Arquivo para Abril, 2008

Notas de um usuário final [a partir de um Eee Pc]

30 Abril, 2008

Pronto, aqui estamos. Depois de alguma dificuldade com o pen drive e um tanto de receio em fazer a instalação, eu fiz: instalei o Ubuntu (Hardy) no Eee. O tutorial da comunidade (ver post abaixo) é muito bom e dá dicas valiosas, apesar de serem poucas as necessárias, de fato. O que pode ser um problema é que o how to é baseado no Gutsy, e tem algumas coisas lá que ou não existem ou não são necessárias aqui. E há coisas (microfone e wireless, por exemplo) que eu não sei se estão funcionando.

Mas parando de reclamar, o que é interessante é a versatilidade do Ubuntu, visto que o Eee é quase uma arquitetura nova… Voltando a reclamar, o boot (tenho que achar uma palavra melhor pra isso) é bem mais lento (o tutorial já avisava disso, e propõe um paliativo) que o Xandros, o que me faz pensar porque cargas d’água a Asus não colocou Ubuntu nativo. Uma resposta possível é que ele, Xandros, é mais parecido com o Windows®, o que evidencia um problema a ser superado: o paradgma windows like…

Se o Eee é silencioso por um lado, esquenta um pouquinho, por outro; nada que incomode, mas do teclado sobe um quentor. Realmente o SSD (o HD do Eee) de 4Gb pode se tornar um problema, o que pode me forçar a comprar um cartão SD, porque acho o pen drive inseguro (fico receoso de alguém, sobretudo eu mesmo, dar um esbarrão…). A relação custo benefício começa a cair um pouco, mas aida vale muito a pena.

Resumindo: gostei do Eee, vou me acostumando com seu tecladinho apertado (mas incrivelmente funcional); o Ubuntu está satisfatoriamente instalado (e eu prefiro um pouco menos de desempenho do que instalar uma distro específica das que estão aparecendo, e que possa faltar suporte). No quesito mobilidade ele é mesmo imbatível, e com um cartão de memória fica tudo afiado. Sinceramente eu acho que a Asus encontrou um filão, e os sub-notes são irreversíveis.

Por fim, gostaria de agradecer ao André Noel pelas dicas, antes e depois de eu adquirir o Eee (obrigado!). Espero somente que num futuro próximo tenhamos a arquitetura plenamente suportada pelo Ubuntu - é muito interessante isso de máquinas feitas for Linux.

Notas de um usuário final [Eee!]

30 Abril, 2008

Ontem chegou meu Eee Pc. Uma maravilha, é o que posso dizer. Ao contrário do que parece pelas fotos na internet, a tela não é assim tão pequena, ou  não tão pequena que incomode; é suficiente eu diria. A tal da cor “branca”, na verdade, é meio perolada… gostei disso, afinal é um pouco menos trabalhoso. O que pesou na compra, como disse em outro post foi o preço: R$ 900,00 na Comprafacil.com. Sim, novecentos porque, me parece, quando você faz sua primeira compra, a loja dá um desconto generoso de 10%, ou seja, uma parcela no meu caso. Muito bom. E apesar do produto se esgotar toda semana, o pessoal foi rápido em enviar (um conselho: use o desconto da primeira compra, se você tiver, para comprar um bom pen drive - tem Kingston a bons preços).

O sub notebook é rápido, o boot é o mais veloz que eu já vi, e o Xandros é até competente, mas não dá: parece que você está preso num palm. Logo senti falta do GNOME e das funcionalidades do Ubuntu. Mas antes de falar disso, ressalto outras qualidades: o Eee é realmente discreto. Dentro do case preto que o acompanha, passou batido por alguns amigos quando eu disse que era uma agenda - é compacto, o que tira um pouco o efeito psicológico de leveza (eu disse psicológico e um pouco, afinal, 900 gramas são 0.9 Kilo… ¬¬). Outra característica que chama a atenção é o silêncio absoluto; tá certo que um processador de 900Mhz não exige um cooler escandaloso, mas ainda assim é um feito, eu acho.

