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E se o Iran for abertamente ameaçado?

16 Abril, 2008

Se os Estados Unidos fizerem uma declaração aberta de que atacarão o Iran, o que pode acontecer? Já se especulava que após a invasão do Iraque, os americanos entrariam num ciclo longo de intervenções militares na região, numa cadeia de crises com interesses regionais. Os alvos mais prováveis seriam a Síria, que é governada pelo partido Baath, o mesmo de Saddam, e que possui armas biológicas e químicas, ou o Iran, que tem um presidente esquentado e um programa nuclear suspeito, além de finandicar, armar e terinar grupos terroristas, como o Hizbollah. Muita gente, inclusive eu, se perguntou por que os EUA, ja que aleganva ameaças, não atacaram a Coréia do Norte que quase certamente controla ogivas nucleares, e mesmo que não tenha está muito bem servida com armamentos convencionais e um milhão de soldados (o maior contingente do mundo, acho).

A resposta para essa pergunta ajuda a entender o ataque ao Iraque. Não atacaram a Coréia porque não é necessário - o regime comunista norte-coreano já se incumbiu de destruir o país. A miséria é a realidade da maior parte da população, seguida dos males mais imediatos de um regime fechado: subnutrição e doenças causada pela falta de gêneros alimentícios e medicamentos. A posição irredutivelmente fechada de Pyongyang vai-lhe custando o próprio povo. A maior preocupação seria com os vizinhos Coréia do Sul e Japão, mas a presença militar americana na região é forte. Os norte-coreanos não passam de marimbondos bravos - poem causar alguma dor, mas só isso.

O Oriente Médio, ao contrário, guarda energia. Muita energia. Energia que a China precisa em quantidades galopantemente maiores, podendo pagar por isso; o que significa altos montantes nas mãos de regimes com anseios belicosos - clientela para os russos e suas armas de baixo custo e larga produção. Caso os americanos atacassem o Iran isso incitaria os chineses a se moverem para proteger reservas de energia de seu interesse na região, sobretudo depois de ter firmado acordos com os iranianos. Os russo por sua vez, veriam nessa situação uma ótima oportunidade de, solidarizando-se com o Iran, se oporem aos EUA, numa tentativa de se impor novamente a partir de uma posição de influência na Ásia antagônica a Washington.

Não me parece fortuito que McCain, candidato Republicano, tenha sugerido excluir a Rússia do G8. O fato é que mais que colaborar ou “jogar” com os americanos e europeus, os russos estão consolidando apoio e influência na Ásia, o que vem acontecendo através do SCO - Shanghai Cooperation Organisation - que aparentemente é de cunho econômico e tecnológico, mas vai demonstrando seu real propósito de formação de um grupo, um outro pólo, na Ásia e leste europeu. Reunindo a Rússia e satélites, e China, a solidariedade de Shanghai urge por se estender ao Iran, Índia e Paquistão. A Índia estaria interessada somente na cooperação econômica e tecnológica e provavelmente resistira aderir ao grupo à medida em que as pretensões militares fiquem evidentes - ainda que mais tarde possa integrar-se.

Pode acontecer que uma ameaça clara de ataque ao Iran antecipe esforços de fortalecimento do grupo, e a própria inclusão da República Islâmica. Pode também provocar um volume crítico de tensão entre China, Rússia e EUA, todos membros do Conselho de Segurança da ONU - o que também pode acontecer se os dois primeiros apoiarem a indicação de um membro islâmico para o conselho, como quer Ahmadinejad.

Ameça aberta certamente aumentará a apreensão entre Israel e os vizinho árabes - como um aliado local dos EUA, Israel pode se tornar, como na Guerra do Golfo I, um saco de pancadas para árabes e muçulmanos. O problema é que agora os ataques podem ser mais ferozes e a reação israelense mais agressiva.

O ciclo de intervenções militares americanas no Oriente Médio já ultrapassou níveis estratosféricos em termos de gastos. Um novo ataque a outro país aumentaria os valores requisitados ao congresso num momento de séria recessão econômica nos EUA; com a proximidade das eleições presidenciais e. em seguida, eleições parlamentares, pode ser politicamente muito custoso manter esse nível de presença militar ativa. Simultaneamente, grupos terroristas radicais islâmicos podem intensificar suas atividades numa nova onda de atentados no Ocidente, “punindo” países que apoiarem os americanos - pressionando ainda mais a opinião pública contra a atuação americana na política internacional.

