contra-senso

Mosquitos e elefantes

Publicado em TECNOLOGIA, TEORIA SOCIAL, esquerda por André Tavares em 28/02/2008

Naquela faixa no topo da página do Gmail havia, hoje de manhã, uma notícia que me interessou: “especialista teme robôs assassinos“. O título não ajuda muito, porque faz parecer coisa de tablóide e profetas do apocalipse. Mas, de fato, o problema é preocupante. Uma das coisas mais impressionantes no desenvolvimento tecnológico é como o custo de produção cai do primeiro para o segundo exemplar. O primeiro grama de uma substância pode custar milhões e muitos anos em pesquisas; o segundo e seguintes, no entanto, saem por valores módicos, se não ínfimos. Outra comparação ainda mais ilustrativa é que num relógio digital made in China, que se compra em qualquer esquina por um real, contém mais tecnologia e capacidade de processamento que todo o equipamento presente na Apollo 11, que levou o homem à Lua em 1969.

Mas a maior dificuldade é esse salto tecnológico inicial, que exige uma grande quantidade de esforço e recursos. Quer dizer, sem os 1 bilhão (em valores atuais) investidos na Apollo 11, não teríamos relógios digitais chineses a 1 real na esquina, por assim dizer. Nos termos da indústria militar isso chega a ser aterrador: a arma preferida por terroristas, guerrilhas e 60 exércitos de países “periféricos” é a AK-47. Esse fuzil de assalto resistente já está out of date faz tempo, mas sua relação custo benefício é quase como a do nosso reloginho de camelô: um desses custa entre 30 e 120 dólares, uma bagatela. E vende como água, visto que demanda é o que não falta.

O grande medo de todo o mundo são as armas de destruição em massa, bombas atômicas. O salto tecnológico para dominar a produção de um artefato desses é penoso, e as potências militares que detêm a capacidade de produzí-los negam o acesso a outros países, que têm que arcar com todo o ciclo de desenvolvimento e pesquisa, que é dispendioso, como dissemos – e isso limita os sócios do clube nuclear. Contudo, como é mostrado com muita ironia em O Senhor das Armas, o maior mercado e a causa de maiores sofrimentos – as verdadeiras armas de destruição em massa, ainda que a conta-gotas – são coisas como a Kalashnikov.

O custo é relativamente baixo e o acesso é fácil e certo, e quanto mais se produz, mais barato fica. Não há um mercado de bombas atômicas – mas não é preciso. Mantêm-se as atenções nos elefantes voadores que podem aparecer, enquanto os marimbondos ferroam sem impecílios ou impedimento.

Como diz o professor Noel Sharkey, no artigo citado, o acesso aos componentes é cada vez mais fácil, e a tecnologia cada vez mais avançada. Se montar um avião não tripulado (drone) custa menos de 500 dólares, em breve montar um pequeno pelotão de robôs de assalto não será um problema. Vejamos um cenário possível: hoje o Hamas e o Hizbollah lançam foguetes caseiros contra cidades israelenses mais próximas, numa media de 3 foguetes/dia. Cada foguete sai a 100 dólares, sendo 300 dólares por dia. Esses mísseis têm alcance e precisão limitados, mas do jeito que as coisas vão, muito em breve, pelo mesmo preço, ou ainda menos, os terroristas terão em mãos artefatos mais precisos e mortais.

Segundo Lev Navrozov, desde o final dos anos 60 a Rússia abandonou as pesquisas em armas atômicas. O problema da “destruição mútua garantida” tornou o uso dessas armas impossível. Desde então, as pesquisas foram direcionadas para armas de outro paradigma – e não nos enganemos, diz ele, já em 1989 já se falava na produção iminente de nanoarmas e nanobombas. Muito mais do que os supostos programas militares da Coréia do Norte, Iran ou Iraque, o perigo se esconde, hoje, nos desenvolvimento nanotecnológicos no eixo de cooperação entre a Rússia de Pútin e a China.

Os elefantes voadores se apresentam como monstros em nossas mentes. Mas são mitológicos – são uma ameaça sugerida, sugestionada, inculcada, mas inexistentes. Por outro lado, os marimbondos são reais, circulam em enxames e alcançam os mais remotos lugares. E são agressivos.

Enquanto olhamos para os céus esperando por paquidermes alados, pequenos insetos aterradores passam pelos buracos dessa tela ou teia de falsa vigilância, sem precisar sequer tocar em seus cordões – de que vale escudo ou rede de satélites militares anti-mísseis transcontinentais contra uma núvem de ataques virais – seja ela literal ou figurada?

O discurso otimista em relação ao futuro e à tecnologia está errado. Há um risco sério e próximo, e para se romper a linha da normalidade (no sentido de norma, ordem) é preciso muito pouco, muito, mas muito menos que um hecatombe nuclear. E ajuda muito pouco se ficarmos a mirar o lado errado.

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