Arquivo para Março, 2008

Para inglês ver: o diálogo inter-religioso do Rei Abdullah

27 Março, 2008

Desde o surgimento do fenômeno do nacionalismo árabe, sobretudo depois da Segunda Gerra Mundial, o maior prejudicado tem sido o povo árabe e os muçulmanos. No Egito, Nasser empurrou a nação para uma série de conflitos catastróficos como a Crise de Suez (1956) e a Guerra dos Seis Dias (1967), preparando o caminho para a Guerra de Yom Kippur (1973) - e todo o investimento egípcio para se tornar uma moderna potência militar local (apoiada pela União Soviética, fornecedora de armamentos, equipamento e treinamento) foi inutilizado no esforço inútil de tentar varrer Israel do mapa. Por que a insistência? Porque quem derrotasse o “Estado Sionista” daria cabo no que é considerado um insulto ao mundo árabe, e demonstraria a insurgência e desafio à influência das antigas potências inglesa e francesa na região.

Nesse plano foram arrastadas a Jordânia, que havia cedido seu bem treinado exército ao comando egípcio, que foi dizimado na tentativa de romper Israel ao meio na altura de Jerusalém; e a Síria. O rei Houssein da Jordânia compreendeu cedo (’67) que lutar contra Israel era um equívoco, fez um tratado de paz com os israelenses, e tratou de se preocupar com os refugiados palestinos em seu território, que a partir daí passaram a lhe dar muito trabalho. Humilhado em três guerras, que lhe custou qualquer crédito no mundo árabe, ao Egito restou assinar um tratado de paz com Israel (1978/79), em troca da devolução da Península do Sinai, capturada e ocupada pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias e Yom Kippur.

A Síria nunca abandonou seus sonhos de gradeza voltando a ser a Grade Síria, o que inclui a retomada do Líbano e toda a Palestina. Ou seja, a existência de um Estado independente no Líbano, de Israel e mesmo a pretensão a um Estado Palestino vão de encontro aos interesses e ambições sírios. A derrota em ‘67 e ‘73 resultaram na perda das Colinas de Golan, que deveriam ter sido devolvidas numa manobra diplomática com Israel, similar àquela feita com o Egito, mas Damasco se recusa a oferecer trégua. Como Golan é de valor estratégico e militar inestimável (do alto de suas colinas vê-se as regiões baixas do vale de Hula e da Galiléia), Israel não pode devolvê-la sem sólidas garantias de segurança. Recentemente, Bashar al-Assad (presidente da Síria) mencionou a possibilidade de paz em troca da devolução das colinas.

Fracassadas as tentativas militares “convencionais” de destruir Israel e ganhar influência no mundo árabe, a Síria se voltou para o Líbano. Profundamente influenciado pelo ocidente, sobretudo pela cultura francesa (Beirute era conhecida como a Paris do Oriente), o Líbano era um oásis de convivência pacífica de uma miríade de religiões: cristãos gregos ortodoxos e sírios, católicos romanos, drusos e muçulmanos conviviam em certa estabilidade mantida por um relativamente complicado arranjo político de partilha do governo. O Líbano tornou-se um barril de pólvora, e para isto bastou a pressão síria e as levas de refugiados palestinos resultantes das guerras árabe-israelenses. Nos campos de refugiados no sul, organizou-se a OLP de Arafat, que havia fugido da Jordânia, onde Houssein se recusou a tolerá-lo.

No início da década de 80 o Líbano foi tragado para uma violenta guerra civil, onde lutavam inúmeras facções e influências diversas. Por fim, os sírios conseguiram o que precisavam: a retirada americana, que lhe cedeu espaço para intervir e ocupar o Líbano, sobre o qual exerce influência política e militar até hoje (vide a Segunda Guerra do Líbano). Até hoje o Líbano é instável, ameaçando sempre a estourar em violência.

Os palestinos passaram a ser usados como massa de manobra e motivo para os países árabes acusarem e denegrirem Israel. O curioso é que lhes seja negado quaisquer direitos ou auxílio nos países em que se encontram refugiados - curiosamente, palestinos vivem melhor em territórios ocupados por Israel do que em territórios árabes; a não ser, obviamente, dinheiro e armas para aterrorizar os israelenses.

O Iraque baath meteu-se em uma guerra sanguinária e inconclusiva com o Iran, onde pelo menos 700.000 iranianos e 500.000 iraquianos perderam a vida, fora os curdos. O que é estranhamente silenciado é o fato de que mais que Israel, a nação mais ameaçada pelo “Iran Nuclear” é o Iraque - que agora é o palco das disputas do mundo islâmico, onde a contagem dos mortos é de 600.000, no total.

Em meio a toda essa confusão e esquecidos pelo mundo, e sobretudo pela imprensa tão sensível à situação palestina, estão os curdos, que tiveram seu país, o Curdistão, retalhado entre Turquia, Síria, Iran e Iraque; e são sistematicamente perseguidos e mortos em cada um desses países (um dos motivos da Turquia não ser aceita na UE, é a situação dos curdos em seu território). Recentemente os maiores flagelos do mundo árabe são os próprios árabes em lutas internas: vide as rusgas entre Hamas e Fatah nos territórios ocupados na Palestina.

Devido a toda a dificuldade em manter conflitos convencionais entre Estados (o que criteriosamente não existe por ali), o uso de facções, organizações para-militares, milícias, grupos terroristas está na ordem do dia: Al-Qaeda, Hizbollah, Fatah, Hamas, Al-Aqsa, etc… Afora o que se passa na Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, na África, e Paquistão (vide os massacres em Bangladesh), Afeganistão, Indonésia (vide as atrocidades cometidas em Timor Leste, por exemplo) e Chechênia.

