música de satã”, o que aparentemente é bom; entretanto, incorporam um atitude inerte – zumbis que agem como o século quer, incapazes que são de transformá-lo ou confrontá-lo.
Então, proliferam os Gospel Stars, os famosos evangélicos, as feiras de mídia e produção – a linguagem para as massas. Acabam produzindo “música de satã”, não pela música, mas porque deixamos Screwtape e seus asseclas utilizarem bem sua fraqueza.
*Essa expressão é, originalmente, de Riverson Silva, estudante de Letras, professor de literatura brasileira e intelectual picareta (ele assim o quis!).
4 Respostas
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Pode crer irmão, é por aí… Verdadeiros (verdadeiros?) zumbis inertes e impotentes ou talvez sem disposição para o combate com o presente século.
E daí… Pela brecha entra todo tipos de distorção e satã??? Bom… ele adora isso!
Ei, André, realmente sou ignorante, mas estou e quero aprender, o louvor evangélico então etnão agrada ao Senhor?
As “novas” músicas dos “novos stars” evangélicos não são bençãos?? Me responda!
Grata Margareth
Cara Margareth,
obrigado pelo comentário. Olha, eu não sei se isso agrada ou não a D’us… quem sou eu para julgar esse tipo de coisa? Mas eu sou radicalmente contrário a tudo isso que tem se apresentado no universo evangelical brasileiro. Sobretudo na figura dos stars. E mercado e culto à personalidade puro e simples – e perverso. Sinceramente, creio que não pode haver coisa pior do que um evento que não se sabe se é um show ou um culto, uma apresentação performática ou uma reunião piedosa…
É de meter medo.
Olá, André,
Depois de muito tempo “passei” por aqui novamente, lí sua resposta, agradeço sua atenção. Mas pondero que é bíblico “Deus habita no meio dos louvores, é seu prazer ouvir…. então é só cantar, a Cristo exaltar….” Bom estar aqui e poder “falar” com você!!
Grande abraço!
Margareth Malta