Arquivo para Setembro, 2007

Filantropia, Comunidade, Cooperação, Software Livre e Open Source

28 Setembro, 2007

Atrevo-me aqui a fazer alguns comentários a partir de um post interessantíssimo do Júlio César sobre o impacto e a relação entre o software livre/código aberto e a filantropia. Concordo com o argumento do Júlio, se bem entendi, que por vezes os esforços de cooperação da comunidade termina pro auxiliar muito mais às iniciativas e usos comerciais derivados do software livre/código aberto.

Também é bastante claro que as empresas tem como principal motivação para seu investimento das soluções e desenvolvimentos abertos a resposta eficiente que o modelo de colaboração tem apresentado - lhes poupa tempo, dinheiro e outros recursos, o que, eventualmente, resulta em lucros maiores. E é para isso, diz o velho Marx, que a empresa capitalista existe: gerar mais dinheiro, e é nisso que elas acreditam (quem lê, entenda).

Por outro lado, as contribuições de usuários, desenvolvedores ou grupo de desenvolvedores sem vínculo necessário com alguma empresa envolvida no processo, por vezes seguem um modelo que minora a amplitude e escopo do impacto que software livre/codigo aberto poderia causar para a formação de uma “cultura livre”.

Esse “modelo” ou “paradigma”, na minha opinião, é o próprio conceito de filantropia. Filantropia é diametralmente e essencialmente oposta ao senso de comunidade, e isso não é um contra-senso. Deixe-me explicar.

O filantropo é o sujeito, o agente absoluto na ação do auxílio e ajuda, fora ele só há o objeto, inerte, que recebe - passivo. O filantropo estabelece o que quer dar, quanto quer dar, como quer dar e a quem quer dar. Em momento algum estabelece um diálogo real com a comunidade (vez que o que quer, na maior parte dos casos, é reverter ajuda financeira em prestígio e capital social), perguntando o que ela precisa, de quanto precisa, como precisa, onde precisa, e quando precisa.

Na filantropia, a medida é a disposição do doador. Na cooperação que nasce do senso de comunidade, é a necessidade do grupo que dá a medida. Na filantropia, o recebedor é inerte, passivo - um garoto que tem que se contentar com uma boneca, porque o filantropo doou apenas bonecas… porque quis doar bonecas. Na cooperação, a comunidade identifica os problemas, pensa em soluções e encontra recursos, na medida da sua necessidade - e sai fortalecida.

A medida da comunidade é o bastante, a suficiência - nem de menos, nem demais.

O que as coorporações e a iniciativa privada, doutrinada pela lógica economicista parece não entender é que a eficiência do processo cooperativo é resultado justamente da cooperação e do senso de comunidade. Transportar o processo, transformando-o meramente em técnica, no ambiente meramente comercial que mercantiliza tudo que toca, mata a galinha que lhe dá os ovos, para manter a metáfora de Júlio César.

Para a comunidade de usuários “livres” (sejam simples usuários como eu, sejam desenvolvedores, hackers ou geeks), penso que preciso valorizar nosso maior potencial, como disse o Júlio: sermos diferentes. Somos diferentes do modelo empresarial/coorporativo, somos diferentes do modelo consumista que em sua avidez por inovação mantém milhares de pessoas na periferia dos avanços e processos (vide quando é preciso hardware para rodar o Vista®, e quanto para rodar um GNU/Linux básico…), somos diferentes por optarmos por mostrar a esconder, de educar a escravizar pela ignorância.

Somos diferentes porque ao contrário do filantropo paternalista, podemos ser promotores e fortalecedores da comunidade.

«»

Muito desse raciocínio eu devo ao Ariovaldo Ramos, que no encontro nacional da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Assistência Social) trouxe uma brilhante reflexão sobre as diferenças entre filantropia e cooperação. Quem quiser conferir mais sobre ele: www.ariovaldoramos.com.br.

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

«»

Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

«»

Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

«»

O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

«»

Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?

Posts de blog velho

12 Setembro, 2007

Hoje tive um surpresa - fui “indexado” no Planeta GNU/Linux Brasil. Na seção “sobre mim” estava o convite do Og Maciel, que me deixou muito contente. Bom, eu estou indo para o Encontro Nacional da RENAS (Rede Nacional de Ação Social), e fico fora (e incomunicável) até segunda-feira, 17.