Toda essa tragédia vai desmoralizando o mundo árabe e mesmo o Islam. E com certeza há gente que perde muito e não anda satisfeita. Um deles, quem sabe entre os principais, é o Rei Abdullah, da Arábia Saudita. Numa manobra muito oportunista, os Saud estão propondo um fórum de diálogo entre religiões monoteístas que anteciparia a possibilidade de (alguma) abertura religiosa em países muçulmanos. A prática de outros cultos e fé nesses países é praticamente nula, está banida - incluindo a própria Arábia, onde impera o wahhabismo, uma doutrina de interpretação “purista” do Islam (já falei sobre isso aqui)

Que significa isso? Que de repente uma nação árabe haverá de fazer uma revisão num dos pontos mais críticos de sua organização religiosa, política e cultural? Afinal, permitir outras religiões em território do Islam é permitir a existência de infiéis, de hereges em solo muçulmano - uma afronta ao profeta e aos mártires. Recentemente, Abdullah visitou o papa Bento XVI, um encontro histórico, e isso provocou ira e suspeitas. Quando questionados sobre a abertura religiosa, os membros do conselho saudita responderam que “somente se o Vaticano reconhecer Maomé como profeta, será possível haver igrejas na Arábia” (veja o comentário de Daniel Pipes aqui e aqui).

E o que me irrita, me irrita profundamente, é que representantes cristãos e judeus convocados pela iniciativa de Abdullah estejam “otimistas” quanto aos resultados do diálogo! Primeiro: não creio que haverá diálogo no sentido próprio do termo. Segundo: não acredito que os cristãos na Arábia (seis milhões) gozarão de plena cidadania (hoje, são cidadãos de segunda categoria). Terceiro: o restante do mundo árabe/muçulmano não se convencerá/seguirá o “exemplo” saudita. O mais provável é que uma onda anti-saudita de eleve no Oriente Médio, e os americanos percam seu mais valiosos aliado.

Como disse McCain (pré-candidato Republicano), aliados do ocidente entre os árabes são tiranos autocratas, sanguinários exploradores e concentradores da riquezas de seus países, que não representam sequer minimamente a opinião de seus “súditos” - não são confiáveis. O fato, me parece, é que se não há sequer respeito entre árabes, que dirá respeito da parte desses grupos para com os não árabes e não muçulmanos. Podem me chamar de louco, descompensado, ignorante e sem senso de realidade, mas minha opinião (seguindo Paul Johnson) é de que o Islam precisa de uma reforma, tal como sofreu o Cristianismo (séc. XVI) e o Judaísmo (séc. XVIII). É preciso que se transformem certas estruturas culturais que são “reféns” de certas doutrinas religiosas.

A iniciativa de saudita é, até aqui, para inglês ver. E francês escutar.

The times they are a-changin’

26 Março, 2008

Gandhi dizia que quando os fracos começam a se posicionar e agir de alguma forma contra tiranos e opressores, primeiro eles te ignoram, depois riem de tí, quando passam a levar-te a sério, então… tu os vence. É a lógica da resistência pacífica, ou de David (contra Golias).

Pois bem, os Estados Unidos tem um órgão chamado Security and Exchange Commission, ou SEC, que é alguma coisa como o nosso CADE - Comitê Administrativo de Defesa Econômica, que tem por função garantir o cumprimento das lei e regulamentos que regem o mercado e a indústria, pra que se garanta os princípios de competição (minimamente) justa. A Microsoft®, por conta da Lei Anti-Trust (americana) está sob intervenção do SEC (mas toda empresa de determinado porte fica sob supervisão desse orgão).

Anualmente a empresa tem que emitir um documento que descreve minuciosa e claramente suas atividades, chamado 10-k. E no 10-k da Microsoft desse ano há algumas passagens muito, mas muito interessantes. Gostaria de apresentar alguns excertos escolhidos e apresentados por Larry Cafiero (onde fiquei sabendo do acontecido). Vejamos:

Our business model has been based upon customers paying a fee to license software that we developed and distributed . . . . In recent years, certain “open source” software business models have evolved into a growing challenge to our license-based software model.

Open source commonly refers to software whose source code is subject to a license allowing it to be modified, combined with other software and redistributed, subject to restrictions set forth in the license. [...] A prominent example of open source software is the Linux operating system.

Although we believe our products provide customers with significant advantages in security, productivity and total cost of ownership (emphasis added to highlight both the audacity and humor of this clause), the popularization of the open source software model continues to pose a significant challenge to our business model…

…including continuing efforts by proponents of open source software to convince governments worldwide to mandate the use of open source software in their purchase and deployment of software products.

To the extent open source software gains increasing market acceptance, sales of our products may decline, we may have to reduce the prices we charge for our products, and revenue and operating margins may consequently decline.

Tradução meia-boca:

Nosso modelo de negócio é baseado em consumidores pagando uma taxa pela licença de uso do software que nós desenvolvemos e distribuímos… Nos últimos anos, certos modelos de negócios de software open source se tornaram um crescente desavio para nosso modelo baseado em licenças de software.

Open source refere-se àqueles softwares cujo código está sujeito a uma licença que permite que seja modificado, combinado com outros softwares e redistribuído, sujeito às restrições descritas na licença… Um exemplo proeminente de software open source é o sistema operacional Linux.

Embora nós creiamos que nossos produtos forneçam a nossos clientes significantes vantagens em segurança, produtividade e o custo total de propriedade, a popularização do modelo de software livre apresentou um desafio significante para nosso modelo de negócio…

…incluindo esforços contínuos dos defensores/promotores do software livre para convencer governos em todo o mundo a obrigar/exigir o uso de software open souce em suas aquisições e distribuição(?) de produtos de software.

Na medida em que o software open souce ganha aceitação crescente do mercado, as vendas de nosso produtos caem, e nós temos que reduzir os preços que cobramos por nosso produtos, e o lucro e margens operacionais conseqüentemente também diminuirão.