De fato, o Xandros não dá. Pra mim não. Como disse acima, aquele layout de palm é muito inadequado, até parece que a Asus não se leva a sério… apesar de ser um sub notebook o Eee não é um handheld. Bom, quem sabe para alguns felizes compradores seja pouco mais que isso em termos de funções, mas eu penso em usá-lo para executar tarefas que também poderia fazer num desktop. Logo que pude foi atrás dos tutoriais para instalação do Ubuntu. Bom, aí foi uma pequena odisséia.

O melhor tutorial para instalação é o da comunidade, que ensina a maneira mais fácil de criar um pen drive bootável (meudeusdoceu, que palavra horrível). Entretanto, tem umas coisas nos tutoriais que me deixa irritado, entre elas, aquelas dúvidas que só um jacu poderia ter e que o compositor do passo-a-passo nem imagina… ou poderia eventualmente imaginar. Não estou culpando ou reclamando do pessoal dedicado que faz o melhor possível para servir a comunidade, só que isso às vezes causa desespero. Olhe bem, na criação de um flash drive capaz de boot, há a seguite instrução:

wget http://www.startx.ro/sugar/isotostick.sh
chmod u+x isotostick.sh
sudo ./isotostick.sh ubuntu-7.10-desktop-i386.iso  /dev/sdX1

É fácil e claro, e até eu que não entendo direito o que está se passando posso copiar e colar no terminal. Contudo simplesmente não funcionava! Sempre e repetidamente dava erros cada vez mais estranhos e indecifráveis, e eu tentei resolver das mais variadas formas, buscando solução no Google, e nada… Na madrugada, pelo Gtalk (via Pidgin), o André Noel me deu umas dicas, mas nada…

Fui dormir vencido. Pela manhã fiz outra tentativa, indicando apropriadamante o caminho (path) para o arquivo .iso, mas continuava dando erro (já havia tentado isso na noite anterior). Já sem saber o que fazer, achando que o problema era o pen drive, me passou uma coisa pela cabeça: e se for necessário que o arquivo .sh esteja no mesmo diretório que o arquivo .iso? Bingo! Quando fiz isso, deu certo. Impressionante:deu certo… Agora, não custava nada alguém ter dito que isso é uma condição para o comando… reconheço que isso pode estar dito na sintaxe, mas analfabeto que sou, precisaria da indicação.

Feito isso, espetei o Kingston no Eee, configurei o boot, e pronto. Lá estva Ubuntu 8.04 - The Hardy Heron inteiro e redondo. É verdade que é preciso fazer algumas configurações como indica suficientemente bem o tutorial. E o resto… o resto é história.

Hebraico bíblico [clássico/antigo] no Ubuntu

29 Abril, 2008

Quem estuda ou trabalha com línguas clássicas sabe como é um verdadeiro martírio conseguir inserir caracteres (e principalmente caracteres mais específicos) em editores de texto eletrônicos. Mesmo em soluções proprietárias (e existem algumas, mas nunca cheguei a usá-las de fato) são pouco práticas e difíceis de configurar - geralmente, o que se consegue é um editor dotado de um teclado virtual contendo os caracteres. Bom, isso até resolve quando se quer uma palavra ou uma frase, ou mesmo um trecho relativamente curto. Mas imagine digitar textos inteiros ou quando ao compor um trabalho é preciso inserir várias vezes palavras e frases, repetidamente… muito incômodo.

Para nos situarmos, hebraico clássico ou antigo não é como o hebraico moderno, apesar de guardarem muita proximidade (muito mais do que, por exemplo, grego antigo e grego moderno) - mas eu diria que o hebraico clássico é mais plástico, mais composto em nuances (obviamente - teríamos ao menos o arcaico, bíblico, bíblico tardio e talmúdico). Não é suficente ter um teclado hebraico ou configurá-lo para idioma hebraico (que seria o moderno), ou usar fontes clássicas (o teclado não permitiria usar os recursos da fonte).

A solução num mundo proprietário é comprar soluções caras - freqüentemente, proibitivamente caras para gente como eu; mas no universo open source a coisa pode, e é, muito diferente. A começar pelo fato de que, até o Ubuntu 7.10 (The Gutsy Gibbon), havia as opções de teclado hebraico lyx e phonetic, além do normal (se não me engano havia um extended), que conjugadas com fontes adequadas (na verdade, a coisa dá certo é com o lyx), davam conta do recado, oferecendo letras e caracteres especiais (notação vocálica, ou niqqudot). Eu mesmo consegui, pela primeira vez na vida usar com satisfação hebraico bíblico em meu editor de texto - OpenOffice.