Deixo aqui então, dois texto “velhos”, mas que podem ser de alguma valia, publicados no blog antigo em 20 de março e 19 de janeiro desse ano. Boa leitura!

Estética da empulhação

O diretor de desenvolvimento da Micro$oft® Brasil foi entrevistado pela rádio CBN por ocasião do lançamento do Windows Vista®. Era um entrevista de estúdio. O âncora, não me lembro se era o Sardenberg, soltou de cara: quais são as novidades no Vista®? E a resposta veio rápida e seca: temos uma nova interface gráfica… [silêncio]. Segunda tentativa: sim, mas quais são as novidades, as novas ferramentas? (…)bom, as novidades são tantas que só experimentando é que o usuário saberá. [silêncio constrangedor, fim da entrevista].

Isso aconteceu, e posso ter me esquecido de algum detalhe (como dizia o Glauber, a memória é uma ilha de edição). Ok, eu não vou falar sobre software livre, ou GNU/Linux, ou descer o cacete no Windows® ou na Micro$oft®. Já não preciso fazer isso. O fato é simplesmente ilustrativo - e se aconteceu com um executivo da empresa do Bill, que farei eu?

Mas é isso, em maior ou menor grau, o que acontece em nossos dias. Num sistema social em que todas as disputas importantes são decididas por uma tecnocracia pretensamente isenta, em processos cada vez mais ocultados dos cidadãos, não há que se saber como as coisas funcionam, quem controla as catracas e onde os esqueletos são guardados: o que todo mundo quer saber é se o resultado é bonitinho. Leia-se politicamente correto. E uma ocupação cada vez mais requisitada por aí é o maquiador de resultados.

A coisa funciona mais ou menos assim: toma-se um tema que já está presente e altamente considerado pelas pessoas - como uma política social de inclusão. Apresenta-se o diagnóstico, problemas e desafios, segue-se a exposição do projeto, metodologia, metas, benefícios. Posteriormente, editam-se gráficos, books, filmes e vídeos belos e empolgantes de como a comunidade ou segmentos foram transformados.

Correto em todos os pontos: motivação, projeto, método, execução e resultados. Tudo bonitinho.

E ninguém, obviamente, sabe como as coisas funcionam. Quem alimenta o esquema, quem o orienta, o corpo de executores, a propriedade e pertinência… e questionar qualquer desses pontos é imoral, deplorável e criminoso. Como se o motivo a tudo justificasse e redimisse quaisquer erro ou descaminho.

Acredito que o leitor já reconhece o esquema em sua expressão real.

Como no caso dos sistemas operacionais computacionais, desinformação associada com um julgamento por critérios estéticos, de gosto - subjetivos, pessoais e “intraduzíveis” - resultam em vulnerabilidade, poderes ocultos, desrespeito, medo, cerceamento de liberdades e ineficiência.

Saber como as coisas funcionam significa conhecer as entranhas, as sujeiras, viscosidades, odores e coisas dessa espécie; significa expor. Da mesma forma que ninguém em sã consciência prefere cobrir um ferimento com bandagens, cremes e maquiagens para recompor o aspecto sadio ao invés de tratamento médico com seus bisturis, iodo, agulhas tesouras e pontos, a atitude de relegar o que importa a não se sabe quem e apenas requerer as amenidades decorativas é um descaminho, imbecilidade.

Que bombas que nada! Para destruir o mundo basta transformar tudo em entretenimento: apazíguam a alma e desligam a mente.

… cuja altura era de sessenta côvados II

Eu uso GNU/Linux Ubuntu. Quem lê esse blog sabe disso; mas pode não saber que eu não sou um geek, na verdade sei poucas coisas sobre computadores - se levar em conta o montante de coisas sobre computadores que há para se saber. Tudo que sei sobre computadores, sobre software e software livre, é por conta de uma posição moral, ética - é axiomático, é por conta do que creio ser o certo. E não é uma questão de ortodoxia, mas de ortopatia. Vou explicar.

