Filantropia, Comunidade, Cooperação, Software Livre e Open Source
Atrevo-me aqui a fazer alguns comentários a partir de um post interessantíssimo do Júlio César sobre o impacto e a relação entre o software livre/código aberto e a filantropia. Concordo com o argumento do Júlio, se bem entendi, que por vezes os esforços de cooperação da comunidade termina pro auxiliar muito mais às iniciativas e usos comerciais derivados do software livre/código aberto.
Também é bastante claro que as empresas tem como principal motivação para seu investimento das soluções e desenvolvimentos abertos a resposta eficiente que o modelo de colaboração tem apresentado – lhes poupa tempo, dinheiro e outros recursos, o que, eventualmente, resulta em lucros maiores. E é para isso, diz o velho Marx, que a empresa capitalista existe: gerar mais dinheiro, e é nisso que elas acreditam (quem lê, entenda).
Por outro lado, as contribuições de usuários, desenvolvedores ou grupo de desenvolvedores sem vínculo necessário com alguma empresa envolvida no processo, por vezes seguem um modelo que minora a amplitude e escopo do impacto que software livre/codigo aberto poderia causar para a formação de uma “cultura livre”.
Esse “modelo” ou “paradigma”, na minha opinião, é o próprio conceito de filantropia. Filantropia é diametralmente e essencialmente oposta ao senso de comunidade, e isso não é um contra-senso. Deixe-me explicar.
O filantropo é o sujeito, o agente absoluto na ação do auxílio e ajuda, fora ele só há o objeto, inerte, que recebe – passivo. O filantropo estabelece o que quer dar, quanto quer dar, como quer dar e a quem quer dar. Em momento algum estabelece um diálogo real com a comunidade (vez que o que quer, na maior parte dos casos, é reverter ajuda financeira em prestígio e capital social), perguntando o que ela precisa, de quanto precisa, como precisa, onde precisa, e quando precisa.
Na filantropia, a medida é a disposição do doador. Na cooperação que nasce do senso de comunidade, é a necessidade do grupo que dá a medida. Na filantropia, o recebedor é inerte, passivo – um garoto que tem que se contentar com uma boneca, porque o filantropo doou apenas bonecas… porque quis doar bonecas. Na cooperação, a comunidade identifica os problemas, pensa em soluções e encontra recursos, na medida da sua necessidade – e sai fortalecida.
A medida da comunidade é o bastante, a suficiência – nem de menos, nem demais.
O que as coorporações e a iniciativa privada, doutrinada pela lógica economicista parece não entender é que a eficiência do processo cooperativo é resultado justamente da cooperação e do senso de comunidade. Transportar o processo, transformando-o meramente em técnica, no ambiente meramente comercial que mercantiliza tudo que toca, mata a galinha que lhe dá os ovos, para manter a metáfora de Júlio César.
Para a comunidade de usuários “livres” (sejam simples usuários como eu, sejam desenvolvedores, hackers ou geeks), penso que preciso valorizar nosso maior potencial, como disse o Júlio: sermos diferentes. Somos diferentes do modelo empresarial/coorporativo, somos diferentes do modelo consumista que em sua avidez por inovação mantém milhares de pessoas na periferia dos avanços e processos (vide quando é preciso hardware para rodar o Vista®, e quanto para rodar um GNU/Linux básico…), somos diferentes por optarmos por mostrar a esconder, de educar a escravizar pela ignorância.
Somos diferentes porque ao contrário do filantropo paternalista, podemos ser promotores e fortalecedores da comunidade.
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Muito desse raciocínio eu devo ao Ariovaldo Ramos, que no encontro nacional da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Assistência Social) trouxe uma brilhante reflexão sobre as diferenças entre filantropia e cooperação. Quem quiser conferir mais sobre ele: www.ariovaldoramos.com.br.
