contra-senso

Quando rezar com as mãos é melhor

Publicado em Judaísmo, POLÍTICA, Reforma, TEOLOGIA, TEORIA SOCIAL, democracia por André Tavares em 27/06/2008

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber, foi um dos livros mais importantes do século XX, quem sabe o masi importante no campo das ciências humanas. A tese de Weber, grosso modo, diz que um determinado ethos, o protestantismo do século XVII, foi o substrato  encontrado pelo capitalismo para se desenvolver num determinado ponto da história. Dito de outro modo, a ética protestante (calvinista) exerceu grande influência na configuração do capitalismo.

O que isso quer dizer? Que sem protestantismo o capitalismo teria se desenvolvido de uma outra maneira, ou mesmo não teria se desenvolvido. O calvinismo se tornou uma força cultural na economia na medida em que encorajava o crente a se lançar no trabalho no “mundo secular” como uma forma de culto, fazendo de seu serviço no mundo uma forma de louvar a divindade, uma expressão da sua fé.

Há uma série de interpretações equivocadas sobre a tese de Weber, como dizer que para o protestantismo a riqueza é um sinal de salvação, ou coisa do gênero. Sem entrar no mérito da questão, a “tese por trás da tese” é que existem forças culturais que movem as pessoas numa determinada direção por meio da ética que produz uma orientação moral. Essas “forças” culturais são as idéias base que moldam a maneira como alguém, numa determinada cultura, enxerga ou compreende o mundo; formaando uma cosmovisão.

O protestantismo calvinista motiva o fiel a trabalhar no mundo como forma de adoração porque, ao contrário do catolicismo medieval, compreendia o mundo como Criação, ou seja, feito por D’us, logo, algo bom. Assim, a distinção entre material e espiritual, secular e sagrado, foi invalidada – um monge e um carpinteiro são igualmente preocupados com o serviço a D’us (quem sabe o carpinteiro fosse até mais) nesse contexto.

Ontem (26/06), a BBC publicou em seu site uma matéria muito curiosa sobre um clérigo islâmico que exorta seus fiéis a “rezar menos e trabalhar mais”. Segundo a reportagem, no Egito, o status de alguém cresce quanto mais é religioso; e quanto mais religioso, mais tempo dedica-se às orações, recitações e abluções, e menos tempo sobra para coisas mundanas como o trabalho.

O resultado disso é uma queda considerável na produção entre alguns egípcios muçulmanos. E esse comportamento parece ganhar força nos países muçulmanos de orientação sunita, como a Arábia Saudita. E antes que se diga que um comentário como esse não é mais que o resultado de um olhar ocidental sobre uma outra cultura, vejamos que a censura foi lançada por clérigos do Islam no Egito.

A teologia e a fé são primordialmente importantes na medida em que formam a nossa cosmovisão, a maneira como compreendemos o mundo – contudo, a religião institucional, mesmo tendo seu lugar, não pode se tornar um empecilho para o desenvolvimento da nossa boa relação com as outras áreas da vida e com o mundo.

“Rezar é algo bom… 10 minutos devem ser suficientes”, recomenda o sheik Yusuf Qaradaw; o que me faz lembrar que o Talmud recomenda orações curtas na semana, para não comprometer os afazeres cotidianos – e quase todos os sábios judeus, com raríssimas excessões, tiveram uma profissão paralela aos estudos (artesãos, principalmente).

A sinceridade da espiritualidade não está contida no ritual religioso; mas está, justamente, na maneira como orienta a ação nas outras dimensões da vida. A crença estanque, que não diz respeito a nenhum outro aspecto da experiência, ou a religião que algema e cerceia toda a vida sob seu governo castrador só fazem deformar a realidade, tornando a existência ou numa série de secções descontínuas, ou numa falsa unidade reducionista e rasa – produzem, ambas, irrealidade.

O protestantismo liberou os homens e as esferas da vida do domínio da religião institucional, lançou-os para alcançar novos desenvolvimentos… eventualmente, perdeu sua força cultural, e foi solapado por outras idéias que nos conduziram a graves tragédias… mas ainda preservamos o valor da inciativa, da cooperação associativa – o que não é pouco.

O Judaísmo forneceu uma base anterior para os reformados, apregoando desde muito tempo a necessidade de tikkun ha’olam, concerto do mundo, pela atuação do homem para o estabelecimento da justiça, da boa ordem em toda instânicia da Criação.

