Uma noite de novembro… quase 70 anos atrás
Há 69 anos, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, as ruas de quase todas as cidades da Alemanha, e de Vienna (Áustria), foram tomadas por uma turba sedenta de violência, numa orgia de atrocidades. Era a Kristallnacht – a Noite dos Cristais. Em 1933 o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, e desde então, a situação dos judeus no país foi se deteriorando metodicamente, num plano bem arquitetado pelos nazistas. Judeus poloneses que vivam na Alemanha foram deportados em outubro de 38 para seu país de origem, que também não os quis receber, fazendo com que 12 mil pessoas fossem pressionadas na fronteira teuto-polaca, sob chuva e frio, sendo admitidas finalmente na Polônia, em terríveis campos de refugiados.
Um parente desses desafortunados, que vivia em Paris, pediu por ajuda ao embaixador alemão na França, vom Rath. Após ser repetidamente ignorado em sua petição, o rapaz judeu assassinou vom Rath. O incidente foi o que o partido nazista, mais especificamente o chefe da propaganda, Goebbels, precisava para uma ação maciça contra os judeus alemães. Um grande levante, que deveria ser tomado por popular e espontâneo, foi perpetrado pelas autoridades do partido, tendo sido levado a cabo pelas tropas nazistas, as SA, as SS, e outros grupos organizados. Seus membros estavam à paisana, confundindo-se e insuflando os civis.
A Kristallnacht tinha objetivos muito claros: banir os judeus da vida econômica alemã e testar o nível de reação da comunidade internacional a uma ação violenta em larga escala contra os judeus alemães. A ação era coordenada e direta: depredar lojas, estabelecimentos comerciais de propriedade judaica, casas e vizinhanças judaicas, sinagogas, e prender o maior número possível de homens judeus. O saque estava proibido, bem como a violência contra estrangeiros (inclusive judeus estrangeiros), e a população alemã deveria ser cuidadosamente poupada de danos acidentais.
As turbas saíram às ruas com machados e marretas e puseram-se a quebrar as vitrines de casas e estabelecimentos judaicos – daí no nome Kristallnacht: a Noite dos Cristais, porque o vidros de vitrines e janelas eram feitos de cristal e muito caros, sendo, de certa forma, símbolo de prosperidade. 8 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram atacados, 30 mil homens judeus presos e enviados a campos de concentração, e 1700 sinagogas foram atacadas, sendo que 270 foram queimadas e destruídas. Judeus foram perseguidos e espancados, entre a noite do ataque e os meses seguintes (nos campos), pelo menos 2 mil pessoas morreram.
Na Áustria os resultados foram proporcionalmente piores – os austríacos agiram com diligência: 191 sinagogas destruídas, sendo 76 delas completamente demolidas; mais de 800 casas comerciais de judeus foram destruídas.
A real participação da população civil é impossível de ser mensurada, sobretudo pelo fato dos membros de tropas de ataque estarem em roupas civis. Mas o ponto é que assim como os alemães, o resto do mundo assistiu à Noite dos Cristais paralizado, sem saber exatamente o que era aquilo e recusando-se a fazer alguma coisa. Muitos países condenaram o ataque, alguns chegaram a romper relações diplomáticas… mas já era tarde. O dia 9 de novembro de 38 foi um ensaio geral para o que estava por vir – não por acaso, alguns consideram a Kristallnacht como o início do Holocausto.
Os Nazistas, como todos os inimigos da liberdade, não precisavam de ajuda ou adesão massiva à sua orgia – precisavam apenas que as pessoas se calassem e virassem seus rostos. Como na frase do Sr. King: “não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. E pouco tempo depois, já não havia como evitar “danos à população alemã”. A guerra foi impiedosa, mas não podemos negar que deu muitos sinais e avisos de que chegava… entrou quase que a convite.
E os judeus? Sobreviveram… foram multados, ao final do levante, em 1 bilhão de marcos por “danos à nação alemã”… e os reparos das janelas quebradas ficou em torno dos 4 milhões de marcos. Muitos que até ali estavam hesitantes, tentaram emigrar. Mas já era tarde também para isso, para muitos. E até hoje, tentamos sobreviver… pagando multas, consertando casas, indo embora, e escrevendo… tentando não deixar que certas coisas se repitam.