Contudo, para minha surpresa, no Ubuntu 8.04 (The Hardy Heron), ao fazer a configuração das opções de teclado, nas disposições estava listada o Biblical Hebrew (Tiro). Olha, foi um daqueles momentos em que você pensa na beleza do software livre… alguém, um programador de muita consciência e discernimento, incluiu uma configuração específica de teclado, que por sua vez deve ter sido “compilado” por um programador não menos cônscio e discernente, e também generoso. O fato é que com essa disposição de teclado é possível digitar não somente notações vocálicas mas também notas de cantilação, ou te’amim! E o mais impressionante, em fontes não específicas, como sans sefif ou freesans…

Então vejamos como fazer. No Ubuntu (GNOME) vá em

Sistema » Preferências » teclado

Na caixa de diálogo clique em adicionar, e

Em Disposições selecione Israel;

Em Variantes selecione Biblical Hebrew (Tiro).

Pronto. Para ajudar na alternância entre os teclados, outra vez na caixa de diálogo (disposições), marque a opção Disposição separada para cada janela (assim a seleção de teclado no editor de texto pode ser diferente do browser, por exemplo).

Outra dica interessante é adicionar o botão de seleção de teclado na barra do GNOME:

Clique com o botão direito num ponto de qualquer uma das barras onde você quer incluir o botão (eu previro no canto inferior direito, ao lado das áreas de trabalho):

Adicionar ao painel » na caixa de diálogo selecione Indicador do Teclado.

Pronto, agora é só clicar em cima do botão que as disposições se alternam na ordem em que foram acrescentadas nas preferência do teclado.

Para mais ajuda, há um bom tutorial para hebraico e grego no Linux aqui.

Uma ótima fonte hebraica (com pontuação vocálica e contilação) está disponível no site da Society of Biblical Literature (recursos e fonte).

Ah!, você não usa Linux? Quer usar? Então comece aqui.

Meme: cinco ótimos livros e um para apodrecer na estante

28 Abril, 2008

Nesse negócio de blog você percebe que vai virando alguma coisa quando começam a convidá-lo para coisas bacaninhas como um meme. Pois bem, este é o meu primeiro - fui convidado pelo Djavan Fagundes (obrigado!). Antes de apresentar minha lista digo que vou me ater à literatura, nada de livros “técnicos”. Vejamos, então:

  • CINCO ÓTIMOS LIVROS
  1. DOSTOIÉVSKI - O Idiota
  2. KOSINSKI - Pássaro Pintado
  3. GARCIA MÁRQUEZ - Cem anos de solidão
  4. BELLOW - O planeta do Sr. Sammler
  5. SPIEGELMAN - Mauss
  • Para apodrecer na estante

KAFKA - Investigações de um cão

Sei que não vale, mas preciso explicar porque indiquei um conto e não um livro todo e porque um Kafka para o esquecimento na prateleira. Mesmo sendo de um gigante, eu simplesmente não consigo terminar de ler o texto… já recomecei incontáveis vezes, mas não prospera minha leitura. Não entendo bem, uma vez que venci o tortuoso A Toca, no mesmo volume. Bom, vai saber; quem sabe um dia…

Vendo daqui, é engraçado: três autores judeus que, juntamente com Garcia Márquez, são todos “contemporâneos”; e apenas um gigante… Bom, quem sabe porque a proposta seja “cinco ótimos livros”, e não “os cinco melhores livros já escritos em minha opinião”. Podem ser os que agora mais me causam impacto. É isso, acho.

Gostaria de convidar o Gustavo Nagel, André Egg e Riverson.

Negando o Holocausto [por vias mais sutis]

28 Abril, 2008

Ano passado (’07) um chain mail, uma daquelas correntes de e-mail irritantes, causou problemas ao anunciar que o ensino sobre o Holocausto havia sido banido na Inglaterra, e relembrava o  que disse Eisenhower sobre o risco da tragédia ser esquecida e desacreditada por quem não a viu. Como um retardatário, eu recebi a dita mensagem e, impactado, acrescentei um textinho e compartilhei a “notícia” com amigos mais próximos. Rapidamente, gente atenta entre os destinatários, retornaram apontando que a informação já fora contestada e desmascarada como sendo mais uma lenda na internet.

