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Judeus e cristãos novos em Portugal e no Brasil [com indicação de curso]

13 Maio, 2008

O Laboratório de Estudos sobre Tolerância (LEI), da USP, disponibiliza, através do portal Rumo à Tolerância, o curso on line (no Moodle) Inquisição e Intolerância na Península Ibérica e no Brasil (2008.). O curso é gratuito, e conta com professores e pesquisadores da USP envolvidos na ampla pesquisa sobre a herança dos bnei anussim, ou marranos, em Portugal e no Brasil.

Muita gente não sabe, mas o Brasil foi formado (naquela parte portuguesa ou européia de nossa identidade étnica ou cultural) por judeus que foram forçados a se converterem ao catolicismo na Península Ibérica no final do século XV e início do XVI. Calcula-se que havia pelo menos 200.000 judeus em Portugal na época das conversões forçadas, até a expulsão em 1497. Os que não tiveram condições de emigrar (houve um fluxo de emigração principalmente para a Holanda), permaneceram em solo português, muitos deles praticando a religião judaica clandestinamente.

Esses judeus convertidos ficaram conhecidos como cristãos novos (ou cristianos nuevos, ou ainda batizados em pé, por receberem batismo já adultos), e em termos hebraicos como anussim, que quer dizer “forçados”. Seus descendetes, portanto, são os bnei anussim, os filhos dos forçados. Quando a Igreja na Península Ibérica percebeu que a conversão dos judeus não era sincera (e como poderia ser?), estabeleceu-se o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, que tinha como missão monitorar os cristãos novos e as atividades judaizantes.

Fugindo da Inquisição e seus terrores, muitos cripto-judeus portugueses e espanhóis vieram para as colônias na América, sobretudo para o Brasil. Pra se ter uma idéia, das treze naus da esquadra de Cabral, quando chegou ao Brasil, onze delas tinham (supõe-se) capitães cristãos novos. As capitanias hereditárias, uma espécie de Parceria Público Privada da época, foram arrendadas principalmente por empreendedores de origem judaica, que também foram os primeiros investidores na florescente e próspera indústria do açúcar, e quase todos os bandeirantes eram também cristãos novos.

De fato, aquilo que chamamos de “elemento português” na formação do Brasil é, na verdade, um elemento judeu, de um tipo muito específico (o judeu forçado à converção ao catolicismo). Isso, entre outras coisas, que dizer que muitos brasileiros são descendentes de judeus perseguidos pela Inquisição.

Então, é fundamental, para entendermos nossa herança e formação, resgatar essa história e bem compreendê-la. A iniciativa da professora Anita Novinsky e do LEI são, portanto, de grande valia. Segue abaixo a ementa do curso.

A conversão forçada de todos os judeus em Portugal ao catolicismo (1497), iniciou a era dos cristãos novos, também conhecidos como “conversos” ou “marranos”. Interesses econômicos, apoiados no fato de que muitos convertidos seguiam a religião judaica em segredo, levaram à criação do Tribunal do “Santo” Ofício da Inquisição, em Portugal no ano de 1536, que teve a duração de perto de três séculos. Portugueses e brasileiros de origens judaicas sofreram perseguições, confiscos e humilhações. Poetas, mulheres, homens ilustres, em Portugal e no Brasil, perderam suas vidas, num processo anti-semita, que afetou todas as instituições da época, inclusive a Companhia de Jesus, e cujas conseqüências se fizeram sentir na época, como no Brasil de hoje.

Resposta a um anti-sionista

9 Maio, 2008

Quando escrevi o post passado, sobre os 60 anos de Israel, eu esperava algum comentário que demonstrasse “repulsa”, “vergonha” ou “recusa” quanto às minhas palavras, e à própria celebração da existência do Estado de Israel. Também esperava que tivesse que me posicionar com clareza, então, faço-o (mais uma vez): eu sou sionista. Acredito e defendo o direito de uma pátria nacional judaica naquele território chamado por alguns de Palestina histórica. Sou também um seguidor da Torá, que assegura direitos ao estrangeiro como nenhum outro documento no mundo, anterior, contemporâneo ou posterior. Portanto, nas palavras do Rabino Shulam: os árabes podem não ter direito à Terra, mas têm diretos na Terra. Isso quer dizer que sou a favor da reconciliação, da paz e dos direitos de árabes e palestinos - direitos já assegurados aos que são cidadãos israelenses (veja essa reportagem da BBC - que definitivamente não é Sionista ou pró-Israel).

Um certo leitor deste blog, chamado gabriel, escreveu o seguinte comentário a respeito do post e seu conteúdo:

Mesmo com todo o respeito e admiração que tenho pelo povo e pela cultura judaica, ainda assim não consigo esconder a repulsa que sinto pelo grupo judaico-sionista. É estranho como estes não percebem que o mesmo mote que os move, é também o de atuais seus agressores: a legitimação divina.

