Considerações sobre a liberdade – por um leigo
Liberty is a concept with vast possibilities for imagination
A frase acima é do filósofo russo Lev Navrosov, um dos pensadores mais lúcidos que encontrei nos últimos tempos (não que eu conheça muitos). A liberdade é um dos recursos, uma das características humanas mais temidas e odiadas por seus opressores. Ditadores, regimes totalitários, demagogos e aproveitadores de todos os tipos conseguem “legitimidade” ou permissão para cometer seus crimes depois de extirpar suas vítimas da liberdade. A primeira coisa que precisam fazer é fazer crer que não há nada melhor, mais necessário ou mais adequado do que o que estão propondo ou oferecendo. E como o bandido conhece o mal que perpetra, sabe também que à menor comparação com o que é realmente razoável e realista, será desmascarado. Então, a primeira providência que toma é disciplinar o olhar da presa, estreitar-lhe os horizontes até que creia que seu “mentor” lhe quer o bem e é justamente isso o que oferece.
O pior tipo de supressor de liberdades é uma espécie de esteta, de artista adulterado, corrompido. Pois o artista (verdadeiro) remove e adiciona camadas ao real, rearranja seus elementos para demonstrar a beleza da própria realidade, ou denunciar o horror e a feiúra – mas seu ponto de referência é a realidade: o bem e belo que nela há, e o mal e feio que precisa de conserto. O supressor faz uso das prerrogativas da arte para descolar o olhar da realidade, para virtualizar a experiência; cuidadosamente evita a comparação, a constatação do real que desmascararia sua farsa e livraria o cativo.
Uma vez isso feito, o escravo (quem perdeu a liberdade) é expropriado da “riqueza semântica do real”, como diria meu bom amigo Guilherme de Carvalho, e torna-se prisioneiro numa jaula de fantasias, que não é outra coisa senão a completa distância da realidade. Estética tem a ver com verdade, que tem a ver com real, que tem a ver com liberdade. E liberdade é poder imaginar, é ter possibilidades múltiplas e infindas de comparação e possibilidade. E isso é muito diferente de fantasia.
Esse tipo de escravização é tão terrível, é um tipo tão acabado, tão teleológico de catividade que transcende a coerção e constrangimento físico. É o aprisionamento da mente, do espírito. Temos alguns tantos exemplos e parábolas que descrevem bem essa situação – quem sabe a caverna, de Platão, seja a imagem mais recorrente. Mas para mim, a narrativa do Éden, em Be’reshit (Gênesis) é mais contundente… mas isso é conversa pra outro post.
Os grandes tiranos do século XX, os regimes totalitários, por exemplo, fizeram exatamente isso: trabalharam diligentemente para convencer pessoas de que o que propunham não somente a melhor mas a única solução e redenção possível. Não era apenas a melhor escolha (afinal, escolha é o que o inimigo da liberdade odeia), mas a única alternativa. E não por acaso, Hanna Arendt caracteriza os regimes totalitários do século passado (o nazismo, ao menos) como profundamente estéticos.
A sofisticação dos irados opositores da liberdade, da humanidade, parece não ter fim… ninguém falará mais em cadeias, em algemas. A não ser como parte do espetáculo. Prosseguirão com a desfiguração do real, com a supressão das escolhas pela deterioração da capacidade de discernimento. E o que é discernimento? “Capacidade para distinguir o bem do mal para fazer o que é certo”. Pode chamar de livre arbítrio ou livre agência.
Devoram nossa liberdade restringindo nosso poder de escolha, não por força e constrangimento, mas nos convencendo de que somos inaptos para deliberar e discernir. “Senhores, não sabemos, realmente, como julgar. Não sabemos o que é bom para nós. Portanto, venham, dominem sobre nós, guiem nossas vidas, pois isso nos será coisa melhor”. E então, com nosso consentimento, eles se assentarão no trono feito com os cadáveres de nossa consciência.
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Do que venho acompanhando, a comunidade do software livre/open source vem fazendo um bom trabalho para manter a liberdade sobre a base da possibilidade de imaginar outras possibilidades de escolha. O recente sucesso na defesa do padrão ODF como ISO, contra o OOXML, fui uma prova contundente do presença da comunidade e de quão longe os inimigos da liberdade, mesmo numa questão de mercado, podem ir.
Minha única ressalva, e falo isso reconhecendo meu lugar como leito, é que não devemos repetir os padrões (des)criativos, e nos lembrar, ou melhor, imaginar que “há outras maneiras” que, se não apresentadas até aqui, é porque podem ser ainda melhores… E, sobretudo, é preciso ter (muita) consciência de que o movimento Livre (que não deve ser só software) não é uma mera questão de tecnologia ou informática. É política e filosófica – é moral.
“Free as freedom” parece ser um bordão com mais aplicações e significados do que consideramos (eu, pelo menos) até agora.
