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Para inglês ver: o diálogo inter-religioso do Rei Abdullah

27 Março, 2008

Desde o surgimento do fenômeno do nacionalismo árabe, sobretudo depois da Segunda Gerra Mundial, o maior prejudicado tem sido o povo árabe e os muçulmanos. No Egito, Nasser empurrou a nação para uma série de conflitos catastróficos como a Crise de Suez (1956) e a Guerra dos Seis Dias (1967), preparando o caminho para a Guerra de Yom Kippur (1973) - e todo o investimento egípcio para se tornar uma moderna potência militar local (apoiada pela União Soviética, fornecedora de armamentos, equipamento e treinamento) foi inutilizado no esforço inútil de tentar varrer Israel do mapa. Por que a insistência? Porque quem derrotasse o “Estado Sionista” daria cabo no que é considerado um insulto ao mundo árabe, e demonstraria a insurgência e desafio à influência das antigas potências inglesa e francesa na região.

Nesse plano foram arrastadas a Jordânia, que havia cedido seu bem treinado exército ao comando egípcio, que foi dizimado na tentativa de romper Israel ao meio na altura de Jerusalém; e a Síria. O rei Houssein da Jordânia compreendeu cedo (’67) que lutar contra Israel era um equívoco, fez um tratado de paz com os israelenses, e tratou de se preocupar com os refugiados palestinos em seu território, que a partir daí passaram a lhe dar muito trabalho. Humilhado em três guerras, que lhe custou qualquer crédito no mundo árabe, ao Egito restou assinar um tratado de paz com Israel (1978/79), em troca da devolução da Península do Sinai, capturada e ocupada pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias e Yom Kippur.

A Síria nunca abandonou seus sonhos de gradeza voltando a ser a Grade Síria, o que inclui a retomada do Líbano e toda a Palestina. Ou seja, a existência de um Estado independente no Líbano, de Israel e mesmo a pretensão a um Estado Palestino vão de encontro aos interesses e ambições sírios. A derrota em ‘67 e ‘73 resultaram na perda das Colinas de Golan, que deveriam ter sido devolvidas numa manobra diplomática com Israel, similar àquela feita com o Egito, mas Damasco se recusa a oferecer trégua. Como Golan é de valor estratégico e militar inestimável (do alto de suas colinas vê-se as regiões baixas do vale de Hula e da Galiléia), Israel não pode devolvê-la sem sólidas garantias de segurança. Recentemente, Bashar al-Assad (presidente da Síria) mencionou a possibilidade de paz em troca da devolução das colinas.

Fracassadas as tentativas militares “convencionais” de destruir Israel e ganhar influência no mundo árabe, a Síria se voltou para o Líbano. Profundamente influenciado pelo ocidente, sobretudo pela cultura francesa (Beirute era conhecida como a Paris do Oriente), o Líbano era um oásis de convivência pacífica de uma miríade de religiões: cristãos gregos ortodoxos e sírios, católicos romanos, drusos e muçulmanos conviviam em certa estabilidade mantida por um relativamente complicado arranjo político de partilha do governo. O Líbano tornou-se um barril de pólvora, e para isto bastou a pressão síria e as levas de refugiados palestinos resultantes das guerras árabe-israelenses. Nos campos de refugiados no sul, organizou-se a OLP de Arafat, que havia fugido da Jordânia, onde Houssein se recusou a tolerá-lo.

No início da década de 80 o Líbano foi tragado para uma violenta guerra civil, onde lutavam inúmeras facções e influências diversas. Por fim, os sírios conseguiram o que precisavam: a retirada americana, que lhe cedeu espaço para intervir e ocupar o Líbano, sobre o qual exerce influência política e militar até hoje (vide a Segunda Guerra do Líbano). Até hoje o Líbano é instável, ameaçando sempre a estourar em violência.

Os palestinos passaram a ser usados como massa de manobra e motivo para os países árabes acusarem e denegrirem Israel. O curioso é que lhes seja negado quaisquer direitos ou auxílio nos países em que se encontram refugiados - curiosamente, palestinos vivem melhor em territórios ocupados por Israel do que em territórios árabes; a não ser, obviamente, dinheiro e armas para aterrorizar os israelenses.