Contudo, o frisson causado (pelo e-mail, ainda em 2007) foi tamanho, que o governo britânico foi a público para desmentir o boato - a BBC publicou dois artigos sobre o caso (aqui e aqui) e há uma boa entrada na Wikipedia sobre o caso. Mas, curiosamente, a emenda saiu pior que o rasgão: de fato, o boato se alastrou na palha seca de fatos muito desconcertantes. Professores em algumas cidades com grandes comunidades muçulmanas gostariam ou estavam evitando assuntos “emotivos e controversos”, e que feriam as sensibilidades dos alunos anti-sionistas e/ou que não criam na realidade histórica do Holocausto. Para não contrariar o que aprendiam fora da escola, a melhor solução seria não tocar nessas questões.

O problema apareceu primeiro num relatório da Historical Association (a respeito do problema curricular), e sua raiz está na proposta educacional inglesa mais recente baseada numa abordagem que contemplasse mais adequadamente o multiculturalismo presente nas salas de aula. Como nesse caso os temas tratados acirravam os animos políticos e militâncias das comunidades, muitos professores, obviamente, não souberam como realizar a tarefa sem cortar e costurar os tópicos dos programas, principalmente em história.

Mais uma vez aí está ele, o multiculturalismo. Lindo, resplandescente, sofisticado, tolerante, e cheio de corretude política - um típico produto da orgulhosa sociedade plural  Esse despropósito não passa de moralismo, o mais desarranjado, armado por quasi intelectuais cheios de ressentimento contra tudo, mas sobretudo contra si. Ao invés de apresentar os fatos e pontos de vista interpretativos academicamente válidos, a disciplina se tornou palco de defesas ideológicas dogmáticas - são as cotas aplicadas às idéias: vamos ensinar sobre o Holocausto, mas não vamos falar sobre as Cruzadas para dar equilíbrio ao conflito com os muçulmanos… muito esperto.

Notas de um usuário final [Ubuntu 8.04 "The Hardy Heron"]

27 Abril, 2008

Pronto, está aqui diante de mim, enquanto escrevo estas palavras, um computador pessoal muito modesto rodando a mais recente versão do Ubuntu (8.04), The Hardy Heron, ou “A Garça Durona”. Para obtê-la, fiz o de sempre: site oficial do Ubuntu, clica no anúncio, escolher versão e servidor, e sete horas de download depois, queimo a imagem num CD. Boot pelo CD, carrega o “sistema” e aí aparece uma supresinha: agora é possível ir direto pra instalação sem carregar a sessão live, e de cara a garça pede pra você escolher o idioma em que conversarão - e a durona fala mais de vinte…

O processo de instalação do Ubuntu está ficando cada vez mais rápido e mais enxuto. Desde a primeira versão que usei (5.10) não sentia muita dificuldade, mas está ficando melhor - sobretudo para o usuário que já tenha feito uma instalação, e quando não há que se configurar a máquina para dual boot com o Windows®. Resumindo, poucos passos no processo, cada vez mais “next, next, finish”. Em menos de meia hora (com download de pacotes de linguagem durante a instalação) eu estava com o tudo pronto.

O sistema carrega mais rápido, e me pareceu mais “suave”. Dito de uma vez: é o bom e velho Ubuntu, cumprindo o que promete, e se tornando, definitivamente, uma distro perfeita para usuários finais, como eu, ou anda mais jacús. Agora, há algumas coisas de que eu não gostei: primeiro, vir com Firefox 3 beta foi um erro, uma série de complementos (todos os que eu uso, por sinal) não são suportados ainda; segundo, o sistema não reconheceu a resolução do meu monitor e punha em 640×480, insistentemente, o que me levou ao terceiro problema: mudanças nas disposições de itens nos menus. “Telas e placas de vídeo” (que me permitiria corrigir o problema) não estava mais em “Administração”, mas em “Aplicações » outras” e não selecionado a princípio. Demorei quase uma hora para resolver o problema, sobretudo depois instalei o drive restrito pra placa GeForce. Mas felizmente consegui desabilitar o driver, reiniciei o X, abri o gerenciador de monitores, e, consultando o manual no meu CRT, descobri que ele tem um parentesco com os da IBM… selecionei um primo rico com características parecidas, e agora estou com 1024×768 com placa habilitada.