O Islam, porém, vai aumentando suas tensões: as classes médias muçulmanas querem reformas e liberdade para prosperarem, as lideranças políticas querem poder e controle, e os clérigos querem uma só disciplina (o Islam) sobre todas as coisas. Essa combinação entre controle opressivo e frustração tem um resultado bastante ruim para os ânimos de qualquer um.

Mas fazer o quê, quando a única alternativa é rezar?

10 Respostas

Subscreva aos comentários comRSS.

  1. Igor said, on 02/07/2008 at 05:47

    Cara,

    Que texto excelente, por favor não pare de escrever textos como esse, simplesmente impressionante, uma delícia. É incrível como você consegue exprimir de forma tão enxuta o que pensamos. O caminho é justamente resgatar a ética protestante nos primórdios, nas raízes éticas do cristianismo. Superar os dualismos que fragmentam e estilhaçam tudo: lei e graça, razão e fé, judaísmo e cristianismo, secular e religioso. Que todas essas coisas possam se conectar, que a vontade D’us seja feita assim na terra como nos céus!

  2. André Egg said, on 29/07/2008 at 01:15

    E aí véio.

    Faz tempo que não passo por aqui, e também sinto falta dos teus pitacos “lá em casa”…

    Belo texto.

    Me permita ser chato, como sempre:

    Acho que o melhor livro sobre Calvino e calvinismo em português é este, não sei se você conhece: MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

    Ele tem capítulos bem específicos sobre o desenvolvimento do que chamamos de “calvinismo”, na verdade formulações feitas na 2ª e 3ª geração de líderes reformados, especialmente na Inglaterra. Aliás, foi lá que se firmou a concepção doutrinária, fixada na “confissão de Westminster”, com os famosos 5 pontos (isso também foi feito mais ou menos na mesma época pelo Sínodo de Dort na Holanda e está também na confissão de Heidelberg – dos calvinistas alemães).

    A ostentação de riqueza é sim ponto fundamental, pois é uma das formas de o cristão ter certeza de que é realmente “eleito”. Uma coisa razoavelmente importante numa doutrina que afirma que desde antes da fundação do mundo Deus planejou criar uns para a salvação e outros para a perdição.

    Não vejo grande vantagem num sistema teológico que gerou essa aberração que é o capitalismo anglo-saxão. Pode ver que são os países mais colonialistas e onde os trabalhadores conseguiram menos direitos.

    Também não acho muito possível de comparar a burguesia inglesa calvinista com o exemplo de Cristo. Para mim são duas coisas muito opostas.

    E discordo da tua birra com o Islã. A teologia deles também gerou países com muita riqueza e justiça social, especialmente em seu período áureo: séculos X e XI. As cruzadas atrapalharam as coisas um bocado…

  3. André Tavares said, on 29/07/2008 at 15:56

    Caro André,

    tudo bem? Obrigado pela visita e comentário.

    Conheço o livro do McGrath. Insisto que a palavra riqueza tem um significado amplamente diferente para um calvinista do século XVII e XVIII. A riqueza é um sinal de prosperidade e bastança que acompanha o eleito porque pratica atos de justiça (para os quais fora eleito antes da fundação do mundo, como diz Paulo).

    A bastança segue a obediência, como diz a Torá. Mas mais do que isso, a prosperidade se ligada à eleição e salvação, está condicionada ao elemento mais radical do calvinismo, a Soberania de D’us. O trabalho e riqueza são bençãos concedidas pelo Dispensador das boas dádivas, que implica em mordomia, ou seja, cuidado do que não lhe pertence.

    A ostentação de riqueza é a última coisa permitida nos círculos protestantes, não só calvinistas, mas entre pietistas, batistas, etc. por muito tempo. Mesmo mais tarde, com Wesley, a ética do trabalho e acumulação protestante seguia a máxima “trabalhe o mais que puder, poupe o mais que puder, doe o mais que puder”.

    O calvinismo está envolvido com praticamente tudo o que temos de interessante nos últimos quinhentos anos, de ciência à tripartição do poder. Dizer que é responsável pelas formas imperialistas e predatórias de capitalismo é tão irresponsável quanto dizer que Jesus foi responsável pela Inquisição ou pelo massacre nas Cruzadas…

    O capitalismo anglo-saxão pode ter defeitos mil, mas é bem melhor que o comunismo russo, o capitalismo-estatal chinês, o liberalismo político francês, o nacionalismo islâmico, o populismo sul-americano… Sempre houve mais conquistas de direitos ao longo do tempo em países protestantes calvinistas sem os custos de uma revolução, como na França. Houve menos necessidade de Estado, mais ação civil. Isso é um trunfo.

