CONTRA-SENSO

"ma non é una cosa seria"

Um comentário sobre “Apedeuta e digital”

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Pessoal, a Carol fez um comentário tão bom sobre o meu texto anterior, e tão superior a ele, que decidi que o mínimo que deveria fazer era publicá-lo com o devido destaque. Bom, alguns podem pensar que faço isso somente pelo fato (suficiente) de que ela é minha esposa; a isso só posso responder com o convite à leitura do que segue. Carol, obrigado.

Caro André, seu post é extraordinário. Ao lê-lo relembrei dos ensinamentos de Hugo de São Vitor aos seus discípulos, legado contido na obra Didascálicon – “São três as regras mais necessárias à leitura: saber o que se deve ler, em que ordem se deve ler, como se deve ler”. O impressionante é que para os medievais não bastava apenas saber esta regra, era preciso compreender que o trabalho intelectual tem como fim último a Verdade, a busca da compreensão de que o mundo (e tudo o que nele há) possui uma ordem; criando o mundo Deus o dota de racionalidade, por isso deveríamos nos debruçar sobre as coisas com seriedade, mas isso só é possível, dentro da visão medieval, se restaurarmos nossa capacidade de conhecer dentro do modelo da Sapiência (Deus, a Verdade). Nossos amigos do Medievo ressaltavam, então, que é preciso um retorno a essência humana (o movimento da razão humana que percebe que por si só não pode conhecer). Pensando sobre isso, Hugo propõe que a semelhança do homem com Deus é restaurada pelo conhecimento. Ponto interessante e desafiador para nossa mente (pós) moderna, que vê o conhecimento como uma coisa descompromissada. Mas olhar para os medievais nos ensina uma coisa interessante: que para desenvolver bem nossa vida intelectual é necessário saber organizar nossa própria busca pelo saber, é necessário permitir-se ordenar pelo divino, então é necessário comprometer-se consigo e com a Verdade.

Se nossos amigos medievais tiverem razão, nosso compromisso por aprender as coisas é na verdade e em última instância algo capaz de nos remeter à nossa Origem – o próprio Deus -,  então deveríamos nos aproximar do saber com um mínimo de respeito e humildade. É justamente isso: se tem uma coisa que aprendo com os medievais e que admiro neles é que para eles aproximar-se da sabedoria é aproximar-se do Transcendente, então não dá para fazê-lo mais ou menos, ou fingir fazê-lo para aparentar aos outro um pseudo intelectualismo, porque, no fundo, o pseudo seria na verdade aquele que engana a si mesmo, uma vez que falseia um relacionamento com o Saber que na verdade não possui… É, meu amigo… quem sabe para este não caiba também aquela parábola do joio e do trigo? Triste somos nós quando mentimos para nós mesmos, tristes somos quando para alcançar reconhecimento fingimos uma amizade com a Sabedoria. Ai de nós quando a Verdade nos julgar, se tudo o que tivermos feito for falsear.
Abraços, Carol.

Escrito por André Tavares

25/10/2010 às 18:11

Publicado em CULTURA LIVRE, Filosofia?

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