Mas quem é bom entendedor já percebeu que, surpreendentemente, para um sistema operacional rodando numa máquina feita de retalhos, os problemas listados acima são irrisórios. Todos os meus amigos que me visitam, ao verem os efeitos do Compiz e a versatilidade do Ubuntu, ficam curiosos e pedem ajuda para testá-lo em seus PC’s. Tudo o que era preciso para media e retoques estava preparado pela comunidade no fórum em português. A garça durona tem um vôo gracioso e seguro - só é rústica com a concorrência.

Quer saber mais?

http://www.ubuntubrasil.org/comece

http://www.ubuntubrasil.org/

E se o Iran for abertamente ameaçado?

16 Abril, 2008

Se os Estados Unidos fizerem uma declaração aberta de que atacarão o Iran, o que pode acontecer? Já se especulava que após a invasão do Iraque, os americanos entrariam num ciclo longo de intervenções militares na região, numa cadeia de crises com interesses regionais. Os alvos mais prováveis seriam a Síria, que é governada pelo partido Baath, o mesmo de Saddam, e que possui armas biológicas e químicas, ou o Iran, que tem um presidente esquentado e um programa nuclear suspeito, além de finandicar, armar e terinar grupos terroristas, como o Hizbollah. Muita gente, inclusive eu, se perguntou por que os EUA, ja que aleganva ameaças, não atacaram a Coréia do Norte que quase certamente controla ogivas nucleares, e mesmo que não tenha está muito bem servida com armamentos convencionais e um milhão de soldados (o maior contingente do mundo, acho).

A resposta para essa pergunta ajuda a entender o ataque ao Iraque. Não atacaram a Coréia porque não é necessário - o regime comunista norte-coreano já se incumbiu de destruir o país. A miséria é a realidade da maior parte da população, seguida dos males mais imediatos de um regime fechado: subnutrição e doenças causada pela falta de gêneros alimentícios e medicamentos. A posição irredutivelmente fechada de Pyongyang vai-lhe custando o próprio povo. A maior preocupação seria com os vizinhos Coréia do Sul e Japão, mas a presença militar americana na região é forte. Os norte-coreanos não passam de marimbondos bravos - poem causar alguma dor, mas só isso.

O Oriente Médio, ao contrário, guarda energia. Muita energia. Energia que a China precisa em quantidades galopantemente maiores, podendo pagar por isso; o que significa altos montantes nas mãos de regimes com anseios belicosos - clientela para os russos e suas armas de baixo custo e larga produção. Caso os americanos atacassem o Iran isso incitaria os chineses a se moverem para proteger reservas de energia de seu interesse na região, sobretudo depois de ter firmado acordos com os iranianos. Os russo por sua vez, veriam nessa situação uma ótima oportunidade de, solidarizando-se com o Iran, se oporem aos EUA, numa tentativa de se impor novamente a partir de uma posição de influência na Ásia antagônica a Washington.

Não me parece fortuito que McCain, candidato Republicano, tenha sugerido excluir a Rússia do G8. O fato é que mais que colaborar ou “jogar” com os americanos e europeus, os russos estão consolidando apoio e influência na Ásia, o que vem acontecendo através do SCO - Shanghai Cooperation Organisation - que aparentemente é de cunho econômico e tecnológico, mas vai demonstrando seu real propósito de formação de um grupo, um outro pólo, na Ásia e leste europeu. Reunindo a Rússia e satélites, e China, a solidariedade de Shanghai urge por se estender ao Iran, Índia e Paquistão. A Índia estaria interessada somente na cooperação econômica e tecnológica e provavelmente resistira aderir ao grupo à medida em que as pretensões militares fiquem evidentes - ainda que mais tarde possa integrar-se.

Pode acontecer que uma ameaça clara de ataque ao Iran antecipe esforços de fortalecimento do grupo, e a própria inclusão da República Islâmica. Pode também provocar um volume crítico de tensão entre China, Rússia e EUA, todos membros do Conselho de Segurança da ONU - o que também pode acontecer se os dois primeiros apoiarem a indicação de um membro islâmico para o conselho, como quer Ahmadinejad.

