Arquivo para Fevereiro, 2008

Riso cismado

29 Fevereiro, 2008

O Brasil é um pais peculiar, cheio de piadas prontas - na política, na economia, no futebol, na vida de suas celebridades… fica fácil (ou muito difícil) ser humorista por aqui. Na verdade, parece que é impossível fazer uma análise séria, fria, da nação, esquadrinhá-la com parâmetros civilizacionais ordinários. As coisas aqui seguem a regra da inconstância e inconsistência - se a pós-modernidade são os sólidos se dissolvendo no ar, a definição não vale para o Brasil: sempre fomos líqüidos, fluidos.

Não é à toa que temos uma profusão de bons cartunistas. Já no Império as contradições políticas eram denunciadas por esse meio de adequação quase exclusiva. Mais tarde, temos Péricles de Andrade Maranhão, que criou o impagável Amigo da Onça. Curiosamente, Péricles suicidou-se em 1961, com gás de cozinha, mas não sem fazer uma espécie de última piada: deixou um bilhete avisando “não risquem fósforos”

Com a ditadura, AI-5, repressão, etc., o humor se tornou campo de resistência e militância. O Pasquim foi a publicação de vanguarda, lançando muitos chargistas e tecendo críticas ferrenhas ao regime dos generais, inteligentemente camufladas pela máscara do riso. Ziraldo, Laerte, Angeli, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Millôr Fernandes (essas espécie de cartucronista), o saudoso Henfile vamos longe nessa lista, são exemplos dessa geração.

E essa riqueza é proporcional à falta de seriedade tupiniquim? Não, creio que não. O humorista é, no fundo, um moralista - é o sujeito que faz a crônica dos costumes, da prática mais doméstica, a crítica familiar, de si mesmo. É um denunciante que apontando para si, desnudando a todos - isso quando não aponta para todos e qualquer um mesmo… O humor e a qualidade do humor tem a ver com a carga de moralidade de uma comunidade, e se engana quem pensa que o Brasil é hedonista, amoral. Pode ser imoral, mas esse defeito está relacionado, deve sua presença, a um espectro contrário e contrastante, referencial, ou seja, alguma moralidade.

Por muito tempo, o jornal foi a mídia das tirinhas. Minha avó cresceu lendo quadrinhos em jornais, e eu mesmo os conheci ali. Mas como tudo o mais, o cartum (vou usar essa forma aportuguesada mesmo) ganhou novos nomes e lugar na Internet. A maioria dos chargistas e quadrinistas que citei aqui, e outros mais, publicam seu repertório e disponibilizam seu acervo na web. Mas, mais que gente feita no jornal migrando para novas mídias, há agora gente que se faz na rede, eventualmente caindo nas graças da turma do papel.

O melhor exemplo para mim, é o Galvão. Ele publica tirinhas quase diária em seu site, e, para mim, é um gênio. O cara é um artista plástico, para início de conversa - é só ver as pinturas e quadros (também no site). Mas nos quadrinhos temos um traço todo peculiar, curioso e um conteúdo dos melhores. Galvão consegue despejar baldes de um humor ácido, às vezes melancólico, em três quadros… aliás, cartuns não seriam uma forma aparentada ao haiku, ou haikai no renga?! Contar uma história completa em três cenas, e pronto. É… pode ser.

Mas voltando ao Galvão: religião, sexo, moda, política, otimismo, solidão - principalmente a solidão - são alvos metralhados (entre outros) pelo pincel desse sujeito. Faz rir… mas às vezes saio taciturno do site. Com freqüência, na verdade. Acredito que seja um daqueles tipos de apontam para si, e aí atira no mundo (tá, menos exagero - no leitor). Muito do que vi em Gilles Lipovetsky, Pascal Bruckner, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens, e essa conversa toda sobre individualidade/pessoalidade, vida afetiva, laços sociais, identidade na hipermodernidade, ou pós-modernidade, está lá em forma concentrada, espontânea - os famosos “instantâneos da vida”.

Bom, não sou um crítico - portanto vou parando por aqui, se não, fica parecendo puxação. E não é. Então, olhem lá - www.vidabesta.com.

Mosquitos e elefantes

28 Fevereiro, 2008

Naquela faixa no topo da página do Gmail havia, hoje de manhã, uma notícia que me interessou: “especialista teme robôs assassinos“. O título não ajuda muito, porque faz parecer coisa de tablóide e profetas do apocalipse. Mas, de fato, o problema é preocupante. Uma das coisas mais impressionantes no desenvolvimento tecnológico é como o custo de produção cai do primeiro para o segundo exemplar. O primeiro grama de uma substância pode custar milhões e muitos anos em pesquisas; o segundo e seguintes, no entanto, saem por valores módicos, se não ínfimos. Outra comparação ainda mais ilustrativa é que num relógio digital made in China, que se compra em qualquer esquina por um real, contém mais tecnologia e capacidade de processamento que todo o equipamento presente na Apollo 11, que levou o homem à Lua em 1969.