Movidos por uma premissa tão distante da racionalidade necessária para o entendimento entre culturas, é difícil distinguir qualquer um dos lados como agressor ou agredido. E o que dizer de definir aquele que seria o “verdadeiro grupo escolhido dos céus”, como se coubesse tamanho despautério na diplomacia contemporânea. Mas pelo visto, não sendo estruturada no racionalmente plausível, a tal disputa só resta o caminho da guerra. E enquanto houver grupos que baseiam demarcações territoriais - ou quaisquer intentos que caibam apenas no campo da legalidade terrena - em determinações divinas, haverá conflitos e mortes em consequência.

Vale ressaltar, que aqueles que servem de guias e propagadores dos embustes sionistas (aí incluso o autor deste post) têm tanta culpa por cada cadáver no solo de Israel quanto os terroristas, que não passam de mais uma instância nesta cadeia.

Com premissas tão próximas me pergunto: como um sionista se distingue de um homem-bomba, tendo em vista a legitimidade de suas motivações?

Gostaria de responder ao gabriel, mas de forma não específica, porque ele se parece mais com um leitor genérico, ou seja, reproduz aqui uma série de erros e definições no mínimo equivocadas  - o que não lhe retira o direito de opinião e posicionamento, mas pede que arque com o ônus de exprimí-la publicamente (como eu também faço) e em blog alheio (o que não é um problema, aliás, qualquer um é bem vindo a ler e opinar aqui…).

Vejamos então o que um típico anti-sionista, cheio de sensibilidades e incapaz de fazer distinções pensa, e onde entendo que erra.

Primeiro, o sionismo não é um movimento religioso. Ele tem uma expressão religiosa entre os religiosos que são sionistas e representam suas crenças e legitimação em seu campo de interpretação da realidade a partir da exegese do texto sagrado por seus sábios. Mas qualquer um que se disponha a estudar a história do Sionismo sabe que o movimento é fundamentalmente secular. Theodor Herzl, pai do Sionismo, era um jornalista judeu austro-húngaro assimilado, que ao cobrir o Affaire Dreyfus na iluminada França viu que mesmo ali o “problema judaico” permanecia, assim como nos países menos avançados em termos democráticos e em tolerância; em qualquer lugar, viu Herzl, onde houver judeus, haverá anti-semitismo. A única forma de resolução para a  questão judaica, era a constituição de um lar nacional judeu.

Ora, onde está, em Herzl, a busca ou uso de “legitimação divina”? Ou, ainda mais explícito, o caso do proto-sionista Moses Hess - um comunista secularista que vui a eclosão de anti-semitismo no que seria a Alemanha dali a pouco tempo. Mesmo retornando ao Judaísmo, o fez na forma “panteísta de Espinoza”… francamente, muito distante de qualquer ortodoxia judaica, e muito mais uma doutrina filosófica que exatamente religiosa.

David Ben-Gurion, o pai do Estado de Israel propriamente dito, ainda que defendendo um lar judaico, estabeleceu as bases do estado em características seculares (desde sua definição do que é um judeu, profundamente diferente da definição rabínica tradicional), e desafiou a ortodoxia judaica (curiosamente, o uso da Estrela de David ao invés de uma menorá é uma provocação aos religiosos).

Contudo, isso não exclui os matizes religiosos do Sionismo, que existem e são bastante influentes tanto em Israel como na Diáspora. E isso me leva ao segunto problema do raciocínio anti-sionista representado acima.

A menos que gabriel seja um positivista ou pitagórico, acredito que em todas as vezes que usa a palavra racionalidade queira dizer secular ou secularidade, ou seja, que para tornar plausível e haver entendimento entre disputas e conflitos, no caso, internacionais, é preciso que todos os envolvidos se abstenham de seus pressupostos não-racionais. É a velha ladainha de Westphalia: retiramos a religião das questões, e os conflitos se acabam (ou são mais facilmente resolúveis). Isso não deu certo com os Estados Nacionais, não funcionou com os Estados laicos - e toda a paz que se conseguiu na Europa, se conseguiu com os Estados Protestantes ou por ação dos protestantes reformados.

Portanto, as demandas religiosas podem não ser redutíveis a fórmulas racionais - mas isso não as torna menos relevantes. Nem retirá-las da mesa de negociação tornou as coisas mais fáceis. Contudo, é possível pensar em pressupostos religiosos ou teológicos que facilitem o debate e a paz ou que conduzam unicamente ao conflito e guerra. E nesses termos, a posição árabe-muçulmana é mais complicada: todo território que já foi conquistado pelo Islam é do Islam, e se porventura caiu nas mãos dos infiéis, é dever do muçulmano recuperá-la. Isso torna a mesa de negociações e o direito internacional ocidental inviável.

