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Judeus e cristãos novos em Portugal e no Brasil [com indicação de curso]

13 Maio, 2008

O Laboratório de Estudos sobre Tolerância (LEI), da USP, disponibiliza, através do portal Rumo à Tolerância, o curso on line (no Moodle) Inquisição e Intolerância na Península Ibérica e no Brasil (2008.). O curso é gratuito, e conta com professores e pesquisadores da USP envolvidos na ampla pesquisa sobre a herança dos bnei anussim, ou marranos, em Portugal e no Brasil.

Muita gente não sabe, mas o Brasil foi formado (naquela parte portuguesa ou européia de nossa identidade étnica ou cultural) por judeus que foram forçados a se converterem ao catolicismo na Península Ibérica no final do século XV e início do XVI. Calcula-se que havia pelo menos 200.000 judeus em Portugal na época das conversões forçadas, até a expulsão em 1497. Os que não tiveram condições de emigrar (houve um fluxo de emigração principalmente para a Holanda), permaneceram em solo português, muitos deles praticando a religião judaica clandestinamente.

Esses judeus convertidos ficaram conhecidos como cristãos novos (ou cristianos nuevos, ou ainda batizados em pé, por receberem batismo já adultos), e em termos hebraicos como anussim, que quer dizer “forçados”. Seus descendetes, portanto, são os bnei anussim, os filhos dos forçados. Quando a Igreja na Península Ibérica percebeu que a conversão dos judeus não era sincera (e como poderia ser?), estabeleceu-se o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, que tinha como missão monitorar os cristãos novos e as atividades judaizantes.

Fugindo da Inquisição e seus terrores, muitos cripto-judeus portugueses e espanhóis vieram para as colônias na América, sobretudo para o Brasil. Pra se ter uma idéia, das treze naus da esquadra de Cabral, quando chegou ao Brasil, onze delas tinham (supõe-se) capitães cristãos novos. As capitanias hereditárias, uma espécie de Parceria Público Privada da época, foram arrendadas principalmente por empreendedores de origem judaica, que também foram os primeiros investidores na florescente e próspera indústria do açúcar, e quase todos os bandeirantes eram também cristãos novos.

De fato, aquilo que chamamos de “elemento português” na formação do Brasil é, na verdade, um elemento judeu, de um tipo muito específico (o judeu forçado à converção ao catolicismo). Isso, entre outras coisas, que dizer que muitos brasileiros são descendentes de judeus perseguidos pela Inquisição.

Então, é fundamental, para entendermos nossa herança e formação, resgatar essa história e bem compreendê-la. A iniciativa da professora Anita Novinsky e do LEI são, portanto, de grande valia. Segue abaixo a ementa do curso.

A conversão forçada de todos os judeus em Portugal ao catolicismo (1497), iniciou a era dos cristãos novos, também conhecidos como “conversos” ou “marranos”. Interesses econômicos, apoiados no fato de que muitos convertidos seguiam a religião judaica em segredo, levaram à criação do Tribunal do “Santo” Ofício da Inquisição, em Portugal no ano de 1536, que teve a duração de perto de três séculos. Portugueses e brasileiros de origens judaicas sofreram perseguições, confiscos e humilhações. Poetas, mulheres, homens ilustres, em Portugal e no Brasil, perderam suas vidas, num processo anti-semita, que afetou todas as instituições da época, inclusive a Companhia de Jesus, e cujas conseqüências se fizeram sentir na época, como no Brasil de hoje.

Dell e Canonical no Brasil: uma explosão de Linux?

9 Abril, 2008

Procurando por relatos de usuários que instalaram Ubuntu Gutsy em laptops Dell Vostro 1000 (é, estava olhando no site, o preço até quinta-feira é bom, R$ 1.400,00), o Google (oh, oráculo hodierno!) me sugeriu uma notícia interessante: a Canonical e a Dell anunciaram que em breve serão ofertados laptops com Ubuntu pré-instalado, ou seja, OEM, no mercado brasileiro (veja aqui, aqui e aqui). De fato, isso só foi possível porque a Canonical vai dar suporte local no Brasil, assegurando à Dell, e outras empresas, que seus clientes terão cobertura técnica para o Sistema Operacional.

Como muita gente comentou na web, o estabelecimento da Canonical no Brasil vem tarde, ainda que muito bem vindo. Nas estatísticas do site, os brasileiros fazem cerca de 50.000 downloads do Ubuntu por mês, o sexto país no rank (isso sem contar com outros tantos linuxers que utilizam outras distros mas se interessariam por uma máquina portando Ubuntu OEM), sem falar no restante da América Latina. Isso me faz lembrar do comentário do Dr. Michel Xhaard (que compilou drivers para mais de 230 câmeras antes não suportadas no Linux), de que a maior parte dos grandes desenvolvedores não está interessada no usuário final, como eu e você (dependendo, claro, de quem você seja). Essa demora em se estabelecer em mercados emergentes e com potencial fora do eixo Japão/Coréia-Europa-EUA/Canadá me assusta: piratear mídias tem jeito, mas suporte, não! A Canonical andou a marcar touca, e o Linux andou em apuros.