O Iraque baath meteu-se em uma guerra sanguinária e inconclusiva com o Iran, onde pelo menos 700.000 iranianos e 500.000 iraquianos perderam a vida, fora os curdos. O que é estranhamente silenciado é o fato de que mais que Israel, a nação mais ameaçada pelo “Iran Nuclear” é o Iraque - que agora é o palco das disputas do mundo islâmico, onde a contagem dos mortos é de 600.000, no total.

Em meio a toda essa confusão e esquecidos pelo mundo, e sobretudo pela imprensa tão sensível à situação palestina, estão os curdos, que tiveram seu país, o Curdistão, retalhado entre Turquia, Síria, Iran e Iraque; e são sistematicamente perseguidos e mortos em cada um desses países (um dos motivos da Turquia não ser aceita na UE, é a situação dos curdos em seu território). Recentemente os maiores flagelos do mundo árabe são os próprios árabes em lutas internas: vide as rusgas entre Hamas e Fatah nos territórios ocupados na Palestina.

Devido a toda a dificuldade em manter conflitos convencionais entre Estados (o que criteriosamente não existe por ali), o uso de facções, organizações para-militares, milícias, grupos terroristas está na ordem do dia: Al-Qaeda, Hizbollah, Fatah, Hamas, Al-Aqsa, etc… Afora o que se passa na Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, na África, e Paquistão (vide os massacres em Bangladesh), Afeganistão, Indonésia (vide as atrocidades cometidas em Timor Leste, por exemplo) e Chechênia.

Toda essa tragédia vai desmoralizando o mundo árabe e mesmo o Islam. E com certeza há gente que perde muito e não anda satisfeita. Um deles, quem sabe entre os principais, é o Rei Abdullah, da Arábia Saudita. Numa manobra muito oportunista, os Saud estão propondo um fórum de diálogo entre religiões monoteístas que anteciparia a possibilidade de (alguma) abertura religiosa em países muçulmanos. A prática de outros cultos e fé nesses países é praticamente nula, está banida - incluindo a própria Arábia, onde impera o wahhabismo, uma doutrina de interpretação “purista” do Islam (já falei sobre isso aqui)

Que significa isso? Que de repente uma nação árabe haverá de fazer uma revisão num dos pontos mais críticos de sua organização religiosa, política e cultural? Afinal, permitir outras religiões em território do Islam é permitir a existência de infiéis, de hereges em solo muçulmano - uma afronta ao profeta e aos mártires. Recentemente, Abdullah visitou o papa Bento XVI, um encontro histórico, e isso provocou ira e suspeitas. Quando questionados sobre a abertura religiosa, os membros do conselho saudita responderam que “somente se o Vaticano reconhecer Maomé como profeta, será possível haver igrejas na Arábia” (veja o comentário de Daniel Pipes aqui e aqui).

E o que me irrita, me irrita profundamente, é que representantes cristãos e judeus convocados pela iniciativa de Abdullah estejam “otimistas” quanto aos resultados do diálogo! Primeiro: não creio que haverá diálogo no sentido próprio do termo. Segundo: não acredito que os cristãos na Arábia (seis milhões) gozarão de plena cidadania (hoje, são cidadãos de segunda categoria). Terceiro: o restante do mundo árabe/muçulmano não se convencerá/seguirá o “exemplo” saudita. O mais provável é que uma onda anti-saudita de eleve no Oriente Médio, e os americanos percam seu mais valiosos aliado.

Como disse McCain (pré-candidato Republicano), aliados do ocidente entre os árabes são tiranos autocratas, sanguinários exploradores e concentradores da riquezas de seus países, que não representam sequer minimamente a opinião de seus “súditos” - não são confiáveis. O fato, me parece, é que se não há sequer respeito entre árabes, que dirá respeito da parte desses grupos para com os não árabes e não muçulmanos. Podem me chamar de louco, descompensado, ignorante e sem senso de realidade, mas minha opinião (seguindo Paul Johnson) é de que o Islam precisa de uma reforma, tal como sofreu o Cristianismo (séc. XVI) e o Judaísmo (séc. XVIII). É preciso que se transformem certas estruturas culturais que são “reféns” de certas doutrinas religiosas.

A iniciativa de saudita é, até aqui, para inglês ver. E francês escutar.

