O Bastardo e a Morte Inglória
É um truísmo dizer que o problema do sofrimento é uma constante condutora nas expressões das experiências humanas. Não me refiro somente ao esforço das teodiceias e toda sua sofisticação, mas ao uso da narrativa, da repetição da experiência pela representação como forma de superá-la, integrá-la, como um sinal da permanência humana, as memórias do rastro fŕagil e fugidio de nossa existência – que se não permanecer na memória dos pósteros, não permanece de forma alguma que interesse.
Uma vida de felicidade vulgar, curiosamente, tem pouco o que oferecer ao interesse, sobretudo porque nossa atenção está sempre voltada para a tal questão do que nos constitui e como enfrentar esse desafio de desamparo que é a tal da vida. Se Páris tivesse resistido à hybris de seu desejo por Helena, ou se esta permanecesse fielmente postada ao lado de seu marido, não teríamos a Ilíada; se a necessidade desejosa de Aquiles em permanecer em glória e honra no canto dos aedos por seus feitos heroicos não o tivesse lançado furiosamente ao encontro da bela morte, a história não passaria de uma disputa romântica fora de tempo. A morte, de fato ou da desonra, é o momento em que a legitimidade da própria vida, como dizem os gregos, não como zoón, mas como bios, é posta ante à prova derradeira.
A morte como um momentum faz revelar a Força, a autenticidade, o homem. Eis aí o verdadeiro tribunal – parece que Montaigne foi mais sensato que Kant.
Narrar estas coisas auxilia a desvelar o mistério e, quem sabe, o propósito da vida, coisa à qual insistimos em nos apegar, aferrados. Dostoiévski possuindo a boca do príncipe Míshkin compartilha o horror desesperador da aproximação do instante fatal para um condenado, tão terrível que torna a barbárie da tortura preferível. Mesmo São Francisco de Assis precisou fazer dela sua irmã Morte, humanizá-la, incorporá-la na ordem das coisas, redimi-la. A morte purgatória, flagelante, punitiva de Dürrenmatt é a única resposta ao absurdo da frivolidade burguesa dos pacientes da clínica do Dr. Emmenberger em Salém; um grotesco simulacro da morte que quase nos fez cessar de falar sobre o assunto, o sacrifício do Crucificado.
Quase.
Narrar a morte ganhou um novo desdobramento, uma nova fronteira, uma outra impossibilidade. O Holocausto impõe-se como um monumento cinza e umbrátil, envolto em névoa numinosa. Concreto, palpável. Tanto, que nos recusamos a tocá-lo diretamente: desfaria a unidade de nossos corpos e mente. Contá-lo é sempre perder a conta, porque elencar tantos casos, sucessivos, sobrepostos como fichas de um arquivo, sugere a culpa do esquecimento, do condicionamento da insensibilização necessária para a existência civilizada.
Historiografar Auschwitz é transformar uma entidade mística num objeto, numa placa petri, num espécime; um sacrilégio, uma heresia. Romanceá-lo é trilhar a tortuosa senda da fantasia, é enfrentar o risco da ficcionalização – o terror de um pesadelo ainda possui a indulgência da suspensão onírica, de um certo deslocamento do tecido do real. Narrar cada vida, cada tragédia – “uma vida, um mundo”- à la Anne Frank, faz pensar, com angústia, nos tantos outros… Enfim, é uma experiência que não pode ser totalizada, unificada, plasmada. Responsabilizar, dividir as culpas e punições não cala o sangue dos inocentes, ou produz uma outra tragédia espetaculosa, como o caso de Eichmann em Jerusalém.
Pensando nisso, assisti “Bastardos Inglórios”, de Tarantino. A primeira impressão foi que o flime era um basta: pronto, demos a todos uma catarse, uma vingança, uma alternativa com que sonhar e terminar o assunto. Falou-se já muito sobre o caso – Schindler, Szpilman, etc. Pensemos num brutamontes judeu que esmaga crânios nazistas, num psicopata que retalha as faces de figurões de suástica e coisas do gênero. Não sei, mas não funcionou pra mim: judeus nunca serão alemães, nunca serão mais que mimetizadores ao fim dessa empreitada, e a inversão da imagem os denunciará. Shoshanah nunca obterá sua vingança: todo entulho psíquico que os semitas carregam, toda a lacrimosidade dos notários da Revelação, os impedem de levar a cabo uma vendetta que exige a renúncia da própria humanidade. E isto é trágico. Liquidificar os ossos e músculos do füher não bastaria… Triunfar numa guerra, triunfar totalmente na guerra contra o anti-reino é impossível; no final, se fosse possível, restaria somente o desespero pelo próprio homem, sem o advento da manifestação de Deus e sua finalidade histórica apoteótica.
O triunfo sobre a morte judaico é a própria morte, é o resto, o entulho, o refugo. O bastardo filho da história, Israel. Inglório, sua eternidade na memória não é heroica, é vitimária, pascoal, expiatória. Depois que o fogo a tudo consome, a tudo dedica, santifica, a cinza, o sobejo, o excesso, essa hybris de emergir sobrevivente é o que triunfa: o tal remanescente.
Do Holocausto, o que importa não é falar dos mortos, mas dos vivos. Da morte, a vida.
Am Yisrael Chai.