Arquivo para Novembro, 2007

Um exercício pós-moderno de interpretação… a neo-pop-parábola

12 Novembro, 2007

“Hey, Bobby Marley, sing something good to me…

this world go crazy: it’s an emergency”

(Manu Chao)

Don’t worry… be happy

(Bobby Marley)

Numa leitura bem pós-moderna da letra da música Mr. Bobby, de Manu Chao, achei uma coisa engraçada, no mínimo, e curiosa, no máximo. Quem sabe possa ser mais que isso, mas não vou me exceder, até porque já corro riscos demais me permitindo fazer uma exegese pós-pós… Mas leiam a letra como se ex-Mano Negra estivesse falando da internet e de uma visão bastante pessimista de qualquer redenção integradora, promotora de diálogo pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação (não vou repetir o refrão, obviamente):

Sometimes I dream about reality
Sometimes I feel so gone
Sometimes I dream about a wild wild world
Sometimes I feel so lonesome

Hey Bobby Marley
Sing something good to me
This world go crazy
It’s an emergency

Tonight I dream about fraternity
TONIGHT I say: one day!
One day my dreams will be reality
Like Bobby said to me

[...]

Tonight I watch through my window
And I can’t see no lights
Tonight I watch through my window
And I can’t see no rights

Distância da realidade, descolamento, virtualização, solidão… realmente quantos não acharam, e ainda acham, que a “rede que tem o tamanho do mundo” terminou por ser uma armadilha (rede, também) tão grande que é capaz de tudo aprisionar, e aí resta a wild, wild world (outra possibilidade semântica para www…). Das nossas “janelas” (quem lê, entenda) não vemos luzes de liberdade e fraternidade, mas apenas o cerceamento das liberdades e da fraternidade, seja pela restrição imposta ou o fim da liberdade pelo próprio alargamento da consciência do que vai pelo mundo. Quem não se desespera, fugindo, virtualizando, ao invés de solidarizar-se?…

De nossos monitores (que também podem ser as “janelas”), vemos o mundo ser encaixotado… Manu Chao não pode chamar um técnico, um burocrata… pra dar jeito no mundo, só quem propuser uma moral e modelo ético consistente. Apesar de eu não concordar com a escolha que fez, Mr. Bobby não deixa de ser uma figura messiânica (veja que Marley era rastafari).

Ok, continuemos sonhando com fraternidade. Essa noite podemos pensar: um dia! Num mundo louco, sonhar é o princípio da redenção, porque, como dizem nosso rabinos: o sonho é uma porção da profecia… e as profecias mudam o mundo porque disseminam esperança.

Sempre poderia ser mais fácil…

9 Novembro, 2007

Nos painéis do wordpress que me contam os detalhes de bastidores do meu blog (hehehe), apareceu nos “temos do motor de busca” que alguém chegou até o “contra-senso” procurando por “driver ati 9550 ubuntu”. Bateu-me um desespero. É, eu uso uma placa dessas e comentei seus problemas na instalação do Ubuntu 7.10. Tudo por aqui anda bem, a não ser por essa aquisição desastrosa que foi essa placa de vídeo. Já voodoozei a configuração de vídeo e segui tutoriais que me levaram a lugares sombrios e bizarros (leia-se, tela preta e 600X400). O André Gondim alertou do bug nos drivers ATI, mas o newbie aqui insistiu em habilitar os drivers restritos, e depois uma reza ingênua para o Envy resolver meu problema… aiai… vida dura essa de usuário final.

Como bem disse o Ricárdo Bánffy, “o mundo é dos sempistas” [clueless]. E por ser dos sempistas, é dos espertos… que deles se aproveitam. O que me deixa atormentado é esse negócio de ficar nas mãos da decisão das empresas: quando comprei a placa, a ATI era bem vista, quer dizer, tinha bons drivers livres, e a as placas GeForce eram “fechadas”. Algum tempo depois, se eu estiver certo, a AMD comprou a ATI e fechou o desenvolvimento dos drivers. Cumpri bem meu papel de usuário final bem intencionado, mas trouxa.