    Eu não fiz uma comparação entre a burguesia calvinista inglesa e Cristo… Mas continuo pensando que os reformados tinham bastante compromisso com a Bíblia, mais que qualquer outro grupo cristão (em minha opinião).

    Bem verdade que muito do que se fez e pregou na reforma foi desvirtuado e distorcido. Mas isso não rouba o mérito da coisa toda.

    Quanto ao Islam, bem… muita riqueza é verdade, justiça social, de modo algum. O período áureo foi descrito até agora por uma historiografia meio míope, e novos estudos da Era de Ouro vão demonstrando outros elementos não islâmicos muito importantes para aquele período, que quando começaram a ser perseguidos, determinaram o fim dos dourados séculos. E ainda bem que as cruzadas atrapalharam as coisas… antes o mundo pós-cruzadas que um califado global.

  4. André Egg said, on 29/07/2008 at 17:49

    Você como judeu deve “lembrar” que os califados foram tolerantes com o judaísmo. Muito mais do que a cristandade ocidental, seja antes ou seja depois da reforma. Acho que não é segredo para ninguém que Lutero foi abertamente anti-semita.

    E os cruzados, antes de chegarem à “Terra Santa” se exercitavam em pogroms anti-semitas nas terras centro-européias.

    “Sempre houve mais conquistas de direitos ao longo do tempo em países protestantes calvinistas sem os custos de uma revolução, como na França.”

    Ao dizer isso você está esquecendo que um século antes de os jacobinos franceses guilhotinarem Luís XVI, foram os puritanos (calvinistas) ingleses os primeiros europeus a fuzilarem seu rei, no tempo de Cromwell. Antes disso os presbiterianos já tinham liderado uma revolução violenta com John Knox na Escócia.

    Segundo E.P.Thompson em “A formação da classe operária inglesa”, haviam alguns pregadores itinerantes radicais que eram calvinistas e estavam ao lado dessa “conquista de direitos” por meio de “ação civil”. Mas no geral os puritanos (calvinistas) eram membros esclarecidos da burguesia urbana. Acompanharam a Revolução Industrial (aqui já estamos falando de século XIX) sem mover uma palha por direitos de quem quer que fosse. Os fugitivos do campo, que foram expulsos das terras comunais no tempo do surgimento do moderno “agro-negócio”, tornaram-se proletários urbanos vendendo sua força de trabalho por um salário que mal pagava o pão. Trabalhavam 14 ou 16 horas por dia, sem descanso semanal ou férias, inclusive mulheres e crianças de 10 anos de idade. Tudo isso com o beneplácito dos senhores industriais calvinistas que argumentavam que se fosse pago um salário melhor os “preguiçosos” proletários trabalhavam apenas o necessário para sobreviver. Acontece que eles não viviam da ética do trabalho-como-forma-de-acumular-riquezas/bênçãos. Viviam na lógica camponesa do trabalho como meio de subsistência.

    Se você acha que o capitalismo anglo-saxão tem alguma coisa de bom leia qualquer livro de Charles Dickens ou Jack London. O para voltar ao tempo mais próximo do calvinismo original leia Tom Paine.

    De qualquer forma esta minha argumentação não propõe defender o comunismo russo ou chinês, nem o islamismo moderno.

    É comum enfatizar o papel importante do calvinismo em vários tipos de modernização ocorridas nos séculos XVII/XVIII, especialmente a abertura para o que se pode chamar de um mundo “secular”, não dominado pela religião. Separação entre igreja e Estado, bem como tolerância religiosa são atitudes que primeiro surgiram em lugares onde o calvinismo teve muita força. Difícil é dizer quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha…

  5. André Tavares said, on 29/07/2008 at 19:35

    Certo. Primeiro, o renascimento do Judaísmo Sefardita traz consigo uma renovação dos estudos sobre a Península Ibérica e a situação dos judeus sob o Islam. A tese da tolerância islâmica e o paraíso ibérico foram largamente produto da historiografia judaica européia no século XIX, quando as coisas ficaram muito, mas muito difíceis para o judaísmo europeu.

    Heirich Graetz, historiador judeu do século XIX, estabeleceu a tolerância islâmica a partir do que aconteceu na península ibérica entre os séculos VIII e XII. O problema é que Graetz não pode dar outro exemplo, porque não houve outro, e omitiu completamente pogroms realizados nesse período e as conversões forçadas ao islamismo (evitadas apenas com o pagamento de vultuosas riquezas).

