Posts Tagged ‘Holocausto’

Negando o Holocausto [por vias mais sutis]

28 Abril, 2008

Ano passado (’07) um chain mail, uma daquelas correntes de e-mail irritantes, causou problemas ao anunciar que o ensino sobre o Holocausto havia sido banido na Inglaterra, e relembrava o  que disse Eisenhower sobre o risco da tragédia ser esquecida e desacreditada por quem não a viu. Como um retardatário, eu recebi a dita mensagem e, impactado, acrescentei um textinho e compartilhei a “notícia” com amigos mais próximos. Rapidamente, gente atenta entre os destinatários, retornaram apontando que a informação já fora contestada e desmascarada como sendo mais uma lenda na internet.

Contudo, o frisson causado (pelo e-mail, ainda em 2007) foi tamanho, que o governo britânico foi a público para desmentir o boato - a BBC publicou dois artigos sobre o caso (aqui e aqui) e há uma boa entrada na Wikipedia sobre o caso. Mas, curiosamente, a emenda saiu pior que o rasgão: de fato, o boato se alastrou na palha seca de fatos muito desconcertantes. Professores em algumas cidades com grandes comunidades muçulmanas gostariam ou estavam evitando assuntos “emotivos e controversos”, e que feriam as sensibilidades dos alunos anti-sionistas e/ou que não criam na realidade histórica do Holocausto. Para não contrariar o que aprendiam fora da escola, a melhor solução seria não tocar nessas questões.

O problema apareceu primeiro num relatório da Historical Association (a respeito do problema curricular), e sua raiz está na proposta educacional inglesa mais recente baseada numa abordagem que contemplasse mais adequadamente o multiculturalismo presente nas salas de aula. Como nesse caso os temas tratados acirravam os animos políticos e militâncias das comunidades, muitos professores, obviamente, não souberam como realizar a tarefa sem cortar e costurar os tópicos dos programas, principalmente em história.

Mais uma vez aí está ele, o multiculturalismo. Lindo, resplandescente, sofisticado, tolerante, e cheio de corretude política - um típico produto da orgulhosa sociedade plural  Esse despropósito não passa de moralismo, o mais desarranjado, armado por quasi intelectuais cheios de ressentimento contra tudo, mas sobretudo contra si. Ao invés de apresentar os fatos e pontos de vista interpretativos academicamente válidos, a disciplina se tornou palco de defesas ideológicas dogmáticas - são as cotas aplicadas às idéias: vamos ensinar sobre o Holocausto, mas não vamos falar sobre as Cruzadas para dar equilíbrio ao conflito com os muçulmanos… muito esperto.

Purim

21 Março, 2008

Hoje é dia 21 de março; para os cristãos, sexta-feira santa, Páscoa cristã. Para nós, judeus, ainda não é Páscoa - nossos calendários são diferentes (o cristão gregoriano é solar, o judaico é lunisolar). Mas essa data é importante para nós, é Purim. Purim não é uma das grandes festas do Judaísmo, não é como Rosh haShaná (ano novo), não é como Yom Kippur (dia do perdão), não está na lista de Levítico 23; mas é uma festa e tanto! Ganhou importância quanto mais se tornou emblemática, assim como Chanuká, a festa das luzes: são festas de livramento do povo judeu.

No ano de 586 a.E.C., aproximadamente, o Reino de Judá, ou Reino do Sul (de Israel), foi invadido pelos exércitos babilônicos, e os habitantes de Judá, ou judeus, foram deportados, exilados para a região que chamamos Mesopotâmia, hoje Iraque. Foi um duro golpe na história de Israel, porque o Templo de Salomão foi destruído e o orgulho da nação foi quebrado. Apesar do exílio ter terminado com o retorno dos seguidores de Neemias para Jerusalém, a diáspora judaica que se iniciou aí perdura até hoje (intensificada, claro, pela expulsão romana em 70 e 135 E.C.).