[Thadeu Penna corrigiu uma injustiça, e convém publicar seu comentário - só uma correção: não foi a AMD que fechou o desenvolvimento do driver da ATI, pelo contrário. O que acontece é que os drivers ATI feitos pela comunidade (ati) são melhores que os NVidia (nv), e feitos sem nenhuma ajuda da ATI. No entanto, os drivers proprietários da NVidia (nvidia) são melhores que os da ATI (fglrx). Recentemente a AMD liberou alguns drivers como open-source mas apenas para placas mais recentes. Obrigado, Thadeu. Peço desculpas a todos pelo erro na informação. Mea culpa, mea culpa...]

O meu notebook velhinho tem uma Radeon 9200, o compiz só roda com o driver livre (ati) mas jogos 3D são melhores com o driver proprietário (fglrx).

Apesar de iniciativas notáveis como a lista de hardware compatível com GNU/Linux, as coisas ainda não são assim tão fáceis. Não estou negando que o Linux seja uma SO maduro para desktop, de modo algum! É que na hora que bate a vontade de jogar alguma coisinha em 3d dá uma tristeza… ;)

Uma noite de novembro… quase 70 anos atrás

9 Novembro, 2007

Há 69 anos, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, as ruas de quase todas as cidades da Alemanha, e de Vienna (Áustria), foram tomadas por uma turba sedenta de violência, numa orgia de atrocidades. Era a Kristallnacht - a Noite dos Cristais. Em 1933 o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, e desde então, a situação dos judeus no país foi se deteriorando metodicamente, num plano bem arquitetado pelos nazistas. Judeus poloneses que vivam na Alemanha foram deportados em outubro de 38 para seu país de origem, que também não os quis receber, fazendo com que 12 mil pessoas fossem pressionadas na fronteira teuto-polaca, sob chuva e frio, sendo admitidas finalmente na Polônia, em terríveis campos de refugiados.

Um parente desses desafortunados, que vivia em Paris, pediu por ajuda ao embaixador alemão na França, vom Rath. Após ser repetidamente ignorado em sua petição, o rapaz judeu assassinou vom Rath. O incidente foi o que o partido nazista, mais especificamente o chefe da propaganda, Goebbels, precisava para uma ação maciça contra os judeus alemães. Um grande levante, que deveria ser tomado por popular e espontâneo, foi perpetrado pelas autoridades do partido, tendo sido levado a cabo pelas tropas nazistas, as SA, as SS, e outros grupos organizados. Seus membros estavam à paisana, confundindo-se e insuflando os civis.

A Kristallnacht tinha objetivos muito claros: banir os judeus da vida econômica alemã e testar o nível de reação da comunidade internacional a uma ação violenta em larga escala contra os judeus alemães. A ação era coordenada e direta: depredar lojas, estabelecimentos comerciais de propriedade judaica, casas e vizinhanças judaicas, sinagogas, e prender o maior número possível de homens judeus. O saque estava proibido, bem como a violência contra estrangeiros (inclusive judeus estrangeiros), e a população alemã deveria ser cuidadosamente poupada de danos acidentais.

As turbas saíram às ruas com machados e marretas e puseram-se a quebrar as vitrines de casas e estabelecimentos judaicos - daí no nome Kristallnacht: a Noite dos Cristais, porque o vidros de vitrines e janelas eram feitos de cristal e muito caros, sendo, de certa forma, símbolo de prosperidade. 8 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram atacados, 30 mil homens judeus presos e enviados a campos de concentração, e 1700 sinagogas foram atacadas, sendo que 270 foram queimadas e destruídas. Judeus foram perseguidos e espancados, entre a noite do ataque e os meses seguintes (nos campos), pelo menos 2 mil pessoas morreram.

Na Áustria os resultados foram proporcionalmente piores - os austríacos agiram com diligência: 191 sinagogas destruídas, sendo 76 delas completamente demolidas; mais de 800 casas comerciais de judeus foram destruídas.

A real participação da população civil é impossível de ser mensurada, sobretudo pelo fato dos membros de tropas de ataque estarem em roupas civis. Mas o ponto é que assim como os alemães, o resto do mundo assistiu à Noite dos Cristais paralizado, sem saber exatamente o que era aquilo e recusando-se a fazer alguma coisa. Muitos países condenaram o ataque, alguns chegaram a romper relações diplomáticas… mas já era tarde. O dia 9 de novembro de 38 foi um ensaio geral para o que estava por vir - não por acaso, alguns consideram a Kristallnacht como o início do Holocausto.