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

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Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Purim

21 Março, 2008

Hoje é dia 21 de março; para os cristãos, sexta-feira santa, Páscoa cristã. Para nós, judeus, ainda não é Páscoa - nossos calendários são diferentes (o cristão gregoriano é solar, o judaico é lunisolar). Mas essa data é importante para nós, é Purim. Purim não é uma das grandes festas do Judaísmo, não é como Rosh haShaná (ano novo), não é como Yom Kippur (dia do perdão), não está na lista de Levítico 23; mas é uma festa e tanto! Ganhou importância quanto mais se tornou emblemática, assim como Chanuká, a festa das luzes: são festas de livramento do povo judeu.

No ano de 586 a.E.C., aproximadamente, o Reino de Judá, ou Reino do Sul (de Israel), foi invadido pelos exércitos babilônicos, e os habitantes de Judá, ou judeus, foram deportados, exilados para a região que chamamos Mesopotâmia, hoje Iraque. Foi um duro golpe na história de Israel, porque o Templo de Salomão foi destruído e o orgulho da nação foi quebrado. Apesar do exílio ter terminado com o retorno dos seguidores de Neemias para Jerusalém, a diáspora judaica que se iniciou aí perdura até hoje (intensificada, claro, pela expulsão romana em 70 e 135 E.C.).

Quando Babilônia foi conquistada pelo império Persa, o rei Assuerus, ou Xerxes (aquele mesmo que aparece, figurado, em 300 de Esparta) nomeou como vizir (primeiro-ministro) um tal Haman, que tinha fortes ambições de glória. Haman se irou com um certo guarda das portas reais, chamado Mordechai (pronuncia-se Morderrái) que se recusou a bajulá-lo. Haman descobriu que Mordechai era judeu e decidiu se vingar matando não apenas o porteiro, como a todos os judeus - e para isso armou um plano que obteve aprovação do rei, onde mataria todos os judeus do império; e lançou sorte para saber em que dia deveria executar a ação - 13 de Adar.

Mordechai soube do plano (afinal, ele ficava o dia inteiro nas portas da cidade - ouvia de tudo), e avisou sua sobrinha, que fora feita rainha, esposa do rei Assuerus, sem que este soubesse de sua origem judaica. Ester era seu nome Ester. Ela, sabendo dos plano de Haman, conclamou todos os judeus a jejuarem e orarem com ela por três dias, e ao final desse período ela se apresentou ao rei, revelando sua origem judaica e o plano de Haman para aniquilar seu povo. Haman foi morto, mas o decreto que ordenava os ataques aos judeus nas cidades em que habitavam não podia ser revogado; então Assuero ordenou que fosse dada permissão aos judeus para que se defendessem dos ataques, e assim fizeram no dia 13 de Adar. O dia 14, portanto, foi um dia de festa e alegria pelo livramento.

Porque Haman lançou sorte, do acadiano pûrú, deriva o nome hebraico Purim. E isso tem alguns significados. Primeiro, para o pensamento hebraico, não existem coincidências, acaso; assim, em Purim a sorte foi decidida num ato oculto de intervenção divina: a eleição de Ester como rainha da Pérsia e os momentos em que Mordechai ouviu falar da conspiração contra o povo. Também significa que a sorte do povo judeu não está nas mãos de qualquer homem, muito menos Haman ou mesmo Xerxes/Assuerus. Apesar de nenhuma vez o nome de D’us ser citado em Ester, sua presença e intervenção são óbvias.

Essa história se tornou emblemática da condição hebraica, judaica, no exílio: há muitos Hamans que por mesquinharias e rancor pessoal (inveja e raiva) decidem eliminar todo o povo judeu, ou o máximo que conseguirem. Hoje, curiosamente, temos um Haman persa e primeiro-ministro outra vez: Ahmadinejad, presidente do Iran, antiga Pérsia. E essa nova forma de anti-semitismo, o anti-sionismo, vai conseguindo apoio e decretos reais por todo o mundo. E os judeus em todo o mundo estão apreensivos, temerosos de que o pior possa acontecer.

Mas houve providência - Ester. Outra haverá, sempre houve.

Aliás, Purim é a festa que honra as mulheres no Judaísmo. Sempre femininas, sempre fortes, sempre sabendo o que fazer quando qualquer homem desmaiaria de terror. Oculta, astuta e corajosa, derrotou Haman em toda sua força e poder. Assim também fizeram as mães marranas, descendentes dos judeus forçados a se converterem ao cristianismo em Espanha e Portugal no século XVI e XVII, que mantinham em casa, escondidas, as tradições e as ensinavam a seus filhos e filhas, resistindo à aniquilação perpetrada pelo inimigos de Israel - não por acaso que se identificavam com a rainha da Pérsia.