Sim, porque na onda do PC para todos e da MP “do bem” muitas empresas passaram a oferecer máquinas rodando Linux e software livre, mas para reduzir custos e contar com os incentivos do Estado. O que eu vejo é um desfile tosco de versões deselegantes (no mínimo) criadas pelas próprias empresas ou parceiros obscuros: um tal Einstein, outro Librix, e “customizações” mal feitas e descontinuadas no desenvolvimento e, como de se esperar, sem suporte adequado. Cheguei a ver um HP rodando Mandriva num shopping em Belo Horizonte, e mesmo Kurumin, o que é um bom sinal, mas não me parece ser a norma. Penso que os fabricantes e montadores percebem o Linux apenas como um modo de baratearem o produto e passarem a responsabilidade de instalar uma cópia pirata do XP® ou Vista® (onde, onde?) para o consumidor classe C ou D, num acordo silencioso do tipo “eu não sei e você não diz”.

O resultado é que para muitas pessoas (justamente as mais pobres e com menor acesso a informações), Linux é “aquele negócio difícil que não funciona” que é substituído pelo Windows® por um primo que “manja de computador”; ou então, para as parcelas das classes A e B que insistem em se manter desinformadas, vira sinônimo de produto desqualificado.

Contudo, uma empresa do porte da Dell, considerada uma grife, oferecendo produtos com qualidade de design e hardware rodando Ubuntu, a situação é muito diferente. Em sociologia temos o conceito de “corrente de imitação” que explica como um comportamento é disseminado num coletivo, e em sociedades de especialistas como a nossa, os não-especialistas (também conhecidos como jacus ou clueless) se fiam no comportamento dos entendedores, no presente caso, geeks e profissionais usuários de tecnologia (como executivos, consultores, designers, publicitários, etc.) para basearem sua escolha. Ora, já é normal ver geeks usando GNU/Linux, mas isso aliado com distros amigáveis, influencia profissionais de outras áreas que querem qualidade, produtividade e segurança, que, por sua vez, influenciam outros usuários.

O suporte da Canonical e a oferta do produto pela Dell são fundamentais para a ampliação desse segundo passo (profissionais » jacus, como eu), e pode abrir um novo mercado para o Linux. Novo mercado porque o Ubuntu 8.04 pode ser um concorrente real em temos mercadológicos para o Windows® (que já está batido tecnicamente), passando a disputar o nicho desktop, muito diferente e mais “enjoado” que o nicho enterprise. Fora que um Inspiron 1525 com Vista custa entre R$ 1.800,00 e R$ 2.000,00 (versão padrão) - com Ubuntu e o mesmo hardware (tudo Intel) pode sair por alguma coisa entre R$ 1.500,00 e R$ 1.800,00, ou ainda menos na linha Vostro. Imagine adquirir um Dell por esse preço! Agora imagine adquirir um Dell a esse preço e rodando Ubuntu… aiai.

Liguei para o 0800 da Dell no Brasil para saber quando teremos um laptop com Ubuntu, mas ninguém sequer sabia disso… No final, mais do que desejar que aconteça logo, espero que aconteça de fato. Por enquanto vou pensando no meu Eee PC 700, e está de bom tamanho (quer dizer, nem tanto…).

Notas sobre a questão agrária - por um leigo

3 Setembro, 2007

Um dos problemas dos movimentos de esquerda (ou, afinal, das grandes correntes e movimentos políticos) é sua tendência de criação de grandes propostas e agremiações totalizantes, que querem reunir sobre si todos os elementos interessados em certa questão, criando a ilusão que todos os componentes e agentes formam uma grande massa monolítica de opinião uniforme. Para tanto, é preciso subsumir as clivagens, as preferências discordantes, os grupos dentro do grupo, calar as alternativas e criar a noção e sensação em cada componente de que a única forma viável, correta e possível e a que lhes é apresentada (ou imposta) por uma “ala majoritária” (não creio foi sem propósito que José Dirceu e os seus tenham escolhido - ou ganhado - essa designação dentro do PT).

Apesar de crer que em certos momentos a coesão é necessária para a sobrevivência ou superação de um certo momento histórico ou questão crucial - como aconteceu nos governos de coalizão para momentos críticos na Inglaterra -, isso não tira o direito do cidadão de discordar, avaliar e expressar posição contrária. É inadmissível que se silencie grupos, preferências, e opiniões numa caudalosa e barulhenta propaganda e mecanismos de isolamento (não é à toa que tanto se ouve falar de personagens da esquerda que, em dado momento da “revolução”, são ostracizados, caindo no limbo). A estratégia do cinto ideológico que reúne os indivíduos, usurpando-lhes a iniciativa e agência, para a formação de um leviatã supra e super pessoal é a pior alternativa, se não a mias demoníaca.

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A questão agrária no Brasil, ao que me parece, padece do mesmo problema. Perceba que não quis me valer de pronto do termo reforma agrária exatamente pelo fato da questão agrária não se limitar a reformas e compartilhamento ou redistribuição de terras. Dentro do movimento, que, como tentei prefaciar, não é uno, único, e coerente (ou seja, unívoco) existem questões de regularização agrária, resolução de conflitos, questões de ordem trabalhista e, claro, reforma.

