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Resposta a um anti-sionista

9 Maio, 2008

Quando escrevi o post passado, sobre os 60 anos de Israel, eu esperava algum comentário que demonstrasse “repulsa”, “vergonha” ou “recusa” quanto às minhas palavras, e à própria celebração da existência do Estado de Israel. Também esperava que tivesse que me posicionar com clareza, então, faço-o (mais uma vez): eu sou sionista. Acredito e defendo o direito de uma pátria nacional judaica naquele território chamado por alguns de Palestina histórica. Sou também um seguidor da Torá, que assegura direitos ao estrangeiro como nenhum outro documento no mundo, anterior, contemporâneo ou posterior. Portanto, nas palavras do Rabino Shulam: os árabes podem não ter direito à Terra, mas têm diretos na Terra. Isso quer dizer que sou a favor da reconciliação, da paz e dos direitos de árabes e palestinos - direitos já assegurados aos que são cidadãos israelenses (veja essa reportagem da BBC - que definitivamente não é Sionista ou pró-Israel).

Um certo leitor deste blog, chamado gabriel, escreveu o seguinte comentário a respeito do post e seu conteúdo:

Mesmo com todo o respeito e admiração que tenho pelo povo e pela cultura judaica, ainda assim não consigo esconder a repulsa que sinto pelo grupo judaico-sionista. É estranho como estes não percebem que o mesmo mote que os move, é também o de atuais seus agressores: a legitimação divina.

Movidos por uma premissa tão distante da racionalidade necessária para o entendimento entre culturas, é difícil distinguir qualquer um dos lados como agressor ou agredido. E o que dizer de definir aquele que seria o “verdadeiro grupo escolhido dos céus”, como se coubesse tamanho despautério na diplomacia contemporânea. Mas pelo visto, não sendo estruturada no racionalmente plausível, a tal disputa só resta o caminho da guerra. E enquanto houver grupos que baseiam demarcações territoriais - ou quaisquer intentos que caibam apenas no campo da legalidade terrena - em determinações divinas, haverá conflitos e mortes em consequência.

Vale ressaltar, que aqueles que servem de guias e propagadores dos embustes sionistas (aí incluso o autor deste post) têm tanta culpa por cada cadáver no solo de Israel quanto os terroristas, que não passam de mais uma instância nesta cadeia.

Com premissas tão próximas me pergunto: como um sionista se distingue de um homem-bomba, tendo em vista a legitimidade de suas motivações?

Gostaria de responder ao gabriel, mas de forma não específica, porque ele se parece mais com um leitor genérico, ou seja, reproduz aqui uma série de erros e definições no mínimo equivocadas  - o que não lhe retira o direito de opinião e posicionamento, mas pede que arque com o ônus de exprimí-la publicamente (como eu também faço) e em blog alheio (o que não é um problema, aliás, qualquer um é bem vindo a ler e opinar aqui…).

Vejamos então o que um típico anti-sionista, cheio de sensibilidades e incapaz de fazer distinções pensa, e onde entendo que erra.

Primeiro, o sionismo não é um movimento religioso. Ele tem uma expressão religiosa entre os religiosos que são sionistas e representam suas crenças e legitimação em seu campo de interpretação da realidade a partir da exegese do texto sagrado por seus sábios. Mas qualquer um que se disponha a estudar a história do Sionismo sabe que o movimento é fundamentalmente secular. Theodor Herzl, pai do Sionismo, era um jornalista judeu austro-húngaro assimilado, que ao cobrir o Affaire Dreyfus na iluminada França viu que mesmo ali o “problema judaico” permanecia, assim como nos países menos avançados em termos democráticos e em tolerância; em qualquer lugar, viu Herzl, onde houver judeus, haverá anti-semitismo. A única forma de resolução para a  questão judaica, era a constituição de um lar nacional judeu.

Ora, onde está, em Herzl, a busca ou uso de “legitimação divina”? Ou, ainda mais explícito, o caso do proto-sionista Moses Hess - um comunista secularista que vui a eclosão de anti-semitismo no que seria a Alemanha dali a pouco tempo. Mesmo retornando ao Judaísmo, o fez na forma “panteísta de Espinoza”… francamente, muito distante de qualquer ortodoxia judaica, e muito mais uma doutrina filosófica que exatamente religiosa.