Mas a maior dificuldade é esse salto tecnológico inicial, que exige uma grande quantidade de esforço e recursos. Quer dizer, sem os 1 bilhão (em valores atuais) investidos na Apollo 11, não teríamos relógios digitais chineses a 1 real na esquina, por assim dizer. Nos termos da indústria militar isso chega a ser aterrador: a arma preferida por terroristas, guerrilhas e 60 exércitos de países “periféricos” é a AK-47. Esse fuzil de assalto resistente já está out of date faz tempo, mas sua relação custo benefício é quase como a do nosso reloginho de camelô: um desses custa entre 30 e 120 dólares, uma bagatela. E vende como água, visto que demanda é o que não falta.

O grande medo de todo o mundo são as armas de destruição em massa, bombas atômicas. O salto tecnológico para dominar a produção de um artefato desses é penoso, e as potências militares que detêm a capacidade de produzí-los negam o acesso a outros países, que têm que arcar com todo o ciclo de desenvolvimento e pesquisa, que é dispendioso, como dissemos - e isso limita os sócios do clube nuclear. Contudo, como é mostrado com muita ironia em O Senhor das Armas, o maior mercado e a causa de maiores sofrimentos - as verdadeiras armas de destruição em massa, ainda que a conta-gotas - são coisas como a Kalashnikov.

O custo é relativamente baixo e o acesso é fácil e certo, e quanto mais se produz, mais barato fica. Não há um mercado de bombas atômicas - mas não é preciso. Mantêm-se as atenções nos elefantes voadores que podem aparecer, enquanto os marimbondos ferroam sem impecílios ou impedimento.

Como diz o professor Noel Sharkey, no artigo citado, o acesso aos componentes é cada vez mais fácil, e a tecnologia cada vez mais avançada. Se montar um avião não tripulado (drone) custa menos de 500 dólares, em breve montar um pequeno pelotão de robôs de assalto não será um problema. Vejamos um cenário possível: hoje o Hamas e o Hizbollah lançam foguetes caseiros contra cidades israelenses mais próximas, numa media de 3 foguetes/dia. Cada foguete sai a 100 dólares, sendo 300 dólares por dia. Esses mísseis têm alcance e precisão limitados, mas do jeito que as coisas vão, muito em breve, pelo mesmo preço, ou ainda menos, os terroristas terão em mãos artefatos mais precisos e mortais.

Segundo Lev Navrozov, desde o final dos anos 60 a Rússia abandonou as pesquisas em armas atômicas. O problema da “destruição mútua garantida” tornou o uso dessas armas impossível. Desde então, as pesquisas foram direcionadas para armas de outro paradigma - e não nos enganemos, diz ele, já em 1989 já se falava na produção iminente de nanoarmas e nanobombas. Muito mais do que os supostos programas militares da Coréia do Norte, Iran ou Iraque, o perigo se esconde, hoje, nos desenvolvimento nanotecnológicos no eixo de cooperação entre a Rússia de Pútin e a China.

Os elefantes voadores se apresentam como monstros em nossas mentes. Mas são mitológicos - são uma ameaça sugerida, sugestionada, inculcada, mas inexistentes. Por outro lado, os marimbondos são reais, circulam em enxames e alcançam os mais remotos lugares. E são agressivos.

Enquanto olhamos para os céus esperando por paquidermes alados, pequenos insetos aterradores passam pelos buracos dessa tela ou teia de falsa vigilância, sem precisar sequer tocar em seus cordões - de que vale escudo ou rede de satélites militares anti-mísseis transcontinentais contra uma núvem de ataques virais - seja ela literal ou figurada?

O discurso otimista em relação ao futuro e à tecnologia está errado. Há um risco sério e próximo, e para se romper a linha da normalidade (no sentido de norma, ordem) é preciso muito pouco, muito, mas muito menos que um hecatombe nuclear. E ajuda muito pouco se ficarmos a mirar o lado errado.