O Estado de Israel foi fundado com a aprovação de uma entidade reconhecida inclusive pelos que tiveram o voto vencido - e o não reconhecimento da resolução é o mesmo que rejeitar a legitimidade da entidade. Se os árabes reconhecem a ONU e hoje usam a resolução 181 para que Israel retorne às fronteiras determinadas pelo documento, precisam reconhecer o direito de existência de Israel. O que, definitivamente, não querem fazer. Israel ampliou suas fronteiras em ‘48, ‘53 e ‘67 em guerras de agressão iniciadas pelos países árabes (Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque), e as anexações estão previstas na Convenção de Genebra - todo país agredido tem direito de anexar áreas estratégicas para sua defesa enquanto estiver ameaçado.

Quanto ao problema da distinção entre gressores e agredidos, basta a todo anti-sionista, ou qualquer um interessado no embasamento das coisas, ler o White Paper, relatório britânico durante o Mandato da Palestina, que descreve o que a população árabe fez aos judeus refugiados na Palestina. Basta que se estude e ouça os arquivos de audio de rádios e de jornais árabes na época. Basta ver quem iniciou o ataque em maio de ‘48, ‘53, ‘67, ‘73…

Basta olhar a vida de um árabe cidadão israelense, ou um druso, ou um bérbere, ou um samaritano, ou um cristão sírio, maronita, grego ou romano em Israel. E depois compara com o que passa cada uma dessas pessoas em territórios árabes. Tente um gabriel da vida tentar cidania israelense (o que fará como em qualquer outro país democrático) e no Egito… somente tente.

Se gabriel não consegue, ainda, distinguir entre um sionista e um homem-bomba em termos de premissas e finalidades, eu vou tentar ajudar. Um sionista tenta estabelecer um Estado em bases democráticas, e é confrontado com vontades contrárias que intentam o extermínio do povo judeu “empurrando-os para o mar”. Um sionista combate soldados em termos militares, um homem-bomba explode crianças, jovens em bares, religiosos em sinagogas, trabalhadores em ônibus.

Por fim, em termos religiosos, não há que se definir o verdadeiro povo escolhido; em termos religiosos isso já está estabelecido, de maneira distinta, claro, em cada fé. Mas é curioso notar que há também uma religião secular, a qual gabriel parece professar, que estabelece a culpa pela presença de idéias teo-referentes. E esse tipo de coisa terminou no Terror na França e nos gulags soviéticos.

Embuste, me parece, é esconder desinformação num discurso cheio de sensibilidades… francamente, quem não sabe distinguir, que não emita juízo - e olha que quem disse isso foi um racionalista: Descartes.

Para inglês ver: o diálogo inter-religioso do Rei Abdullah

27 Março, 2008

Desde o surgimento do fenômeno do nacionalismo árabe, sobretudo depois da Segunda Gerra Mundial, o maior prejudicado tem sido o povo árabe e os muçulmanos. No Egito, Nasser empurrou a nação para uma série de conflitos catastróficos como a Crise de Suez (1956) e a Guerra dos Seis Dias (1967), preparando o caminho para a Guerra de Yom Kippur (1973) - e todo o investimento egípcio para se tornar uma moderna potência militar local (apoiada pela União Soviética, fornecedora de armamentos, equipamento e treinamento) foi inutilizado no esforço inútil de tentar varrer Israel do mapa. Por que a insistência? Porque quem derrotasse o “Estado Sionista” daria cabo no que é considerado um insulto ao mundo árabe, e demonstraria a insurgência e desafio à influência das antigas potências inglesa e francesa na região.

Nesse plano foram arrastadas a Jordânia, que havia cedido seu bem treinado exército ao comando egípcio, que foi dizimado na tentativa de romper Israel ao meio na altura de Jerusalém; e a Síria. O rei Houssein da Jordânia compreendeu cedo (’67) que lutar contra Israel era um equívoco, fez um tratado de paz com os israelenses, e tratou de se preocupar com os refugiados palestinos em seu território, que a partir daí passaram a lhe dar muito trabalho. Humilhado em três guerras, que lhe custou qualquer crédito no mundo árabe, ao Egito restou assinar um tratado de paz com Israel (1978/79), em troca da devolução da Península do Sinai, capturada e ocupada pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias e Yom Kippur.

A Síria nunca abandonou seus sonhos de gradeza voltando a ser a Grade Síria, o que inclui a retomada do Líbano e toda a Palestina. Ou seja, a existência de um Estado independente no Líbano, de Israel e mesmo a pretensão a um Estado Palestino vão de encontro aos interesses e ambições sírios. A derrota em ‘67 e ‘73 resultaram na perda das Colinas de Golan, que deveriam ter sido devolvidas numa manobra diplomática com Israel, similar àquela feita com o Egito, mas Damasco se recusa a oferecer trégua. Como Golan é de valor estratégico e militar inestimável (do alto de suas colinas vê-se as regiões baixas do vale de Hula e da Galiléia), Israel não pode devolvê-la sem sólidas garantias de segurança. Recentemente, Bashar al-Assad (presidente da Síria) mencionou a possibilidade de paz em troca da devolução das colinas.