David Ben-Gurion, o pai do Estado de Israel propriamente dito, ainda que defendendo um lar judaico, estabeleceu as bases do estado em características seculares (desde sua definição do que é um judeu, profundamente diferente da definição rabínica tradicional), e desafiou a ortodoxia judaica (curiosamente, o uso da Estrela de David ao invés de uma menorá é uma provocação aos religiosos).

Contudo, isso não exclui os matizes religiosos do Sionismo, que existem e são bastante influentes tanto em Israel como na Diáspora. E isso me leva ao segunto problema do raciocínio anti-sionista representado acima.

A menos que gabriel seja um positivista ou pitagórico, acredito que em todas as vezes que usa a palavra racionalidade queira dizer secular ou secularidade, ou seja, que para tornar plausível e haver entendimento entre disputas e conflitos, no caso, internacionais, é preciso que todos os envolvidos se abstenham de seus pressupostos não-racionais. É a velha ladainha de Westphalia: retiramos a religião das questões, e os conflitos se acabam (ou são mais facilmente resolúveis). Isso não deu certo com os Estados Nacionais, não funcionou com os Estados laicos - e toda a paz que se conseguiu na Europa, se conseguiu com os Estados Protestantes ou por ação dos protestantes reformados.

Portanto, as demandas religiosas podem não ser redutíveis a fórmulas racionais - mas isso não as torna menos relevantes. Nem retirá-las da mesa de negociação tornou as coisas mais fáceis. Contudo, é possível pensar em pressupostos religiosos ou teológicos que facilitem o debate e a paz ou que conduzam unicamente ao conflito e guerra. E nesses termos, a posição árabe-muçulmana é mais complicada: todo território que já foi conquistado pelo Islam é do Islam, e se porventura caiu nas mãos dos infiéis, é dever do muçulmano recuperá-la. Isso torna a mesa de negociações e o direito internacional ocidental inviável.

O Estado de Israel foi fundado com a aprovação de uma entidade reconhecida inclusive pelos que tiveram o voto vencido - e o não reconhecimento da resolução é o mesmo que rejeitar a legitimidade da entidade. Se os árabes reconhecem a ONU e hoje usam a resolução 181 para que Israel retorne às fronteiras determinadas pelo documento, precisam reconhecer o direito de existência de Israel. O que, definitivamente, não querem fazer. Israel ampliou suas fronteiras em ‘48, ‘53 e ‘67 em guerras de agressão iniciadas pelos países árabes (Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque), e as anexações estão previstas na Convenção de Genebra - todo país agredido tem direito de anexar áreas estratégicas para sua defesa enquanto estiver ameaçado.

Quanto ao problema da distinção entre gressores e agredidos, basta a todo anti-sionista, ou qualquer um interessado no embasamento das coisas, ler o White Paper, relatório britânico durante o Mandato da Palestina, que descreve o que a população árabe fez aos judeus refugiados na Palestina. Basta que se estude e ouça os arquivos de audio de rádios e de jornais árabes na época. Basta ver quem iniciou o ataque em maio de ‘48, ‘53, ‘67, ‘73…

Basta olhar a vida de um árabe cidadão israelense, ou um druso, ou um bérbere, ou um samaritano, ou um cristão sírio, maronita, grego ou romano em Israel. E depois compara com o que passa cada uma dessas pessoas em territórios árabes. Tente um gabriel da vida tentar cidania israelense (o que fará como em qualquer outro país democrático) e no Egito… somente tente.

Se gabriel não consegue, ainda, distinguir entre um sionista e um homem-bomba em termos de premissas e finalidades, eu vou tentar ajudar. Um sionista tenta estabelecer um Estado em bases democráticas, e é confrontado com vontades contrárias que intentam o extermínio do povo judeu “empurrando-os para o mar”. Um sionista combate soldados em termos militares, um homem-bomba explode crianças, jovens em bares, religiosos em sinagogas, trabalhadores em ônibus.

Por fim, em termos religiosos, não há que se definir o verdadeiro povo escolhido; em termos religiosos isso já está estabelecido, de maneira distinta, claro, em cada fé. Mas é curioso notar que há também uma religião secular, a qual gabriel parece professar, que estabelece a culpa pela presença de idéias teo-referentes. E esse tipo de coisa terminou no Terror na França e nos gulags soviéticos.