Usar software livre é tornar o poder e a confiabilidade dos processos para o usuário, ao componente humano, que, ao contrário do que querem nos fazer crer, é o mais confiável por ser o elemento criativo e realmente inteligente. É retomar o conceito da produção colaborativa e cooperativa, o que está muito distante da noção de inteligência coletiva, massificada e consensual da cultura de hive mind.

A noção de copyleft é uma perturbação no sistema demoníaco de restrições à difusão de inovações e participação e usufruto dos resultados (não, isso não é coletivização no sentido comunista - mas “free as freedom” como diz Richard Stallman). Divulgar e colaborar com cultura livre é lutar pela liberdade criativa do homem, assegurada na antropologia bíblica. Qualquer um que se queira coerente com uma visão bíblica de desenvolvimento, acho, percebe o valor de um princípio tal como formulado por iniciativas como copyleft.

Por isso, para mim, esse tema evoca princípios, e pede status de ortodoxia e ortopatia.

E não são apenas confessores de credos reformados que pensam assim, tenham certeza. Qualquer programador hoje em dia, sabe que Sistemas Operacionais livres são consideravelmente mais confiáveis, e uma prova disso é o fato de os principais servidores, dataservers e backbones do mundo rodarem alguma variação de SO livre.

Mas o mundo é caído - e os homens também. Depois das conquistas da cultura livre, sobretudo no que tange à web e à transmissão de dados, os poderes estão preparando seu contra-ataque. Uma vez que parecem ter perdido a batalha no campo dos grandes servidores e máquinas, e, por enquanto, na garantia da liberdade da internet, arquitetam um duro golpe contra nós, usuários comuns.

A idéia é que, da mesma forma que softwares proprietários (copyright) tomam decisões pelo usuário e impedem a interferência deste, agora as novas restrições serão asseguradas pelo hardware. Isso mesmo. Como o software proprietário é bastante ineficiente em garantir facilidade e segurança para o usuário e a integridade dos direitos, muitos usuários estão migrando para alternativas livres. E exige uma resposta da indústria de software. E ela vem na forma de uma conspiração maligna (no sentido de mal).

Um consórcio formado pelo esforço conjunto entre a indústria fonográfica, cinematográfica, de software e hardware e certos Estados lançou a noção de computador confiável, ou, em sua sigla inglesa Trusted Computing. Bom, isso é, a princípio, interessante. Usar computadores, que cada vez mais participam de processos vitais para a manutenção da sociedade global, de maneira confiável é consenso. O problema começa aqui: confiável para quem? O verdadeiro intento do TC é impedir a livre disseminação de conteúdos - protegendo certos agentes do mercado e certos interesses políticos /ideológicos.

Agora, os processadores, presentes em cada vez mais aparelhos além dos computadores pessoais ou servidores, serão programados para permitir que o usuário rode apenas determinados conteúdos ou programas, obviamente, de acordo com os interesses do consórcio. E, senhores, isso não é teoria da conspiração. Na verdade, já começou: por exemplo, se vc comprar um video-game de uma certa gigante do segmento de informática que recentemente entrou no mercado de consoles, você, consumidor, não é seu. Trocando em miúdos, o que você comprou não foi o video-game, foi o seu uso segundo determinadas condições. Francamente…

Uma vez que isso é legal (a quebra das regras do licenciamento constitui-se num crime ou contravenção), é perfeitamente plausível que a indústria de software se una à de hardware pra assegurar que os usuários não farão nada fora do contrato.

Qual a solução? Bom, primeiro, resistência. Como eu já falei em outros posts, use e incentive o uso de software livre em sua casa, trabalho, comunidade, igreja, escola, clube, etc. Procure quem sabe alguma coisa de software livre e que possa introduzi-lo no assunto; pesquise na internet. Se realmente entende o problema, procure uma escola de informática que dê formação em GNU/Linux. Se você acha isso exagerado, pense em alguém que saia por aí dirigindo um carro sem saber como fazê-lo… é quase a mesma coisa com um computador… e as conseqüência do mau uso podem ser piores, pode acreditar…

Segundo, use seu poder como consumidor. Da mesma forma que muita gente boicota produtos de empresas que usam mão-de-obra escrava ou infantil, ou que causam sérios impactos ambientais, da mesma forma que você procura alimentos livres de transgênicos ou de gorduras trans, procure comprar produtos e serviços licenciados por alguma licença livre, como GLP, Criative Commons ou outra. Quando for compra seu próximo computador ou laptop, prefira processadores AMD ao invés de Intel (você já sabe por quê).