Quando Babilônia foi conquistada pelo império Persa, o rei Assuerus, ou Xerxes (aquele mesmo que aparece, figurado, em 300 de Esparta) nomeou como vizir (primeiro-ministro) um tal Haman, que tinha fortes ambições de glória. Haman se irou com um certo guarda das portas reais, chamado Mordechai (pronuncia-se Morderrái) que se recusou a bajulá-lo. Haman descobriu que Mordechai era judeu e decidiu se vingar matando não apenas o porteiro, como a todos os judeus - e para isso armou um plano que obteve aprovação do rei, onde mataria todos os judeus do império; e lançou sorte para saber em que dia deveria executar a ação - 13 de Adar.

Mordechai soube do plano (afinal, ele ficava o dia inteiro nas portas da cidade - ouvia de tudo), e avisou sua sobrinha, que fora feita rainha, esposa do rei Assuerus, sem que este soubesse de sua origem judaica. Ester era seu nome Ester. Ela, sabendo dos plano de Haman, conclamou todos os judeus a jejuarem e orarem com ela por três dias, e ao final desse período ela se apresentou ao rei, revelando sua origem judaica e o plano de Haman para aniquilar seu povo. Haman foi morto, mas o decreto que ordenava os ataques aos judeus nas cidades em que habitavam não podia ser revogado; então Assuero ordenou que fosse dada permissão aos judeus para que se defendessem dos ataques, e assim fizeram no dia 13 de Adar. O dia 14, portanto, foi um dia de festa e alegria pelo livramento.

Porque Haman lançou sorte, do acadiano pûrú, deriva o nome hebraico Purim. E isso tem alguns significados. Primeiro, para o pensamento hebraico, não existem coincidências, acaso; assim, em Purim a sorte foi decidida num ato oculto de intervenção divina: a eleição de Ester como rainha da Pérsia e os momentos em que Mordechai ouviu falar da conspiração contra o povo. Também significa que a sorte do povo judeu não está nas mãos de qualquer homem, muito menos Haman ou mesmo Xerxes/Assuerus. Apesar de nenhuma vez o nome de D’us ser citado em Ester, sua presença e intervenção são óbvias.

Essa história se tornou emblemática da condição hebraica, judaica, no exílio: há muitos Hamans que por mesquinharias e rancor pessoal (inveja e raiva) decidem eliminar todo o povo judeu, ou o máximo que conseguirem. Hoje, curiosamente, temos um Haman persa e primeiro-ministro outra vez: Ahmadinejad, presidente do Iran, antiga Pérsia. E essa nova forma de anti-semitismo, o anti-sionismo, vai conseguindo apoio e decretos reais por todo o mundo. E os judeus em todo o mundo estão apreensivos, temerosos de que o pior possa acontecer.

Mas houve providência - Ester. Outra haverá, sempre houve.

Aliás, Purim é a festa que honra as mulheres no Judaísmo. Sempre femininas, sempre fortes, sempre sabendo o que fazer quando qualquer homem desmaiaria de terror. Oculta, astuta e corajosa, derrotou Haman em toda sua força e poder. Assim também fizeram as mães marranas, descendentes dos judeus forçados a se converterem ao cristianismo em Espanha e Portugal no século XVI e XVII, que mantinham em casa, escondidas, as tradições e as ensinavam a seus filhos e filhas, resistindo à aniquilação perpetrada pelo inimigos de Israel - não por acaso que se identificavam com a rainha da Pérsia.

O contra-senso de Beijin

18 Março, 2008

As Olimpíadas na Grécia Antiga eram um acontecimento interessante, todo mundo que conhece mais ou menos a história, sabe: de quatro em quatro anos atletas (homens livres) das cidades-estados se encontravam em Olympia para realizarem jogos, que desde os primórdios eram acontecimentos politicamente (e religiosamente) importantes. As cidades lutavam para ter o controle do santuário e realizar a cerimônia, tanto que a parte do mito construído em torno das Olimpíadas, de que parava-se as guerras e conflitos para os jogos, não é assim tão verdadeiro e, de fato, ataques ao próprio local aconteceram, para tomá-lo do controle dos anfitriões em pleno andamento do evento. Outro indicador da importância dos jogos é o fato de ter unificado a contagem do tempo, até então variante de cidade para cidade, que passaram a ter o evento como referência, e o espaço entre dois jogos era chamado também olimpíada.

