contra-senso

Lógica populista

Publicado em TEORIA SOCIAL, esquerda por André Tavares em 15/09/2008

Ahmadinejad é um fanfarrão, é o Hugo Chávez do Iran, o Evo Morales da Pérsia, o Lula do mundo islâmico não-árabe. Como o último, é o fruto de um desdobramento da esquerda aliada ao alto clero da facção de uma grande religião majoritária. Como Lula, tenta dizer ao povo o que o povo pensa e sente, mesmo que seja exatamente o contrário do que o povo de fato pense e sinta. O Iran nunca foi um país exatamente anti-semita, nem anti-sionista; mas se quiser ser um lider no Islam e fazer frente aos adversários sunitas, precisa se tornar. Ao menos no discurso oficial, mesmo que isso não se reflita na opinião dos iranianos.

Em sua fafarronice, Ahmadinejad declarou e prometeu ao grupo terrorista Hamas, que atua na Faixa de Gaza, que o apioará até a destruição do Estado Sionista, ou seja, Israel. O curioso é que o Hamas é uma milícia sunita, ou seja, do outro lado do espectro muçulmano, alinhado à Al-Qaeda, por exemplo, arquiinimiga do Iran, que por sua vez financiou, treinou e ajudou a fundar o Hezbollah, no Líbano.

Mas no modo de rixa islâmica, até que faz sentido: eu e meu irmão contra nosso primo; eu, meu irmão e nosso primo contra o estrangeiro.

O verdadeiro contra-senso, na verdade, é este: os maiores financiadores do Hamas e do Fatah são as nações ricas do Ocidente: EUA, UE e Japão, jutamente com fundos da ONU, entupiram a ANP com 5,5 bilhões de dólares em dez anos (1994 a 2004). É o maior esforço de ajuda da história: o Plano Marshall designou menos de 300 dólares por pessoa (correções feitas para valores atuais) na reconstrução da Europa pós-guerra, enquanto os palestinos recebem 1.300 dólares per capita.

Obviamente que essa soma não foi investida em escolas, estradas, indústrias, universidades, hospitais e médicos, bibliotecas, praças de esporte… mas em armas. E corrupção: Arafat possuia inúmeras contas com assombrosas quantias, daí a disputa entre sua mulher e as lideranças da ANP pelos seus espólios.

Curioso como a culpa é sempre externa: assim como Evo Morales e Chávesz expulsam os embaixadores americanos em seus respectivos países quando a situação interna é insustentável, a causa da miséria palestina é a opressão israelense… francamente!

Ahamadinejad promete apoio aos palestinos através do Hamas contra Israel, sem colocar um níquel: o Ocidente paga a conta. E de bom grado.

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