As Olimpíadas na Grécia Antiga eram um acontecimento interessante, todo mundo que conhece mais ou menos a história, sabe: de quatro em quatro anos atletas (homens livres) das cidades-estados se encontravam em Olympia para realizarem jogos, que desde os primórdios eram acontecimentos politicamente (e religiosamente) importantes. As cidades lutavam para ter o controle do santuário e realizar a cerimônia, tanto que a parte do mito construído em torno das Olimpíadas, de que parava-se as guerras e conflitos para os jogos, não é assim tão verdadeiro e, de fato, ataques ao próprio local aconteceram, para tomá-lo do controle dos anfitriões em pleno andamento do evento. Outro indicador da importância dos jogos é o fato de ter unificado a contagem do tempo, até então variante de cidade para cidade, que passaram a ter o evento como referência, e o espaço entre dois jogos era chamado também olimpíada.
Com as Olimpíadas Modernas não só não foi diferente, como essa característica de termômetro ou indicador dos ânimos entre nacionalidades se intensificou. A Guerra Fria teve nos jogos um palco privilegiado para a disputa entre o bloco comunista e capitalista - como o boicote aos jogos de Moscou (80) e Los Angeles (84), por causa da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.
Não me interessa o que os jogos são ou não são, me interessa o que se diz que são - jogos de boa vontade e confraternização entre os povos; e há lugar para disputa, rivalidades e coisas do gênero - e isso não é um problema (como não é problema a rivalidade de Brasil e Argentina, ou de Brasil e Cuba, que até dão brilho às competições). O problema é quando há crimes, infrações às leis internacionais e ao direito dos povos em situações distintas dos jogos, e a comunidade internacional faz vistas grossas e realiza a “confraternização” em meio a sorrisos amarelos e muita cara-de-pau.
Na Alemanha Nazista realizou-se a Olimpíada de Berlim, em agosto de 1936. Nessa altura, as pretensões alemãs não eram mais segredo: em 7 de março daquele ano, a Alemanha, em clara violação ao Tratado de Versailles, remilitarizou a Renânia, fronteira com a Bélgica, Luxemburgo e França. Em julho, teve início a Gerra Civil Espanhola, quando tropas nacionalistas (aliadas e suportadas pelos nazistas) marcharam contra a república - esse evento é chamado de “ensaio geral” para os engenhos da maquinaria de guerra alemã. Ao lado, claro da anexação da Etiópia pela Itália, aliada aos alemães, em maio.
As famigeradas Leis de Nuremberg estavam em vigor desde setembro de 1935. Relembrando, eram leis contra o processo de “desnaturalização” da nação germânica, sobretudo por “sangue judeu”, e foram decretadas como defesa ao sangue e honra alemães. Na verdade, não passavam de leis discriminatórias, vexatórias e anti-semitas, firmadas em bases pseudocientíficas; foi o passo inicial rumo à desumanização dos milhões de judeus europeus que posteriormente seriam mortos no Holocausto.
Assim, muito friamente, Berlim ‘36 foi um teste, uma checagem dos ânimos das potências antagonistas à Alemanha, para que Hitler soubesse que passos podeira dar - quanto mais espaço podia tomar. E, para horror de quem volta os olhos para aquele momento, os jogos aconteceram. Houve certa pressão no Comitê Olímpico Americano pelo boicote, mas sob o argumento de que “política não deve interferir no espírito dos jogos, que não responde a credos, ideologia ou raça”, e de que os “atletas judeus (não-alemães) seriam bem tratados”, Betty Boop foi aos jogos.
E pronto: daí em diante veio a aliança com os japoneses (Anti-Kominern), o bombardeio a Guernica (abril de 37, com participação da Luftwaffe), os planos para o lebensraum (espaço vital para o povo alemão - expansionismo alemão, entenda-se), e por aí vamos… Não quero dizer que isso tudo aconteceu apenas por causa de apatia demonstrada pelas nações livres em Berlin ‘36, não quero ser simplista - mas provavelmente, sendo minimamente repreendido, Hitler pensaria um pouco mais antes de fazer certas coisas. Contudo, ainda assim as faria, não tenho dúvidas. A questão não é se isso aumentou ou diminuiu as atrocidades nazistas, mas dilapidação da honra e credenciais do mundo livre.
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A China é o país com o maior número de violações aos direitos humanos - e o que se faz lá com gente é muito, mas muito pior do que em Abu Ghraib ou qualquer prisão ocidental. É o país que mais realiza execuções de pena capital, perto das 3.000 - pelo menos 10 vezes mais que os EUA. O controle de natalidade mantido pelo Estado promove uma matança de meninas inimaginável - há ONG’s e missões cristãs que trabalham exclusivamente com o resgate de meninas em latas de lixo, bueiros e em alas especiais de hospitais (onde as crianças ficam sem alimentação para morrer de inanição).
A China é hoje o maior poluidor do mundo (sim, mais que os americanos em termos absolutos), e suas taxas de emissão são galopantemente crescentes - e ninguém ousa proferir uma mera advertência ao Estado chinês. As condições de trabalho na China são as seguintes: não há férias, décimo terceiro, seguro de qualquer tipo e os salários estão entre os mais baixos do mundo. Se metade disso acontecer num país membro da OMT…
O Estado chinês mantem minorias nacionais e religiosas isoladas e vigiadas rigorosamente. Há nações não-chinesas inteiras que clamam por independência, como povos meso-asiáticos correlatos aos persas e afegãos, praticantes do Islam; os católicos chineses são vigiados por serem devotos de uma “fé estrangeira” (na verdade, o único catolicismo permitido é o Catolicismo Chinês, ou coisa assim, que responde ao Estado, não ao Vaticano). Comunidades cristãs são estimadas entre 50 e 90 milhões de pessoas na China, é a maior igreja subterrânea do mundo - e o maior número absoluto de cristãos por nação; mas os sofrimentos e o custo que estas comunidades pagam é inimaginável para nós, que gozamos dessa benção chamada liberdade de consciência.
A China ocupa e mantém o Tibet como estado-refém desde 1950; há mais soldados chineses do que tibetanos na capital Llasa, antes mesmo dos recentes levantes e protestos.
E é nesse lugar que serão realizadas as Olimpíadas de 2008, Beijin ‘08. E até agora, parece que não haverá boicotes - salvo, quem sabe da República de Taiwan, aquela ilhazinha corajosa que resiste ao gigante chinês.
Eu gostaria que esquerdistas, gente do PC do B (maoísta) se manifestasse e explicasse o que anda acontecendo; gostaria que os pró-palestinos e anti-zionistas me dissessem por que, em seu senso de justiça sensibilíssimo à opressão de “Estados-terroristas”, não se manifestam a respeito do Tibet. Ou por que os defensores da igualdade religiosa que correm a defender muçulmanos, não dizem palavra sobre os cristãos na China…
Também gostaria que liberais e capitalistas que louvam as benesses do livre mercado explicassem por que mantêm negócios com a China. Gostaria de saber, mesmo.
Na verdade, acho que isso acontece não pelo fato de não nos lembrarmos do que aconteceu antes, quando vemos os mesmos padrões se repetirem e uma nuvem muito negra enegrecendo o horizonte. Isso acontece porque somos maus. E ser bom não é ser capaz de derrotar a injustiça, é somente se postar ao lado do fraco, só isso.
Eu não verei as Olimpíadas. Não posso - que seja, ao menos, por respeito aos tibetanos.