Os Nazistas, como todos os inimigos da liberdade, não precisavam de ajuda ou adesão massiva à sua orgia - precisavam apenas que as pessoas se calassem e virassem seus rostos. Como na frase do Sr. King: “não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. E pouco tempo depois, já não havia como evitar “danos à população alemã”. A guerra foi impiedosa, mas não podemos negar que deu muitos sinais e avisos de que chegava… entrou quase que a convite.

E os judeus? Sobreviveram… foram multados, ao final do levante, em 1 bilhão de marcos por “danos à nação alemã”… e os reparos das janelas quebradas ficou em torno dos 4 milhões de marcos. Muitos que até ali estavam hesitantes, tentaram emigrar. Mas já era tarde também para isso, para muitos. E até hoje, tentamos sobreviver… pagando multas, consertando casas, indo embora, e escrevendo… tentando não deixar que certas coisas se repitam.

Considerações sobre a liberdade - por um leigo

8 Novembro, 2007

Liberty is a concept with vast possibilities for imagination

A frase acima é do filósofo russo Lev Navrosov, um dos pensadores mais lúcidos que encontrei nos últimos tempos (não que eu conheça muitos). A liberdade é um dos recursos, uma das características humanas mais temidas e odiadas por seus opressores. Ditadores, regimes totalitários, demagogos e aproveitadores de todos os tipos conseguem “legitimidade” ou permissão para cometer seus crimes depois de extirpar suas vítimas da liberdade. A primeira coisa que precisam fazer é fazer crer que não há nada melhor, mais necessário ou mais adequado do que o que estão propondo ou oferecendo. E como o bandido conhece o mal que perpetra, sabe também que à menor comparação com o que é realmente razoável e realista, será desmascarado. Então, a primeira providência que toma é disciplinar o olhar da presa, estreitar-lhe os horizontes até que creia que seu “mentor” lhe quer o bem e é justamente isso o que oferece.

O pior tipo de supressor de liberdades é uma espécie de esteta, de artista adulterado, corrompido. Pois o artista (verdadeiro) remove e adiciona camadas ao real, rearranja seus elementos para demonstrar a beleza da própria realidade, ou denunciar o horror e a feiúra - mas seu ponto de referência é a realidade: o bem e belo que nela há, e o mal e feio que precisa de conserto. O supressor faz uso das prerrogativas da arte para descolar o olhar da realidade, para virtualizar a experiência; cuidadosamente evita a comparação, a constatação do real que desmascararia sua farsa e livraria o cativo.

Uma vez isso feito, o escravo (quem perdeu a liberdade) é expropriado da “riqueza semântica do real”, como diria meu bom amigo Guilherme de Carvalho, e torna-se prisioneiro numa jaula de fantasias, que não é outra coisa senão a completa distância da realidade. Estética tem a ver com verdade, que tem a ver com real, que tem a ver com liberdade. E liberdade é poder imaginar, é ter possibilidades múltiplas e infindas de comparação e possibilidade. E isso é muito diferente de fantasia.

Esse tipo de escravização é tão terrível, é um tipo tão acabado, tão teleológico de catividade que transcende a coerção e constrangimento físico. É o aprisionamento da mente, do espírito. Temos alguns tantos exemplos e parábolas que descrevem bem essa situação - quem sabe a caverna, de Platão, seja a imagem mais recorrente. Mas para mim, a narrativa do Éden, em Be’reshit (Gênesis) é mais contundente… mas isso é conversa pra outro post.

Os grandes tiranos do século XX, os regimes totalitários, por exemplo, fizeram exatamente isso: trabalharam diligentemente para convencer pessoas de que o que propunham não somente a melhor mas a única solução e redenção possível. Não era apenas a melhor escolha (afinal, escolha é o que o inimigo da liberdade odeia), mas a única alternativa. E não por acaso, Hanna Arendt caracteriza os regimes totalitários do século passado (o nazismo, ao menos) como profundamente estéticos.