Fracassadas as tentativas militares “convencionais” de destruir Israel e ganhar influência no mundo árabe, a Síria se voltou para o Líbano. Profundamente influenciado pelo ocidente, sobretudo pela cultura francesa (Beirute era conhecida como a Paris do Oriente), o Líbano era um oásis de convivência pacífica de uma miríade de religiões: cristãos gregos ortodoxos e sírios, católicos romanos, drusos e muçulmanos conviviam em certa estabilidade mantida por um relativamente complicado arranjo político de partilha do governo. O Líbano tornou-se um barril de pólvora, e para isto bastou a pressão síria e as levas de refugiados palestinos resultantes das guerras árabe-israelenses. Nos campos de refugiados no sul, organizou-se a OLP de Arafat, que havia fugido da Jordânia, onde Houssein se recusou a tolerá-lo.

No início da década de 80 o Líbano foi tragado para uma violenta guerra civil, onde lutavam inúmeras facções e influências diversas. Por fim, os sírios conseguiram o que precisavam: a retirada americana, que lhe cedeu espaço para intervir e ocupar o Líbano, sobre o qual exerce influência política e militar até hoje (vide a Segunda Guerra do Líbano). Até hoje o Líbano é instável, ameaçando sempre a estourar em violência.

Os palestinos passaram a ser usados como massa de manobra e motivo para os países árabes acusarem e denegrirem Israel. O curioso é que lhes seja negado quaisquer direitos ou auxílio nos países em que se encontram refugiados - curiosamente, palestinos vivem melhor em territórios ocupados por Israel do que em territórios árabes; a não ser, obviamente, dinheiro e armas para aterrorizar os israelenses.

O Iraque baath meteu-se em uma guerra sanguinária e inconclusiva com o Iran, onde pelo menos 700.000 iranianos e 500.000 iraquianos perderam a vida, fora os curdos. O que é estranhamente silenciado é o fato de que mais que Israel, a nação mais ameaçada pelo “Iran Nuclear” é o Iraque - que agora é o palco das disputas do mundo islâmico, onde a contagem dos mortos é de 600.000, no total.

Em meio a toda essa confusão e esquecidos pelo mundo, e sobretudo pela imprensa tão sensível à situação palestina, estão os curdos, que tiveram seu país, o Curdistão, retalhado entre Turquia, Síria, Iran e Iraque; e são sistematicamente perseguidos e mortos em cada um desses países (um dos motivos da Turquia não ser aceita na UE, é a situação dos curdos em seu território). Recentemente os maiores flagelos do mundo árabe são os próprios árabes em lutas internas: vide as rusgas entre Hamas e Fatah nos territórios ocupados na Palestina.

Devido a toda a dificuldade em manter conflitos convencionais entre Estados (o que criteriosamente não existe por ali), o uso de facções, organizações para-militares, milícias, grupos terroristas está na ordem do dia: Al-Qaeda, Hizbollah, Fatah, Hamas, Al-Aqsa, etc… Afora o que se passa na Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, na África, e Paquistão (vide os massacres em Bangladesh), Afeganistão, Indonésia (vide as atrocidades cometidas em Timor Leste, por exemplo) e Chechênia.

Toda essa tragédia vai desmoralizando o mundo árabe e mesmo o Islam. E com certeza há gente que perde muito e não anda satisfeita. Um deles, quem sabe entre os principais, é o Rei Abdullah, da Arábia Saudita. Numa manobra muito oportunista, os Saud estão propondo um fórum de diálogo entre religiões monoteístas que anteciparia a possibilidade de (alguma) abertura religiosa em países muçulmanos. A prática de outros cultos e fé nesses países é praticamente nula, está banida - incluindo a própria Arábia, onde impera o wahhabismo, uma doutrina de interpretação “purista” do Islam (já falei sobre isso aqui)

Que significa isso? Que de repente uma nação árabe haverá de fazer uma revisão num dos pontos mais críticos de sua organização religiosa, política e cultural? Afinal, permitir outras religiões em território do Islam é permitir a existência de infiéis, de hereges em solo muçulmano - uma afronta ao profeta e aos mártires. Recentemente, Abdullah visitou o papa Bento XVI, um encontro histórico, e isso provocou ira e suspeitas. Quando questionados sobre a abertura religiosa, os membros do conselho saudita responderam que “somente se o Vaticano reconhecer Maomé como profeta, será possível haver igrejas na Arábia” (veja o comentário de Daniel Pipes aqui e aqui).