Riso cismado

29 Fevereiro, 2008

O Brasil é um pais peculiar, cheio de piadas prontas - na política, na economia, no futebol, na vida de suas celebridades… fica fácil (ou muito difícil) ser humorista por aqui. Na verdade, parece que é impossível fazer uma análise séria, fria, da nação, esquadrinhá-la com parâmetros civilizacionais ordinários. As coisas aqui seguem a regra da inconstância e inconsistência - se a pós-modernidade são os sólidos se dissolvendo no ar, a definição não vale para o Brasil: sempre fomos líqüidos, fluidos.

Não é à toa que temos uma profusão de bons cartunistas. Já no Império as contradições políticas eram denunciadas por esse meio de adequação quase exclusiva. Mais tarde, temos Péricles de Andrade Maranhão, que criou o impagável Amigo da Onça. Curiosamente, Péricles suicidou-se em 1961, com gás de cozinha, mas não sem fazer uma espécie de última piada: deixou um bilhete avisando “não risquem fósforos”

Com a ditadura, AI-5, repressão, etc., o humor se tornou campo de resistência e militância. O Pasquim foi a publicação de vanguarda, lançando muitos chargistas e tecendo críticas ferrenhas ao regime dos generais, inteligentemente camufladas pela máscara do riso. Ziraldo, Laerte, Angeli, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Millôr Fernandes (essas espécie de cartucronista), o saudoso Henfile vamos longe nessa lista, são exemplos dessa geração.

E essa riqueza é proporcional à falta de seriedade tupiniquim? Não, creio que não. O humorista é, no fundo, um moralista - é o sujeito que faz a crônica dos costumes, da prática mais doméstica, a crítica familiar, de si mesmo. É um denunciante que apontando para si, desnudando a todos - isso quando não aponta para todos e qualquer um mesmo… O humor e a qualidade do humor tem a ver com a carga de moralidade de uma comunidade, e se engana quem pensa que o Brasil é hedonista, amoral. Pode ser imoral, mas esse defeito está relacionado, deve sua presença, a um espectro contrário e contrastante, referencial, ou seja, alguma moralidade.

Por muito tempo, o jornal foi a mídia das tirinhas. Minha avó cresceu lendo quadrinhos em jornais, e eu mesmo os conheci ali. Mas como tudo o mais, o cartum (vou usar essa forma aportuguesada mesmo) ganhou novos nomes e lugar na Internet. A maioria dos chargistas e quadrinistas que citei aqui, e outros mais, publicam seu repertório e disponibilizam seu acervo na web. Mas, mais que gente feita no jornal migrando para novas mídias, há agora gente que se faz na rede, eventualmente caindo nas graças da turma do papel.

O melhor exemplo para mim, é o Galvão. Ele publica tirinhas quase diária em seu site, e, para mim, é um gênio. O cara é um artista plástico, para início de conversa - é só ver as pinturas e quadros (também no site). Mas nos quadrinhos temos um traço todo peculiar, curioso e um conteúdo dos melhores. Galvão consegue despejar baldes de um humor ácido, às vezes melancólico, em três quadros… aliás, cartuns não seriam uma forma aparentada ao haiku, ou haikai no renga?! Contar uma história completa em três cenas, e pronto. É… pode ser.

Mas voltando ao Galvão: religião, sexo, moda, política, otimismo, solidão - principalmente a solidão - são alvos metralhados (entre outros) pelo pincel desse sujeito. Faz rir… mas às vezes saio taciturno do site. Com freqüência, na verdade. Acredito que seja um daqueles tipos de apontam para si, e aí atira no mundo (tá, menos exagero - no leitor). Muito do que vi em Gilles Lipovetsky, Pascal Bruckner, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens, e essa conversa toda sobre individualidade/pessoalidade, vida afetiva, laços sociais, identidade na hipermodernidade, ou pós-modernidade, está lá em forma concentrada, espontânea - os famosos “instantâneos da vida”.

Bom, não sou um crítico - portanto vou parando por aqui, se não, fica parecendo puxação. E não é. Então, olhem lá - www.vidabesta.com.

