CONTRA-SENSO

"ma non é una cosa seria"

Apedeuta e digital

com 10 comentários

Ouvi, não me lembro onde, que Geza Vermes reclamara que depois da publicação do Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, em 1922, todo mundo ia se tornar perito no paralelismo entre fontes judaicas e Novo Testamento, e nessas coisas de hermenêutica e exegese. Se Vermes disse isso ou não, eu não sei, mas vale muito o espírito da censura. A quantidade de ferramentas, não só no campo das ciências bíblicas, mas em quase todos, disponíveis e cada vez mais acessíveis, sobretudo com a digitalização de documentos, artigos e obras inteiras, causa espanto. E o que espanta dobrado é seu efeito mais esdrúxulo, o especialista instantâneo, munido do CRTL+F e do Google, pronto a citar as mais diversas obras e autores. Óbvio, e é desnecessário dizer, que não leu nada do que invoca nem estudou nem domina as técnicas e bases metodológicas necessárias.

Um dos maiores horrores para Mortimer Adler era o leitor de comentadores, de obras secundárias, sumários e resumos “críticos” explicativos e “digestivos”, que dispensa a leitura dos autores originais, ou melhor, dos textos originais dos grandes autores, os famigerados clássicos. Se a dura reprimenda era dirigida ao fuçador de companions, de guias rápidos e similares, hoje Adler se escandalizaria com o uso irresponsável e generalizados das obras completas digitais. O bacharel de hoje além de péssimo leitor, incapaz de extrair o conteúdo de um texto, de compreender um autor, é capaz de aventurar-se nas mais sofisticadas críticas e de elencar antes do mais básico e simples exame uma enxurrada de material crítico e refutações…

Numa aula do Pe. Libanio SJ, professor emérito da FAJE, impressionou-me seu relato de um passeio pela antiga biblioteca dos professores, vedada aos alunos, com o Pe. Vaz SJ, em que este ia indicando para o então aluno Libanio as obras mais importantes e que deveriam acompanhá-lo durante a vida acadêmica. Lê-los todos foi uma tarefa vitalícia, tomou toda a trajetória de 60 anos de estudos. O domínio de cor – que quer dizer, como recentemente ressaltou Norma Braga, de coração -, a internalização muito própria dos conceitos numa síntese coerente e abrangente me fez pensar bastante. Outros discípulos da pedagogia inaciana, meus professores, possuem a mesma desenvoltura, e essa virtude não está na fagocitose de uma quantidade enorme de informação e de dados, mas numa estrutura muito sólida e funcional que permite o bom manuseio das ferramentas. A erudição não é a base da construção da vida acadêmica, mas o resultado de uma forma autêntica (ou seja, que confere autoridade), íntegra, de intelectualidade.

É verdade que todo discurso moralista tende a ver sua época como a pior, a seus pares como os mais baixos. Gostaria de não cometer esse erro; mas a conjunção de um ambiente acadêmico que forma qualquer coisa menos intelectuais e meios de pesquisa instantâneos produzem uma falsa sensação de produção e apropriação de conhecimento. E desovam uma quantidade enorme de falsos especialistas cheios de incompreensão sobre os termos, temas e desenvolvimentos do campo que pretendem expor. A diligência e “teimosia paciente” de um Avicena ou Averróis, debruçado em trinta leituras do De Anima de Aristóteles até poder exclamar entendi!, desaparecem no falso brilho proporcionado pela pretensa extensão da memória e da inteligência pelos loci virtuais. A tragédia é que isto é um retrato de mim, inclusive.

A solução para isso não é a restrição do movimento de digitalização, que já é um fato consolidado, queira ou não a indústria editorial. Ao contrário do que acontece com a música digital, sua distribuição e compartilhamento pelas redes, que acaba acumulada em gigabytes (ou terabytes) em HDs e nunca ouvida de fato pelos usuários, a quantidade de obras e recursos disponíveis para os interessados em temas ilustrados exige ainda mais o preparo, orientação e seriedade. Exige muito mais da educação clássica, justamente aquela que anda fora da moda. Hoje as teorias do aprendizado insistem numa tal “inteligência múltipla”, dinâmica, ou “inteligência do hiperlink”, sem saber do que isso trata exatamente ou o que isso implica na compreensão de elementos da alta cultura. Quanto mais isso é martelado, mais parece crescer a razão dos medievais no seu modelo do trívio e quadrívio.