    A tolerância islâmica ao judaísmo esteve sempre relacionada com o valor e respeito às artes, filosofia e ciências. Quase todos os lingüistas, filólogos, filósofos, médicos, administradores, e mesmo diplomatas eram judeus. A invasão almóada cessa esse período completamente. Rambam teve que fugir para o Egito e Palestina por conta dessas perseguições.

    A tolerância islâmica não é menor ou melhor que a cristã ocidental… é de outro tipo. Verdade que Lutero era anti-semita, mas os luteranos escandinavos sempre foram fortemente filo-semitas, assim como o Conde Zinzendorf. Verdade que Calvino não era amigos dos judeus, mas a Holanda reformada foi o primeiro lugar a nos tolerar e dar direitos de cidadania.

    Foi na Inglaterra reformada e nos EUA que encontramos lugar para fugir nos séculos XIX e XX.

    Você tem razão, houve Cromwell e houve Knox… e não deram certo. Toda vez que protestantes fizeram revolução, não rolou… exceto a Americana. E se os puritanos decapitaram o rei, os jacobinos fizeram muito, muito pior, e você sabe bem disso. São revoluções absolutamente distintas em natureza. E as benesses para a Inglaterra da República de Cromwell foram muito positivas no futuro, enquanto a Revolução Francesa acabou com a França e tudo o mais em que tocou.

    Olha só, André, você acha que o calvinismo é uma doutrina burguesa e malvadamente capitalista. Ok. Eu concordo com você que o sistema instaurado pós 1850 é perverso e intolerável. Concordo com você que boa parte do protestantismo estava acomodado e se tornara fonte de opressão. Mas em 1850 a Reforma já estava morta… Wesley já havia dado seu último suspiro há 50 anos…

    Foi necessário que aparecessem von Prinsterer e Kuyper para reavivar os princípios calvinistas e da Reforma, e levá-los muito além dos cinco pontos.

    Quanto ao cenário de horror industrial na Inglaterra, bom, é difícil dizer que um calvinista piedoso fosse a origem daquela loucura. Por outro lado, dizer que poucos fizeram alguma coisa é um erro histórico. De cabeça eu cito o Conde Anthony Ashley-Cooper que liderou os calvinistas no parlamento e fez passar uma série de leis que regulamentavam o trabalho nas fábricas e obrigava os industriais a seguí-las (as Factory Acts); ou ainda Thomas Chalmers, e William Wilberforce. Ou ainda todo o aparato metodista que serviu de rede de amparo social na Inglaterra…

    A secularização não é exatamente fruto da reforma e do calvinismo; antes é sua deturpação. Não são os únicos responsáveis pela forma de separação que temos, mas a forma como propunham as coisas fez muita coisa boa aparecer.

    É isso, acho.

  6. André Egg said, on 30/07/2008 at 20:01

    Ok.

    Desconheço qualquer bibliografia séria sobre o judaísmo no islã. Acho que o que já li não é mesmo confiável. Você parece que tem informações mais precisas do que as minhas.

    Acho que tudo o que você diz eu estou de acordo.

    Minha chateação de vir aqui comentar teu post é porque não acho que necessariamente esta ética do trabalho que você atribui ao calvinismo seja boa. A não ser quando se encara pela ótica do “trabalhar é melhor que rezar”, no sentido de que é um pouco falso ficar esperando bênção divina sem trabalhar para alcançá-la. Acho que teu post enfatiza isso também, talvez eu é que não enxerguei.

    O efeito colateral é a condenação do ócio, do prazer, da festa, do jogo. Acredito que a sociedade produtivista anglo-saxônica esteja hoje vivendo o estertor deste puritanismo econômico. E o fundamentalismo evangélico (pleonasmo vicioso) é seu último bastião.

    Não acho verídica a afirmação de que “a Revolução Francesa acabou com a França e tudo o mais em que tocou”. Os únicos que até hoje vi defenderem uma idéia dessas foi o pessoal da TFP, com os quais imagino que você não comunga.

    Ensino laico, serviços públicos universais, igualdade dos homens perante a lei, e mesmo a idéia de que o poder estatal emana do povo. Não acredito que isso teria sido implantado de alguma forma sem uma revolução violenta.

    Assim como acho que não haveria riqueza e justiça social na Europa Ocidental sem uma ameaça soviética. A Coréia do Sul não seria o que é se não houvesse a ameaça norte-coreana, etc.

