Posts Tagged ‘Calvinismo’

Sobre Alatriste

25 Março, 2008

Fiquei curioso por conta de uma nota no Rua da Judiaria sobre o filme Alatriste, produção espanhola estrelada por Viggo “Aragorn” Mortensen [nota: esse sujeito fez um dos diabos mais interessantes do cinema em Anjos Rebeldes (The Prophecy), longe do estereótipo do demônio libidinoso; sua primeira fala nesse filme, quando um personagem pergunta "você é Deus?", é: "Se eu sou Deus? Deus é amor, e eu não amo você". E vai levar tempo para que deixe de ser Aragorn - uma das escolhas mais acertadas de Peter Jackson para a trilogia "O Senhor dos Anéis"; e não é muito difícil de perceber alguma similaridade entre os personagens que interpretou em Hidalgo e Marcas da Violência e Aragorn: todos eles guardam uma dignidade tímida, resistente, que fica ainda mais acentuada em sua caracterização do capitão Diego Alatriste].

Apesar de Viggo Mortensen não ser a preocupação desse post, ele é importante porque seu personagem representa muito bem o declínio do Império Espanhol e sua agonia ainda no século XVII. Os reis católicos de Espanha depredaram as bases que os ergueram à altura de senhores da Europa e de boa parte do mundo, que havia se desdobrado em nova extensão: expulsaram os judeus em 1492, o mesmo ano em que um provável judeu espanhol radicado numa república italiana chegava à América (sim, Colombo - não se iluda com o nome Cristóvão) e se engajaram em guerras de religião. Forçou que Portugal, que recebera os judeus banidos, também os expulsasse ou os forçasse o batismo. Muitos forçados deram origem à tragédia dos cristãos-novos e marranos (cripto-judeus), outros tantos se dirigiram a outras paragens, como Holanda, Alemanha, Polônia e Lituânia.

Os judeus portugueses, apesar de tudo, prosperaram em outras terras, encontrando mais tolerância em “terras hereges”, como se referiam os espanhóis aos países protestantes, como a Holanda. E é curioso que dominando das Filipinas ao Chile, passando pela África, os espanhóis tenham encontrado a mais ferrenha resistência no Flandres, onde católicos e protestantes se engalfinharam em meio a sangue e lama: ali começa a derrocada de Espanha e de um certo mundo católico na Europa.

Alatriste dá um bom panorama da época, a partir do ponto de vista peculiar de um soldado/mercenário cheio de honra e altivez, mas plebeu e pobre, a mercê das vagas de poderes muito maiores que ele. Igreja, nobreza, Coroa, côrte: tudo tão complicado, melindroso, alheio ao mundo ordinário… demais para um homem com o mínimo de princípios, mesmo não sendo um santo.

Um ponto em particular, pontual mas emocionante para quem conhece a história, são as menções aos portugueses no século XVII: todos “meio judeus”. O personagem Luiz Pereira é um português cuja família é presa pela Inquisição enquanto ele lutava pela Espanha Católica em Breda. Aterrorizado, Luiz prefere a morte aos flagelos e interrogatórios do Tribunal do Santo Ofício.

Jom Tov Azulay (irmão do Daniel Azualy, que ensinava desenhos na televisão) dirigiu o belíssimo “o Judeu”, que conta a história de Antônio José da Silva, cristão-novo português nascido no Brasil e supliciado em Lisboa no século XVIII. Um filme inteiro sobre isso que Alatriste menciona.

[nota: esse post está mal escrito, desestruturado e confuso não por acasa, foi escrito na madrugada gotejando sono - queria manter o compromisso de um artigo(zinho) ou nota por dia. Deu no que deu...]

Calvino e os Judeus - I

30 Agosto, 2007

A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os shtetl) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.

Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios - e como tudo o que é “os outros” é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a “questão judaica”. Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos - vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.

Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois “tipos”: os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha - a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado… o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de Dos judeus e suas mentiras.

O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.

Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus - estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da “reformada” Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.

A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse “insumos empíricos”. Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com “gramatical” e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão… Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.

Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à “teimosia talmúdica”. Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.

Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica - um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.

Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: Calvinus Judaizans. Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.

*BARON, Salo. João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu. 1974. São Paulo: Editora Perspectiva.