Dell e Canonical no Brasil: uma explosão de Linux?
9 Abril, 2008Procurando por relatos de usuários que instalaram Ubuntu Gutsy em laptops Dell Vostro 1000 (é, estava olhando no site, o preço até quinta-feira é bom, R$ 1.400,00), o Google (oh, oráculo hodierno!) me sugeriu uma notícia interessante: a Canonical e a Dell anunciaram que em breve serão ofertados laptops com Ubuntu pré-instalado, ou seja, OEM, no mercado brasileiro (veja aqui, aqui e aqui). De fato, isso só foi possível porque a Canonical vai dar suporte local no Brasil, assegurando à Dell, e outras empresas, que seus clientes terão cobertura técnica para o Sistema Operacional.
Como muita gente comentou na web, o estabelecimento da Canonical no Brasil vem tarde, ainda que muito bem vindo. Nas estatísticas do site, os brasileiros fazem cerca de 50.000 downloads do Ubuntu por mês, o sexto país no rank (isso sem contar com outros tantos linuxers que utilizam outras distros mas se interessariam por uma máquina portando Ubuntu OEM), sem falar no restante da América Latina. Isso me faz lembrar do comentário do Dr. Michel Xhaard (que compilou drivers para mais de 230 câmeras antes não suportadas no Linux), de que a maior parte dos grandes desenvolvedores não está interessada no usuário final, como eu e você (dependendo, claro, de quem você seja). Essa demora em se estabelecer em mercados emergentes e com potencial fora do eixo Japão/Coréia-Europa-EUA/Canadá me assusta: piratear mídias tem jeito, mas suporte, não! A Canonical andou a marcar touca, e o Linux andou em apuros.
Sim, porque na onda do PC para todos e da MP “do bem” muitas empresas passaram a oferecer máquinas rodando Linux e software livre, mas para reduzir custos e contar com os incentivos do Estado. O que eu vejo é um desfile tosco de versões deselegantes (no mínimo) criadas pelas próprias empresas ou parceiros obscuros: um tal Einstein, outro Librix, e “customizações” mal feitas e descontinuadas no desenvolvimento e, como de se esperar, sem suporte adequado. Cheguei a ver um HP rodando Mandriva num shopping em Belo Horizonte, e mesmo Kurumin, o que é um bom sinal, mas não me parece ser a norma. Penso que os fabricantes e montadores percebem o Linux apenas como um modo de baratearem o produto e passarem a responsabilidade de instalar uma cópia pirata do XP® ou Vista® (onde, onde?) para o consumidor classe C ou D, num acordo silencioso do tipo “eu não sei e você não diz”.
O resultado é que para muitas pessoas (justamente as mais pobres e com menor acesso a informações), Linux é “aquele negócio difícil que não funciona” que é substituído pelo Windows® por um primo que “manja de computador”; ou então, para as parcelas das classes A e B que insistem em se manter desinformadas, vira sinônimo de produto desqualificado.
Contudo, uma empresa do porte da Dell, considerada uma grife, oferecendo produtos com qualidade de design e hardware rodando Ubuntu, a situação é muito diferente. Em sociologia temos o conceito de “corrente de imitação” que explica como um comportamento é disseminado num coletivo, e em sociedades de especialistas como a nossa, os não-especialistas (também conhecidos como jacus ou clueless) se fiam no comportamento dos entendedores, no presente caso, geeks e profissionais usuários de tecnologia (como executivos, consultores, designers, publicitários, etc.) para basearem sua escolha. Ora, já é normal ver geeks usando GNU/Linux, mas isso aliado com distros amigáveis, influencia profissionais de outras áreas que querem qualidade, produtividade e segurança, que, por sua vez, influenciam outros usuários.
O suporte da Canonical e a oferta do produto pela Dell são fundamentais para a ampliação desse segundo passo (profissionais » jacus, como eu), e pode abrir um novo mercado para o Linux. Novo mercado porque o Ubuntu 8.04 pode ser um concorrente real em temos mercadológicos para o Windows® (que já está batido tecnicamente), passando a disputar o nicho desktop, muito diferente e mais “enjoado” que o nicho enterprise. Fora que um Inspiron 1525 com Vista custa entre R$ 1.800,00 e R$ 2.000,00 (versão padrão) - com Ubuntu e o mesmo hardware (tudo Intel) pode sair por alguma coisa entre R$ 1.500,00 e R$ 1.800,00, ou ainda menos na linha Vostro. Imagine adquirir um Dell por esse preço! Agora imagine adquirir um Dell a esse preço e rodando Ubuntu… aiai.
Liguei para o 0800 da Dell no Brasil para saber quando teremos um laptop com Ubuntu, mas ninguém sequer sabia disso… No final, mais do que desejar que aconteça logo, espero que aconteça de fato. Por enquanto vou pensando no meu Eee PC 700, e está de bom tamanho (quer dizer, nem tanto…).