contra-senso

Google Chrome OS, outra vez

Publicado em CULTURA LIVRE, TECNOLOGIA, Ubuntu por André Tavares em 17/07/2009

Esse negócio de blogue é interessante. Sobretudo quando a gente não deixa de expor a própria touperice e ponto de partida – nunca isso fica completamente claro, mas quando fazemos algum esforço para tal, os resultados são interessantes para o bem da boa informação. Ou ao menos para a correção do que pode ser informação errada e incompleta. Estou escrevendo isso aqui por causa do artigo anterior (estou evitando a palavra inglesa post, não por xenofobia – gosto do idioma inglês, muito útil – mas pra respeitar o português que tem tantas palavras bonitas e interessantes. Pra não usar uma versão naturalizada, “pouste” na mesma lógica de “blogue”, uso artigo, mas sem a seriedade e pretensão que o termo tem em português; gostaria de poder usar “nota” ou “texto”, mas é insuficiente).

Os argumentos do texto (eita!) são poucos e parecem que no meu estilo (se eu tiver algum) ficam pouco claros. Mas em resumo: (i) o Google Chrome OS não é um assassino de distros GNU/Linux, muito menos do Ubuntu, (ii) o Google Chrome OS não será uma solução definitiva e inovadora pra o problema e necessidades de um usuário comum, mesmo um jacu, (iii) o Google poderia, ao invés de criar uma nova distribuição ou SO baseado no kernel do Linux, “atrelar seu cavalo ao carro do Ubuntu” (como disse LeMay), e (iv) a forma como a notícia foi recebida e está sendo comentada é desproporcional, como quase tudo em tecnologia (alguém disse que superestimamos a tecnologia nas projeções de curto prazo, subestimamos quando pensamos a médio, e ridicularizamos quem prevê o futuro daqui a 15, 20 anos – e geralmente os profetas acertam).

Bom, o que eu devo reconsiderar: (i) o Google Chrome OS vai ter impacto, sim, (ii) ele é mais que vaporware, mas seu efeito é comparado a um, (iii) fanfarronice faz parte do negócio e da celebração das marcas, fazer o quê?

Há um aspecto que o Daniel, que não indicou possuir página ou blogue, muito sabiamente ressaltou num comentário que fez no texto abaixo. Indicando esse texto do Maddog (esse cara é muito bom, sabido como uma cobra), fez perceber que há alguns aspectos, pelo menos (e pode haver muitos outros possíveis), que o Chrome OS vai favorecer e contribuir para o desenvolvimento do Software Livre: (i) menos gente irá usar programas proprietários e SOs como Windows ou MacOS, (ii) alguém usando Chrome por que simpatiza com o Google é um usuário a menos do Internet Explorer (e quanto mais gente usando outros navegadores diferentes, mais os programadores e empresas terão que pensar em formas de suas páginas rodarem bem em todos eles ou nos principias, ou ainda criarem a demanda de uma linguagem/padrão que todos respondam bem), (iii) o bug #1 no LaunchPad (plataforma da Canonical que lista, discute e tenta resolver problemas do Ubuntu, grosso modo) não é 99% dos computadores do mundo rodarem Windows? Pois é, o bug não é que todos eles passarem a usar Ubuntu, mas outros SOs; se o Chrome OS abrir o caminho para o fim do monopólio, ótimo. Além disso, (iv) seja lá o que o Google faça com o kernel, código terá que ficar aberto, e saberemos o que foi mudado. Assim, (v) os desenvolvedores e produtores de periféricos e hardware terão que dar suporte para o Chrome OS, produzindo alguma coisa que no final será aberto, dando oportunidade para os desenvolvedores e outras distros GNU/Linux se valerem do que for produzido e lançado no mercado. Dito de outro modo, acaba ou diminui bastante a dificuldade do Linux com compatibilidade e drivers.

Isso tudo porque o mercado respeita o Google – e mesmo que o Chrome OS não tenha chegado ao público, os fabricantes já estão pensando em como darão suporte ao derivado do Linux (é, o Linux que eles insistiram em ignorar). E o Maddog diz uma coisa muito sensata: se houvesse apenas um computador pessoal por pessoa no planeta, seriam 6,3 bilhões de máquinas. Há mais que isso, possivelmente. Isso quer dizer muito, muito espaço para muitas distribuições e propostas no mercado de computadores pessoais.

Seja como for, então, devemos (ou devo eu) esperar que o Chrome OS seja um sucesso, que muita gente que usa Windows (seja o 7, seja o Azure ou Gazelle) migre para um sistema gratuito na rede baseado em Linux. E depois descubra que há vida para além das janelas. O Chrome pode ser o primeiro buraco na parede por onde as pessoas atravessem. E lá fora, ou melhor, aqui fora, o mundo é grande: eu já conheci um porco-espinho, um texugo, um pato, uma espécie curiosa de salamandra, uma corsa, um gibão, uma garça, um carneiro-montês, e estou espantado com um híbrido de antílope e lebre (coisa impressionante; veja eles todos aqui e aqui); mas também conheci um indiozinho que já morreu, e um mágico empático.

É isso aí.

