contra-senso

Riso cismado

Publicado em CAFÉ E PIPOCA, POLÍTICA, democracia, esquerda, literatura por André Tavares em 29/02/2008

O Brasil é um pais peculiar, cheio de piadas prontas – na política, na economia, no futebol, na vida de suas celebridades… fica fácil (ou muito difícil) ser humorista por aqui. Na verdade, parece que é impossível fazer uma análise séria, fria, da nação, esquadrinhá-la com parâmetros civilizacionais ordinários. As coisas aqui seguem a regra da inconstância e inconsistência – se a pós-modernidade são os sólidos se dissolvendo no ar, a definição não vale para o Brasil: sempre fomos líqüidos, fluidos.

Não é à toa que temos uma profusão de bons cartunistas. Já no Império as contradições políticas eram denunciadas por esse meio de adequação quase exclusiva. Mais tarde, temos Péricles de Andrade Maranhão, que criou o impagável Amigo da Onça. Curiosamente, Péricles suicidou-se em 1961, com gás de cozinha, mas não sem fazer uma espécie de última piada: deixou um bilhete avisando “não risquem fósforos”

Com a ditadura, AI-5, repressão, etc., o humor se tornou campo de resistência e militância. O Pasquim foi a publicação de vanguarda, lançando muitos chargistas e tecendo críticas ferrenhas ao regime dos generais, inteligentemente camufladas pela máscara do riso. Ziraldo, Laerte, Angeli, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Millôr Fernandes (essas espécie de cartucronista), o saudoso Henfile vamos longe nessa lista, são exemplos dessa geração.

E essa riqueza é proporcional à falta de seriedade tupiniquim? Não, creio que não. O humorista é, no fundo, um moralista – é o sujeito que faz a crônica dos costumes, da prática mais doméstica, a crítica familiar, de si mesmo. É um denunciante que apontando para si, desnudando a todos – isso quando não aponta para todos e qualquer um mesmo… O humor e a qualidade do humor tem a ver com a carga de moralidade de uma comunidade, e se engana quem pensa que o Brasil é hedonista, amoral. Pode ser imoral, mas esse defeito está relacionado, deve sua presença, a um espectro contrário e contrastante, referencial, ou seja, alguma moralidade.

Por muito tempo, o jornal foi a mídia das tirinhas. Minha avó cresceu lendo quadrinhos em jornais, e eu mesmo os conheci ali. Mas como tudo o mais, o cartum (vou usar essa forma aportuguesada mesmo) ganhou novos nomes e lugar na Internet. A maioria dos chargistas e quadrinistas que citei aqui, e outros mais, publicam seu repertório e disponibilizam seu acervo na web. Mas, mais que gente feita no jornal migrando para novas mídias, há agora gente que se faz na rede, eventualmente caindo nas graças da turma do papel.

O melhor exemplo para mim, é o Galvão. Ele publica tirinhas quase diária em seu site, e, para mim, é um gênio. O cara é um artista plástico, para início de conversa – é só ver as pinturas e quadros (também no site). Mas nos quadrinhos temos um traço todo peculiar, curioso e um conteúdo dos melhores. Galvão consegue despejar baldes de um humor ácido, às vezes melancólico, em três quadros… aliás, cartuns não seriam uma forma aparentada ao haiku, ou haikai no renga?! Contar uma história completa em três cenas, e pronto. É… pode ser.

Mas voltando ao Galvão: religião, sexo, moda, política, otimismo, solidão – principalmente a solidão – são alvos metralhados (entre outros) pelo pincel desse sujeito. Faz rir… mas às vezes saio taciturno do site. Com freqüência, na verdade. Acredito que seja um daqueles tipos de apontam para si, e aí atira no mundo (tá, menos exagero – no leitor). Muito do que vi em Gilles Lipovetsky, Pascal Bruckner, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens, e essa conversa toda sobre individualidade/pessoalidade, vida afetiva, laços sociais, identidade na hipermodernidade, ou pós-modernidade, está lá em forma concentrada, espontânea – os famosos “instantâneos da vida”.

Bom, não sou um crítico – portanto vou parando por aqui, se não, fica parecendo puxação. E não é. Então, olhem lá – www.vidabesta.com.

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2 Respostas

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  1. Ricardo Porfírio said, on 13/03/2008 at 23:43

    Caro André,
    Gostei da reflexão sobre sermos um país fluído. Considero que isso aumenta nossa densidade. Nós que vez por outra somos tratados por alguns como laboratório de pós-modernidade – em que “tudo que é sólido se desmancha no ar” – precisamos ser críticos e reflexivos dessa realidade e dessa virtualidade que nos informam. E é justamente aqui que os chargistas – magos dos três movimentos – colocam em xeque o rei que continua nú! Acrescentaria aos seus apenas um dos meus: AFO do Son Salvador.
    Abraços!
    Ricardo Porfírio

  2. andretavares said, on 14/03/2008 at 00:15

    Porfírio, Porfírio… que surpresa topar com o senhor nessa quebrada da internet! Cuidado que aqui é um lugar ermo… hehehe. Rapaz, obrigado pelo comentário e pela lembrança do AFO. Cara, o Brasil é outra coisa, já diziam Gilberto Freyre, Arthur Ramos, Buarque de Holanda, Prado Jr.. Era pra ser outra coisa, se não insistissem em nos fazer caber em quadrados – tudo bem que um fluido cabe em qualquer lugar, mas não numa forma estática. Bom, volte sempre!

    Abraço.


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