Filantropia, Comunidade, Cooperação, Software Livre e Open Source

28 Setembro, 2007

Atrevo-me aqui a fazer alguns comentários a partir de um post interessantíssimo do Júlio César sobre o impacto e a relação entre o software livre/código aberto e a filantropia. Concordo com o argumento do Júlio, se bem entendi, que por vezes os esforços de cooperação da comunidade termina pro auxiliar muito mais às iniciativas e usos comerciais derivados do software livre/código aberto.

Também é bastante claro que as empresas tem como principal motivação para seu investimento das soluções e desenvolvimentos abertos a resposta eficiente que o modelo de colaboração tem apresentado - lhes poupa tempo, dinheiro e outros recursos, o que, eventualmente, resulta em lucros maiores. E é para isso, diz o velho Marx, que a empresa capitalista existe: gerar mais dinheiro, e é nisso que elas acreditam (quem lê, entenda).

Por outro lado, as contribuições de usuários, desenvolvedores ou grupo de desenvolvedores sem vínculo necessário com alguma empresa envolvida no processo, por vezes seguem um modelo que minora a amplitude e escopo do impacto que software livre/codigo aberto poderia causar para a formação de uma “cultura livre”.

Esse “modelo” ou “paradigma”, na minha opinião, é o próprio conceito de filantropia. Filantropia é diametralmente e essencialmente oposta ao senso de comunidade, e isso não é um contra-senso. Deixe-me explicar.

O filantropo é o sujeito, o agente absoluto na ação do auxílio e ajuda, fora ele só há o objeto, inerte, que recebe - passivo. O filantropo estabelece o que quer dar, quanto quer dar, como quer dar e a quem quer dar. Em momento algum estabelece um diálogo real com a comunidade (vez que o que quer, na maior parte dos casos, é reverter ajuda financeira em prestígio e capital social), perguntando o que ela precisa, de quanto precisa, como precisa, onde precisa, e quando precisa.

Na filantropia, a medida é a disposição do doador. Na cooperação que nasce do senso de comunidade, é a necessidade do grupo que dá a medida. Na filantropia, o recebedor é inerte, passivo - um garoto que tem que se contentar com uma boneca, porque o filantropo doou apenas bonecas… porque quis doar bonecas. Na cooperação, a comunidade identifica os problemas, pensa em soluções e encontra recursos, na medida da sua necessidade - e sai fortalecida.

A medida da comunidade é o bastante, a suficiência - nem de menos, nem demais.

O que as coorporações e a iniciativa privada, doutrinada pela lógica economicista parece não entender é que a eficiência do processo cooperativo é resultado justamente da cooperação e do senso de comunidade. Transportar o processo, transformando-o meramente em técnica, no ambiente meramente comercial que mercantiliza tudo que toca, mata a galinha que lhe dá os ovos, para manter a metáfora de Júlio César.

Para a comunidade de usuários “livres” (sejam simples usuários como eu, sejam desenvolvedores, hackers ou geeks), penso que preciso valorizar nosso maior potencial, como disse o Júlio: sermos diferentes. Somos diferentes do modelo empresarial/coorporativo, somos diferentes do modelo consumista que em sua avidez por inovação mantém milhares de pessoas na periferia dos avanços e processos (vide quando é preciso hardware para rodar o Vista®, e quanto para rodar um GNU/Linux básico…), somos diferentes por optarmos por mostrar a esconder, de educar a escravizar pela ignorância.

Somos diferentes porque ao contrário do filantropo paternalista, podemos ser promotores e fortalecedores da comunidade.

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Muito desse raciocínio eu devo ao Ariovaldo Ramos, que no encontro nacional da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Assistência Social) trouxe uma brilhante reflexão sobre as diferenças entre filantropia e cooperação. Quem quiser conferir mais sobre ele: www.ariovaldoramos.com.br.

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

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Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

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Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

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O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

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Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?

Posts de blog velho

12 Setembro, 2007

Hoje tive um surpresa - fui “indexado” no Planeta GNU/Linux Brasil. Na seção “sobre mim” estava o convite do Og Maciel, que me deixou muito contente. Bom, eu estou indo para o Encontro Nacional da RENAS (Rede Nacional de Ação Social), e fico fora (e incomunicável) até segunda-feira, 17.

Deixo aqui então, dois texto “velhos”, mas que podem ser de alguma valia, publicados no blog antigo em 20 de março e 19 de janeiro desse ano. Boa leitura!