É isso aí, meninos e meninas, hoje aprendemos que o crime não compensa, ops! ;)

A Microsoft teve que reconhecer que que o modelo livre é melhor e mais eficiente. Demorou, mas está lá. Vida longa ao Linux!

Para inglês ver

26 Março, 2008

Depois da Segunda Guerra Mundial, os britânicos sabiam (há muito tempo) que manter o império nos moldes então vigentes era impossível. Não seria mais viável manter governos e administrações coloniais, mas era vital manter a estabilidade no suprimento das necessidades da metrópole. A única solução possível era preparar a retirada fortalecendo e solidificando uma elite local convenientemente comprometida com os interesses externos.

No Oriente Médio isso era ainda mais necessário, por conta do suprimento virtualmente ilimitado de petróleo, e delicado dadas as características históricas, culturais e sociais do universo árabe. Depois do advento do Islam, da unificação das tribos da península arábica, iniciou-se a expansão muçulmana, fundamentalmente pelas armas. Em menos de mil anos, o Islam se estendia da península ibérica, passando por todo o norte da África, até a Ásia central (e mesmo o sudoeste, na Indonésia).

O projeto do Islam desde o início, é de unificação e, como o nome da doutrina indica, implica em submissão a Deus, ou seja, à doutrina de Deus tal como revelada ao profeta Maomé. As dificuldades que surgem daí são deduzíveis: quem lidera a unificação? Xiitas, descendentes do profeta, ou os Sunitas, os anciãos? Quem controla Meca e Medida, ou quem está em Bagdad? E há também uma sucessão de dinastias, Omíadas, Abássidas, etc., com diferentes características e posicionamentos quanto à tolerância e interpretação da tradição islâmica.

Contudo, o apogeu do Islam em termos de expansão, curiosamente, se dá sob uma liderança não árabe - os turcos otomanos. Grosso modo, os turcos são descendentes de povos da Ásia central que migraram para o oeste na esteira da invasão mongol, que posteriormente se converteram ao Islam (descendentes de Gengis Kahn formaram a Orda de Ouro). O Império Otomano permaneceu do século XIII ao XX, dominou países em três continentes e levou o terror à Europa - Viena foi sitiada duas vezes por tropas otomanas.

É interessante comparar as “lutas de estabilidade” no mundo islâmico, por um lado, que lhe permitiram a formação de impérios dignos do título de sucessores de Roma; e a persistente fragmentação da cristandade, do cisma entre ortodoxos e romanos até a Reforma Protestante, que limitou-lhe o tamanho e a duração dos impérios que formou (com exceção das Américas espanhola e portuguesa, quem sabe). A relativa constância do Islam está calcada na estabilidade da doutrina, enquanto o Ocidente cristão fervilhou em clivagens teológicas.

Da mesma maneira como o crescimento muçulmano coincide com as convulsões no mundo cristão, o declínio do crescente é concomitante ao desenvolvimento da modernidade ocidental e da “nova cosmonomia” protestante. A cristandade conseguir fazer da crise seu motor, da mudança sua norma; ao passo que as transformações tiraram a iniciativa civilizacional muçulmana, que nunca mais recuperou sua primazia cultural, tal como se viu em Bagdad, Constantinopla ou Córdoba.

Mas uma coisa permanece até hoje: o sentimento e a necessidade de unidade. Mas quem haverá de provê-la? Quando os britânicos se preparavam para deixar as colônias, se deram conta que o vazio que deixariam seria o espaço de violentos embates entre dinastias e nacionalidades pela liderança, primeiro do mundo árabe, segundo, do mundo muçulmano. Dentre os árabes, os ingleses tinham que lidar com uma série de importantes famílias: os Houssein, os Saudi e os Faiçal.

Para não correr o risco de ver a região tragada para um longo conflito tribal, a calejada diplomacia britânica mediou as negociações para a constituição de estados-nação, essa invenção européia semi-alienígena no contexto árabe, que não se adéqua bem, mas garante certo controle, ou o controle necessário para manter os interesses viáveis.

Aos Houssein coube a Jordânia. O grande problema, na verdade, se dava entre os Saud e os Faïçal (ou Faisal). Os ingleses preferiram legar a Arábia aos Saud, passando a se chamar Reino da Arábia Saudita; e aos Faïçal foi entregue a Síria, ou Reino da Grande Síria, e posteriormente o Iraque.

Os Faïçal eram bem mais próximos do Ocidente, e Emir Faïçal (rei da Síria e Iraque) manteve apoio, por exemplo, à constituição de uma nação judaica na Palestina, chegando a compor uma proposta com Chaim Weizmann (presidente da Organização Zionista Mundial, depois e Herzl, e posteriormente primeiro presidente do Estado de Israel), o plano Faïçal-Weizmann. Contudo, caíram em desgraça: a Síria e o Iraque foram tomadas por militares ligados ao partido de orientação socialista-árabe, o Baath (amiguinho do PT). Vale lembrar que eram membros do partido Baath o carniceiro Hafez al-Assad (que, entre outras coisas, ordenou o massacre de Hamá) e o criminoso Saddam Hussein, perseguidor implacável de xiitas e curdos, assim como seu camarada sírio.

Os Saud, por outro lado, são um exemplo de governo estável, regido sob mão de ferro e relativamente discreto (o que, fique claro, não considero uma virtude). Listados entre os mais ricos do mundo, os Saudi concentram quase toda a riqueza saudita gerada pelos petrodólares, enquanto o país é governado sob uma interpretação bastante severa e restritiva do Islam, o wahhabismo, que, grosso modo, prega o retorno às doutrinas e práticas islâmicas tal como eram definidas nos primórdios do Islam. Isso mantém certo controle interno, e é tolerado pelos países ocidentais, como os EUA, pelo compromisso da manutenção do suprimento seguro de petróleo.