Parece ser uma sinuca: retirar as tropas do Iraque pode ser o suficiente para uma explosão de violência na região e a formação de uma nova república islâmica, como o Iran (shiita) ou o Afeganistão Taleban (sunita). Por outro lado, manter as tropas implica em estabilizar a situação - o que não é possível sem aplicar duros golpes aos financiadores/incitadores do caos no Iraque. Retirada ou intensificação podem significa, por vias diversas, o aumento da influência da China e Rússia entre os países da região, o que inevitavelmente retrairia os americanos.

De fato, é uma forca.

O ataque ao Iran e o cenário no Oriente Médio

15 Abril, 2008

Ao que tudo indica, os EUA estão preparando um ataque ao Iran. O que ainda não parece estar decidido, ou claro, é quando (antes ou depois das eleições para presidente?), e em que escala (somente às conhecidas instalações nucleares, ou também às instalações militares?). Jim Meyers (Newsmax) aponta a visita de Dick Cheney a vários países do Oriente Médio (aliados: Israel, Arábia Saudita, Turquia e Oman) como preparativos diplomáticos e estratégicos e, ainda segundo a Newsmax, os sauditas já tomam providencia para o impacto radioativo resultante do ataque às instalações nucleares iranianas.

Há outros problemas a serem resolvidos: altas patentes militares americanas discordam quanto ao problema iraniano; o Marechal Fallon pediu afastamento do comando americano no Oriente Médio por discordar da política da administração Bush, e “para não estar lá quando a ordem de ataque à República Islâmica for dada”. Por outro lado, a situação no Iraque não pode avançar sem que se detenha o apoio e financiamento iraniano às milícias xiitas - certamente que isso pode ser feito por outros meios, mas uma atitude se faz necessária.

Outras questões estratégicas dizem respeito ao alvo primário da retaliação iraniana, Israel; e o apoio que o Iran receberia de aliados e parceiros. De fato, ainda que Israel não participe diretamente dos ataques (e, na verdade, poderia lançar sozinho uma operação cirúrgica, como fez no Iraque nos anos 80) sofrerá ataques imediatos tanto do Iran, quanto provavelmente da Síria. O mais provável é que os ataques sejam feitos com armas biológicas e/ou químicas (que a Síria com certeza possui), e o exército israelense realizou recentemente o maior exercício militar de sua história prevendo este cenário. O Hizbollah, que é financiado, equipado e treinado pelo Iran, já anunciou que está pronto para atacar Israel simultaneamente por terra e com os mísseis de curto/médio alcance russos/iranianos.

Um ataque à Republica Islâmica também é complexo quanto às movimentações que pode provocar no cenário asiático. China e Rússia têm acordos comerciais e tecnológicos com os iranianos, que na verdade camuflam cooperação militar - obviamente que a última coisa que os chineses querem fazer é deixar claras suas intenções pela formação de pactos militares. O conselho de segurança da ONU, portanto não será a agência legitimadora do ataque, resta saber onde os americanos encontrarão suporte internacional - possivelmente a França de Sarkozy ou mesmo os ingleses (OTAN?)

O Iran soma, agora, 9.000 centrífugas para enriquecimento de urânio, e a alegada intenção pacífica não tem sustentação tecnicamente (centrífugas podem produzir combustível para mover reatores ou para armamento nuclear), e muito menos nos discursos de Ahmadinejad. E se os americanos querem retirar suas tropas do Iraque precisam garantir estabilidade na região, ou diminuir as forças das lideranças locais anti-americanas que poderiam ocupar o vácuo. A generalização de um conflito no Oriente Médio pode ser evitado, mas é possível; e a maneira como o caso iraniano for resolvido será crucial para o desenvolvimento do cenário.