Novamente, qual seria solução? Parece ser a mesma antiga resposta: alguns poucos livros, bem lidos e, portanto, compreendidos. Fazer silenciar, ao menos internamente, os gritos urgentes de assimilação das novidades e disponibilidades, e aquietar-se junto aos pés daqueles que são o cânon da civilização ocidental. Depois disso feito, quem sabe, mirar as capilaridades contemporâneas. Isso é muito conservador? Tomara. Difícil de realizar? Bastante. Mas, como diziam os gregos (Platão), chalepá tá kalá – as coisas belas são difíceis. Difíceis e veneráveis, exigem respeito e esforço, sobretudo se não quisermos ver grandes coisas recitadas com a mesma displicência de um comercial de biscoitos.

Escrito por André Tavares

18/10/2010 às 15:59

10 Respostas

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  1. André, a tarefa da construção intelectual me fez lembrar o trabalho das formigas (lentas, criteriosas e incansáveis). Concordo com você meu amigo quanto à solução que propõem: “alguns poucos livros, bem lidos e, portanto, compreendidos”.
    Não dá pra se aventurar por caminhos que não sabemos trilhar, precisamos de guias, precisamos de gente que saiba pisar nas pedras certas… talvez este seja o grande desafio da intelectualidade integra e quem sabe de um certo censo comunitário…
    Parabéns pelo texto!

    Aender

    18/10/2010 em 16:36

    • Caro Aender, obrigado pelo comentário. As formigas são um bom exemplo contra as cigarras acadêmicas do nosso tempo (e de outros). Abraço.

      André Tavares

      18/10/2010 em 17:15

  2. André,

    Muito interessante este post! Se entendo bem o que é erudição, também concordo que não seja a base da vida acadêmica, mas resultado de alguém empenhado a debruçar-se em todos os meandros daquilo que propõe-se a estudar para poder viver o pensamento. Digo “viver” porque um pesquisador que, como você mesmo disse também, dispensa a leitura dos textos dos grandes autores em sua originalidade por aquela dos seus comentadores e comentadores de comentadores, não vive as matizes e cores daquilo que está registrado nas fontes. Estes dois lados, o registro e a doxa (opinião) não são instâncias separadas mas lados de uma mesma moeda “acadêmica”, e trabalhá-las cada uma isoladamente é o mesmo que dizer que a doxa é produto de uma mente independente da tradição que a antecede, o que é um absurdo.

    De certo modo então, mesmo que aparentemente antiquado, o termo “livresco”, mesmo não sendo o bastante, é indispensável ao acadêmico. Nossa era – da pluralidade de informação humana difundida no espaço virtual e o acesso a ela por milhões de pessoas, de diferentes lugares, e numa velocidade e facilidade inimaginável antes na História – pode nos causar a falsa impressão que possuímos o conhecimento armazenado em mídias e que basta-nos abrir um flip qualquer na cabeça para acoplá-la e apreender tudo que desejarmos. Temos que tirar urgentemente de nós essa falsa impressão, na verdade um vírus mental, como filhos dessa nossa época tão borbulhante. Não quero ser cooperador na propagação de conhecimentos empacotados, áureos porém tingidos artificialmente, saídos de alguma fábrica como se fossem saquinhos de Ki Suco. rsrs

    Abraços Andrezão!

    Erike Couto

    18/10/2010 em 18:30

    • Erike, tudo bem? Obrigado pelo comentário. Tenho algumas discordâncias quanto ao quê você disse. Primeiro, o que o artigo está dizendo é justamente que a atividade acadêmica ou a própria vida orientada com justeza de pensamento não é uma tensão entre os polos “registro” e “doxa”. Estes são exatamente os lugares comuns que o intelectual deveria evitar – o mero registro é o lugar do especialista vazio, e a doxa, a tara do “profeta de cátedra”. A vida intelectual deveria ser uma busca pelo “como as coisas são, com se deram”, nem mero registro muito menos uma questão de opinião.

      Segundo, justamente pelo que vai acima, o “livresco” é aquilo que um intelectual não deve ser. O “livresco” é justamente o apegado infantilmente ao livro, sem a experiência da vida e as contradições entre ela e a “erudição” e a doxa.

      Por fim, o armazenamento da informação é uma coisa boa, o problema é o uso, como dito no artigo. Concordo com você que o ponto continua sendo o sujeito, o homem, o leitor e integrador do conhecimento. Isso, por enquanto, sistema artificial nenhum foi capaz de fazer – o problema é a transformação da inteligência humana numa redução maquinal.

      André Tavares

      19/10/2010 em 11:02

  3. Perfeito, André.

    Construir o conhecimento pelo mergulho em obras particulares e clássicas – poucas delas. Conhecer sua tessitura, suas falhas e suas amarrações.

    Faz um tempo que procuro um canon para a formação teológica, a propósito. E para o mentoreio cristão.

    Alguem disse (não consigo me lembrar): “não leia muitos, leia muito.”