De alguma maneira, a luta pela liderança do mundo árabe esteve entre essas famílias, as lideranças nacionalistas-facistas do Egito e os secularistas/socialistas baathistas da Síria e do Iraque. Posteriormente, com a Revolução Islâmica no Iran, surge um outro ponto de poder e influência, e, dessa vez, não-árabe (os iranianos são persas). Portanto, a luta se estende para além da liderança do mundo árabe, que deixa de apontar naturalmente a lideranças do Islam, pela entrada do Iran na disputa direta. Também é digno de nota que o maior país muçulmano em números absolutos de fiéis é a Indonésia (86% de uma população de 230.000.000, aproximadamente).

Nesse novo cenário, surgem novos atores, os radicais islâmicos do Taleban (Afeganistão, outro país não-árabe), e os militantes da Al-Qaeda, de Bin Laden, que é, curiosamente, saudita. A imagem do mundo árabe/islâmico vai sendo dominado pelo estereótipo do fundamentalismo e da tirania, e novamente os Saud se apresentam como a melhor opção de aliança para o mundo ocidental. Os sauditas não exitaram (?) em permitir que os americanos usassem o país como centro militar na guerra do Golfo I, ou no Golfo II, visto que resultaria na estabilização da área e no enfraquecimento ou eventual derrubada de Saddam.

Nesse instante, a Arábia Saudita nega relações ou qualquer apoio à Al-Qaeda, que é comandada por um (ex)nobre sauditas, e é de orientação profundamente sunita e anti-xiita - o que significa duros golpes contra os rivais iranianos. Contudo, o país é profundamente “ocidentalizado”, ou seja, herege, para os padrões de gente como Bin Laden, o que não deixa de ser preocupante.

Esse é o momento em que os Saud poderiam alavancar sua posição de opção de liderança a ser apoiada pelo ocidente, mas isso arruinaria sua imagem já desgastada junto mundo islâmico, o que seria um contra-senso. Contudo é possível testar a adesão de outros países da região a avanços que os sauditas fizerem, como o reconhecimento do Estado de Israel e a moderação em questões como tolerância religiosa em países islâmicos.

Os Saud são os guardiões das duas cidades, Medina e Meca. Mas até que ponto podem ser os guardiões do Islam? Parece que o método inglês se esgotou, e prova que as manobras de meio século atrás foram um paliativo, um breve adiamento do que é inevitável: a generalização de um conflito intra-muçulmano.

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

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Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Sobre Alatriste

25 Março, 2008

Fiquei curioso por conta de uma nota no Rua da Judiaria sobre o filme Alatriste, produção espanhola estrelada por Viggo “Aragorn” Mortensen [nota: esse sujeito fez um dos diabos mais interessantes do cinema em Anjos Rebeldes (The Prophecy), longe do estereótipo do demônio libidinoso; sua primeira fala nesse filme, quando um personagem pergunta "você é Deus?", é: "Se eu sou Deus? Deus é amor, e eu não amo você". E vai levar tempo para que deixe de ser Aragorn - uma das escolhas mais acertadas de Peter Jackson para a trilogia "O Senhor dos Anéis"; e não é muito difícil de perceber alguma similaridade entre os personagens que interpretou em Hidalgo e Marcas da Violência e Aragorn: todos eles guardam uma dignidade tímida, resistente, que fica ainda mais acentuada em sua caracterização do capitão Diego Alatriste].

Apesar de Viggo Mortensen não ser a preocupação desse post, ele é importante porque seu personagem representa muito bem o declínio do Império Espanhol e sua agonia ainda no século XVII. Os reis católicos de Espanha depredaram as bases que os ergueram à altura de senhores da Europa e de boa parte do mundo, que havia se desdobrado em nova extensão: expulsaram os judeus em 1492, o mesmo ano em que um provável judeu espanhol radicado numa república italiana chegava à América (sim, Colombo - não se iluda com o nome Cristóvão) e se engajaram em guerras de religião. Forçou que Portugal, que recebera os judeus banidos, também os expulsasse ou os forçasse o batismo. Muitos forçados deram origem à tragédia dos cristãos-novos e marranos (cripto-judeus), outros tantos se dirigiram a outras paragens, como Holanda, Alemanha, Polônia e Lituânia.

Os judeus portugueses, apesar de tudo, prosperaram em outras terras, encontrando mais tolerância em “terras hereges”, como se referiam os espanhóis aos países protestantes, como a Holanda. E é curioso que dominando das Filipinas ao Chile, passando pela África, os espanhóis tenham encontrado a mais ferrenha resistência no Flandres, onde católicos e protestantes se engalfinharam em meio a sangue e lama: ali começa a derrocada de Espanha e de um certo mundo católico na Europa.

Alatriste dá um bom panorama da época, a partir do ponto de vista peculiar de um soldado/mercenário cheio de honra e altivez, mas plebeu e pobre, a mercê das vagas de poderes muito maiores que ele. Igreja, nobreza, Coroa, côrte: tudo tão complicado, melindroso, alheio ao mundo ordinário… demais para um homem com o mínimo de princípios, mesmo não sendo um santo.

Um ponto em particular, pontual mas emocionante para quem conhece a história, são as menções aos portugueses no século XVII: todos “meio judeus”. O personagem Luiz Pereira é um português cuja família é presa pela Inquisição enquanto ele lutava pela Espanha Católica em Breda. Aterrorizado, Luiz prefere a morte aos flagelos e interrogatórios do Tribunal do Santo Ofício.

Jom Tov Azulay (irmão do Daniel Azualy, que ensinava desenhos na televisão) dirigiu o belíssimo “o Judeu”, que conta a história de Antônio José da Silva, cristão-novo português nascido no Brasil e supliciado em Lisboa no século XVIII. Um filme inteiro sobre isso que Alatriste menciona.