    Não há dúvida de que revoluções violentas são uma merda. Mas não sei se já inventaram outro jeito dos trabalhadores arrancarem algum direito aos patrões. Se não é por revolução direta, é por medo de uma iminente…

  7. André Tavares said, on 30/07/2008 at 20:28

    Bom, ao menos vamos nos reconhecendo, sabendo em que posição estamos. Obrigado pelo tom ameno – é sempre um prazer discutir/debater com você.

    Na verdade, o problema judaico no universo islâmico é mais melindroso do que eu posso descrever – e não quero ser ingrato a quem deu melhores condições em certas épocas. Haverá de ser publicado coisa interessantes nos próximos anos.

    Você está coberto de razão quando critica a forma de trabalho vigente pautada na idéia de produtividade inversamente proporcional ao ócio. Mas cabe lembrar que esse desenvolvimento é o que Weber denominou de ética laica do trabalho, cujo paradigma é Benjamin Franklin.

    Engraçado que em hebraico a palavra trabalho, avad, é a mesma para adoração (daí a idéia de “serviço” sacerdotal ou litúrgico) e tem conexões semânticas com atividade criativa tal como a de D’us no princípio. O risco, porém, é que “avad” (trabalho criativo) se transforme numa aberração geradora de eved – escravos (interessante jogo com a raiz comum).

    Os calvinistas, a princípio, me parecem mais afeitos a alguma diversidade na formação e na ocupação. Verdade que com os puritanos a coisa é bastante diferente, e a racionalidade protestante se volta contra tudo o que seja irracional, como o ócio e a diversão, como diz, outra vez, Weber.

    A ética do trabalho que acho proveitosa é mais aquele inicial, sedento de humanidade, do início da Reforma, que as derivações especificamente anglo-saxãs.

    Você é um revolucionário. Tudo bem, eu respeito isso. Mas não concordo. Acho que a última coisa que ajuda qualquer povo é a revolução. É a maior das aberrações secularizantes do universo. Pode me chamar de reaça… eu devo ser.

    A religião laica esterilizou a França. A idéia de igualdade perante a lei não depende de revolução para ser implementado – se a França não tivesse matado seus calvinistas, 1789 não teria sido necessário.

    E concordo com Wilde: o povo é o pior dos déspotas.

    Olha, esse negócio de que os trabalhadores europeus do oeste tiveram melhorias por conta da URSS é propaganda soviética. Isso deita abaixo toda a luta sindical e da social-democracia européia e os acertos ingleses…

    Na verdade, apesar de tudo, sou simpático ao modelo inglês. Mudaram muito mais em mil anos do que a França jamais poderia com suas revoluções. Sou a favor da longa duração. É bom pra memória…. hehe.

    Abraço.

  8. André Egg said, on 31/07/2008 at 17:21

    Não te considero reacionário não. Também não sou tão revolucionário assim.

    É muito fácil ser revolucionário discutindo em teses. Outra coisa é por a mão na massa pra valer…

    Eu me definiria como social-democrata, nada a ver com o significado que este termo tem na sigla PSDB.

    Acho que tua avaliação a respeito da falta que os huguenotes fizeram à França é bem precisa.

    Afinal de contas, apesar de pensarmos muito diferente algumas coisas acabamos tendo muito em comum também.

    As utopias sociais são sempre lindas. Como construir o caminho até elas é um verdadeiro nó górdio. Avaliar as tentativas passadas de forma crítica é fundamental.

    No fim da contas, minha birra com o calvinismo é muito uma história pessoal – carrego isso há gerações na família, e estou lutando com os meus fantasmas…

  9. André Tavares said, on 31/07/2008 at 19:05

    Hum… eu realmente respeito isso. Reconhecer o fundo pessoal de uma opção intelectual é muito corajoso. Muito do blog aqui é atividade exorcista também. Mas, quem não tem que fazer isso uma hora, né mesmo?

    Eu tenho contas a acertar com o calvinismo. Aqui eu fiz um rascunho de alguma coisa: http://contrasenso.wordpress.com/2007/08/30/calvino-e-os-judeus-i/

    Não sei se você leu… Bom, fica o convite.

  10. margareth malta said, on 18/08/2008 at 17:47

    Caro André,
    Não tenho conhecimentos para discutir. Mas tenho “ouvidos ” e quero continuar “ouvindo”. Tenho aprendido. Bacana muito bacana!
    Tchau
    Margareth


Deixe uma resposta