Ameça aberta certamente aumentará a apreensão entre Israel e os vizinho árabes - como um aliado local dos EUA, Israel pode se tornar, como na Guerra do Golfo I, um saco de pancadas para árabes e muçulmanos. O problema é que agora os ataques podem ser mais ferozes e a reação israelense mais agressiva.

O ciclo de intervenções militares americanas no Oriente Médio já ultrapassou níveis estratosféricos em termos de gastos. Um novo ataque a outro país aumentaria os valores requisitados ao congresso num momento de séria recessão econômica nos EUA; com a proximidade das eleições presidenciais e. em seguida, eleições parlamentares, pode ser politicamente muito custoso manter esse nível de presença militar ativa. Simultaneamente, grupos terroristas radicais islâmicos podem intensificar suas atividades numa nova onda de atentados no Ocidente, “punindo” países que apoiarem os americanos - pressionando ainda mais a opinião pública contra a atuação americana na política internacional.

Parece ser uma sinuca: retirar as tropas do Iraque pode ser o suficiente para uma explosão de violência na região e a formação de uma nova república islâmica, como o Iran (shiita) ou o Afeganistão Taleban (sunita). Por outro lado, manter as tropas implica em estabilizar a situação - o que não é possível sem aplicar duros golpes aos financiadores/incitadores do caos no Iraque. Retirada ou intensificação podem significa, por vias diversas, o aumento da influência da China e Rússia entre os países da região, o que inevitavelmente retrairia os americanos.

De fato, é uma forca.

O ataque ao Iran e o cenário no Oriente Médio

15 Abril, 2008

Ao que tudo indica, os EUA estão preparando um ataque ao Iran. O que ainda não parece estar decidido, ou claro, é quando (antes ou depois das eleições para presidente?), e em que escala (somente às conhecidas instalações nucleares, ou também às instalações militares?). Jim Meyers (Newsmax) aponta a visita de Dick Cheney a vários países do Oriente Médio (aliados: Israel, Arábia Saudita, Turquia e Oman) como preparativos diplomáticos e estratégicos e, ainda segundo a Newsmax, os sauditas já tomam providencia para o impacto radioativo resultante do ataque às instalações nucleares iranianas.

Há outros problemas a serem resolvidos: altas patentes militares americanas discordam quanto ao problema iraniano; o Marechal Fallon pediu afastamento do comando americano no Oriente Médio por discordar da política da administração Bush, e “para não estar lá quando a ordem de ataque à República Islâmica for dada”. Por outro lado, a situação no Iraque não pode avançar sem que se detenha o apoio e financiamento iraniano às milícias xiitas - certamente que isso pode ser feito por outros meios, mas uma atitude se faz necessária.

Outras questões estratégicas dizem respeito ao alvo primário da retaliação iraniana, Israel; e o apoio que o Iran receberia de aliados e parceiros. De fato, ainda que Israel não participe diretamente dos ataques (e, na verdade, poderia lançar sozinho uma operação cirúrgica, como fez no Iraque nos anos 80) sofrerá ataques imediatos tanto do Iran, quanto provavelmente da Síria. O mais provável é que os ataques sejam feitos com armas biológicas e/ou químicas (que a Síria com certeza possui), e o exército israelense realizou recentemente o maior exercício militar de sua história prevendo este cenário. O Hizbollah, que é financiado, equipado e treinado pelo Iran, já anunciou que está pronto para atacar Israel simultaneamente por terra e com os mísseis de curto/médio alcance russos/iranianos.

Um ataque à Republica Islâmica também é complexo quanto às movimentações que pode provocar no cenário asiático. China e Rússia têm acordos comerciais e tecnológicos com os iranianos, que na verdade camuflam cooperação militar - obviamente que a última coisa que os chineses querem fazer é deixar claras suas intenções pela formação de pactos militares. O conselho de segurança da ONU, portanto não será a agência legitimadora do ataque, resta saber onde os americanos encontrarão suporte internacional - possivelmente a França de Sarkozy ou mesmo os ingleses (OTAN?)