Estética da empulhação

O diretor de desenvolvimento da Micro$oft® Brasil foi entrevistado pela rádio CBN por ocasião do lançamento do Windows Vista®. Era um entrevista de estúdio. O âncora, não me lembro se era o Sardenberg, soltou de cara: quais são as novidades no Vista®? E a resposta veio rápida e seca: temos uma nova interface gráfica… [silêncio]. Segunda tentativa: sim, mas quais são as novidades, as novas ferramentas? (…)bom, as novidades são tantas que só experimentando é que o usuário saberá. [silêncio constrangedor, fim da entrevista].

Isso aconteceu, e posso ter me esquecido de algum detalhe (como dizia o Glauber, a memória é uma ilha de edição). Ok, eu não vou falar sobre software livre, ou GNU/Linux, ou descer o cacete no Windows® ou na Micro$oft®. Já não preciso fazer isso. O fato é simplesmente ilustrativo - e se aconteceu com um executivo da empresa do Bill, que farei eu?

Mas é isso, em maior ou menor grau, o que acontece em nossos dias. Num sistema social em que todas as disputas importantes são decididas por uma tecnocracia pretensamente isenta, em processos cada vez mais ocultados dos cidadãos, não há que se saber como as coisas funcionam, quem controla as catracas e onde os esqueletos são guardados: o que todo mundo quer saber é se o resultado é bonitinho. Leia-se politicamente correto. E uma ocupação cada vez mais requisitada por aí é o maquiador de resultados.

A coisa funciona mais ou menos assim: toma-se um tema que já está presente e altamente considerado pelas pessoas - como uma política social de inclusão. Apresenta-se o diagnóstico, problemas e desafios, segue-se a exposição do projeto, metodologia, metas, benefícios. Posteriormente, editam-se gráficos, books, filmes e vídeos belos e empolgantes de como a comunidade ou segmentos foram transformados.

Correto em todos os pontos: motivação, projeto, método, execução e resultados. Tudo bonitinho.

E ninguém, obviamente, sabe como as coisas funcionam. Quem alimenta o esquema, quem o orienta, o corpo de executores, a propriedade e pertinência… e questionar qualquer desses pontos é imoral, deplorável e criminoso. Como se o motivo a tudo justificasse e redimisse quaisquer erro ou descaminho.

Acredito que o leitor já reconhece o esquema em sua expressão real.

Como no caso dos sistemas operacionais computacionais, desinformação associada com um julgamento por critérios estéticos, de gosto - subjetivos, pessoais e “intraduzíveis” - resultam em vulnerabilidade, poderes ocultos, desrespeito, medo, cerceamento de liberdades e ineficiência.

Saber como as coisas funcionam significa conhecer as entranhas, as sujeiras, viscosidades, odores e coisas dessa espécie; significa expor. Da mesma forma que ninguém em sã consciência prefere cobrir um ferimento com bandagens, cremes e maquiagens para recompor o aspecto sadio ao invés de tratamento médico com seus bisturis, iodo, agulhas tesouras e pontos, a atitude de relegar o que importa a não se sabe quem e apenas requerer as amenidades decorativas é um descaminho, imbecilidade.

Que bombas que nada! Para destruir o mundo basta transformar tudo em entretenimento: apazíguam a alma e desligam a mente.

… cuja altura era de sessenta côvados II

Eu uso GNU/Linux Ubuntu. Quem lê esse blog sabe disso; mas pode não saber que eu não sou um geek, na verdade sei poucas coisas sobre computadores - se levar em conta o montante de coisas sobre computadores que há para se saber. Tudo que sei sobre computadores, sobre software e software livre, é por conta de uma posição moral, ética - é axiomático, é por conta do que creio ser o certo. E não é uma questão de ortodoxia, mas de ortopatia. Vou explicar.

Usar software livre é tornar o poder e a confiabilidade dos processos para o usuário, ao componente humano, que, ao contrário do que querem nos fazer crer, é o mais confiável por ser o elemento criativo e realmente inteligente. É retomar o conceito da produção colaborativa e cooperativa, o que está muito distante da noção de inteligência coletiva, massificada e consensual da cultura de hive mind.

A noção de copyleft é uma perturbação no sistema demoníaco de restrições à difusão de inovações e participação e usufruto dos resultados (não, isso não é coletivização no sentido comunista - mas “free as freedom” como diz Richard Stallman). Divulgar e colaborar com cultura livre é lutar pela liberdade criativa do homem, assegurada na antropologia bíblica. Qualquer um que se queira coerente com uma visão bíblica de desenvolvimento, acho, percebe o valor de um princípio tal como formulado por iniciativas como copyleft.