Existem milhões de posseiros e colonos no Brasil que cultivam e trabalham em terra a várias gerações das quais não são legalmente proprietários, nem delas podem dispor e têm seu futuro atrelado à incerteza da vontade de uma figura cada vez ausente - o latifundiário que por agora pensa nos muitos cifrões do agronegócio e nas chamadas opções verdes de combustível.

Existem milhares (se não, novamente, milhões) de agricultores que ocupam terras das quais não possuem títulos de posse e sofrem pressões e ameaças de grileiros e esperam pela justiça que lhe entregaria as escrituras. Trabalhadores do campo que não recebem seus direitos trabalhistas, e nós os vemos vez em quando nos telejornais quando algum fiscal do Ministério do Trabalho faz seu trabalho, flagra e autua fazendeiros que se valem da exploração de trabalho semi-escravo.

Nas cidades e em suas favelas, outra miríade originária do campo, personagem do êxodo rural brasileiro (um dos maiores da história) se amontoam na semi-urbanidade, desiludidos do sonho industrial e citadino, a quem se apresenta a possibilidade de retornar para o interior.

Para essas tragédias, que são diversas e de natureza distintas, não há uma solução única. Há questões e características regionais, econômicas, políticas e morais que fragmentam esse falso monolito e exigem tratamento diferenciado. Como tudo por aqui, no Brasil, que seja mais complicado que um binômio é esquecido na máquina burocrática atolada na lama da má vontade política, a solução do super-funcionário brasiliense é tomar o gigante verde-louro como igual em tudo e todos os lugares, propondo uma solução que só dá certo no Reino da Sandice (não muito longe de Inverídia).

Por outro lado, movimentos da esquerda revolucionária sem tanta sofisticação gramsciana solapam e fagocitam os movimentos regionais, menores e atentos às especificidades locais, reunindo toda a massa em torno de usa bandeira, hasteada no poste mais alto e tomada por única existente e possível. E isso transcende a realidade e consciência dos agentes envolvidos diretamente na questão: na cidadão comum, que assiste ao Jornal Nacional, a questão agrária se confunde com reforma agrária e seu representante único é o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A unificação dos discursos é a condição necessária para a polarização binária do conflito, para o acirramento das preferências que leva ao inevitável conflito. Sendo que o pequeno burguês geralmente é um otário sonâmbulo que cede sua liberdade a um governo totalitário desde que prometa livrá-lo das ameaças, e o pobre camponês foi a classe (num sentido menos marxista, substitua “classe” por “tipo”, se quiser, que a gente se entende) mais sofrida com a revolução industrial (o trabalhador industrial urbano obteve melhorias se tomarmos períodos maiores, e a constatação estatística do aumento da renda do operário foi um problema que Marx contornou com a fraude dos dados expostos n’O Capital), não me parece fortuito o fato dos países com maior população rural do mundo terem instalado regimes comunistas (Rússia e China), enquanto os países industrializados, com sindicatos mais atentos e politizados (com aquele tipo interessante, o burocrata do partido ou do sindicato que se enquadrou na cultura pequeno burguesa) conseguiram equalizar diferenças salariais e melhorias sem abrir mão da economia de mercado e da democracia multi-partidária.

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É preciso estilhaçar os monolitos, esses construtos ideológicos irreais e mentirosos, demonstrar os diferentes ambientes e problemas para desmontar o uso desse problema real e urgente de justiça para projetos partidários, revolucionários ou que quer que sejam.

Sobretudo, acredito na opção pelo pobre, e por uma questão de justiça, é preciso um esforço político e moral para solucionar o problema da questão agrária, sem recorrer à vitimização, mas sem esconder ou minorar os fatos de opressão, violência e demais tragédias, com adequação econômica, mas sem esquecer a justa medida e solidariedade com o fraco (sim, eles existem).

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Este post foi motivado pelo filme (não creio que possa chamá-lo de documentário, por questões técnicas) de Tetê Moraes, “O sonho de Rose” (Brasil, 1996/2000), tratando dos desdobramentos do caso de Rose, sem-terra (casada, mãe de três filhos) que morreu atropelada (supostamente morta intencionalmente) durante a luta de acampados do MST na fazenda Annonni, no Rio Grande do Sul, em 1985 - em 87, Moraes dirigiu “Terra para Rose”, sobre a ocupação, o confronto com a polícia e a morte de Rose.

Em entrevistas muito interessantes com a família de Rose, sua situação dez anos depois da tragédia, e com as lideranças do movimento, antigos companheiros de ocupação, que são confrontados com suas afirmações anteriores e atual condição. Sem querer antecipar o filme, creio que muitos aspectos e contradições da questão agrária e do MST (e outros movimentos atuantes no campo) ficam muito claros.

O filme foi exibido ontem (Domingo) no programa Cadernos de Cinema, da TVE. Mesmo não sendo uma obra-prima do cinema, proporciona boas reflexões, como espero ter sido o caso aqui. Se puder, assista.