[nota: esse post está mal escrito, desestruturado e confuso não por acasa, foi escrito na madrugada gotejando sono - queria manter o compromisso de um artigo(zinho) ou nota por dia. Deu no que deu...]

Purim

21 Março, 2008

Hoje é dia 21 de março; para os cristãos, sexta-feira santa, Páscoa cristã. Para nós, judeus, ainda não é Páscoa - nossos calendários são diferentes (o cristão gregoriano é solar, o judaico é lunisolar). Mas essa data é importante para nós, é Purim. Purim não é uma das grandes festas do Judaísmo, não é como Rosh haShaná (ano novo), não é como Yom Kippur (dia do perdão), não está na lista de Levítico 23; mas é uma festa e tanto! Ganhou importância quanto mais se tornou emblemática, assim como Chanuká, a festa das luzes: são festas de livramento do povo judeu.

No ano de 586 a.E.C., aproximadamente, o Reino de Judá, ou Reino do Sul (de Israel), foi invadido pelos exércitos babilônicos, e os habitantes de Judá, ou judeus, foram deportados, exilados para a região que chamamos Mesopotâmia, hoje Iraque. Foi um duro golpe na história de Israel, porque o Templo de Salomão foi destruído e o orgulho da nação foi quebrado. Apesar do exílio ter terminado com o retorno dos seguidores de Neemias para Jerusalém, a diáspora judaica que se iniciou aí perdura até hoje (intensificada, claro, pela expulsão romana em 70 e 135 E.C.).

Quando Babilônia foi conquistada pelo império Persa, o rei Assuerus, ou Xerxes (aquele mesmo que aparece, figurado, em 300 de Esparta) nomeou como vizir (primeiro-ministro) um tal Haman, que tinha fortes ambições de glória. Haman se irou com um certo guarda das portas reais, chamado Mordechai (pronuncia-se Morderrái) que se recusou a bajulá-lo. Haman descobriu que Mordechai era judeu e decidiu se vingar matando não apenas o porteiro, como a todos os judeus - e para isso armou um plano que obteve aprovação do rei, onde mataria todos os judeus do império; e lançou sorte para saber em que dia deveria executar a ação - 13 de Adar.

Mordechai soube do plano (afinal, ele ficava o dia inteiro nas portas da cidade - ouvia de tudo), e avisou sua sobrinha, que fora feita rainha, esposa do rei Assuerus, sem que este soubesse de sua origem judaica. Ester era seu nome Ester. Ela, sabendo dos plano de Haman, conclamou todos os judeus a jejuarem e orarem com ela por três dias, e ao final desse período ela se apresentou ao rei, revelando sua origem judaica e o plano de Haman para aniquilar seu povo. Haman foi morto, mas o decreto que ordenava os ataques aos judeus nas cidades em que habitavam não podia ser revogado; então Assuero ordenou que fosse dada permissão aos judeus para que se defendessem dos ataques, e assim fizeram no dia 13 de Adar. O dia 14, portanto, foi um dia de festa e alegria pelo livramento.

Porque Haman lançou sorte, do acadiano pûrú, deriva o nome hebraico Purim. E isso tem alguns significados. Primeiro, para o pensamento hebraico, não existem coincidências, acaso; assim, em Purim a sorte foi decidida num ato oculto de intervenção divina: a eleição de Ester como rainha da Pérsia e os momentos em que Mordechai ouviu falar da conspiração contra o povo. Também significa que a sorte do povo judeu não está nas mãos de qualquer homem, muito menos Haman ou mesmo Xerxes/Assuerus. Apesar de nenhuma vez o nome de D’us ser citado em Ester, sua presença e intervenção são óbvias.

Essa história se tornou emblemática da condição hebraica, judaica, no exílio: há muitos Hamans que por mesquinharias e rancor pessoal (inveja e raiva) decidem eliminar todo o povo judeu, ou o máximo que conseguirem. Hoje, curiosamente, temos um Haman persa e primeiro-ministro outra vez: Ahmadinejad, presidente do Iran, antiga Pérsia. E essa nova forma de anti-semitismo, o anti-sionismo, vai conseguindo apoio e decretos reais por todo o mundo. E os judeus em todo o mundo estão apreensivos, temerosos de que o pior possa acontecer.

Mas houve providência - Ester. Outra haverá, sempre houve.

Aliás, Purim é a festa que honra as mulheres no Judaísmo. Sempre femininas, sempre fortes, sempre sabendo o que fazer quando qualquer homem desmaiaria de terror. Oculta, astuta e corajosa, derrotou Haman em toda sua força e poder. Assim também fizeram as mães marranas, descendentes dos judeus forçados a se converterem ao cristianismo em Espanha e Portugal no século XVI e XVII, que mantinham em casa, escondidas, as tradições e as ensinavam a seus filhos e filhas, resistindo à aniquilação perpetrada pelo inimigos de Israel - não por acaso que se identificavam com a rainha da Pérsia.

Sobre Juno

20 Março, 2008

Assisti ao filme ontem, com a Carol. As quartas-feiras terminam por ser o melhor dia pra ir ao cinema em Belo Horizonte. Já havia lido algumas considerações do sempre agudo Gustavo Nagel sobre o filme, que, como ele disse, está longe do clichê; e fiquei curioso. Não é, como Menina de Ouro, um filme que engana o espectador fazendo-o se identificar com a protagonista, acompanhando seu desenvolvimento na trama, para dar-lhe uma rasteira temática/propagandista no final. Juno não é um-filme-sobre-aborto, muito menos um besteirol misto de Dawson’s Creek e Felicity. É um daqueles filmes que retratam o que é ser adolescente numa dada época, como o inesquecível Conta Comigo, ou The Outsiders: ambiente social, família, escola, amigos, namorados, personalidade/maturidade, essas coisas.

