Nem a pau
O Jackson morreu. É, todo mundo sabe – quem sabe quem não tenha internet, rádio, televisão, imprensa escrita, ou não saiba quem foi Michael Jackson, não esteja no mundo (sim, muita gente não está, é a chamada exclusão, que envolve, inclusive, a digital). Estou ouvindo uma retrospectiva do músico/empreendedor/manager no cinema, mais exatamente nos curtas (quer dizer, das músicas que entraram nos seus empreendimentos cinematográficos), na Guarani (96,5 FM em Belo Horizonte, na rede, clique aqui – vale a pena).
Não acho que as tantas homenagens, especiais, reflexões, retrospectivas, panorâmicas, etc, estejam erradas. Mas se eu fizer alguma coisa assim, me sentiria um papa-defuntos ou urubu. É bem verdade que parei pra pensar muita coisa sobre o rapaz somente agora, e cheguei a coisas interessante. quem sabe depois eu escreva; afinal, todo mundo é meio necrófago (que lê, entenda).
O que me chamou a atenção, na homenagem/especial da Guarani, foi uma nota que provocou indignação. A MTV ganhou um nicho dilatado quando os vídeo clipes ganharam status de “arte” autônoma, não tão colados à própria música, quer dizer, quando deixaram de ser somente um veículo de divulgação televisiva das músicas de trabalho de uma banda ou cantor pra um novo álbum. Todo mundo deve ter ouvido ou lido isso porque quem permitiu a mudança foi justamente o MJ com Thriller, lançando um conceito mais amplo e provando o que era possível.
Contudo, pasme!, a CBS (conglomerado midiático norte-americano) precisava pressionar a MTV para exibir os clipes MJ no seu quadro de programação, por causa da “política racista da empresa, na época”. Claro que isso não aconteceu depois de Thriller, ou não que se saiba. Agora a MTV faz as homenagens, faz os panegíricos e não menciona seu pecado original.
Walter Yetnikoff, na época diretor da CBS Records (depois associado à Sony, acho), denunciou o caso em sua biografia Howling at the Moon. Ele foi um grande nome da indústria nos anos 70 e 80, e por sua mão passaram nomes como Billy Joel, Bruce Springsteen, Barbra Streisand, James Taylor e Rolling Stones, além do próprio Jackson. Yetnikoff (um judeu de orgiem pobre, do Brooklin) pressionou a MTV a rever sua política de “exibir somente clipes de artistas de rock brancos“, inclusive alguns de “propriedade” da CBS. Ameaçando não mais permitir que a MTV exibisse clipes de seus “artistas brancos”, a emissora veiculou os vídeos de MJ, nesse tempo (1983), Billie Jean. De fato, depois disso, e com o sucesso estrondoso de Thriller, as portas da MTV se abriram para artistas negros, ou, ao menos, para algo mais que o rock mainstream.
O negócio de exibir vídeo clipes rendeu duas décadas de vida (mediocre, sobretudo depois do fim do grunge) à Music Television. Mas é bastante curioso como as coisas se deram. Queria ver um dos VJs de merda de hoje em dia em toda sua atitude blasé (é, hoje estamos cheios de contra-sensos aqui, ou contrasensos, sei lá), diriam a respeito.
Mas como eu não assisto MTV, nem gosto muito de homenagens póstumas (mentira), deixo isso pra lá.