O caso do iRiver T10

28 Fevereiro, 2008

O mais alardeado princípio do livre mercado é que ele, o mercado, é capaz de se auto regular. E possui essa capacidade porque é formado por agentes, indivíduos, racionais em busca da maximização dos resultados em função dos esforços - aumentar o lucro. Isso também é chamado de “teoria da ação racional” - um agente/indivíduo vai sempre agir de acordo e a partir do cálculo que aponte a melhor escolha numa determinada situação. Assim, o mercado seria como uma máquina de complexas engrenagens governada pela lei da melhor escolha (mesmo que a melhor entre piores, o chamado mal menor) para o maior lucro.

Deixando de lado a questão se esta é ou não a melhor definição de mercado, e tomando as coisas como se assim elas fossem, o mercado tem um problema, uma anomalia, que se faz sentir com maior força em algumas áreas.

É muito curioso que grandes conglomerados, quando são alvo de processos e acusações de concorrência desleal, formação de trust, etc., reajam violentamente levantando em alta voz o velho argumento de que “o mercado deve ser mantido fora do alcance da regulação estatal, vez que é capaz de gerir seus rumos” - ou seja, não se preocupe, ainda que alguma coisa esteja errada, o sistema se repara e segue em frente; e se as coisas vão mal, a intervenção só fará piorar.

É curioso porque a maior parte dessas empresas que defendem a liberdade do mercado são as primeiras a limitar a liberdade de certos agentes - freqüentemente, os consumidores. A restrição da escolha sempre causa situações inusitadas e surreais, como a que aconteceu comigo.

Interessado em adquirir um mp3 player que tocasse formatos abertos, escolhi um iRiver, modelo T10, de 1Gb de capacidade, que além de suportar os formatos proprietários .mp3 e .wma, também supota .ogg, o que muito pesou no meu cálculo, juntamente com uma promoção das Americanas.com, que oferecia o aparelho de R$ 350,00 por R$ 200,00. Então, saquei o cartão, e comprei o negócio.

Alguns dias depois, chega numa caixa bacaninha um aparelho de design audacioso, como vocês podem ver no link acima (embora o meu seja amarelo e preto). Quer dizer, era alguma coisa bem diferente e longe da vulgaridade de um Foston (nada contra, já tive um, inclusive). Mas foi a partir daí que as coisas desandaram na relação de mercado. Pra início de conversa, apesar do T10 suportar .ogg, é um player “for Windows®” e arquitetado para funcionar sobre o WMP®, versão 10, 11 ou o que seja, que sequer suporta .ogg!

Para rodar o programa que acompanha o player ou para fazer atualizações, é preciso usar Windows® e o WMP®. Além disso, os modelos da iRiver usam o Microsoft Media Transfer Protocol - MTP, e se você quiser converter o aparelho para UMS (USB Mass Storage), a iRiver disponibiliza uma atualização do firmware - mas para aplicá-lo é preciso da tralha de Redmond; ou seja, sem Windows em algum momento da história, o uso em Linux fica impedido de ser satisfatório.

Resultado: fiquei com um player que suporta um formato livre, mas que, por conta de um protocolo diferente, punha as músicas fora de ordem e não aceitava as playlists geradas em outro programa que não o que acompanha o produto. Esta, então, seria a incoerência: além de manter o usuário acorrentado a um sistema operacional e um media player que ignora formatos livres, a empresa releva os usuários de GNU/Linux; então qual o apelo de um iRiver?

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Bom, entretanto, contra as incoerências (ou seriam contra-sensos?) do mercado pode haver uma arma. E mesmo um usuário final, meio newbie, pode dela precisar e se valer: a comunidade - ela pode fazer toda a diferença para a manutenção de alguma liberdade nesse lugar que vai mais parecendo uma selva que uma máquina auto gerida. Ainda muito decepcionado com o que constatei, abri o Google e comecei minha jornada que começou solitária mas encontrou outras vozes. Foi só colocar “T10 iRiver Linux” que foram listadas algumas entradas bastante interessantes.

A entrada mais importante, útil e esclarecedora foi esta aqui, que me fez informado da maioria das coisas (e críticas) que apresento neste post. Eu nem sequer sabia que havia uma diferença de protocolo de transferência de arquivos no Windows® e no Linux… quanto mais que haveria uma forma “lateral” de superar o problema da desordem das músicas e da impossibilidade de importar playlists. Não só fiquei sabendo como obtive uma solução - um python script. A única coisa que eu sei sobre isso é que python é uma linguagem elegante (!) de programação e que um script é um conjunto de ordens para um programa executar (e essa pode não ser a melhor definição).