A protagonista é aquele tipo de garota que todo garoto meio nerd ou loser descolado queria ter como amiga/affair: inteligente, excêntrica e com aquele senso de humor que só quem não é popular sabe desenvolver pra se proteger. Ajuda você a se defender, ou rir de si mesmo, ou rir do agressor (veja a cena em que ela descreve o atleta popular e a líder de torcida). Não é linda, mas tem aquela beleza íntima, doméstica - aquilo que os anglófilos definem pela distinção entre beautiful/beauty.

A trama se desenvolve bem (não foi sem motivo que ganhou o Oscar® de melhor roteiro original), e não deixa o espectador se cansar ficando preso em questões menores e inúteis - todo diálogo serve pra alguma coisa, e são bem construídos e divertidos. Por que estou falando de roteiro? Porque não trai, mas também surpreende: o casal, ou a moça, comete um erro (comum entre gente dessa idade, infelizmente) e nenhum dos dois tem maturidade pra lidar com o “resultado”, uma gravidez. Sim, o filme fala de aborto - afinal essa é uma opção legal em alguns estados nos EUA, e é a primeira coisa que passa pela cabeça de quase todos os personagens - e o filme seria irreal se não presentificasse isso. Mas também trata de outras coisas como maternidade precoce e adoção. A primeira opção é tão absurda naquela situação que não aparece realmente como possibilidade; a segunda é tratada com alguma profundidade (alguma por que é a que cabe ali, ou seja, o suficiente).

E ao seguir o desenvolvimento da gravidez e a relação de Juno com o casal que adotará o bebê, o filme nos apresenta o drama de casais que não podem ter filhos, homens imaturos, relacionamentos frágeis. De repente Juno parece se tornar a coisa mais sólida naquele contexto, e seu amadurecimento surpreende no final.

Mas não se iluda: a conclusão da trama lida com conseqüências reais de um mundo real - sem Deus ex machina, sem fantasia, sem inconsistência. Assim, Juno não é um filme “temático”, “educativo” ou doutrinário. Se você quiser, essas coisas podem estar lá, mas dependem de reflexão (como tudo o que é bom), e temos uma bela imagem do tipo de relações contemporâneas. Ta aí: quem sabe Juno seja um filme sobre família também, apesar das famílias aparecem um tanto enfumaçadas (ou será que estão mesmo esmaecidas?).

Ah!, claro: a trilha é legal, e a fotografia também. Vale realmente conferir.

Mancos, mas rápidos

20 Março, 2008
NOTA: posso ter errado em metade das questões técnicas que trato aqui… mas tenham paciência, me corrijam, e vejam se alguma coisa faz sentido ;).

Um dos termos que mais me chamou a atenção em computação foi o plug and play - alguma coisa como “conecta e funciona”, isso ainda no tempo em que eu usava Windows® e achava que Linux era uma tela preta e linhas de comando cabalísticas. Sem considerar os aspectos mais técnicos, o princípio é que qualquer hardware ou gadget conectado no computador seja reconhecido pelo sistema operacional e funcione sem complicadas manobras e configurações, que não aquelas referentes aos hábitos e preferências do usuário ou administrador.

Se entendo bem, isso depende de duas coisas: um sistema operacional (daqui pra frente SO) versátil, ou seja, capaz de reconhecer funcionalmente a adição; e hardware inteligente, desenvolvido a partir do bom conhecimento dos sistemas operacionais a que se destina. A Microsoft® prometia esse conceito para o Windows®, mas (que coisa!) mantinha um contra-senso: o SO não é versátil, nem os desenvolvedores tinham acesso adequado à arquitetura do SO para “compor” drivers compatíveis (quer dizer: tudo, menos aquela tela azul…).

Depois de conhecer o Linux, há uns três anos, via Kurumin (que agora será um flavour do Kubuntu, não? Kurumin NG, acho), e soube que havia vida para além das janelas - e que havia muito mais que prompts de comando - me deparei com um SO versátil, robusto (quando necessário), confiável e, principalmente, aberto. A primeira característica cobre o primeiro requisito do plug and play, e é o principal passo para garantir que o segundo seja possível e bem sucedido - afinal o desenvolvedor do hardware e dos drivers têm, literalmente, o livro aberto diante de si.

Entretanto, para minha surpresa, isso parece não interessar aos fabricantes de hardware… É quase previsível que não esteja de acordo com as intenções mercadológicas das gigantes desenvolvedoras de SO (num cálculo equivocado, a meu ver); mas é impressionante que fabricantes de hardware não se valham abusivamente dessa vantagem. Provavelmente levantariam o argumento que precisam desenvolver drivers proprietários para resguardar seus investimentos; mas isso não resiste a duas considerações: primeiro, drivers proprietários parcialmente funcionais não são interessantes na medida em que dificultam a vida do usuário/consumidor/cliente; e, segundo, drivers abertos aumentam a participação e formação de uma comunidade de usuários que divulgam o produto e ajudam em seu desenvolvimento - o que, imagine, pode proteger a marca.

Para um mundo um pouco melhor, bastava que empresas desenvolvessem produtos arquitetados segundo padrões abertos, para Linux (ou *nix) - e isso não melhoraria nem pioraria seus produtos para Windows®, a não ser, claro que Redmond usasse de práticas desonestas, como “sabotar” produtos amigos do pingüim com “minas” de incompatibilidade, ou fazer o que fizeram com a iRiver: essa empresa produz tocadores digitais (tá, digital playersmp3 players, como quiser) que suportam (e bem) formatos livres como .ogg. Eu adquiri um modelo (T10, de 1Gb), e fiquei satisfeito quanto à reprodução do formato. Contudo, a Microsoft® firmou (ou comprou?) um acordo com a empresa para que usasse MTP® (Microsoft Transfer Protocol), protocolo proprietário que torna o WMP® irrevogável para transferir arquivos e gerenciar o tocador, ao invés de UMS (USB Mass Storage), bem suportado pelo Linux e aberto(?).

