O que aprendi com Charlton Heston
Para a maior parte dos que nasceram depois de ‘80 e acham que George Lucas inventou o gênero épico no cinema, Charlton Heston é um desconhecido. E permaneceu assim na medida em que cada vez menos se assiste aos grandes filmes da era de ouro de Hollywood, onde Heston encarnou a figura do herói. Eu sempre achei que a figura heróica masculina, rústica e de queixo quadrado, era proveniente dos traços do Superman, mas estava errado – são características de Heston; e, por mais estranho que pareça, as cenas de perseguição de carros começaram inspiradas na corrida de bigas em Ben-Hur, também estrelado por ele. Muito do que apreciamos no pop e nos filmes-pipoca-de-luxo nasceram com muito mais classe e por meio de um ator genial e controverso.
Eu mesmo aceitei a figura de Heston deformada por Michael Moore em Tiros em Columbine. Lá temos construída a figura chauvinista do presidente do National Rifle Association, e do racista que conjectura a causa da violência nos EUA na degeneração racial. O problema mais sério, na verdade, é a vilania com que Moore monta o quadro – cenas do pronunciamento num evento do Clube do Rifle logo após a tragédia em Columbine, e aquela entrevista na casa do ator, que, a meu ver, foi de pura má fé.
Má fé porque é preciso apenas se informar sobre a biografia de Heston para reconhecer a insustentabilidade da caracterização no “documentário”: ele mesmo se considerava um mestiço, parte escocês, parte Sioux; engajou-se no movimento pelos direitos civis juntamente com o Reverendo Martin Luther King; militou contra a Guerra no Vietnan e apoiou o controle de armas no governo Johnson; foi membro do partido democrata sendo fortemente liberal (nos EUA isso quer dizer ser de esquerda).
O “erro” de Heston foi ter mudado de idéia, e nesses tempos, isso é um problema sério – sobretudo quando a nova posição é de oposição ao acordo majoritário. A partir de um determinado momento, aquilo que era tido como discurso libertário de esquerda, nos EUA, atingiu as raias do ridículo no que chamamos de “ações afirmativas” e “politicamente correto”; e na imbecilidade coletiva, não há contradição nenhuma em falar de “orgulho negro”, “orgulho indígena” ou o que quer que seja, e a criminalização e castração de qualquer manifestação “branca” ou européia. Veja bem que o problema nem é mais sobre as responsabilidades de erros, crimes e injustiças históricas, mas de puro revanchismo e ressentimento que reproduz, num espelhamento, as mesmas contradições do modelo, somente invertendo os pólos de hegemonia.
A explicação simplista da origem e motivo da cultura armada nos EUA na animação tacanha feita por Moore, os discursos inconseqüentes da anta do George Clooney e o oportunismo desavergonhado de Al Gore, todo esse entulho politicamente correto, vão criando uma cortina de fumaça sobre a realidade recobrindo tudo com uma “fina camada de tecido escuro”, camuflando as coisas e esgueirando-se vergonhosamente do confronto público isento. Controle de armas não resolvem, como dados criminalísticos demonstram, o problema da violência, e o “politicamente correto” apenas esteriliza o ambiente cultural imbecilizando-o. Portanto, Heston caiu em desgraça na cultura pop por ter mudado de idéia e ter sido coerente, por ter percebido o risco de certas idéias e posições políticas tacanhas disseminadas pelos inimigos da sociedade livre. Por isso, digo eu, foi um herói fora das telas – muito diferentes de seus detratores que são valentes apenas diante de câmeras.
Heston tinha que fazer o discurso depois da tragédia de Columbine? Creio que não. Mas concordo que uma campanha de alerta contra a panacéia anti-armas era urgente – pior, em termos de conseqüências, que o pronunciamento de Heston é o uso oportunistas de situações de comoção pública para promover ações políticas de restrições civis, como os neo-conservadores fizeram ao passar o Patriotic Act no impacto do 11 de setembro.
Uma última ressalva: não sou um conservador, nem direitista, nem reacionário. Sou judeu – e de nós nem conservadores nem revolucionários gostam. Possivelmente, Heston, mesmo tendo interpretado Moisés e Ben-Hur, não nos apreciasse muito. Mas num momento como esse, acredito que saudar alguém como Heston é o mínimo que posso fazer.
Heston morreu no último sábado, dia 5 de abril, aos 84 anos.

“na imbecilidade coletiva, não há contradição nenhuma em falar de “orgulho negro”, “orgulho indígena” ou o que quer que seja, e a criminalização e castração de qualquer manifestação “branca” ou européia”
Isso esclarece muito do que você escreveu pra mim sobre Israel-Palestina. De qualquer forma, não invalida o fato de que Israel tem atuado como opressor na Palestina. Sobre teus comentários a respeito da violência do Islã, estou com idéias para escrever um post sobre isso, mas ainda não deu tempo.
abraço
André, quem sabe psicanaliticamente a citação explique o que eu disse sobre a questão Israelo-Palestina. Mas de fato, ou conscientemente, minha afirmação aqui vai em outra direção. Acredito na afirmação e multiplicidade cultural, nesse sentido sou profundamente kuyperiano – creio que D’us de alguma forma se enriqueceu a si na Criação, portanto, a diferenciação das culturas enriquece a Criação por sua vez.
Sou simpático à idéia de reparação, indenização e reconciliação, contudo discordo da “solução” politicamente correta que opera no mesmo paradigma de hegemonia/contra-hegemonia. Quando me referi à imbecilidade coletiva, mirava a equação obtusa de que o “orgulho” de oprimidos se dá pela detração dos opressores. Nem toda cultura “branca” é opressora, nem tudo o que é opressor oprime sozinho.
E, claro, pensava numa idéia quando usei o termo “imbecil”. Estou temeroso, lendo seu comentário, de que o tenha ofendido. Reforço aqui que de modo algum tinha essa intensão.
Quanto à questão Palestina, tudo bem, eu digo: Israel oprime os palestinos. Mas não menos que Egípcios, Jordanianos, Sauditas, Sírios e Libaneses oprimem e usam palestinos como massa de manobra. E os palestinos radicais islâmicos oprimem em maior medida seus patrícios cristãos e, se pudessem, os drusos. E outra coisa: judeus não são “brancos”, e os que pensavam que eram foram veementemente desmentidos.
Abraço.
Quanto às preocupações expressas em teu comentário la no meu blog, fique tranqüilo.
Estou gostando do debate. Você é um interlocutor de altíssimo nível, e se estou prolongando nossa discussão é por que a coisa tá boa mesmo…
abraço,