Por isso, para mim, esse tema evoca princípios, e pede status de ortodoxia e ortopatia.

E não são apenas confessores de credos reformados que pensam assim, tenham certeza. Qualquer programador hoje em dia, sabe que Sistemas Operacionais livres são consideravelmente mais confiáveis, e uma prova disso é o fato de os principais servidores, dataservers e backbones do mundo rodarem alguma variação de SO livre.

Mas o mundo é caído - e os homens também. Depois das conquistas da cultura livre, sobretudo no que tange à web e à transmissão de dados, os poderes estão preparando seu contra-ataque. Uma vez que parecem ter perdido a batalha no campo dos grandes servidores e máquinas, e, por enquanto, na garantia da liberdade da internet, arquitetam um duro golpe contra nós, usuários comuns.

A idéia é que, da mesma forma que softwares proprietários (copyright) tomam decisões pelo usuário e impedem a interferência deste, agora as novas restrições serão asseguradas pelo hardware. Isso mesmo. Como o software proprietário é bastante ineficiente em garantir facilidade e segurança para o usuário e a integridade dos direitos, muitos usuários estão migrando para alternativas livres. E exige uma resposta da indústria de software. E ela vem na forma de uma conspiração maligna (no sentido de mal).

Um consórcio formado pelo esforço conjunto entre a indústria fonográfica, cinematográfica, de software e hardware e certos Estados lançou a noção de computador confiável, ou, em sua sigla inglesa Trusted Computing. Bom, isso é, a princípio, interessante. Usar computadores, que cada vez mais participam de processos vitais para a manutenção da sociedade global, de maneira confiável é consenso. O problema começa aqui: confiável para quem? O verdadeiro intento do TC é impedir a livre disseminação de conteúdos - protegendo certos agentes do mercado e certos interesses políticos /ideológicos.

Agora, os processadores, presentes em cada vez mais aparelhos além dos computadores pessoais ou servidores, serão programados para permitir que o usuário rode apenas determinados conteúdos ou programas, obviamente, de acordo com os interesses do consórcio. E, senhores, isso não é teoria da conspiração. Na verdade, já começou: por exemplo, se vc comprar um video-game de uma certa gigante do segmento de informática que recentemente entrou no mercado de consoles, você, consumidor, não é seu. Trocando em miúdos, o que você comprou não foi o video-game, foi o seu uso segundo determinadas condições. Francamente…

Uma vez que isso é legal (a quebra das regras do licenciamento constitui-se num crime ou contravenção), é perfeitamente plausível que a indústria de software se una à de hardware pra assegurar que os usuários não farão nada fora do contrato.

Qual a solução? Bom, primeiro, resistência. Como eu já falei em outros posts, use e incentive o uso de software livre em sua casa, trabalho, comunidade, igreja, escola, clube, etc. Procure quem sabe alguma coisa de software livre e que possa introduzi-lo no assunto; pesquise na internet. Se realmente entende o problema, procure uma escola de informática que dê formação em GNU/Linux. Se você acha isso exagerado, pense em alguém que saia por aí dirigindo um carro sem saber como fazê-lo… é quase a mesma coisa com um computador… e as conseqüência do mau uso podem ser piores, pode acreditar…

Segundo, use seu poder como consumidor. Da mesma forma que muita gente boicota produtos de empresas que usam mão-de-obra escrava ou infantil, ou que causam sérios impactos ambientais, da mesma forma que você procura alimentos livres de transgênicos ou de gorduras trans, procure comprar produtos e serviços licenciados por alguma licença livre, como GLP, Criative Commons ou outra. Quando for compra seu próximo computador ou laptop, prefira processadores AMD ao invés de Intel (você já sabe por quê).

Terceiro, converse com seus amigos e divulgue a questão. Esse é um problema que mais cedo ou mais tarde afetará a vida de todos: se a TC acontecer, alguém poderá “desligar” todos os computadores do mundo e de todo mundo. Arbitrariamente. Imagine isso acontecendo agora mesmo, enquanto você lê essas linhas.

Por fim, agradeço ao André Noel pela dica no Planeta Ubuntu.

Boa porte desse post está baseado nas informações contidas nesse artigo do Prof. Diego Saraiva, no Com Ciência (por favor, leia).

