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Sobre a trilogia Bourne

10 Abril, 2008

Terminei de assistir a trilogia Bourne (a Identidade, a Supremacia e o Ultimato) e cheguei a uma conclusão que não tem nada de genial, mas não deixa de ser interessante de certa forma. Os filmes clássicos de espionagem, como a série 007, eram “fáceis”: o mundo estava dividido em dois blocos bem distintos, americanos e soviéticos, mocinhos e bandidos, e alguns milionários esdrúxulos que queriam construir uma nova arca de Noé espacial ou bizarrices do gênero - não é à toa que Austin Powers precisa se esforçar muito pouco para fazer uma boa paródia. Nesse contexto geral, era só jogar alguma maquiagem: lindas garotas (ah, as bondgirls…), treconologia (aquelas geringonças absolutamente irreais) e cenas de luta com coreografia de National Kid e tínhamos uma ótima sessão da tarde.

Mas isso não é, na verdade, uma censura ao agente britânico; de alguma maneira o mundo era assim, quer dizer, na cabeça das pessoas era mais ou menos daquele jeito. A televisão anunciava produtos deselegantes que nem de longe conseguiam realizar o otimismo tecnológico que acompanhava a corrida espacial e a energia atômica; a revolução sexual e o feminismo dividiam (disputavam - e perdiam) espaço com o herói masculino clássico (meudeusdocéu!, como espiãs e “bandidas” se deixavam levar tão facilmente pra cama e se tornavam tão frágeis de repente?); e enquanto os inimigos eram fardados, metidos em bases em cavernas submarinas ou orbitais, Bond era um canastrão que se virava com um relógio com “serrinha” giratória, uma pequena arma e um Jaguar - o confronto era de estilos.

Com o fim da União Soviética, o mundo se pulverizou em uma miríade de atores e interesses altamente flexíveis: e a China e o Iran não são oponentes à altura de James Bond - eles não dão espaço para estilo, o máximo que podem oferecer são bondgirls de beleza exótica; nem o espectador acredita em dicotomias simples, afinal ele compra produtos chineses e possivelmente acha que o Iran tem o direito de desenvolver tecnologia nuclear para “fins pacíficos”. O que faz sentido para nós, hoje, são as luta internas; com o fim do bloco comunista, o que resta são inúmeras agências que agora representam grupos de interesse distintos e variados que não são identificáveis nem unificados sequer dentro do mesmo governo nacional, e que lutam entre si por influência e poder.

Por isso Bourne faz sentido. Quer dizer, faz e não faz: faz porque a trama se passa dentro de disputas e conspirações na CIA e NSA, na disputa de grupos internos, em projetos e pesquisas obscuros e ilegais; e não faz porque dá um nó na cabeça de quem está assistindo - como na realidade acontece mesmo. O cenário da nossa ficção (quer dizer, da nossa realidade) não é mais do confronto entre soviéticos e americanos, mas da conspiração pura, da absoluta falta de parâmetros para identificar os inimigos; tudo é contido numa zona cinza dúbia e amoral.

Jason Bourne/David Webb não tem estilo, tem instinto - é quase uma máquina, uma arma. Sua relação com as mulheres não proporciona pares românticos, apenas nos dão um índice de sua condição: seu olhar é tímido, vexado, sua libido, contida. Está seguro e firme somente quando a ação e adrenalina alcançam o ápice: quando está em ação, acionado. Bourne não quer vingança, não quer revanche, não quer riqueza, fama, ou mesmo sossego: ele quer uma razão, uma explicação, o início.

E quando descobre a razão, o início, descobre que, de alguma maneira, Webb, que fora ele mesmo, escolhera se tornar Bourne - o mundo desordenado começou pela fragmentação de sua própria personalidade para torná-lo uma arma eficiente nas mãos da agência e do país. “Você salvará muitas vidas americanas” lhe disseram, acabando com outras, e sem saber quem ou por quê. O problema nem é tanto esse, mas ter saído de controle. Nesse ponto, Bourne tem um precursor no John Rambo de “Programado para Matar”: uma arma perfeita que quando fora de contexto e tendo que lidar com situações adversas se torna um problema para seus superiores/criadores.

Rambo teve sobrevida na era Reagen/Bush/Bush Jr.; espero que Bourne continue dado como morto.