Sobre cavalos, homens e política
Ao ex-presidente Gen. João Batista Figueiredo é atribuída a frase algo cômica “o cavalo é um animal apolítico”; a truculência da frase, porém, esconde um sentido que pode nos interessar. Na fábula “A revolução dos Bichos”, de George Orwell, o cavalo entre todos os animais da fazenda onde se deu a revolução é o que mais se doou num esforço de trabalho que sobrepujou-lhe as forças. Apostando toda sua fé na boa fé dos líderes da nova ordem, entendeu que devia esforçar-se em todos os seus recursos na cooperação da construção da nova sociedade das bestas. Acordando cada dia mais cedo, retirando-se para o descanso cada vez mais tarde, termina por esgotar-se, pondo sangue pelas ventas. Os comandantes revolucionários recompensam-lhe a fidelidade enviando-o para um lugar de descanso: a fábrica de salame. Seu corpo debilitado, trocado por alguns trocados, converteu-se na sua última doação.
Incapaz de compreender o que se passava à sua volta, inábil para perceber a mudança nos rumos e no desaparecimento da “vida pública” na fazenda, o cavalo é, de fato, o tipo apolítico. A ausência da racionalidade na vida, a destituição de uma vida contemplativa, reflexiva, a bios theoretikós, torna impossível a prática da política, da bios politikós. Pensar que o homem relegado ao trabalho, ao mero sustento das condições da vida biológica, o zoón, pode se erigir como sujeito político é um contra-senso. Como nos diz Hannah Arendt, o animal laborans é um solitário membro de espécie, alienado de sua condição humana, de abertura reflexiva. O projeto democrático para uma sociedade de massas parece incompatível com o princípio da solidão contemplativa, necessária para o exame da realidade, absolutamente determinante para a saúde do debate no espaço público.
A relação entre razão e política é tão íntima, que não se pode esperar de uma civilização que renuncia ao chamado da vida do espírito menos que a supressão da liberdade e a deterioração da posição do homem. Contudo, tanto para gregos como para cristãos, parece claro que nem todos os
homem quererão a honestidade e integridade intelectual como fundamento do debate e diálogo político, muito menos o status de equidade no espaço público, fazendo da política um campo de retórica e armadilhas discursivas. Como realizar o homem, animal racional, no ideal do homem político, na biós politikós? É preciso compreender os laços entre ambos e as vias de uma à outra.