A sofisticação dos irados opositores da liberdade, da humanidade, parece não ter fim… ninguém falará mais em cadeias, em algemas. A não ser como parte do espetáculo. Prosseguirão com a desfiguração do real, com a supressão das escolhas pela deterioração da capacidade de discernimento. E o que é discernimento? “Capacidade para distinguir o bem do mal para fazer o que é certo”. Pode chamar de livre arbítrio ou livre agência.

Devoram nossa liberdade restringindo nosso poder de escolha, não por força e constrangimento, mas nos convencendo de que somos inaptos para deliberar e discernir. “Senhores, não sabemos, realmente, como julgar. Não sabemos o que é bom para nós. Portanto, venham, dominem sobre nós, guiem nossas vidas, pois isso nos será coisa melhor”. E então, com nosso consentimento, eles se assentarão no trono feito com os cadáveres de nossa consciência.

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Do que venho acompanhando, a comunidade do software livre/open source vem fazendo um bom trabalho para manter a liberdade sobre a base da possibilidade de imaginar outras possibilidades de escolha. O recente sucesso na defesa do padrão ODF como ISO, contra o OOXML, fui uma prova contundente do presença da comunidade e de quão longe os inimigos da liberdade, mesmo numa questão de mercado, podem ir.

Minha única ressalva, e falo isso reconhecendo meu lugar como leito, é que não devemos repetir os padrões (des)criativos, e nos lembrar, ou melhor, imaginar que “há outras maneiras” que, se não apresentadas até aqui, é porque podem ser ainda melhores… E, sobretudo, é preciso ter (muita) consciência de que o movimento Livre (que não deve ser só software) não é uma mera questão de tecnologia ou informática. É política e filosófica - é moral.

“Free as freedom” parece ser um bordão com mais aplicações e significados do que consideramos (eu, pelo menos) até agora.

De Munique a Pequim

7 Novembro, 2007

Ano que vem, mais uma vez, os olhos do mundo todo se voltarão para a China, para as Olimpíadas de Pequim, ou Beijin. As Olimpíadas modernas, como todos sabem, tal como idealizadas por Pierre Fredy, Barão de Coubertin, têm por princípio a união e confraternização entre os povos, o “fair play“, e essa coisa toda. Mas, para honrar mais uma vez o título desse blog, a realização de uma olimpíada na China é, em todos os sentidos, um contra-senso.

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A China é o país mais populoso do mundo, e detém outros recordes. É o país que, de longe, mais desrespeita e nega direitos básicos aos seus cidadãos - da liberdade de expressão à liberdade econômica, passado pela liberdade religiosa e de consciência. Se você, leitor, achou as fotos de Abu Ghraib um absurdo, nem queira saber o que se passa pelas prisões chinesas. E enquanto no Iraq há um estado de guerra e conflito armado com soldados, exércitos, guerrilheiros, terroristas, etc., na China há um Estado que esmaga seus próprios cidadãos por quererem votar, publicar livros, acessar internet, rezar, ter mais de um filho, etc…

Aliás, você que lê esse blog, saiba que a China exerce um dos mais apertados cercos e censura sobre a internet no mundo (juntamente com o Iran, acho). Não há dados oficiais, obviamente, mas organizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que o país onde mais se tortura e mata jornalistas é a China. Saia da linha, e tome pancada.

Os católicos chineses não podem ser católicos… é, o dogma central do catolicismo, que é a representatividade de D’us na Terra pela figura do Papa, é proibido, e a Igreja Católica na China é submetida ao Estado Chinês - do contrário, estaria submissa a um país estrangeiro… afinal o Papa é estrangeiro, e chefe do Vaticano… As igrejas protestantes na China são menos evidentes em termos oficiais; crescem como redes, com reuniões e núcleos domésticos clandestinos, se reúnem também em salões subterrâneos, lugares ermos - catacumbas. O número de religiosos perseguidos e mortos também assusta. Caso você leia jornal no Brasil, sempre que ler uma notinha como “grupo de rebeldes é preso no interior da China” ou coisa parecida, dê um pulinho no site A voz dos mártires e saiba uma outra versão (no mínimo) do ocorrido.

