Breve história do Marranismo – II
Ser marrano em Portugal e Espanha era ser subversivo: manter uma rede de segredos e informações, acobertamentos e proteção. Frequentar as missas sem crê-las, repetir as rezas católicas rejeitando-as, guardar de cor(ação) orações judaicas em fragmentos, encontrando outros iguais que detivessem outras porções, celebrar festas e datas semi-esquecidas. Ensinar aos filhos o que eles não deveriam saber para a própria segurança, mas ainda assim ensinar, de forma criptografada, porque antes a semente dormente que o estéril e salgado esquecimento.
Ser marrano em Portugal e Espanha era sonhar em fugir para onde algum parente ou conhecido havia conseguido chegar: Itália, França, Holanda, Inglaterra, Grécia, Magreb, Turquia, Egito, Jerusalém… Mas como chegar, como sair? Como manter a identidade e como escondê-la no novo logradouro? Foi nesse momento, como diz um certo rabino, que “outra vez abriu-se o Mar Vermelho”: o Atlântico indicava o oeste, o Brasil, aquela terra nova, sem Igreja, sem Estado, sem barreiras – verde, vermelha, azul!
A coroa lusitana cometeu o ingrato erro de expulsar seus judeus e viu os recursos do reino migrarem para a Holanda, ficando sem caixa para investir na colônia. A solução foi achar capitalistas (primitivos ainda) dispostos a “comprar” a concessão de faixas de território para explorá-los pagando dividendos ao Estado (uma espécie de parceria público-privado). E quem estaria interessado em explorar terra estranha, apostando o dinheiro que tinha na empreitada? Os marranos. O primeiro deles, Fernão de Loronha, ou Fernando de Noronha, ganhou a primeira concessão para explorar a costa e o pau-brasil (também conhecido como “madeira judaica”) – Noronha era exatamente o que se pode chamar de cristão novo: judeu convertido ao catolicismo por força; também era representante em Portugal do banqueiro Jakob Fugger (que não era judeu), o primeiro investidor estrangeiro no Brasil.
Noronha foi muito bem sucedido no negócio e encontrando-se com Gaspar da Gama, este sugeriu que tentasse a expansão do arrendamento das terras brasileiras para abrigar os cristãos novos perseguidos (vale muito a pena ler sobre Gaspar da Gama). Mas com o aumento das incursões de exploradores de outros países na costa brasileira, o governo português decidiu adotar uma estratégia mais sistemática de ocupação da colônia: rompendo o acorde de concessão com Noronha, dividiu o território em quinze capitanias concedidas a doze donatários. Não há como provar que eram de origem judaica, mas a dificuldade de encontrar colonizadores entre os portugueses “cristãos velhos”, muito mais interessados em Goa, na Índia, fez com que os investidores lançassem mão dos judeus, que já lidavam com a indústria açucareira nas ilhas de São Tomé e Madeira. As capitanias melhor sucedidas, Pernambuco (de Duarte Pereira Coelho) e São Vicente (Martim Afonso de Sousa) devem sua fortuna, em parte, aos judeus e sua lida com o açúcar: das ilhas Duarte Coelho trouxe mão-de-obra especializada no lidar açucareiro, entre eles Diogo Fernandes, o maior especialista no ramo em sua época.
Martim Afonso de Sousa foi nomeado, por D. João III em 1530, Governador Geral do Brasil. Percorreu toda a costa brasileira, do Amazonas ao Rio da Prata e fixou dois pontos estratégicos, as bem sucedidas regiões de Pernambuco-Bahia e São Vicente. Dois personagens muito peculiares foram de grande ajuda ao administrador português: Diogo Álvares Correia, o Caramuru, que ajudou a fundar Salvador, e João Ramalho que o auxiliou na fundação de São Vicente e Piratininga.
Ambos têm histórias parecidas, são sobreviventes de naufrágios na costa do Brasil que criaram laços com tribos indígenas (Caramuru com os Tupinambás, Ramalho com os Guaeanazes). Sua posição de prestígios entre os nativos, conhecimento da língua e costumes, da terra, clima e geografia foram fundamentais para Afonso de Sousa. Apesar de não haver nenhuma prova conclusiva, muitos historiadores não descartam (ou mesmo afirmam) que esses homens eram de origem judaica. Caramuru possuía sobrenome tipicamente judaico em Portugal, Álvares Correia; João Ramalho era letrado, além de um comportamento religioso inusual (não participou dos serviços ministrados pelo jesuítas, nem aceitou assistência religiosa em sua morte), além de incluir um sinal em forma de ferradura entre prenome e nome, que pode ser um כ (kaf, de cohen|כהן, sacerdote em hebraico) ou um ב (bet, de ben|בן, filho), que indicaria que ele era de linhagem sacerdotal (caso seja um kaf) ou um indicativo genealógico (João filho de Ramalho, caso um bet).
O Brasil surgiu como alternativa num momento bastante cruel pra o judaísmo português, quando as conversões já estavam consolidadas, parte da comunidade expulsa, a resistência na prática judaica perseguida: a Inquisição já agia com terror. Fugir para o Brasil, onde havia oportunidade econômica, autonomia política relativamente grande e, sobretudo, afrouxamento da vigilância religiosa. Os primeiros 6o anos do Brasil são profundamente judaicos, ou cristão novo. Essa característica ganhará força com os bandeirantes, com a invasão holandesa e prenuncia uma nova tragédia perpetrada pelo Santo Ofício, com belas e tristes histórias de permanência e resistência.
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Rapaz, um dos melhores livros que já li foi “O Último Judeu”, que conta a bem a vida dos judeus perseguidos pela Inquisição. Li seu texto e lembrei desse livro que li a algum tempo.
Caro José,
de fato, algumas comunidades marranas nas montanhas portuguesas se pensavam os últimos judeus. Curioso, não?
Caro André
Muito bom seu blog, caso possa me ajudar, estou desenvolvendo o site http://www.bneianussim.com, em breve estará no ar.
Um abraço
Gerson