Abraço.

Gospel Star é coisa do capeta*

31 Agosto, 2007

Eu não sei nada sobre hinologia, mas a coisa que eu sei remonta àquelas memórias de infância ou da tenra juventude que grudam naquelas partes mais profundas da mente, funcionando como um filtro ou seletor afetivo e poderoso. Lembro-me de folhear um livreto de Gérson Rocha, alguma coisa sobre como esses são tempos terríveis e de como se comportaria a igreja verdadeiramente fiel. Bom, depois de falar de doutrina e ortodoxia, o autor debandou a falar sobre a invasão da “música de satã” dentro das igrejas, que deveriam preservar a “santa música” (leia-se Cantor Cristão e similares). Música de satã era o rock, o samba, o foró e toda e qualquer manifetação rastreável e viva na cultura popular. Música santa, ou sacra, eram os bons e velhos hinários que remontavam à época dos reformadores - sem paralelo no universo dito secular.

Lembro-me do comentário de meu pai: Gérson Rocha parece não saber, mas tenho certeza que sabia, que as músicas dos reformados eram melodias populares, de taverna, usadas para fixar o sermão e a catequese na mente dos fiéis que compareciam aos serviços. Pela lógica do Gérson, era a mais pura música de satã, tanto que algum príncipe ou princesa pediu que Lutero e sua música de buteco fossem silenciados. O problema de Gérson Rocha, compartilhado pelo evangelicalismo brasileiro, é o horror à identificação com a na cultura contemporânea, em seus próprios dias. É um fruto menor (essa coisa da música), mas não menos perverso, de uma certa atitude cristã negadora de sua inserção no mundo, de seu papel que, grosso modo, é estar presente, fazer-se presente e testemunhar no presente.

C. S. Lewis diz, por meio de Screwtape, nas Cartas do Diabo a seu aprendiz, que os homens têm um defeito muito importante, que deve ser muito bem explorado: pensam apenas no futuro. Ignoram ou desprezam o presente, esse ponto de contato com a Eternidade e com as coisas Eternas (verdade que o passado é importante, porque é uma instância das coisas “já eternizadas, porque feitas”, mas mesmo ele vai sendo esquecido… resta o futuro, onde cabem todas as fantasias e blasfêmias da pretensa autonomia humana e seus delírios contra a Soberania - esta é minha interpretação do que Lewis diz).

Pela categorização do Lewis, o Gérson Rocha (e similares), são de um tipo melhorzinho, entretanto. São cheios de fobia pelo presente, mas ainda buscam alguma coisa no passado… ainda que sem muito senso crítico e auto-consciência. Se reconhecessem a origem de suas música e a atitude para com o presente, por assim dizer, da maior parte dos reformados, sua postura diante da cultura de seus dias seria menos infantil (francamente, música de satã é dureza…) e sua influência, de maior escopo.

O pior tipo, a meu ver, é esse limbo atual. Limbo por falta de palavra melhor agora: não é o presente, de modo algum, pois padece do mesmo horror, e não é uma forma de ligação a um passado “editado” e fictício como o de Gérson Rocha. Parte do evangelicalismo atual se isola e se esquiva cuidadosamente do diálogo crítico com a cultura e sociedade em que está inserido em nome de um papel futuro, mas completamente nebuloso, e desconhece completamente sua origem, seu passado e a genealogia de sua crença - que passa então a ser uma infinidade de recortes teológicos ou quasi teológicos ad hoc. É sem passado, não é presente, e vai perdendo mesmo até o contato com o futuro… é uma grande fantasia, um simulacro.

E o limbo, me parece, é isso: a recusa do diálogo crítico, da presença (testemunho) no presente, e a inserção sonâmbula. Sumiu-se com o rótulo “música de satã”, o que aparentemente é bom; entretanto, incorporam um atitude inerte - zumbis que agem como o século quer, incapazes que são de transformá-lo ou confrontá-lo.

Então, proliferam os Gospel Stars, os famosos evangélicos, as feiras de mídia e produção - a linguagem para as massas. Acabam produzindo “música de satã”, não pela música, mas porque deixamos Screwtape e seus asseclas utilizarem bem sua fraqueza.

*Essa expressão é, originalmente, de Riverson Silva, estudante de Letras, professor de literatura brasileira e intelectual picareta (ele assim o quis!).