E o que me irrita, me irrita profundamente, é que representantes cristãos e judeus convocados pela iniciativa de Abdullah estejam “otimistas” quanto aos resultados do diálogo! Primeiro: não creio que haverá diálogo no sentido próprio do termo. Segundo: não acredito que os cristãos na Arábia (seis milhões) gozarão de plena cidadania (hoje, são cidadãos de segunda categoria). Terceiro: o restante do mundo árabe/muçulmano não se convencerá/seguirá o “exemplo” saudita. O mais provável é que uma onda anti-saudita de eleve no Oriente Médio, e os americanos percam seu mais valiosos aliado.

Como disse McCain (pré-candidato Republicano), aliados do ocidente entre os árabes são tiranos autocratas, sanguinários exploradores e concentradores da riquezas de seus países, que não representam sequer minimamente a opinião de seus “súditos” - não são confiáveis. O fato, me parece, é que se não há sequer respeito entre árabes, que dirá respeito da parte desses grupos para com os não árabes e não muçulmanos. Podem me chamar de louco, descompensado, ignorante e sem senso de realidade, mas minha opinião (seguindo Paul Johnson) é de que o Islam precisa de uma reforma, tal como sofreu o Cristianismo (séc. XVI) e o Judaísmo (séc. XVIII). É preciso que se transformem certas estruturas culturais que são “reféns” de certas doutrinas religiosas.

A iniciativa de saudita é, até aqui, para inglês ver. E francês escutar.

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

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Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Sobre Alatriste

25 Março, 2008

Fiquei curioso por conta de uma nota no Rua da Judiaria sobre o filme Alatriste, produção espanhola estrelada por Viggo “Aragorn” Mortensen [nota: esse sujeito fez um dos diabos mais interessantes do cinema em Anjos Rebeldes (The Prophecy), longe do estereótipo do demônio libidinoso; sua primeira fala nesse filme, quando um personagem pergunta "você é Deus?", é: "Se eu sou Deus? Deus é amor, e eu não amo você". E vai levar tempo para que deixe de ser Aragorn - uma das escolhas mais acertadas de Peter Jackson para a trilogia "O Senhor dos Anéis"; e não é muito difícil de perceber alguma similaridade entre os personagens que interpretou em Hidalgo e Marcas da Violência e Aragorn: todos eles guardam uma dignidade tímida, resistente, que fica ainda mais acentuada em sua caracterização do capitão Diego Alatriste].

Apesar de Viggo Mortensen não ser a preocupação desse post, ele é importante porque seu personagem representa muito bem o declínio do Império Espanhol e sua agonia ainda no século XVII. Os reis católicos de Espanha depredaram as bases que os ergueram à altura de senhores da Europa e de boa parte do mundo, que havia se desdobrado em nova extensão: expulsaram os judeus em 1492, o mesmo ano em que um provável judeu espanhol radicado numa república italiana chegava à América (sim, Colombo - não se iluda com o nome Cristóvão) e se engajaram em guerras de religião. Forçou que Portugal, que recebera os judeus banidos, também os expulsasse ou os forçasse o batismo. Muitos forçados deram origem à tragédia dos cristãos-novos e marranos (cripto-judeus), outros tantos se dirigiram a outras paragens, como Holanda, Alemanha, Polônia e Lituânia.

Os judeus portugueses, apesar de tudo, prosperaram em outras terras, encontrando mais tolerância em “terras hereges”, como se referiam os espanhóis aos países protestantes, como a Holanda. E é curioso que dominando das Filipinas ao Chile, passando pela África, os espanhóis tenham encontrado a mais ferrenha resistência no Flandres, onde católicos e protestantes se engalfinharam em meio a sangue e lama: ali começa a derrocada de Espanha e de um certo mundo católico na Europa.

Alatriste dá um bom panorama da época, a partir do ponto de vista peculiar de um soldado/mercenário cheio de honra e altivez, mas plebeu e pobre, a mercê das vagas de poderes muito maiores que ele. Igreja, nobreza, Coroa, côrte: tudo tão complicado, melindroso, alheio ao mundo ordinário… demais para um homem com o mínimo de princípios, mesmo não sendo um santo.

Um ponto em particular, pontual mas emocionante para quem conhece a história, são as menções aos portugueses no século XVII: todos “meio judeus”. O personagem Luiz Pereira é um português cuja família é presa pela Inquisição enquanto ele lutava pela Espanha Católica em Breda. Aterrorizado, Luiz prefere a morte aos flagelos e interrogatórios do Tribunal do Santo Ofício.

Jom Tov Azulay (irmão do Daniel Azualy, que ensinava desenhos na televisão) dirigiu o belíssimo “o Judeu”, que conta a história de Antônio José da Silva, cristão-novo português nascido no Brasil e supliciado em Lisboa no século XVIII. Um filme inteiro sobre isso que Alatriste menciona.

[nota: esse post está mal escrito, desestruturado e confuso não por acasa, foi escrito na madrugada gotejando sono - queria manter o compromisso de um artigo(zinho) ou nota por dia. Deu no que deu...]

