Negando o Holocausto [por vias mais sutis]
Ano passado (‘07) um chain mail, uma daquelas correntes de e-mail irritantes, causou problemas ao anunciar que o ensino sobre o Holocausto havia sido banido na Inglaterra, e relembrava o que disse Eisenhower sobre o risco da tragédia ser esquecida e desacreditada por quem não a viu. Como um retardatário, eu recebi a dita mensagem e, impactado, acrescentei um textinho e compartilhei a “notícia” com amigos mais próximos. Rapidamente, gente atenta entre os destinatários, retornaram apontando que a informação já fora contestada e desmascarada como sendo mais uma lenda na internet.
Contudo, o frisson causado (pelo e-mail, ainda em 2007) foi tamanho, que o governo britânico foi a público para desmentir o boato – a BBC publicou dois artigos sobre o caso (aqui e aqui) e há uma boa entrada na Wikipedia sobre o caso. Mas, curiosamente, a emenda saiu pior que o rasgão: de fato, o boato se alastrou na palha seca de fatos muito desconcertantes. Professores em algumas cidades com grandes comunidades muçulmanas gostariam ou estavam evitando assuntos “emotivos e controversos”, e que feriam as sensibilidades dos alunos anti-sionistas e/ou que não criam na realidade histórica do Holocausto. Para não contrariar o que aprendiam fora da escola, a melhor solução seria não tocar nessas questões.
O problema apareceu primeiro num relatório da Historical Association (a respeito do problema curricular), e sua raiz está na proposta educacional inglesa mais recente baseada numa abordagem que contemplasse mais adequadamente o multiculturalismo presente nas salas de aula. Como nesse caso os temas tratados acirravam os animos políticos e militâncias das comunidades, muitos professores, obviamente, não souberam como realizar a tarefa sem cortar e costurar os tópicos dos programas, principalmente em história.
Mais uma vez aí está ele, o multiculturalismo. Lindo, resplandescente, sofisticado, tolerante, e cheio de corretude política – um típico produto da orgulhosa sociedade plural Esse despropósito não passa de moralismo, o mais desarranjado, armado por quasi intelectuais cheios de ressentimento contra tudo, mas sobretudo contra si. Ao invés de apresentar os fatos e pontos de vista interpretativos academicamente válidos, a disciplina se tornou palco de defesas ideológicas dogmáticas – são as cotas aplicadas às idéias: vamos ensinar sobre o Holocausto, mas não vamos falar sobre as Cruzadas para dar equilíbrio ao conflito com os muçulmanos… muito esperto.