A primeira barreira foi o receio de colocar um script na raiz do aparelho, por que sempre dizem pra ter cuidado ao mexer nessas coisas que podem inutilizar o aparelho. Bom, mas o “tutorial” dizia que isso era very simple, e não trazia nenhum aviso aterrador. Depois foi entender como é que eu fazia pra utilizar o comando… o que está escrito no blog não funcionou… Bom, não sei por que motivo, lembrei-me que em alguns tutoriais fala-se sempre de “tornar o arquivo executável” - bom, deve ser isso, pensei. Então, toca pra /media/disk e então: sudo chmod 777 script.py - e agora?, isso não é bastante, já que o comando script.py não existe…

Quebrando a cabeça, lembrei-me (!) que quando eu clico duas vezes num script escrito num editor comum (gedit, por exemplo) aparece uma caixa de diálogo perguntando se eu quero “executar em terminal”, “exibir” ou outra coisa. Bingo! É isso aí. Sai do diretório em que o script estava, voltei (não sei bem o porquê) e cliquei duas vezes no danado - funcionou! Tinha playlists dos álbuns presentes, mesmo desordenados, com um simples duplo clic! Bom, fiquei alegre como uma criança - claro, meu brinquedo estava funcionando.

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Uma outra experiência que tive foi com meu celular, um Motorola C650 (coisa de um passado mais ou menos remoto). Por conta do cabo USB do T10, o uso do celular como câmera foi ressuscitado, mas ele não era reconhecido pelo Ubuntu. Bom, na dúvida, Google - “Motorola c650 linux”. Bingo! outra vez: no Viva o Linux, dessa vez. E daí a pouco estava eu usando o MotoLin pra acessar os dados e fotos no celular.

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Há duas ou três coisas importantes aqui. Primeiro, o mercado pode ser burro. Ou agir de acordo com parâmetros muito diferentes do que os defensores de um certo liberalismo pregam. Antes que alguém me acuse eu digo: não, eu não estou fazendo crítica à teoria econômica ou à liberdade do mercado só com base nesses exemplos pontuais. São apenas reflexões que saltam desse negócio complicado que é o mundo da vida, das coisas reais. Mas voltando, o mercado pode ser burro - segundo li aqui, há mais de 3 milhões de hits no Google com “iriver linux” (quando fiz a pesquisa, havia 654 mil para “iriver linux”, e mais de 81 mil para “iriver linux t10). Como o blogueiro adverte, é um grande mercado, pra não dizer enorme, sendo miseravelmente ignorado. Que agente racional querendo maximizar seus lucros deixaria na mão alguma coisa por volta de 500 mil interessados?

Bom, alguns dizem que a iRiver recebe incentivos da Microsoft® para “forçar” o WMP® como plataforma. Bom, isso caracteriza concorrência desleal e ingerência de uma gigante no bom andamento do mercado… ora, ora…

Segundo, a comunidade foi vital nesse caso. E em muitos outros. A informática vai abrindo caminhos e construindo espaços fora do espaço - é impossível que o Estado ou qualquer burocracia por si só mantenha o controle, sem se tornar ele mesmo um impedimento. A maneira de manter “vigilância sob a liberdade” é o conhecimento e a cooperação. E isso só é possível pelo senso de compartilhamento - e isso não é só uma noção racional, um cálculo da melhor ação, mas uma moral.

Terceiro, não é bom se manter na condição de newbie. Isso está na mesma relação, eu diria, que saber apenas assinar o nome - é impraticável. Nesses tempos de virtualidade, a questão não é apenas técnica, é também política: saber para escolher, e escolher para ser livre me parece ser uma relação presente em todo lugar nas relações humanas. Nem sempre a gente sabe tudo, nem escolhe certo, e nem é livre em algumas questões - mas naquilo que nos for possível, ficar encostado é que não pode.

Notas de um usuário final, afinal [com direito a uma pequena crônica]

1 Fevereiro, 2008

É provável que na maioria dos casos, entre usuários finais, o Linux seja introduzido em casa ou no grupo de amigos por um entusiasta que resolve “bagunçar” o desktop compartilhado, tentando convencer todo mundo a usar essa coisa de nerd que, ficou sabendo, “faz tudo o que o Windows© faz, e ainda não pega vírus” [convenhamos, fazer o que uma janela faz não é lá um grande feito, né?...].

O problema é que o animado é um newbie que mal sabe como configurar as opções de boot da placa-mãe [aliás, geralmente é depois de conhecer o Linux que ele fica sabendo que essas coisas existem], e sobre ele pesa a responsabilidade de demonstrar todas as benesses do pingüim para que seus céticos companheiros se convertam. E a prova começa pela arriscada operação de particionamento do HD, que se der errado… bom, é só o fim - afinal, backup é para os fracos. Particionar o HD num computador familiar significa menos espaço, ou espaço tomado dos outros usuários, e nada os convencerá do contrário; isso torna necessário todo o talento em conduzir minuciosas e delicadas negociações sobre fronteiras e quantidades de gigabytes.