Por algum motivo (qual $erá?), a iRiver aceitou. Relatei em outro post como lidei com o problema. O fato é: a comunidade, só com uma parte da solução, o SO aberto e confiável, consegue façanhas. Se houvesse boa vontade dos produtores de hardware… teríamos grandes passos em direção a mais e mais facilidades plug and play. E nesse estado de “meio caminho andado”, ando tendo boas experiências com o Amarok - com certeza o melhor media player para Linux; quase “conecta e funciona”.

O contra-senso de Beijin

18 Março, 2008

As Olimpíadas na Grécia Antiga eram um acontecimento interessante, todo mundo que conhece mais ou menos a história, sabe: de quatro em quatro anos atletas (homens livres) das cidades-estados se encontravam em Olympia para realizarem jogos, que desde os primórdios eram acontecimentos politicamente (e religiosamente) importantes. As cidades lutavam para ter o controle do santuário e realizar a cerimônia, tanto que a parte do mito construído em torno das Olimpíadas, de que parava-se as guerras e conflitos para os jogos, não é assim tão verdadeiro e, de fato, ataques ao próprio local aconteceram, para tomá-lo do controle dos anfitriões em pleno andamento do evento. Outro indicador da importância dos jogos é o fato de ter unificado a contagem do tempo, até então variante de cidade para cidade, que passaram a ter o evento como referência, e o espaço entre dois jogos era chamado também olimpíada.

Com as Olimpíadas Modernas não só não foi diferente, como essa característica de termômetro ou indicador dos ânimos entre nacionalidades se intensificou. A Guerra Fria teve nos jogos um palco privilegiado para a disputa entre o bloco comunista e capitalista - como o boicote aos jogos de Moscou (80) e Los Angeles (84), por causa da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.

Não me interessa o que os jogos são ou não são, me interessa o que se diz que são - jogos de boa vontade e confraternização entre os povos; e há lugar para disputa, rivalidades e coisas do gênero - e isso não é um problema (como não é problema a rivalidade de Brasil e Argentina, ou de Brasil e Cuba, que até dão brilho às competições). O problema é quando há crimes, infrações às leis internacionais e ao direito dos povos em situações distintas dos jogos, e a comunidade internacional faz vistas grossas e realiza a “confraternização” em meio a sorrisos amarelos e muita cara-de-pau.

Na Alemanha Nazista realizou-se a Olimpíada de Berlim, em agosto de 1936. Nessa altura, as pretensões alemãs não eram mais segredo: em 7 de março daquele ano, a Alemanha, em clara violação ao Tratado de Versailles, remilitarizou a Renânia, fronteira com a Bélgica, Luxemburgo e França. Em julho, teve início a Gerra Civil Espanhola, quando tropas nacionalistas (aliadas e suportadas pelos nazistas) marcharam contra a república - esse evento é chamado de “ensaio geral” para os engenhos da maquinaria de guerra alemã. Ao lado, claro da anexação da Etiópia pela Itália, aliada aos alemães, em maio.

As famigeradas Leis de Nuremberg estavam em vigor desde setembro de 1935. Relembrando, eram leis contra o processo de “desnaturalização” da nação germânica, sobretudo por “sangue judeu”, e foram decretadas como defesa ao sangue e honra alemães. Na verdade, não passavam de leis discriminatórias, vexatórias e anti-semitas, firmadas em bases pseudocientíficas; foi o passo inicial rumo à desumanização dos milhões de judeus europeus que posteriormente seriam mortos no Holocausto.

Assim, muito friamente, Berlim ‘36 foi um teste, uma checagem dos ânimos das potências antagonistas à Alemanha, para que Hitler soubesse que passos podeira dar - quanto mais espaço podia tomar. E, para horror de quem volta os olhos para aquele momento, os jogos aconteceram. Houve certa pressão no Comitê Olímpico Americano pelo boicote, mas sob o argumento de que “política não deve interferir no espírito dos jogos, que não responde a credos, ideologia ou raça”, e de que os “atletas judeus (não-alemães) seriam bem tratados”, Betty Boop foi aos jogos.

E pronto: daí em diante veio a aliança com os japoneses (Anti-Kominern), o bombardeio a Guernica (abril de 37, com participação da Luftwaffe), os planos para o lebensraum (espaço vital para o povo alemão - expansionismo alemão, entenda-se), e por aí vamos… Não quero dizer que isso tudo aconteceu apenas por causa de apatia demonstrada pelas nações livres em Berlin ‘36, não quero ser simplista - mas provavelmente, sendo minimamente repreendido, Hitler pensaria um pouco mais antes de fazer certas coisas. Contudo, ainda assim as faria, não tenho dúvidas. A questão não é se isso aumentou ou diminuiu as atrocidades nazistas, mas dilapidação da honra e credenciais do mundo livre.

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A China é o país com o maior número de violações aos direitos humanos - e o que se faz lá com gente é muito, mas muito pior do que em Abu Ghraib ou qualquer prisão ocidental. É o país que mais realiza execuções de pena capital, perto das 3.000 - pelo menos 10 vezes mais que os EUA. O controle de natalidade mantido pelo Estado promove uma matança de meninas inimaginável - há ONG’s e missões cristãs que trabalham exclusivamente com o resgate de meninas em latas de lixo, bueiros e em alas especiais de hospitais (onde as crianças ficam sem alimentação para morrer de inanição).