Embuste, me parece, é esconder desinformação num discurso cheio de sensibilidades… francamente, quem não sabe distinguir, que não emita juízo - e olha que quem disse isso foi um racionalista: Descartes.

E se o Iran for abertamente ameaçado?

16 Abril, 2008

Se os Estados Unidos fizerem uma declaração aberta de que atacarão o Iran, o que pode acontecer? Já se especulava que após a invasão do Iraque, os americanos entrariam num ciclo longo de intervenções militares na região, numa cadeia de crises com interesses regionais. Os alvos mais prováveis seriam a Síria, que é governada pelo partido Baath, o mesmo de Saddam, e que possui armas biológicas e químicas, ou o Iran, que tem um presidente esquentado e um programa nuclear suspeito, além de finandicar, armar e terinar grupos terroristas, como o Hizbollah. Muita gente, inclusive eu, se perguntou por que os EUA, ja que aleganva ameaças, não atacaram a Coréia do Norte que quase certamente controla ogivas nucleares, e mesmo que não tenha está muito bem servida com armamentos convencionais e um milhão de soldados (o maior contingente do mundo, acho).

A resposta para essa pergunta ajuda a entender o ataque ao Iraque. Não atacaram a Coréia porque não é necessário - o regime comunista norte-coreano já se incumbiu de destruir o país. A miséria é a realidade da maior parte da população, seguida dos males mais imediatos de um regime fechado: subnutrição e doenças causada pela falta de gêneros alimentícios e medicamentos. A posição irredutivelmente fechada de Pyongyang vai-lhe custando o próprio povo. A maior preocupação seria com os vizinhos Coréia do Sul e Japão, mas a presença militar americana na região é forte. Os norte-coreanos não passam de marimbondos bravos - poem causar alguma dor, mas só isso.

O Oriente Médio, ao contrário, guarda energia. Muita energia. Energia que a China precisa em quantidades galopantemente maiores, podendo pagar por isso; o que significa altos montantes nas mãos de regimes com anseios belicosos - clientela para os russos e suas armas de baixo custo e larga produção. Caso os americanos atacassem o Iran isso incitaria os chineses a se moverem para proteger reservas de energia de seu interesse na região, sobretudo depois de ter firmado acordos com os iranianos. Os russo por sua vez, veriam nessa situação uma ótima oportunidade de, solidarizando-se com o Iran, se oporem aos EUA, numa tentativa de se impor novamente a partir de uma posição de influência na Ásia antagônica a Washington.

Não me parece fortuito que McCain, candidato Republicano, tenha sugerido excluir a Rússia do G8. O fato é que mais que colaborar ou “jogar” com os americanos e europeus, os russos estão consolidando apoio e influência na Ásia, o que vem acontecendo através do SCO - Shanghai Cooperation Organisation - que aparentemente é de cunho econômico e tecnológico, mas vai demonstrando seu real propósito de formação de um grupo, um outro pólo, na Ásia e leste europeu. Reunindo a Rússia e satélites, e China, a solidariedade de Shanghai urge por se estender ao Iran, Índia e Paquistão. A Índia estaria interessada somente na cooperação econômica e tecnológica e provavelmente resistira aderir ao grupo à medida em que as pretensões militares fiquem evidentes - ainda que mais tarde possa integrar-se.

Pode acontecer que uma ameaça clara de ataque ao Iran antecipe esforços de fortalecimento do grupo, e a própria inclusão da República Islâmica. Pode também provocar um volume crítico de tensão entre China, Rússia e EUA, todos membros do Conselho de Segurança da ONU - o que também pode acontecer se os dois primeiros apoiarem a indicação de um membro islâmico para o conselho, como quer Ahmadinejad.

Ameça aberta certamente aumentará a apreensão entre Israel e os vizinho árabes - como um aliado local dos EUA, Israel pode se tornar, como na Guerra do Golfo I, um saco de pancadas para árabes e muçulmanos. O problema é que agora os ataques podem ser mais ferozes e a reação israelense mais agressiva.

O ciclo de intervenções militares americanas no Oriente Médio já ultrapassou níveis estratosféricos em termos de gastos. Um novo ataque a outro país aumentaria os valores requisitados ao congresso num momento de séria recessão econômica nos EUA; com a proximidade das eleições presidenciais e. em seguida, eleições parlamentares, pode ser politicamente muito custoso manter esse nível de presença militar ativa. Simultaneamente, grupos terroristas radicais islâmicos podem intensificar suas atividades numa nova onda de atentados no Ocidente, “punindo” países que apoiarem os americanos - pressionando ainda mais a opinião pública contra a atuação americana na política internacional.