Com as Olimpíadas Modernas não só não foi diferente, como essa característica de termômetro ou indicador dos ânimos entre nacionalidades se intensificou. A Guerra Fria teve nos jogos um palco privilegiado para a disputa entre o bloco comunista e capitalista - como o boicote aos jogos de Moscou (80) e Los Angeles (84), por causa da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.

Não me interessa o que os jogos são ou não são, me interessa o que se diz que são - jogos de boa vontade e confraternização entre os povos; e há lugar para disputa, rivalidades e coisas do gênero - e isso não é um problema (como não é problema a rivalidade de Brasil e Argentina, ou de Brasil e Cuba, que até dão brilho às competições). O problema é quando há crimes, infrações às leis internacionais e ao direito dos povos em situações distintas dos jogos, e a comunidade internacional faz vistas grossas e realiza a “confraternização” em meio a sorrisos amarelos e muita cara-de-pau.

Na Alemanha Nazista realizou-se a Olimpíada de Berlim, em agosto de 1936. Nessa altura, as pretensões alemãs não eram mais segredo: em 7 de março daquele ano, a Alemanha, em clara violação ao Tratado de Versailles, remilitarizou a Renânia, fronteira com a Bélgica, Luxemburgo e França. Em julho, teve início a Gerra Civil Espanhola, quando tropas nacionalistas (aliadas e suportadas pelos nazistas) marcharam contra a república - esse evento é chamado de “ensaio geral” para os engenhos da maquinaria de guerra alemã. Ao lado, claro da anexação da Etiópia pela Itália, aliada aos alemães, em maio.

As famigeradas Leis de Nuremberg estavam em vigor desde setembro de 1935. Relembrando, eram leis contra o processo de “desnaturalização” da nação germânica, sobretudo por “sangue judeu”, e foram decretadas como defesa ao sangue e honra alemães. Na verdade, não passavam de leis discriminatórias, vexatórias e anti-semitas, firmadas em bases pseudocientíficas; foi o passo inicial rumo à desumanização dos milhões de judeus europeus que posteriormente seriam mortos no Holocausto.

Assim, muito friamente, Berlim ‘36 foi um teste, uma checagem dos ânimos das potências antagonistas à Alemanha, para que Hitler soubesse que passos podeira dar - quanto mais espaço podia tomar. E, para horror de quem volta os olhos para aquele momento, os jogos aconteceram. Houve certa pressão no Comitê Olímpico Americano pelo boicote, mas sob o argumento de que “política não deve interferir no espírito dos jogos, que não responde a credos, ideologia ou raça”, e de que os “atletas judeus (não-alemães) seriam bem tratados”, Betty Boop foi aos jogos.

E pronto: daí em diante veio a aliança com os japoneses (Anti-Kominern), o bombardeio a Guernica (abril de 37, com participação da Luftwaffe), os planos para o lebensraum (espaço vital para o povo alemão - expansionismo alemão, entenda-se), e por aí vamos… Não quero dizer que isso tudo aconteceu apenas por causa de apatia demonstrada pelas nações livres em Berlin ‘36, não quero ser simplista - mas provavelmente, sendo minimamente repreendido, Hitler pensaria um pouco mais antes de fazer certas coisas. Contudo, ainda assim as faria, não tenho dúvidas. A questão não é se isso aumentou ou diminuiu as atrocidades nazistas, mas dilapidação da honra e credenciais do mundo livre.

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A China é o país com o maior número de violações aos direitos humanos - e o que se faz lá com gente é muito, mas muito pior do que em Abu Ghraib ou qualquer prisão ocidental. É o país que mais realiza execuções de pena capital, perto das 3.000 - pelo menos 10 vezes mais que os EUA. O controle de natalidade mantido pelo Estado promove uma matança de meninas inimaginável - há ONG’s e missões cristãs que trabalham exclusivamente com o resgate de meninas em latas de lixo, bueiros e em alas especiais de hospitais (onde as crianças ficam sem alimentação para morrer de inanição).