O Iran soma, agora, 9.000 centrífugas para enriquecimento de urânio, e a alegada intenção pacífica não tem sustentação tecnicamente (centrífugas podem produzir combustível para mover reatores ou para armamento nuclear), e muito menos nos discursos de Ahmadinejad. E se os americanos querem retirar suas tropas do Iraque precisam garantir estabilidade na região, ou diminuir as forças das lideranças locais anti-americanas que poderiam ocupar o vácuo. A generalização de um conflito no Oriente Médio pode ser evitado, mas é possível; e a maneira como o caso iraniano for resolvido será crucial para o desenvolvimento do cenário.

Inquisição em Minas Geriais - Palestra

14 Abril, 2008

Para quem se interessa pelo tema, a professora Neusa Fernandes, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro dará uma palestra nesta quinta-feira (17 de abril), às 15 horas, na Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro (21 2224-6184) . A entrada é franca.

O assunto é importante porque a Inquisição moldou profundamente a identidade brasileira, particularmente a mineira, na medida em que boa parte dos portugueses que para cá vieram, fugiam da Inquisição em Portugal - sobretudo criptojudeus. A quantidade de praticantes da religião de Moisés, os judaizantes, no Brasil era grande e chegou a se estabelecer com certa intensidade e mesmo abertamente. Cerca de 250 pessoas foram deportadas para Portugal, onde responderam perante o Tribunal do Santo Ofício pelo crime de judaizar.

Para saber mais sobre o drama do judaísmo português: Rua da Judiaria, The Virtual Jewish History Tour.

Palestra sobre Inquisição em Minas Gerais

Sobre Persépolis

14 Abril, 2008

Nas primeiras décadas do século XX a historiografia positivista estava claramente desancada: a história oficial calava as vozes de agentes “marginais” de uma época, dissimulando as complexidades dos acontecimentos e desenvolvimentos sociais e culturais de um período. Em resposta ao modelo vigente apresentou-se, entre outras possibilidades, a École des Annales, que fez, grosso modo, inverter o lugar dos textos (oficiais) e as notas de rodapé - muito mais do que datas, lugares, personalidades e cargos, o que faz a história são os detalhes cotidianos onde as transformações e tendências vão solapando a ordem vigente. Num exemplo, para compreender a Revolução Francesa não basta cobrir os fatos da década de 1780 e 1790, mas é preciso saber o que mudou na mentalidade e sociedade francesa ao longo dos últimos séculos, rastrear na “longa duração” como se chegou àquele momento de “curta duração”. Ou pra entender o Brasil Império é mais importante conhecer as revoltas do que as crônicas palacianas.

Em termos metodológicos, a École iniciou a “história da pessoa, das coisas e dos hábitos”, ao invés da biografia e documentação oficial; assim Georges Duby, por exemplo, pode apresentar uma série de características intrincadamente conectadas sobre a Era Medieval num quase romance como “Guilherme Marechal”, ou “O Ano Mil”. Nesse mesmo paradigma temos a “história da vida privada”, e toda a “narrativa lenta” já utilizadas por Gilberto Freyre (que para mim é um antecipador da École). Se me for permitida uma metáfora, a diferença representada seria entre uma foto oficial e um instantâneo congelado por um fotojornalista.

Uma das grandes virtudes da História Nova, então, é nos apresentar um quadro mais verossímil e humano do que se passou numa determinada época ou evento, sobretudo porque consegue estabelecer empatia, identificação - o que nos fornece parâmetros muito mais qualificados para avaliação e conhecimento, é informação com carga de humanidade, mais do que dados cronológicos e estatísticos, e localizações geográficas.

Acredito que é justamente por isso que Persépolis (França, 2007) é tão impactante. Da minha infância recordo que os nomes Iran e Iraque estavam associados como gêmeos antagônicos e violentos, ou como Caim e Abel, engalfinhados numa briga ferrenha e meio sem sentido. Sem sentido porque não enxergava motivos possíveis representados na imagem de um tanque no deserto disparando seu canhão em meio a uma densa nuvem de poeira e fumaça - atirando para onde meudeus? Eram como duas entidades etéreas lutando, como nuvens de uma tempestade furiosa, e aqueles soldados (mais sombras que homens), com os rostos cobertos por máscaras de gás (desfeitos de identidade) eram com extensões impessoais, como meus bonequinhos de America’s Army. A Revolução Islâmica e o Aiatolá Khomeini eram alguma coisa incompreensível e assustadora - homens austeros e mal-humorados de longas barbas e turbantes negros, mulheres sem sorriso cobertas por um xale também negro.