Purim

21 Março, 2008

Hoje é dia 21 de março; para os cristãos, sexta-feira santa, Páscoa cristã. Para nós, judeus, ainda não é Páscoa - nossos calendários são diferentes (o cristão gregoriano é solar, o judaico é lunisolar). Mas essa data é importante para nós, é Purim. Purim não é uma das grandes festas do Judaísmo, não é como Rosh haShaná (ano novo), não é como Yom Kippur (dia do perdão), não está na lista de Levítico 23; mas é uma festa e tanto! Ganhou importância quanto mais se tornou emblemática, assim como Chanuká, a festa das luzes: são festas de livramento do povo judeu.

No ano de 586 a.E.C., aproximadamente, o Reino de Judá, ou Reino do Sul (de Israel), foi invadido pelos exércitos babilônicos, e os habitantes de Judá, ou judeus, foram deportados, exilados para a região que chamamos Mesopotâmia, hoje Iraque. Foi um duro golpe na história de Israel, porque o Templo de Salomão foi destruído e o orgulho da nação foi quebrado. Apesar do exílio ter terminado com o retorno dos seguidores de Neemias para Jerusalém, a diáspora judaica que se iniciou aí perdura até hoje (intensificada, claro, pela expulsão romana em 70 e 135 E.C.).

Quando Babilônia foi conquistada pelo império Persa, o rei Assuerus, ou Xerxes (aquele mesmo que aparece, figurado, em 300 de Esparta) nomeou como vizir (primeiro-ministro) um tal Haman, que tinha fortes ambições de glória. Haman se irou com um certo guarda das portas reais, chamado Mordechai (pronuncia-se Morderrái) que se recusou a bajulá-lo. Haman descobriu que Mordechai era judeu e decidiu se vingar matando não apenas o porteiro, como a todos os judeus - e para isso armou um plano que obteve aprovação do rei, onde mataria todos os judeus do império; e lançou sorte para saber em que dia deveria executar a ação - 13 de Adar.

Mordechai soube do plano (afinal, ele ficava o dia inteiro nas portas da cidade - ouvia de tudo), e avisou sua sobrinha, que fora feita rainha, esposa do rei Assuerus, sem que este soubesse de sua origem judaica. Ester era seu nome Ester. Ela, sabendo dos plano de Haman, conclamou todos os judeus a jejuarem e orarem com ela por três dias, e ao final desse período ela se apresentou ao rei, revelando sua origem judaica e o plano de Haman para aniquilar seu povo. Haman foi morto, mas o decreto que ordenava os ataques aos judeus nas cidades em que habitavam não podia ser revogado; então Assuero ordenou que fosse dada permissão aos judeus para que se defendessem dos ataques, e assim fizeram no dia 13 de Adar. O dia 14, portanto, foi um dia de festa e alegria pelo livramento.

Porque Haman lançou sorte, do acadiano pûrú, deriva o nome hebraico Purim. E isso tem alguns significados. Primeiro, para o pensamento hebraico, não existem coincidências, acaso; assim, em Purim a sorte foi decidida num ato oculto de intervenção divina: a eleição de Ester como rainha da Pérsia e os momentos em que Mordechai ouviu falar da conspiração contra o povo. Também significa que a sorte do povo judeu não está nas mãos de qualquer homem, muito menos Haman ou mesmo Xerxes/Assuerus. Apesar de nenhuma vez o nome de D’us ser citado em Ester, sua presença e intervenção são óbvias.

Essa história se tornou emblemática da condição hebraica, judaica, no exílio: há muitos Hamans que por mesquinharias e rancor pessoal (inveja e raiva) decidem eliminar todo o povo judeu, ou o máximo que conseguirem. Hoje, curiosamente, temos um Haman persa e primeiro-ministro outra vez: Ahmadinejad, presidente do Iran, antiga Pérsia. E essa nova forma de anti-semitismo, o anti-sionismo, vai conseguindo apoio e decretos reais por todo o mundo. E os judeus em todo o mundo estão apreensivos, temerosos de que o pior possa acontecer.

Mas houve providência - Ester. Outra haverá, sempre houve.

Aliás, Purim é a festa que honra as mulheres no Judaísmo. Sempre femininas, sempre fortes, sempre sabendo o que fazer quando qualquer homem desmaiaria de terror. Oculta, astuta e corajosa, derrotou Haman em toda sua força e poder. Assim também fizeram as mães marranas, descendentes dos judeus forçados a se converterem ao cristianismo em Espanha e Portugal no século XVI e XVII, que mantinham em casa, escondidas, as tradições e as ensinavam a seus filhos e filhas, resistindo à aniquilação perpetrada pelo inimigos de Israel - não por acaso que se identificavam com a rainha da Pérsia.