Terceiro, converse com seus amigos e divulgue a questão. Esse é um problema que mais cedo ou mais tarde afetará a vida de todos: se a TC acontecer, alguém poderá “desligar” todos os computadores do mundo e de todo mundo. Arbitrariamente. Imagine isso acontecendo agora mesmo, enquanto você lê essas linhas.

Por fim, agradeço ao André Noel pela dica no Planeta Ubuntu.

Boa porte desse post está baseado nas informações contidas nesse artigo do Prof. Diego Saraiva, no Com Ciência (por favor, leia).

Abraço.

Shaná tová u’metuká - Um ano bom e doce

12 Setembro, 2007

Hoje é 29 de Elul, o sexto mês do calendário hebreu, e marca a véspera de Rosh Hashaná, o ano novo judaico - 1ᵒ de Tishri. Pode parecer estranho que o ano novo seja comemorado entre o sexto e sétimo mês do calendário - é que Rosh Hashaná é o ano novo litúrgico, quando o ciclo de leitura das 54 porções da Torá é concluído. Em termos bíblicos, a data tem outro nome, Yom Teruá (Levítico 23:24), ou “O dia de tocar a shofar”, ou festa das trombetas.

Yom Teruá, ou Rosh Hashaná, marca, também, o início dos dias de arrependimento, ou os “dez dias terríveis” - Yomim Noraim - que culminam com o Yom Kipur, o Dia da Expiação (ou do perdão). Diz a tradição judaica que em Rosh Hashaná, D’us se assenta num trono e os livros contendo os feitos de todas as pessoas são repassados e julgados - daí um outro nome para a festa: Yom haDin, ou Dia do Julgamento. Também foi dessa tradição que temos a idéia do Livro da Vida, tão presente no Novo Testamento.

O ano novo é marcado pela noção de justiça e prestação de contas, de rememoração do povo sobre seus atos, conduta, e reflexão sobre a justiça e retidão de seus caminhos. D’us continua assentando em Seu Trono, e julga Soberano sobre todas as coisas - e nada haverá de lhe escapar, seja ao juízo, seja ao perdão.

Os dias terríveis não são meramente para uma reflexão pessoal, para uma moral individual (apesar de isso ser importante e estar presente na festa). São dias de responsabilidade coletiva, é o povo pedindo perdão pelo povo; é onde cada um é responsável pelos atos de todos, porque toda a Terra sofre com a injustiça e com o pecado. É profundamente corporativo e comunitário: o indivíduo pede perdão e acerta seus erros todos os dias com Seu D’us e com o próximo, mas nesses dias, somos todos e cada um diante de D’us.

Rosh Hashaná também é um dia de pedir a D’us que faça juízo, que guarde o fraco, o oprimido, o pobre e o injustiçado - que livre Israel de seus inimigos. Justiça, para a Torá, para o judaísmo, é também misericórdia, é verdade e socorro.

Temos muito a refletir, muito a considerar. Muito da misericórdia de D’us é preciso, e de sua justiça, portanto, também. Oremos e peçamos ao Eterno, que renove nossos dias, e que tenhamos, em 5768, um ano bom e doce - com atos próprios para aqueles que estão inscritos no Livro da Vida pelo sangue do Messias.

Notas sobre a questão agrária - por um leigo

3 Setembro, 2007

Um dos problemas dos movimentos de esquerda (ou, afinal, das grandes correntes e movimentos políticos) é sua tendência de criação de grandes propostas e agremiações totalizantes, que querem reunir sobre si todos os elementos interessados em certa questão, criando a ilusão que todos os componentes e agentes formam uma grande massa monolítica de opinião uniforme. Para tanto, é preciso subsumir as clivagens, as preferências discordantes, os grupos dentro do grupo, calar as alternativas e criar a noção e sensação em cada componente de que a única forma viável, correta e possível e a que lhes é apresentada (ou imposta) por uma “ala majoritária” (não creio foi sem propósito que José Dirceu e os seus tenham escolhido - ou ganhado - essa designação dentro do PT).