E não se iluda: não são meia dúzia de cristãos na China. Por baixo, calcula-se que haja 90 milhões de cristãos, o que faz do país a nação com o maior número de cristãos no mundo - mais até que os EUA. Só isso.

Mas para aqueles que acham que com cristãos tudo pode ser feito, vejam a ocupação chinesa no Tibet. São 50 anos de invasão que já custou a vida de mais de um milhão de tibetados, e o exílio do Dalai Lama como resultado da pressão insuportável sobre a religião budista. Os chineses mulçumanos, zoroastristas, minorias não chinesas, animistas, etc., também sofrem o diabo na mão do Estado que não quer outra coisa senão o lugar exclusivo de divindade única.

A China tem o infanticídio e o aborto como política de controle de natalidade e crescimento populacional. Eu mesmo conheci um casal que trabalha em Hong Kong recolhendo bebês (meninas) das latas de lixo e sarjetas da cidade. E sempre há bebês descartados. Sempre. E o cinismo ocidental diz que “a China precisa parar sua bomba populacional, não importa como”. Não há sequer projeções da extensão da violência contra a mulher chinesa…

A China e o país com o maior número de execuções de pena capital no mundo - a maioria dos executados cometeram crimes políticos (leia-se contra o regime). Em 2005, foram pelo menos 1.700 execuções (algumas fontes acusam 8.000 execuções), enquanto nos EUA, país democrático com o maior número de execuções, elas não chegaram a 70. De cada 10 aplicações de pena capital, 9 acontecem na China - pelo menos.

No segundo semestre de 2007, a China tornou-se o maior emissor de carbono do mundo, superando os EUA.

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Bom, a essa altura os garotos revoltados, esquerdistas, libertários e toda sorte de bandido e corruptores do bom raciocínio devem estar bastante raivosos. Mas vou insistir um pouco mais. Realizar uma Olimpíada na China é um erro. Apoiá-la é um crime. Crime de cumplicidade a toda injustiça e violência cometida pelo Estado Chinês contra a humanidade. Todo atleta, delegação, país que participar futuramente se envergonhará profundamente, e restará aquele pedido de desculpas aterradoramente inútil ante a atrocidade perpetrada.

Delírio? Pode ser. Mas o Mundo (minimamente) livre cometeu um erro desse mesmo tipo ao realizar e participar das Olimpíadas de Munique, na Alemanha de Hitler, em 1936. A Olimpíada que deveria celebrar a “paz” com a Alemanha Nazista, e a hegemonia suprema da raça ariana. Pouco tempo depois, a Polônia era invadida, e os fornos queimavam judeus, cristãos, ciganos, etc…

Tudo bem, a história nunca se repete. Quando retoma um padrão, não repete - porque o erro repetido é sempre ainda mais horrendo, maligno e abissal. Que será do ano de 2011?

Outubro foi cinza…

1 Novembro, 2007

Outubro foi um mês difícil. Não… não estou transformando esse blog num diário pra compartilhar intimidades com anônimos, colecionar visitas e ganhar uns trocados com adsense. Na verdade, não uso adsense (acho antipático…), e nem posso querer colecionar visitas. Mas outubro foi difícil. Outubro é uma espécie de quarto horário de quinta-feira, de noite de domingo depois do Fantástico, de sétimo quarteirão quando se tem que andar dez… [ou melhor, oitavo, visto que é isso que significa seu nome. Aliás, curioso: o oitavo é décimo...]. É um quase acabando não acabado, algum lugar entre o ainda dá tempo e o já é tarde. E isso é ainda pior quando a televisão começa a falar de natal e compras, final de ano na terceira semana desse mês. Não pode ser o final do ano… não ainda.

Outubro é uma espécie de dobra, você entra num ano, e sai na eminência atordoante de outro. Aprendi com isso a não deixar projetos para outubro, nem deixar nada inconcluso ao seu final, sobretudo se quiser conclusões no mesmo ano. Não fiz isso, e agora estou meio perdido. Acontece.