Uma noite de novembro… quase 70 anos atrás

9 Novembro, 2007

Há 69 anos, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, as ruas de quase todas as cidades da Alemanha, e de Vienna (Áustria), foram tomadas por uma turba sedenta de violência, numa orgia de atrocidades. Era a Kristallnacht - a Noite dos Cristais. Em 1933 o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, e desde então, a situação dos judeus no país foi se deteriorando metodicamente, num plano bem arquitetado pelos nazistas. Judeus poloneses que vivam na Alemanha foram deportados em outubro de 38 para seu país de origem, que também não os quis receber, fazendo com que 12 mil pessoas fossem pressionadas na fronteira teuto-polaca, sob chuva e frio, sendo admitidas finalmente na Polônia, em terríveis campos de refugiados.

Um parente desses desafortunados, que vivia em Paris, pediu por ajuda ao embaixador alemão na França, vom Rath. Após ser repetidamente ignorado em sua petição, o rapaz judeu assassinou vom Rath. O incidente foi o que o partido nazista, mais especificamente o chefe da propaganda, Goebbels, precisava para uma ação maciça contra os judeus alemães. Um grande levante, que deveria ser tomado por popular e espontâneo, foi perpetrado pelas autoridades do partido, tendo sido levado a cabo pelas tropas nazistas, as SA, as SS, e outros grupos organizados. Seus membros estavam à paisana, confundindo-se e insuflando os civis.

A Kristallnacht tinha objetivos muito claros: banir os judeus da vida econômica alemã e testar o nível de reação da comunidade internacional a uma ação violenta em larga escala contra os judeus alemães. A ação era coordenada e direta: depredar lojas, estabelecimentos comerciais de propriedade judaica, casas e vizinhanças judaicas, sinagogas, e prender o maior número possível de homens judeus. O saque estava proibido, bem como a violência contra estrangeiros (inclusive judeus estrangeiros), e a população alemã deveria ser cuidadosamente poupada de danos acidentais.

As turbas saíram às ruas com machados e marretas e puseram-se a quebrar as vitrines de casas e estabelecimentos judaicos - daí no nome Kristallnacht: a Noite dos Cristais, porque o vidros de vitrines e janelas eram feitos de cristal e muito caros, sendo, de certa forma, símbolo de prosperidade. 8 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram atacados, 30 mil homens judeus presos e enviados a campos de concentração, e 1700 sinagogas foram atacadas, sendo que 270 foram queimadas e destruídas. Judeus foram perseguidos e espancados, entre a noite do ataque e os meses seguintes (nos campos), pelo menos 2 mil pessoas morreram.

Na Áustria os resultados foram proporcionalmente piores - os austríacos agiram com diligência: 191 sinagogas destruídas, sendo 76 delas completamente demolidas; mais de 800 casas comerciais de judeus foram destruídas.

A real participação da população civil é impossível de ser mensurada, sobretudo pelo fato dos membros de tropas de ataque estarem em roupas civis. Mas o ponto é que assim como os alemães, o resto do mundo assistiu à Noite dos Cristais paralizado, sem saber exatamente o que era aquilo e recusando-se a fazer alguma coisa. Muitos países condenaram o ataque, alguns chegaram a romper relações diplomáticas… mas já era tarde. O dia 9 de novembro de 38 foi um ensaio geral para o que estava por vir - não por acaso, alguns consideram a Kristallnacht como o início do Holocausto.

Os Nazistas, como todos os inimigos da liberdade, não precisavam de ajuda ou adesão massiva à sua orgia - precisavam apenas que as pessoas se calassem e virassem seus rostos. Como na frase do Sr. King: “não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. E pouco tempo depois, já não havia como evitar “danos à população alemã”. A guerra foi impiedosa, mas não podemos negar que deu muitos sinais e avisos de que chegava… entrou quase que a convite.

E os judeus? Sobreviveram… foram multados, ao final do levante, em 1 bilhão de marcos por “danos à nação alemã”… e os reparos das janelas quebradas ficou em torno dos 4 milhões de marcos. Muitos que até ali estavam hesitantes, tentaram emigrar. Mas já era tarde também para isso, para muitos. E até hoje, tentamos sobreviver… pagando multas, consertando casas, indo embora, e escrevendo… tentando não deixar que certas coisas se repitam.

De Munique a Pequim

7 Novembro, 2007

Ano que vem, mais uma vez, os olhos do mundo todo se voltarão para a China, para as Olimpíadas de Pequim, ou Beijin. As Olimpíadas modernas, como todos sabem, tal como idealizadas por Pierre Fredy, Barão de Coubertin, têm por princípio a união e confraternização entre os povos, o “fair play“, e essa coisa toda. Mas, para honrar mais uma vez o título desse blog, a realização de uma olimpíada na China é, em todos os sentidos, um contra-senso.