A China é hoje o maior poluidor do mundo (sim, mais que os americanos em termos absolutos), e suas taxas de emissão são galopantemente crescentes - e ninguém ousa proferir uma mera advertência ao Estado chinês. As condições de trabalho na China são as seguintes: não há férias, décimo terceiro, seguro de qualquer tipo e os salários estão entre os mais baixos do mundo. Se metade disso acontecer num país membro da OMT…

O Estado chinês mantem minorias nacionais e religiosas isoladas e vigiadas rigorosamente. Há nações não-chinesas inteiras que clamam por independência, como povos meso-asiáticos correlatos aos persas e afegãos, praticantes do Islam; os católicos chineses são vigiados por serem devotos de uma “fé estrangeira” (na verdade, o único catolicismo permitido é o Catolicismo Chinês, ou coisa assim, que responde ao Estado, não ao Vaticano). Comunidades cristãs são estimadas entre 50 e 90 milhões de pessoas na China, é a maior igreja subterrânea do mundo - e o maior número absoluto de cristãos por nação; mas os sofrimentos e o custo que estas comunidades pagam é inimaginável para nós, que gozamos dessa benção chamada liberdade de consciência.

A China ocupa e mantém o Tibet como estado-refém desde 1950; há mais soldados chineses do que tibetanos na capital Llasa, antes mesmo dos recentes levantes e protestos.

E é nesse lugar que serão realizadas as Olimpíadas de 2008, Beijin ‘08. E até agora, parece que não haverá boicotes - salvo, quem sabe da República de Taiwan, aquela ilhazinha corajosa que resiste ao gigante chinês.

Eu gostaria que esquerdistas, gente do PC do B (maoísta) se manifestasse e explicasse o que anda acontecendo; gostaria que os pró-palestinos e anti-zionistas me dissessem por que, em seu senso de justiça sensibilíssimo à opressão de “Estados-terroristas”, não se manifestam a respeito do Tibet. Ou por que os defensores da igualdade religiosa que correm a defender muçulmanos, não dizem palavra sobre os cristãos na China…

Também gostaria que liberais e capitalistas que louvam as benesses do livre mercado explicassem por que mantêm negócios com a China. Gostaria de saber, mesmo.

Na verdade, acho que isso acontece não pelo fato de não nos lembrarmos do que aconteceu antes, quando vemos os mesmos padrões se repetirem e uma nuvem muito negra enegrecendo o horizonte. Isso acontece porque somos maus. E ser bom não é ser capaz de derrotar a injustiça, é somente se postar ao lado do fraco, só isso.

Eu não verei as Olimpíadas. Não posso - que seja, ao menos, por respeito aos tibetanos.

Nanomanos - mas não ainda

6 Março, 2008

Os pesquisadores que trabalham com “futorologia” ou tendências da tecnologia e seus impactos na vida das pessoas sempre falam que nós superestimamos os avanços nos próximos 10 anos, e subestimamos o que pode aparecem nos próximos 20. Se não me engano, essa “fórmula” foi proferida por um “futurólogo” do MIT, um brasileiro que seria um dos vaticinadores do laptop/notebook lá nos idos de 70.

Isso, de fato, parece ser verdade. Mas às vezes, somos surpreendidos pela presença imediata de futuro em coisas absolutamente inusitadas. E inusitadas em vários sentidos - comigo ao menos. Pelo Kibe Loco, fico sabendo que uma empresa criou um celular tatuado na pele. É isso aí - a tatuagem é feita com tinta eletrônica que faz da pele um display - o aparelho mesmo é um disco de silício e silicone com funções Bluetooth implantado entre a pele e o músculo e é alimentado pelo próprio sangue - inacreditável! Um tubo é ligado a uma artéria, e uma célula transforma oxigênio e glicose em energia, e um segundo tubo devolve o sangue para uma veia.

OK: genial, engenhoso, futurístico. Mas qual é a questão? A questão é que um aparelho funciona se valendo da pele como parte de si, e é movido por sangue - exatamente como um órgão biológico e “natural”. Na verdade, nós somos ciborgues a muito tempo: uma vez que implantamos elementos distintos e estranhos à conformação do corpo, temos um tipo de fusão entre natureza e técnica - uma obturação, um pino nos ossos ou mesmo as roupas e calçados. Bruno Latour é um de meus teóricos preferidos por não medir palavras pra dizer que a distinção natural e artificial não se aplica a nós.

Mas aquelas “intervenções” têm de ser qualificadas, e eu as chamaria de pré-eletrônicas. Mas isso ainda não é o bastante. Marca-passos são implantes eletrônicos, mas são muito diferentes do que estamos vendo no caso do celular tatuado. Então teríamos a fase pré-eletrônica, a fase eletrônica e a fase nano (é, de nanotecnologia). Nessa fase temos elementos eletrônicos em escala mínima agindo e cumprindo funções de maneiras que só tínhamos conhecimento no reino microscópico das células, bactérias e (quem sabe) macro moléculas.

Dentro de pouco tempo, já não estaremos falando de “tinta eletrônica” e um chip do tamanho de uma moeda implantado por uma incisão e alimentado por finos tubos. Falaremos de nanopigmentos compostos de agentes que se comportem como células e executando tarefas que consideramos hoje como artificiais, como fazer uma ligação telefônica, enviar e-mail, ou fazer diagnósticos e monitorar funções corporais (como infeções ou alterações no organismo).

E isso não está muito distante: gente como o professor Kevin Warwick são a avant-gard da simbiose homem-máquina, mas de maneira muito distante daquelas aberrações metálicas que vemos no cinema e num certo tipo de ficção. Um certo tipo porque gente como Asimov já entendia que num certo nível de desenvolvimento, a técnica se confunde, em termos de efeito, com magia. Sua ação é sutil e discreta - mais parecido com o T-1000 do que com o T-800.