Apesar de crer que em certos momentos a coesão é necessária para a sobrevivência ou superação de um certo momento histórico ou questão crucial - como aconteceu nos governos de coalizão para momentos críticos na Inglaterra -, isso não tira o direito do cidadão de discordar, avaliar e expressar posição contrária. É inadmissível que se silencie grupos, preferências, e opiniões numa caudalosa e barulhenta propaganda e mecanismos de isolamento (não é à toa que tanto se ouve falar de personagens da esquerda que, em dado momento da “revolução”, são ostracizados, caindo no limbo). A estratégia do cinto ideológico que reúne os indivíduos, usurpando-lhes a iniciativa e agência, para a formação de um leviatã supra e super pessoal é a pior alternativa, se não a mias demoníaca.

»«

A questão agrária no Brasil, ao que me parece, padece do mesmo problema. Perceba que não quis me valer de pronto do termo reforma agrária exatamente pelo fato da questão agrária não se limitar a reformas e compartilhamento ou redistribuição de terras. Dentro do movimento, que, como tentei prefaciar, não é uno, único, e coerente (ou seja, unívoco) existem questões de regularização agrária, resolução de conflitos, questões de ordem trabalhista e, claro, reforma.

Existem milhões de posseiros e colonos no Brasil que cultivam e trabalham em terra a várias gerações das quais não são legalmente proprietários, nem delas podem dispor e têm seu futuro atrelado à incerteza da vontade de uma figura cada vez ausente - o latifundiário que por agora pensa nos muitos cifrões do agronegócio e nas chamadas opções verdes de combustível.

Existem milhares (se não, novamente, milhões) de agricultores que ocupam terras das quais não possuem títulos de posse e sofrem pressões e ameaças de grileiros e esperam pela justiça que lhe entregaria as escrituras. Trabalhadores do campo que não recebem seus direitos trabalhistas, e nós os vemos vez em quando nos telejornais quando algum fiscal do Ministério do Trabalho faz seu trabalho, flagra e autua fazendeiros que se valem da exploração de trabalho semi-escravo.

Nas cidades e em suas favelas, outra miríade originária do campo, personagem do êxodo rural brasileiro (um dos maiores da história) se amontoam na semi-urbanidade, desiludidos do sonho industrial e citadino, a quem se apresenta a possibilidade de retornar para o interior.

Para essas tragédias, que são diversas e de natureza distintas, não há uma solução única. Há questões e características regionais, econômicas, políticas e morais que fragmentam esse falso monolito e exigem tratamento diferenciado. Como tudo por aqui, no Brasil, que seja mais complicado que um binômio é esquecido na máquina burocrática atolada na lama da má vontade política, a solução do super-funcionário brasiliense é tomar o gigante verde-louro como igual em tudo e todos os lugares, propondo uma solução que só dá certo no Reino da Sandice (não muito longe de Inverídia).

Por outro lado, movimentos da esquerda revolucionária sem tanta sofisticação gramsciana solapam e fagocitam os movimentos regionais, menores e atentos às especificidades locais, reunindo toda a massa em torno de usa bandeira, hasteada no poste mais alto e tomada por única existente e possível. E isso transcende a realidade e consciência dos agentes envolvidos diretamente na questão: na cidadão comum, que assiste ao Jornal Nacional, a questão agrária se confunde com reforma agrária e seu representante único é o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A unificação dos discursos é a condição necessária para a polarização binária do conflito, para o acirramento das preferências que leva ao inevitável conflito. Sendo que o pequeno burguês geralmente é um otário sonâmbulo que cede sua liberdade a um governo totalitário desde que prometa livrá-lo das ameaças, e o pobre camponês foi a classe (num sentido menos marxista, substitua “classe” por “tipo”, se quiser, que a gente se entende) mais sofrida com a revolução industrial (o trabalhador industrial urbano obteve melhorias se tomarmos períodos maiores, e a constatação estatística do aumento da renda do operário foi um problema que Marx contornou com a fraude dos dados expostos n’O Capital), não me parece fortuito o fato dos países com maior população rural do mundo terem instalado regimes comunistas (Rússia e China), enquanto os países industrializados, com sindicatos mais atentos e politizados (com aquele tipo interessante, o burocrata do partido ou do sindicato que se enquadrou na cultura pequeno burguesa) conseguiram equalizar diferenças salariais e melhorias sem abrir mão da economia de mercado e da democracia multi-partidária.