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A China é o país mais populoso do mundo, e detém outros recordes. É o país que, de longe, mais desrespeita e nega direitos básicos aos seus cidadãos - da liberdade de expressão à liberdade econômica, passado pela liberdade religiosa e de consciência. Se você, leitor, achou as fotos de Abu Ghraib um absurdo, nem queira saber o que se passa pelas prisões chinesas. E enquanto no Iraq há um estado de guerra e conflito armado com soldados, exércitos, guerrilheiros, terroristas, etc., na China há um Estado que esmaga seus próprios cidadãos por quererem votar, publicar livros, acessar internet, rezar, ter mais de um filho, etc…

Aliás, você que lê esse blog, saiba que a China exerce um dos mais apertados cercos e censura sobre a internet no mundo (juntamente com o Iran, acho). Não há dados oficiais, obviamente, mas organizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que o país onde mais se tortura e mata jornalistas é a China. Saia da linha, e tome pancada.

Os católicos chineses não podem ser católicos… é, o dogma central do catolicismo, que é a representatividade de D’us na Terra pela figura do Papa, é proibido, e a Igreja Católica na China é submetida ao Estado Chinês - do contrário, estaria submissa a um país estrangeiro… afinal o Papa é estrangeiro, e chefe do Vaticano… As igrejas protestantes na China são menos evidentes em termos oficiais; crescem como redes, com reuniões e núcleos domésticos clandestinos, se reúnem também em salões subterrâneos, lugares ermos - catacumbas. O número de religiosos perseguidos e mortos também assusta. Caso você leia jornal no Brasil, sempre que ler uma notinha como “grupo de rebeldes é preso no interior da China” ou coisa parecida, dê um pulinho no site A voz dos mártires e saiba uma outra versão (no mínimo) do ocorrido.

E não se iluda: não são meia dúzia de cristãos na China. Por baixo, calcula-se que haja 90 milhões de cristãos, o que faz do país a nação com o maior número de cristãos no mundo - mais até que os EUA. Só isso.

Mas para aqueles que acham que com cristãos tudo pode ser feito, vejam a ocupação chinesa no Tibet. São 50 anos de invasão que já custou a vida de mais de um milhão de tibetados, e o exílio do Dalai Lama como resultado da pressão insuportável sobre a religião budista. Os chineses mulçumanos, zoroastristas, minorias não chinesas, animistas, etc., também sofrem o diabo na mão do Estado que não quer outra coisa senão o lugar exclusivo de divindade única.

A China tem o infanticídio e o aborto como política de controle de natalidade e crescimento populacional. Eu mesmo conheci um casal que trabalha em Hong Kong recolhendo bebês (meninas) das latas de lixo e sarjetas da cidade. E sempre há bebês descartados. Sempre. E o cinismo ocidental diz que “a China precisa parar sua bomba populacional, não importa como”. Não há sequer projeções da extensão da violência contra a mulher chinesa…

A China e o país com o maior número de execuções de pena capital no mundo - a maioria dos executados cometeram crimes políticos (leia-se contra o regime). Em 2005, foram pelo menos 1.700 execuções (algumas fontes acusam 8.000 execuções), enquanto nos EUA, país democrático com o maior número de execuções, elas não chegaram a 70. De cada 10 aplicações de pena capital, 9 acontecem na China - pelo menos.

No segundo semestre de 2007, a China tornou-se o maior emissor de carbono do mundo, superando os EUA.

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Bom, a essa altura os garotos revoltados, esquerdistas, libertários e toda sorte de bandido e corruptores do bom raciocínio devem estar bastante raivosos. Mas vou insistir um pouco mais. Realizar uma Olimpíada na China é um erro. Apoiá-la é um crime. Crime de cumplicidade a toda injustiça e violência cometida pelo Estado Chinês contra a humanidade. Todo atleta, delegação, país que participar futuramente se envergonhará profundamente, e restará aquele pedido de desculpas aterradoramente inútil ante a atrocidade perpetrada.

Delírio? Pode ser. Mas o Mundo (minimamente) livre cometeu um erro desse mesmo tipo ao realizar e participar das Olimpíadas de Munique, na Alemanha de Hitler, em 1936. A Olimpíada que deveria celebrar a “paz” com a Alemanha Nazista, e a hegemonia suprema da raça ariana. Pouco tempo depois, a Polônia era invadida, e os fornos queimavam judeus, cristãos, ciganos, etc…

Tudo bem, a história nunca se repete. Quando retoma um padrão, não repete - porque o erro repetido é sempre ainda mais horrendo, maligno e abissal. Que será do ano de 2011?

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

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Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

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Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

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O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

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Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?

Calvino e os Judeus - I

30 Agosto, 2007

A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os shtetl) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.

Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios - e como tudo o que é “os outros” é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a “questão judaica”. Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos - vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.

Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois “tipos”: os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha - a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado… o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de Dos judeus e suas mentiras.

O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.

Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus - estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da “reformada” Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.

A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse “insumos empíricos”. Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com “gramatical” e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão… Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.

Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à “teimosia talmúdica”. Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.

Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica - um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.

Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: Calvinus Judaizans. Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.

*BARON, Salo. João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu. 1974. São Paulo: Editora Perspectiva.