9 Respostas

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  1. Fabio Ortolan said, on 17/07/2009 at 22:57

    Eu uso um chapeu azul e estou muito feliz com ele … : D

  2. Daniel said, on 18/07/2009 at 00:32

    Não tenho blog ainda mesmo. Infelizmente não encontrei a tradução do artigo do Maddog, sei que está na linux magazine do Brasil.

    É importante notar a ameaça que é a plataforma .Net/Silverlight e agora o tal Azure. Ameaça para um mundo com padrões abertos.

    O Silverlight está recebendo capacidades para utilizar recursos “além do browser”, aceleração 3D por exemplo.

    Ora, esse “além do browser” logicamente será windows. Embora o pessoal do Mono sonhe que tudo será belo e liberado.

    Eu vejo esse incentivo todo ao silverlight, além da típica vontade de conquistar mais mercado, como forma de prevenir um futuro com SO sendo irrelevante.

    Querem que os reféns típicos do windows sejam transferidos para um novo ambiente: a tal núvem.

    Abraço.

    • André Tavares said, on 20/07/2009 at 12:10

      Caro Daniel,

      Obrigado pelo novo comentário. Alguém indicou o apontador do texto em português. Interessante esse negócio do .Net/Silverlight. Vi um vídeo do Stallman sobre isso, muito legal – não lembro direito mas tá no site do Linux Magazine em inglês. Cara, obrigado pela contribuição. Abraço.

  3. cgaldino said, on 18/07/2009 at 13:50

    Texto muito legal. Bom, quanto as previsões como escrevi em meu blog prefiro não fazê-las. Quanto ao texto do Maddog em Pt_BR eis o Link: http://www.linux-magazine.com.br/maddog/tudo_que_reluz_pode_ser_chrome

    Abraços,
    C.

    • André Tavares said, on 19/07/2009 at 18:15

      Caro C Galdino,

      tudo bem? Obrigado pelo comentário, pela visita ao blogue e pela indicação da tradução do texto do Maddog. Abraço.

  4. Marcio said, on 20/07/2009 at 11:02

    “E o Maddog diz uma coisa muito sensata: se houvesse apenas um computador pessoal por pessoa no planeta, seriam 6,3 bilhões de máquinas. Há mais que isso, possivelmente.”
    Essa parte do texto está meio errada. O que o Maddog disse foi: “there are only about one billion desktops currently in the world, and there are 6.3 billion people, so I think there is plenty of “desktops” to go around”. O que, em tradução livre, seria mais ou menos: “existem apenas cerca de um bilhão de desktops atualmente no mundo, e existem 6.3 bilhões de pessoas, então eu acho que existe bastante espaço para muitos ‘desktops’”.

    Mas bacana seu texto. Eu ainda não tenho uma opinião formada sobre o assunto. Prefiro esperar e ver o sistema antes de comentar.
    Eu ficaria bem mais feliz se o google fosse uma fundação, e não uma empresa privada. Tenho um pouco de medo do que a google pode se tornar no futuro… ela ja deu umas pisadas na bola, mas no geral vem fazendo um bom trabalho (se comparada a outras empresas). Mas sabe como é, é sempre bom desconfiar um pouco hehehe

    []’s

    • André Tavares said, on 20/07/2009 at 11:59

      Caro Márcio, tudo bem? Obrigado pela visita e pelo comentário. Quanto à parte do texto que você alude, não, não está errado. Veja bem, não é uma tradução de um trecho do artigo do Maddog, é uma extensão do seu raciocínio: se há apenas um bilhão de desktops e há seis bilhões de pessoas, há espaço pra muita gente no mercado ainda… há, pelo menos, seis vezes mais mercado. O que pode ter deixado o trecho confuso é o “há mais que isso” – eu me referia a mercado (há mais que seis bilhões de máquinas na demanda…). Abraço.

  5. André Egg said, on 24/07/2009 at 11:48

    Eu, como jacu e usuário de windows, não me empolguei em usar o Chrome OS não. Tenho mais medo hoje do monopólio google do que tive outrora do monopólio windows.

    Estou comendo pelas beiradas. Uso a algum tempo o Firefox e abandonei o Internet Explorer. Já uso Open Office e abandonei MS Office.

    Próximo passo é migrar meu blog do blogger para uma plataforma wordpress, mas estou ensaiando criar um domínio pessoal, e não em wordpress.com

    Depois, vou dar upgrade num computador velho para experimentar instalar o Ubuntu. Não tenho medo de ser usuário Linux. No meu trabalho opero máquinas com essa plataforma. Meu medo é a instalação e a solução de problemas. Isso me parece coisa um pouco complexa – demandaria um tempo que eu ainda não disponho.

    Sempre úteis teus artigos sobre sistemas e máquinas.

    • André Tavares said, on 24/07/2009 at 17:47

      André, é verdade, a nova gigante a ser batida é a Google. Mas, convenhamos, há uma boa distância na forma de atuação entre Redmond e Mount View. Bom, quanto ao Linux, não há que se ter medo; a instalação é cada vez mais clara e intuitiva, e a resolução de problemas vc tem o fórum e os amigos. Abraço.


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