contra-senso

Sobre Juno

Publicado em cinema por André Tavares em 20/03/2008

Assisti ao filme ontem, com a Carol. As quartas-feiras terminam por ser o melhor dia pra ir ao cinema em Belo Horizonte. Já havia lido algumas considerações do sempre agudo Gustavo Nagel sobre o filme, que, como ele disse, está longe do clichê; e fiquei curioso. Não é, como Menina de Ouro, um filme que engana o espectador fazendo-o se identificar com a protagonista, acompanhando seu desenvolvimento na trama, para dar-lhe uma rasteira temática/propagandista no final. Juno não é um-filme-sobre-aborto, muito menos um besteirol misto de Dawson’s Creek e Felicity. É um daqueles filmes que retratam o que é ser adolescente numa dada época, como o inesquecível Conta Comigo, ou The Outsiders: ambiente social, família, escola, amigos, namorados, personalidade/maturidade, essas coisas.

A protagonista é aquele tipo de garota que todo garoto meio nerd ou loser descolado queria ter como amiga/affair: inteligente, excêntrica e com aquele senso de humor que só quem não é popular sabe desenvolver pra se proteger. Ajuda você a se defender, ou rir de si mesmo, ou rir do agressor (veja a cena em que ela descreve o atleta popular e a líder de torcida). Não é linda, mas tem aquela beleza íntima, doméstica – aquilo que os anglófilos definem pela distinção entre beautiful/beauty.

A trama se desenvolve bem (não foi sem motivo que ganhou o Oscar® de melhor roteiro original), e não deixa o espectador se cansar ficando preso em questões menores e inúteis – todo diálogo serve pra alguma coisa, e são bem construídos e divertidos. Por que estou falando de roteiro? Porque não trai, mas também surpreende: o casal, ou a moça, comete um erro (comum entre gente dessa idade, infelizmente) e nenhum dos dois tem maturidade pra lidar com o “resultado”, uma gravidez. Sim, o filme fala de aborto – afinal essa é uma opção legal em alguns estados nos EUA, e é a primeira coisa que passa pela cabeça de quase todos os personagens – e o filme seria irreal se não presentificasse isso. Mas também trata de outras coisas como maternidade precoce e adoção. A primeira opção é tão absurda naquela situação que não aparece realmente como possibilidade; a segunda é tratada com alguma profundidade (alguma por que é a que cabe ali, ou seja, o suficiente).

E ao seguir o desenvolvimento da gravidez e a relação de Juno com o casal que adotará o bebê, o filme nos apresenta o drama de casais que não podem ter filhos, homens imaturos, relacionamentos frágeis. De repente Juno parece se tornar a coisa mais sólida naquele contexto, e seu amadurecimento surpreende no final.

Mas não se iluda: a conclusão da trama lida com conseqüências reais de um mundo real – sem Deus ex machina, sem fantasia, sem inconsistência. Assim, Juno não é um filme “temático”, “educativo” ou doutrinário. Se você quiser, essas coisas podem estar lá, mas dependem de reflexão (como tudo o que é bom), e temos uma bela imagem do tipo de relações contemporâneas. Ta aí: quem sabe Juno seja um filme sobre família também, apesar das famílias aparecem um tanto enfumaçadas (ou será que estão mesmo esmaecidas?).

Ah!, claro: a trilha é legal, e a fotografia também. Vale realmente conferir.

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2 Respostas

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  1. Nagel said, on 26/03/2008 at 02:22

    O filme é realmente interessante. A Juno é alguém com quem provavelmente gostaríamos de conviver. Além disso, eu gostei bastante da trilha. Bastante mesmo. Primeira coisa que fiz logo após deixar o cinema foi procurar pelo cd da trilha.

    Grande abraço.

  2. André Tavares said, on 26/03/2008 at 04:09

    pois é… não sei se será como Conta Comigo, mas provavelmente vai ficar pras próximas gerações.


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