Vencida essa etapa, vêm a má vontade e rejeição àquela presença alienígena, a começar pelas reclamações a respeito daquela tela perturbando o rotineiro acionamento da máquina, requerendo ansiosamente que o usuário faça sua escolha, dando-lhe pressa por meio d’um cronômetro inconveniente em contagem regressiva, louco para atirar quem diante da tela se senta para fora da normalidade.

A princípio, esse desbravador indômito tem que seguir sozinho, ridicularizado, ignorado, às vezes sabotado, por esse caminho. Depois de algum tempo, a hostilidade cede lugar à curiosidade: “esse negócio inicia mais rápido” - diz um, “você não precisa mesmo de anti-vírus?” - exclama outro, “eu achava que não tinha jogo pra isso”, confessa o caçula… E, de repente, como num milagre, aquele sujeito se vê tendo que criar e configurar novas contas de usuários, ensinando comandos simples, dando dicas, mudando temas de área de trabalho… percebe que milagres acontecem e preconceitos são vencidos. Começam a ser ouvidas conversas, avaliações, comparações que constatam que há uma infinidade de coisas que o Linux e o GNU fazem igual ou melhor que o Windows©, e não raro, fazem exclusivamente. Pouco a pouco, aquela janela que sutilmente ainda impunha uma separação, vai cedendo lugar para uma porta, uma passagem.

E aí o que parecia impossível acontece: um belo dia, falta espaço naquela fatiazinha do HD destinada ao bravo Linux. Chega o grande momento. Sob olhares atentos, aquele outrora inexperiente linuxer insere mais uma vez o CD, e inicia a instalação de uma distribuição GNU/Linux usando todo o disco rígido…

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Bom, comigo não foi exatamente assim que aconteceu, obviamente. Mas nos últimos quatro meses, o computador da minha casa foi exclusivo do Ubuntu. Foi uma experiência interessante, porque são quatro usuários com necessidades em comum, como texto, internet, música e vídeos, mas com distinções interessantes. Não preciso dizer que no básico o Ubuntu se sai muito bem, e com algumas poucas instruções qualquer usuário faz todo o básico sem maiores problemas.

Eu, particularmente, preciso de ferramentas de escrita em hebraico e grego clássico, o que não é fácil. E não se iludam, o Windows© não oferece solução para digitar grego politônico, nem sinais de vocalização em hebraico; é preciso adquirir ferramentas (proprietárias e nem sempre baratas) para ter um bom resultado. Mas encontrei uma boa comunidade de usuários de GNU/Linux (sobretudo Ubuntu) pesquisadores e estudantes de línguas clássicas engajados na busca de soluções livres: desde fontes, configuração de teclados, até identificação de bugs nos editores de texto. Com fontes Unicode, configurações de teclado facilmente feitas no Gnome e alguma paciência, consegui resolver os maiores impecílios. A única pedra no caminho que permanece é um problema no OpenOffice, por conta de algum bug no gtk, que não insere sinais politônicos gregos de modo algum, segundo informa Vern S. Poythress - que indica o KWord, que faz bem o serviço.

Meus irmãos é que tiveram um problema mais sério e aparentemente insolúvel. Eles são músicos e baixam partituras na internet. O programa mais usado para edição e exibição de partituras é o Encore, que só é disponível para Windows e Mac. A extensão dos arquivos (.enc, acho) não é suportada por nenhum outro programa. Há bons programas livres para edição, leitura e execução de partituras, como o Rosegarden, que meus irmãos gostaram - mão não são capazes de abrir a grande maioria das partituras disponíveis na web, em formato .enc. Isso não tem solução, até agora.

Boa parte dos softwares usado por cursos de línguas com que minha irmã trabalha são desenvolvidos para Windows, e eu não consegui rodar no Wine. Mas isso, claro, não é uma debilidade do Linux, mas dos desenvolvedores dos programas e das instituições.

O único grande problema compartilhado por todos, foi a placa de vídeo ATI Radeon 9550. Eu tentei de tudo para fazê-la funcionar, segui inúmeros tutoriais, mas não foi. Todo mundo gosta de um joguinho, né? E estávamos curiosos por ver alguns games no Linux. O estranho é que no Dapper e do Edgy eu havia conseguido habilitar a placa, aff!…

Mas os prós são muitos: estabilidade, rapidez, segurança, versatilidade. Como virou moda aqui: acessar internet banking tranqüilamente já vale o negócio. E, descontando os exageros, vale mesmo.