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Quando eu era garoto ficava intrigado quando em dias de céu nublado, por algum milagre, as nuvens se afastavam, ou eram afastadas, e um feixe de luz dourada ou leitosa rasgava o cinza-azul… era bonito e, pra minha meninice, místico: isso acontecia porque D’us estava falando com alguém. OK, isso não era inédito nem original; no cinema, em pinturas, ou na dramaticidade da imagem, a Voz sempre (ou quase) é representada por um feixe de luz… quem sabe eu fosse (ou seja) um garoto influenciável (não quanto ao fato de D’us falar, mas à sugestão da manifestação física dessa ação). De qualquer forma, é bonito até hoje - apesar de eu nunca mais ter visto com clareza uma coisa assim, como via aos sete anos.

E nesse outubro cinzento, nublado, tive cá certa “presença”, ou “bons momentos”: fiz três anos de namoro; fiz uma boa tradução de um artigo (sim, isso foi motivo pra ficar alegre); li algumas boas histórias (Sandman é, realmente, muito bom); o lançamento do Ubuntu 7.10 (Gutsy Gibbon) e do Novo Testamento Judaico (tradução de David H. Stern).

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Sobre Ubuntu 7.10

Eu continuo um usuário normal, e me orgulho disso… é, gosto de pensar que sirvo de testemunho aos não-geek, aos newbies, de que é possível fazer tudo num desktop com GNU/Linux: há distribuições amigáveis (acredito que mais que o Windows®, inclusive) o bastante. Tenho feito tudo o que fazia, e aprendi muitas outras funções e possibilidades, o que transformou o computador num parceiro que aumentou minha produtividade.

Faz exatamente um ano que uso somente o Ubuntu. O Gutsy, com certeza, foi o de mais fácil e rápida instalação. Não acredito que isso seja apenas por eu estar mais familiarizado com a distro - o assistente de instalação está ficando, de fato, cada vez mais prático, intuitivo e inteligente. A única coisa que pode ainda dar trabalho ao iniciante é o particionamento do HD, se for o caso, mas é o de menos. Não tive nenhum problema com hardware, fora o fato de minha placa de vídeo ser uma ATI 9550: quando tentei habilitar dos drivers restritos, tive problemas com o X. Segundo a comunidade e a Canonical, é culpa de um bug específico nos drivers pra ATI. Estou esperando a solução, mas até agora o driver genérico vai agüentando bem.

Uma coisa que me impressiona no Ubuntu é a prestatividade da comunidade de usuários. No fórum brasileiro, um tutorial muito bom e completo resolve todos os problemas e guia o usuário na maior parte dos arremates estéticos, quer dizer, multi-mídia. Vejo tudo, ouço tudo, leio tudo o que preciso sem vírus, spyware, etc… e isso basta.

O suporte pra impressoras melhorou muito, mas eu ainda sinto um pouco de saudades da velocidade de impressão e alguns recursos de modo de impressão com os drivers pra Windows® - me espanta o fato da HP não esmerar isso pro Linux também.

Mais sobre o Ubuntu aqui.

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Sobre o Novo Testamento Judaico

O Dr. David Stern fez um grande trabalho ao se empenhar nesse trabalho melindroso. Traduções da Bíblia existem muitas, para todos os gostos e filiações teológicas. Mas nenhuma delas faz jus ao caráter fundamentalmente judaico do Novo Testamento e da gênese da fé cristã; como diz o Rabino J. Shulam, o Novo Testamento foi escrito por judeus, para judeus, tratando de problemas judaicos… e a maior parte dos cristãos e judeus, leigos ou entendidos, ignoram o fato.

Sem proselitismo ou agenda oculta, acredito que a tradução do Dr. Stern pode ajudar muito aos cristãos a compreender o judaísmo e a origem judaica de sua fé, bem como aos judeus a perceberem a inserção dos ensinamentos de Yeshua/Jesus e seus sh’lichim/apóstolos no contexto do judaísmo do primeiro século. Qualquer coisa que aproxime a igreja da sinagoga é bem vinda.

A Editora Vida, que publicou a versão em português, não fez um grande trabalho na qualidade do material - R$ 35,00, em média, merecia mais capricho -, e há alguns erros tipográficos em alguns trechos em hebraico, mas nada comprometedor. Espero que os editores se animem e lancem também o comentário do Dr. Stern.

Quem quiser conferir, clique aqui.