O que aprendi com Charlton Heston

8 Abril, 2008

Para a maior parte dos que nasceram depois de ‘80 e acham que George Lucas inventou o gênero épico no cinema, Charlton Heston é um desconhecido. E permaneceu assim na medida em que cada vez menos se assiste aos grandes filmes da era de ouro de Hollywood, onde Heston encarnou a figura do herói. Eu sempre achei que a figura heróica masculina, rústica e de queixo quadrado, era proveniente dos traços do Superman, mas estava errado - são características de Heston; e, por mais estranho que pareça, as cenas de perseguição de carros começaram inspiradas na corrida de bigas em Ben-Hur, também estrelado por ele. Muito do que apreciamos no pop e nos filmes-pipoca-de-luxo nasceram com muito mais classe e por meio de um ator genial e controverso.

Eu mesmo aceitei a figura de Heston deformada por Michael Moore em Tiros em Columbine. Lá temos construída a figura chauvinista do presidente do National Rifle Association, e do racista que conjectura a causa da violência nos EUA na degeneração racial. O problema mais sério, na verdade, é a vilania com que Moore monta o quadro - cenas do pronunciamento num evento do Clube do Rifle logo após a tragédia em Columbine, e aquela entrevista na casa do ator, que, a meu ver, foi de pura má fé.

Má fé porque é preciso apenas se informar sobre a biografia de Heston para reconhecer a insustentabilidade da caracterização no “documentário”: ele mesmo se considerava um mestiço, parte escocês, parte Sioux; engajou-se no movimento pelos direitos civis juntamente com o Reverendo Martin Luther King; militou contra a Guerra no Vietnan e apoiou o controle de armas no governo Johnson; foi membro do partido democrata sendo fortemente liberal (nos EUA isso quer dizer ser de esquerda).

O “erro” de Heston foi ter mudado de idéia, e nesses tempos, isso é um problema sério - sobretudo quando a nova posição é de oposição ao acordo majoritário. A partir de um determinado momento, aquilo que era tido como discurso libertário de esquerda, nos EUA, atingiu as raias do ridículo no que chamamos de “ações afirmativas” e “politicamente correto”; e na imbecilidade coletiva, não há contradição nenhuma em falar de “orgulho negro”, “orgulho indígena” ou o que quer que seja, e a criminalização e castração de qualquer manifestação “branca” ou européia. Veja bem que o problema nem é mais sobre as responsabilidades de erros, crimes e injustiças históricas, mas de puro revanchismo e ressentimento que reproduz, num espelhamento, as mesmas contradições do modelo, somente invertendo os pólos de hegemonia.

A explicação simplista da origem e motivo da cultura armada nos EUA na animação tacanha feita por Moore, os discursos inconseqüentes da anta do George Clooney e o oportunismo desavergonhado de Al Gore, todo esse entulho politicamente correto, vão criando uma cortina de fumaça sobre a realidade recobrindo tudo com uma “fina camada de tecido escuro”, camuflando as coisas e esgueirando-se vergonhosamente do confronto público isento. Controle de armas não resolvem, como dados criminalísticos demonstram, o problema da violência, e o “politicamente correto” apenas esteriliza o ambiente cultural imbecilizando-o. Portanto, Heston caiu em desgraça na cultura pop por ter mudado de idéia e ter sido coerente, por ter percebido o risco de certas idéias e posições políticas tacanhas disseminadas pelos inimigos da sociedade livre. Por isso, digo eu, foi um herói fora das telas - muito diferentes de seus detratores que são valentes apenas diante de câmeras.

Heston tinha que fazer o discurso depois da tragédia de Columbine? Creio que não. Mas concordo que uma campanha de alerta contra a panacéia anti-armas era urgente - pior, em termos de conseqüências, que o pronunciamento de Heston é o uso oportunistas de situações de comoção pública para promover ações políticas de restrições civis, como os neo-conservadores fizeram ao passar o Patriotic Act no impacto do 11 de setembro.

Uma última ressalva: não sou um conservador, nem direitista, nem reacionário. Sou judeu - e de nós nem conservadores nem revolucionários gostam. Possivelmente, Heston, mesmo tendo interpretado Moisés e Ben-Hur, não nos apreciasse muito. Mas num momento como esse, acredito que saudar alguém como Heston é o mínimo que posso fazer.

Heston morreu no último sábado, dia 5 de abril, aos 84 anos.