  4. Caro Guilherme, obrigado pelo comentário. Acho que a frase é do Adler mesmo, mas não tenho certeza também. Esse negócio de um cânon para formação teológica é necessário mesmo. A Fiel não tem um negócio assim? Não sei se é o ideal, mas eu acho legal aquela lista de obras “conservadoras” indicada pelo Andrew Jumpers. Abraço.

    André Tavares

    20/10/2010 em 10:48

    • André,

      Amei seu texto. Escrevi em meu blog uma crítica à superficialidade intelectual de alguns pedagogos (valeria aqui teólogos). Penso que as pessoas confundem conteudismo com uma didática monótona e superficial. Penso que boa apropriação intelectual é aquela que você consegue “desenhar” o que apreendeu, consegue disponibilizá-la em uma malha mental, sabe encaixar peças. Uma boa aula seria disponibilizar o caminho, a “imagem”, do substrato internalizado. Não apenas um conteúdo seccionado, fragmentado, particionado, estratificado, mas organizado logico e afetivamente. Cara… a parada é esta mesmo, neste ponto, acho que os sábios do Talmud estavam certo: ‘vá e arrume um mestre!”

      Congratulações!

      Igor Miguel

      20/10/2010 em 18:04

      • Caro Igor, obrigado pelo comentário. O conteudismo é superficial exatamente por precisar esconder os encaixes falaciosos entre as premissas e conclusões. A organização do conteúdo está invariavelmente submetida a alguma lógica – então o problema está na capacidade de quebrar as unidades do raciocínio, a tal análise. O que mais se vê por aí é gente que vive de entinemas e artifícios de deslocamento lógico. E isto não se resolve com um mestre, mas com a educação liberal tradicional.

        André Tavares

        20/10/2010 em 18:41

  5. Cara, parabéns. Ótimo texto. Fico MUITO feliz e satisfeito de voltar a lê-lo. Espero que a inspiração tenha voltado para ficar. E, então, possamos receber um pouco mais de conhecimento por meio do teu blog!
    Parabés mais uma vez.

    Até mais ver…

    Victor

    24/10/2010 em 15:02

  6. Caro André, seu post é extraordinário. Ao lê-lo relembrei dos ensinamentos de Hugo de São Vitor aos seus discípulos, legado contido na obra Didascálicon – “São três as regras mais necessárias à leitura: saber o que se deve ler, em que ordem se deve ler, como se deve ler”. O impressionante é que para os medievais não bastava apenas saber esta regra, era preciso compreender que o trabalho intelectual tem como fim último a Verdade, a busca da compreensão de que o mundo (e tudo o que nele há) possui uma ordem; criando o mundo Deus o dota de racionalidade, por isso deveríamos nos debruçar sobre as coisas com seriedade, mas isso só é possível, dentro da visão medieval, se restaurarmos nossa capacidade de conhecer dentro do modelo da Sapiência (Deus, a Verdade). Nossos amigos do Medievo ressaltavam, então, que é preciso um retorno a essência humana (o movimento da razão humana que percebe que por si só não pode conhecer). Pensando sobre isso, Hugo propõe que a semelhança do homem com Deus é restaurada pelo conhecimento. Ponto interessante e desafiador para nossa mente (pós) moderna, que vê o conhecimento como uma coisa descompromissada. Mas olhar para os medievais nos ensina uma coisa interessante: que para desenvolver bem nossa vida intelectual é necessário saber organizar nossa própria busca pelo saber, é necessário permitir-se ordenar pelo divino, então é necessário comprometer-se consigo e com a Verdade.

    Se nossos amigos medievais tiverem razão, nosso compromisso por aprender as coisas é na verdade e em última instância algo capaz de nos remeter à nossa Origem – o próprio Deus -, então deveríamos nos aproximar do saber com um mínimo de respeito e humildade. É justamente isso: se tem uma coisa que aprendo com os medievais e que admiro neles é que para eles aproximar-se da sabedoria é aproximar-se do Transcendente, então não dá para fazê-lo mais ou menos, ou fingir fazê-lo para aparentar aos outro um pseudo intelectualismo, porque, no fundo, o pseudo seria na verdade aquele que engana a si mesmo, uma vez que falseia um relacionamento com o Saber que na verdade não possui… É, meu amigo… quem sabe para este não caiba também aquela parábola do joio e do trigo? Triste somos nós quando mentimos para nós mesmos, tristes somos quando para alcançar reconhecimento fingimos uma amizade com a Sabedoria. Ai de nós quando a Verdade nos julgar, se tudo o que tivermos feito for falsear.
    Abraços, Carol.

    Carol Gama

    25/10/2010 em 17:53


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