»«

É preciso estilhaçar os monolitos, esses construtos ideológicos irreais e mentirosos, demonstrar os diferentes ambientes e problemas para desmontar o uso desse problema real e urgente de justiça para projetos partidários, revolucionários ou que quer que sejam.

Sobretudo, acredito na opção pelo pobre, e por uma questão de justiça, é preciso um esforço político e moral para solucionar o problema da questão agrária, sem recorrer à vitimização, mas sem esconder ou minorar os fatos de opressão, violência e demais tragédias, com adequação econômica, mas sem esquecer a justa medida e solidariedade com o fraco (sim, eles existem).

»«

Este post foi motivado pelo filme (não creio que possa chamá-lo de documentário, por questões técnicas) de Tetê Moraes, “O sonho de Rose” (Brasil, 1996/2000), tratando dos desdobramentos do caso de Rose, sem-terra (casada, mãe de três filhos) que morreu atropelada (supostamente morta intencionalmente) durante a luta de acampados do MST na fazenda Annonni, no Rio Grande do Sul, em 1985 - em 87, Moraes dirigiu “Terra para Rose”, sobre a ocupação, o confronto com a polícia e a morte de Rose.

Em entrevistas muito interessantes com a família de Rose, sua situação dez anos depois da tragédia, e com as lideranças do movimento, antigos companheiros de ocupação, que são confrontados com suas afirmações anteriores e atual condição. Sem querer antecipar o filme, creio que muitos aspectos e contradições da questão agrária e do MST (e outros movimentos atuantes no campo) ficam muito claros.

O filme foi exibido ontem (Domingo) no programa Cadernos de Cinema, da TVE. Mesmo não sendo uma obra-prima do cinema, proporciona boas reflexões, como espero ter sido o caso aqui. Se puder, assista.

Amazônia: muito além da questão ambiental

2 Setembro, 2007

No Planeta Ubuntu Brasil, foi postado pelo Og Maciel um vídeo do Greenpeace, hospedado no YouTube, sobre o problema da revisão da demarcação das terras para o povo Enawene Nawe (demarcação que subtraiu importantes sítios religiosos e de subsistência da tribo) no norte do Mato Grosso. Em vista da possibilidade de revisão e ampliação das terras Enawene, fazendeiros da região acudiram em ocupar as áreas e iniciar atividades do agro-negócio alí. Os índios pediram apoio à OPAN (Operação Amazônia Nativa), que enviou um grupo de consultores e jornalistas para avaliar a situação e divulgar o problema.

Contudo, os fazendeiros, ao saberem da presença de ambientalistas e jornalistas que iriam se encontrar com os Enawene, ameaçaram e intimidaram o grupo, e, juntamente com o prefeito e a Câmara Municipal de Juína, impediram a visita prometendo, inclusive, fechar a estrada ou recorrerem a meios piores. A equipe teve, então, que cancelar o encontro e deixar Juína.

O que inacreditável é a forma como fazendeiros invasores de terras, legisladores e governantes violam todos os direitos de liberdade (de imprensa, de ir de vir, etc.) e da integridade física e moral, e agem conjunta e criminosamente em nome de interesses sabidamente ilegais - e sem qualquer dissimulação.

Enfim, assista o vídeo. Divulgue, ainda que você seja um desconfiado de instituições como o Greenpeace e OPAN, porque o que está em jogo são procedimentos e direitos democráticos. O caso da Amazônia se situa, faz tempo, num lugar muito além da questão meramente ambiental.

Veja no YouTube, ou na reportagem do Greenpeace.

Atualização - quem comentou:

Luiz Carlos Azenha (Globo)

Conor Foley (The Gardian)

(valeu, Guilherme!)