Babelismo
Somos mais próximos do que imaginamos, quem sabe por isso nos desentendemos tanto. Às vezes, pior que uma grande discrepância, é a semelhança desconhecida, ancestral, apagada na memória mas presente na radicalidade das estruturas (radical aqui refere-se à raiz). Diferenças provenientes de origens comuns são as mais interessantes, violentas e controversas – vide o Judaísmo e o Cristianismo, ou ainda o Islam.
Conversando com um amigo de rara inteligência linguística, ainda que tenha muitas outras, fui apresentado a um fato linguístico curioso, que não passaria de um chiste se eu não fosse razoavelmente convencido por Lévi-Strauss e correlatos de que a linguagem guarda a chave das cifras da estrutura do entendimento humano.
Dizia o Érike que “terra” em árabe é alguma coisa que pronunciada está próximo de ARḌ (الأرض). A letra D é muito maleável, sendo possível assumir formas fonéticas próximas de dj, tz, th e mesmo t (experimente pronunciar um D seco e depois um T seco, e perceba como que diferença é quase só a participação gutural mais a língua encostando no palato – essa região entre os dentes e o céu da boca). “Terra” em hebraico é ARETZ (ARTZ – ארץ), ou seja, modificou-se somente o D para Tz e a vocalização do e. Contudo, hebraico e árabe são línguas semíticas, aparentadas, próximas, a semelhança é mais que esperada.
Mas e se isso fosse possível entre línguas de troncos diferentes, entre uma semítica e outra indo-europeia? Pois o Érike fez uma interessante demonstração: como é “terra” em inglês? EARTH. Comprima o ditongo inicial, o que fica? ÆRTH. Interessantemente próximo de ARḌ ou ARETZ, tendo uma flexão do D e um prolongamento da vogal (o que são mudanças mínimas em fonética).
Está aí. Proximidades estranhas, quem sabe coincidência, ou parentesco tão distante que improcedente. Quem sabe… Mas não deixa de ser interessante. Mas o que interessa na verdade é fazer uma propaganda do blogue do Érike, o Kakatuv. É, o nome é estranho, coisa de linguista. Mas vale a pena. Fica a dica.
PS: Tolkien nomeou o “planeta” em que se passa sua mitologia de Arda… curioso, não?
3 Respostas
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Oi André,
conversa boa! Vou lá ver o kakatuv.
A diferença entre os fonemas representados pelas letras “t” e “d” é só a vibração das cordas vocais no segundo caso. A posição dos outros órgãos do aparelho fonador permanece a mesma. No estruturalismo linguístico chamamos a isso de “par mínimo” (é também o que acontece com o par p/b).
Abraço.
Raquel
Raquel, tudo bem? Obrigado pela visita e pelo comentário, ou melhor, esclarecimento. O Kakatuv promete ser um grande blogue. Abraço.
Outra pérola do Erike, que me disse hoje, é a expressão “terra” em português… se invertermos a palavra temos: “arret” ou foneticamente “aret” há alguma semelhança com “eretz”?
Legal… o Érike e o Kakatuv merecem destaque…