Parece ser uma sinuca: retirar as tropas do Iraque pode ser o suficiente para uma explosão de violência na região e a formação de uma nova república islâmica, como o Iran (shiita) ou o Afeganistão Taleban (sunita). Por outro lado, manter as tropas implica em estabilizar a situação - o que não é possível sem aplicar duros golpes aos financiadores/incitadores do caos no Iraque. Retirada ou intensificação podem significa, por vias diversas, o aumento da influência da China e Rússia entre os países da região, o que inevitavelmente retrairia os americanos.

De fato, é uma forca.

O ataque ao Iran e o cenário no Oriente Médio

15 Abril, 2008

Ao que tudo indica, os EUA estão preparando um ataque ao Iran. O que ainda não parece estar decidido, ou claro, é quando (antes ou depois das eleições para presidente?), e em que escala (somente às conhecidas instalações nucleares, ou também às instalações militares?). Jim Meyers (Newsmax) aponta a visita de Dick Cheney a vários países do Oriente Médio (aliados: Israel, Arábia Saudita, Turquia e Oman) como preparativos diplomáticos e estratégicos e, ainda segundo a Newsmax, os sauditas já tomam providencia para o impacto radioativo resultante do ataque às instalações nucleares iranianas.

Há outros problemas a serem resolvidos: altas patentes militares americanas discordam quanto ao problema iraniano; o Marechal Fallon pediu afastamento do comando americano no Oriente Médio por discordar da política da administração Bush, e “para não estar lá quando a ordem de ataque à República Islâmica for dada”. Por outro lado, a situação no Iraque não pode avançar sem que se detenha o apoio e financiamento iraniano às milícias xiitas - certamente que isso pode ser feito por outros meios, mas uma atitude se faz necessária.

Outras questões estratégicas dizem respeito ao alvo primário da retaliação iraniana, Israel; e o apoio que o Iran receberia de aliados e parceiros. De fato, ainda que Israel não participe diretamente dos ataques (e, na verdade, poderia lançar sozinho uma operação cirúrgica, como fez no Iraque nos anos 80) sofrerá ataques imediatos tanto do Iran, quanto provavelmente da Síria. O mais provável é que os ataques sejam feitos com armas biológicas e/ou químicas (que a Síria com certeza possui), e o exército israelense realizou recentemente o maior exercício militar de sua história prevendo este cenário. O Hizbollah, que é financiado, equipado e treinado pelo Iran, já anunciou que está pronto para atacar Israel simultaneamente por terra e com os mísseis de curto/médio alcance russos/iranianos.

Um ataque à Republica Islâmica também é complexo quanto às movimentações que pode provocar no cenário asiático. China e Rússia têm acordos comerciais e tecnológicos com os iranianos, que na verdade camuflam cooperação militar - obviamente que a última coisa que os chineses querem fazer é deixar claras suas intenções pela formação de pactos militares. O conselho de segurança da ONU, portanto não será a agência legitimadora do ataque, resta saber onde os americanos encontrarão suporte internacional - possivelmente a França de Sarkozy ou mesmo os ingleses (OTAN?)

O Iran soma, agora, 9.000 centrífugas para enriquecimento de urânio, e a alegada intenção pacífica não tem sustentação tecnicamente (centrífugas podem produzir combustível para mover reatores ou para armamento nuclear), e muito menos nos discursos de Ahmadinejad. E se os americanos querem retirar suas tropas do Iraque precisam garantir estabilidade na região, ou diminuir as forças das lideranças locais anti-americanas que poderiam ocupar o vácuo. A generalização de um conflito no Oriente Médio pode ser evitado, mas é possível; e a maneira como o caso iraniano for resolvido será crucial para o desenvolvimento do cenário.

