Sobre Sunshine
Ficção científica é um gênero ingrato: precisa ser uma boa história e também ser correta nas questões (ahn…) científicas que aborda. Mas quase sempre o zelo desmedido por um dos aspectos esteriliza o outro… o que me faz concluir que sci-fi deve ser um exercício imaginativo, exploratório e meta-científico – em outras palavras, filosófico, ao propor questões a respeito dos caminhos a que nos levará a civilização guiada pelo paradigma técnico-científico.
Sunshine cumpriu bem esse papel, embora tenha sido criticado e mal recebido pela comunidade científica (como se o exercício de crítica lhes coubesse) por uma série de incorreções científicas cometidas pelo roteiro; e como isso não me importa, não vou listar as “gafes” do filme, mas dizer tão somente que o diretor Danny Boyle fez o que deveria ter feito para manter a fluidez da narrativa – nem mais nem menos.
Todo mundo mais ou menos informado sobre astronomia sabe que o Sol demorará alguns bilhões de anos para colapsar, e é mais ou menos sacado que um artefato “mundano” parece ser muito pouco para reativar os processo nucleares de um astro moribundo. Mas esta não é, absolutamente, a questão. O fato é: o que faremos quando a humanidade se deparar com uma ameaça não só aterradoramente grandiosa, mas também definitiva à sua sobrevivência? O que faremos quando estivermos ameaçados de ter todo e qualquer traço de nossa existência e passagem pelo universo apagado e esquecido? O que faremos quando coletivamente encontrarmos esse fato anormal que todos nós como indivíduos temos que encarar, chamado morte?
Depois da morte de Deus e a emergência da resultante falta de sentido da existência (ou sua pluralidade ensurdecedora), como resistiremos a esse encontro final? Sunshine propõe uma fábula sobre o tema. Diante da constatação (em meados do século XXI) de que o Sol está morrendo, a humanidade, num aparente esforço conjunto, envia uma nave, Icarus I, para reativá-lo. A primeira missão falha, e uma segunda é lançada (Icarus II), com todo o material físsil disponível na Terra.
Não se sabe o que aconteceu com a Icarus I, porque em algum lugar antes de Mercúrio, há uma “zona silenciosa”, onde as comunicações com a Terra cessam. Quando a Icarus II alcança a órbita de Mercúrio, já na zona silenciosa, encontra o sinal da primeira nave e descobre o que se passou: o comandante da Icarus I e sua tripulação tiveram um tipo de “revelação divina” de que a morte do Sol era a vontade de Deus, a aniquilação da humanidade, e, portanto, não cabia ao homem e à ciência contrariar ou lutar contra o querer divinal – e sabotam a primeira missão, deixando uma armadilha para alguma que se seguisse.
Já contei boa parte do filme, mas é o que preciso para chegar ao ponto: a zona silenciosa é o ponto da história sobre o qual não podemos afirmar nada com certeza, o ponto no futuro onde não podemos discernir aonde nos levariam os projetos religiosos e técnico-científicos de civilização. A Icarus I é a opção, a via religiosa, fundamentalista, fatalista e apocalíptica; a Icarus II, a ciência. A primeira é a mística da negação; a segunda, a mística secular provocada pelo vislumbre o imenso, das medidas astronômicas. E Sunshine nos oferece sua aposta em qual nos levará à ruína e qual nos salvará.
Não é sem motivo que a história se passe em 2057, e não é por acaso que proponha uma narrativa de oposição entre fé e razão, religião e ciência. Pinbacker e a tripulação da Icarus I são uma caricatura de Al-Qaeda, do chamado fundamentalismo evangélico ou da direita religiosa judaica… Capa e a Icarus II são o universo secular, racional, colorido por uma espécie de “mística materialista”. A zona silenciosa são os próximos vinte, trinta, quarenta anos; o Sol agonizante, o projeto moderno ocidental; protagonista e antagonista, arquétipos das opções que temos para entregar nosso futuro…
Sunshine é boa ficção na medida em que sabe do que sci-fi, na minha modesta opinião, deve ser feita. Mas repete o mesmo discurso moderno, cientificista, tecnicista e reducionista de sempre – afinal, se quer científica.