Contudo, Marjane Satrapi nos ofereceu um retrato avassalador do que aconteceu com o Iran, contando como isso afetou sua vida. Tal como Anne Frank, ela foi apanhada em sua infância por uma onda de transformações que afetaram profundamente sua família - o que situa sua biografia como um local privilegiado para compreender o momento. Não vou refazer aqui o que está feito no filme, nem recontar o que ele conta; no entanto, vale a pena pensar em algumas coisas.

Primeiro, me impressionou muito a forma como o Iran foi afetado pela introdução de idéias desenvolvidas em lugares muito distantes, tanto geográfica como culturalmente (a Europa Ocidental) por meio de agente individuais ou grupos que formaram, auto incumbidos de transformar e redirecionar a nação por meio de alguma revolução - que é patente na dinastia Pahlevi, sinônimo de ocidentalização e industrialização com algum apoio externo, e que terminou inevitavelmente num regime totalitário. O germe revolucionário estava incrustado em solo iraniano.

Os oponentes do regime Pahlevi, segundo narra Marjane, eram profundamente influenciados pelos comunistas russos, e compromissados com a mesma premissa de transformação da sociedade, trazendo justiça e harmonia por meio de movimento radical de transformação - sim, porque o comunismo também era alienígena ao palco cultural iraniano. Na esteira da derrocada de Reza Pahlevi e seu regime, vieram a “abertura” e as eleições livres. E o que acontece? O partido radical islâmico toma o poder com maioria esmagadora dos votos. Estava feita a Revolução Islâmica. Toda a transformação do Iran aos moldes das narrativas libertárias ocidentais foi solapada, e em seu lugar foi posto um regime teocrático regido por clérigos - quer coisa mais reacionária do que esse retorno à fusão entre Estado e Igreja, ou melhor, Mesquita? O mais irônico é que o caminho foi pavimentado pelos modernos revolucionários comunistas e secularistas.

Pior que a repressão dos Pahlevi foi o controle muçulmano, que além de caçar ameaças políticas, vê em tudo o que for ocidental um perigo a ser aniquilado. Tudo aquilo que vimos e que foi bem desenvolvido em regimes totalitários secularizados, como a Alemanha Nazista ou os Comunistas onde quer que tenham alcançado o poder, foi utilizado pela Revolução Islâmica: polícia política, polícia cultural, monitoramento, vigilância, moral revolucionária que permite virtualmente qualquer atrocidade e supressão de valores, direitos e dignidades.

E, finalmente, veio a guerra com o Iraque de Saddam. Nela quase 1.000.000 (sim, um milhão) de iranianos perderam suas vidas, a maioria esmagadora eram jovens, e 600,000 (seiscentos mil) iraquianos morreram. Quer dizer, num único conflito com menos de dez anos de duração e sem um vencedor, muçulmanos revolucionários islâmicos persas e muçulmanos revolucionários comunistas/secularistas árabes mataram 1.500.000, um milhão e quinhentas mil pessoas - motivados, entre outras coisas, pela liderança do mundo islâmico.

O sangue nas mãos dos dirigentes da Revolução não os incriminou ou enfraqueceu; antes, clamando pelo sangue dos mártires, fizeram dele motivos ainda mais fortes para o comprometimento e sacrifício do Iran. Não era à toa que minha inocência infantil enxergava os soldados como bonecos de plástico verde… tudo agora eram peças à disposição da Revolução.

Segundo, e mais subjetivo, é a razão pela qual Satrapi nomeou sua biografia com o nome da antiga capital do Império Persa: Persépolis. Pode haver motivos externados pela autora, que eu desconheço, mas particularmente acho que há aí uma referência ao antigo explendor da Pérsia da Antigüidade, de Ciro e Dario, quando era o centro do Mundo e vanguarda cultural. O Iran de Marjane era muito mais a Persépolis Clássica que a Teeran dos Aiatolás. E como a cidade antiga, está em ruínas.