Mosquitos e elefantes

28 Fevereiro, 2008

Naquela faixa no topo da página do Gmail havia, hoje de manhã, uma notícia que me interessou: “especialista teme robôs assassinos“. O título não ajuda muito, porque faz parecer coisa de tablóide e profetas do apocalipse. Mas, de fato, o problema é preocupante. Uma das coisas mais impressionantes no desenvolvimento tecnológico é como o custo de produção cai do primeiro para o segundo exemplar. O primeiro grama de uma substância pode custar milhões e muitos anos em pesquisas; o segundo e seguintes, no entanto, saem por valores módicos, se não ínfimos. Outra comparação ainda mais ilustrativa é que num relógio digital made in China, que se compra em qualquer esquina por um real, contém mais tecnologia e capacidade de processamento que todo o equipamento presente na Apollo 11, que levou o homem à Lua em 1969.

Mas a maior dificuldade é esse salto tecnológico inicial, que exige uma grande quantidade de esforço e recursos. Quer dizer, sem os 1 bilhão (em valores atuais) investidos na Apollo 11, não teríamos relógios digitais chineses a 1 real na esquina, por assim dizer. Nos termos da indústria militar isso chega a ser aterrador: a arma preferida por terroristas, guerrilhas e 60 exércitos de países “periféricos” é a AK-47. Esse fuzil de assalto resistente já está out of date faz tempo, mas sua relação custo benefício é quase como a do nosso reloginho de camelô: um desses custa entre 30 e 120 dólares, uma bagatela. E vende como água, visto que demanda é o que não falta.

O grande medo de todo o mundo são as armas de destruição em massa, bombas atômicas. O salto tecnológico para dominar a produção de um artefato desses é penoso, e as potências militares que detêm a capacidade de produzí-los negam o acesso a outros países, que têm que arcar com todo o ciclo de desenvolvimento e pesquisa, que é dispendioso, como dissemos - e isso limita os sócios do clube nuclear. Contudo, como é mostrado com muita ironia em O Senhor das Armas, o maior mercado e a causa de maiores sofrimentos - as verdadeiras armas de destruição em massa, ainda que a conta-gotas - são coisas como a Kalashnikov.

O custo é relativamente baixo e o acesso é fácil e certo, e quanto mais se produz, mais barato fica. Não há um mercado de bombas atômicas - mas não é preciso. Mantêm-se as atenções nos elefantes voadores que podem aparecer, enquanto os marimbondos ferroam sem impecílios ou impedimento.

Como diz o professor Noel Sharkey, no artigo citado, o acesso aos componentes é cada vez mais fácil, e a tecnologia cada vez mais avançada. Se montar um avião não tripulado (drone) custa menos de 500 dólares, em breve montar um pequeno pelotão de robôs de assalto não será um problema. Vejamos um cenário possível: hoje o Hamas e o Hizbollah lançam foguetes caseiros contra cidades israelenses mais próximas, numa media de 3 foguetes/dia. Cada foguete sai a 100 dólares, sendo 300 dólares por dia. Esses mísseis têm alcance e precisão limitados, mas do jeito que as coisas vão, muito em breve, pelo mesmo preço, ou ainda menos, os terroristas terão em mãos artefatos mais precisos e mortais.

Segundo Lev Navrozov, desde o final dos anos 60 a Rússia abandonou as pesquisas em armas atômicas. O problema da “destruição mútua garantida” tornou o uso dessas armas impossível. Desde então, as pesquisas foram direcionadas para armas de outro paradigma - e não nos enganemos, diz ele, já em 1989 já se falava na produção iminente de nanoarmas e nanobombas. Muito mais do que os supostos programas militares da Coréia do Norte, Iran ou Iraque, o perigo se esconde, hoje, nos desenvolvimento nanotecnológicos no eixo de cooperação entre a Rússia de Pútin e a China.

Os elefantes voadores se apresentam como monstros em nossas mentes. Mas são mitológicos - são uma ameaça sugerida, sugestionada, inculcada, mas inexistentes. Por outro lado, os marimbondos são reais, circulam em enxames e alcançam os mais remotos lugares. E são agressivos.

Enquanto olhamos para os céus esperando por paquidermes alados, pequenos insetos aterradores passam pelos buracos dessa tela ou teia de falsa vigilância, sem precisar sequer tocar em seus cordões - de que vale escudo ou rede de satélites militares anti-mísseis transcontinentais contra uma núvem de ataques virais - seja ela literal ou figurada?

O discurso otimista em relação ao futuro e à tecnologia está errado. Há um risco sério e próximo, e para se romper a linha da normalidade (no sentido de norma, ordem) é preciso muito pouco, muito, mas muito menos que um hecatombe nuclear. E ajuda muito pouco se ficarmos a mirar o lado errado.