A China é hoje o maior poluidor do mundo (sim, mais que os americanos em termos absolutos), e suas taxas de emissão são galopantemente crescentes - e ninguém ousa proferir uma mera advertência ao Estado chinês. As condições de trabalho na China são as seguintes: não há férias, décimo terceiro, seguro de qualquer tipo e os salários estão entre os mais baixos do mundo. Se metade disso acontecer num país membro da OMT…

O Estado chinês mantem minorias nacionais e religiosas isoladas e vigiadas rigorosamente. Há nações não-chinesas inteiras que clamam por independência, como povos meso-asiáticos correlatos aos persas e afegãos, praticantes do Islam; os católicos chineses são vigiados por serem devotos de uma “fé estrangeira” (na verdade, o único catolicismo permitido é o Catolicismo Chinês, ou coisa assim, que responde ao Estado, não ao Vaticano). Comunidades cristãs são estimadas entre 50 e 90 milhões de pessoas na China, é a maior igreja subterrânea do mundo - e o maior número absoluto de cristãos por nação; mas os sofrimentos e o custo que estas comunidades pagam é inimaginável para nós, que gozamos dessa benção chamada liberdade de consciência.

A China ocupa e mantém o Tibet como estado-refém desde 1950; há mais soldados chineses do que tibetanos na capital Llasa, antes mesmo dos recentes levantes e protestos.

E é nesse lugar que serão realizadas as Olimpíadas de 2008, Beijin ‘08. E até agora, parece que não haverá boicotes - salvo, quem sabe da República de Taiwan, aquela ilhazinha corajosa que resiste ao gigante chinês.

Eu gostaria que esquerdistas, gente do PC do B (maoísta) se manifestasse e explicasse o que anda acontecendo; gostaria que os pró-palestinos e anti-zionistas me dissessem por que, em seu senso de justiça sensibilíssimo à opressão de “Estados-terroristas”, não se manifestam a respeito do Tibet. Ou por que os defensores da igualdade religiosa que correm a defender muçulmanos, não dizem palavra sobre os cristãos na China…

Também gostaria que liberais e capitalistas que louvam as benesses do livre mercado explicassem por que mantêm negócios com a China. Gostaria de saber, mesmo.

Na verdade, acho que isso acontece não pelo fato de não nos lembrarmos do que aconteceu antes, quando vemos os mesmos padrões se repetirem e uma nuvem muito negra enegrecendo o horizonte. Isso acontece porque somos maus. E ser bom não é ser capaz de derrotar a injustiça, é somente se postar ao lado do fraco, só isso.

Eu não verei as Olimpíadas. Não posso - que seja, ao menos, por respeito aos tibetanos.

Uma noite de novembro… quase 70 anos atrás

9 Novembro, 2007

Há 69 anos, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, as ruas de quase todas as cidades da Alemanha, e de Vienna (Áustria), foram tomadas por uma turba sedenta de violência, numa orgia de atrocidades. Era a Kristallnacht - a Noite dos Cristais. Em 1933 o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, e desde então, a situação dos judeus no país foi se deteriorando metodicamente, num plano bem arquitetado pelos nazistas. Judeus poloneses que vivam na Alemanha foram deportados em outubro de 38 para seu país de origem, que também não os quis receber, fazendo com que 12 mil pessoas fossem pressionadas na fronteira teuto-polaca, sob chuva e frio, sendo admitidas finalmente na Polônia, em terríveis campos de refugiados.

Um parente desses desafortunados, que vivia em Paris, pediu por ajuda ao embaixador alemão na França, vom Rath. Após ser repetidamente ignorado em sua petição, o rapaz judeu assassinou vom Rath. O incidente foi o que o partido nazista, mais especificamente o chefe da propaganda, Goebbels, precisava para uma ação maciça contra os judeus alemães. Um grande levante, que deveria ser tomado por popular e espontâneo, foi perpetrado pelas autoridades do partido, tendo sido levado a cabo pelas tropas nazistas, as SA, as SS, e outros grupos organizados. Seus membros estavam à paisana, confundindo-se e insuflando os civis.

A Kristallnacht tinha objetivos muito claros: banir os judeus da vida econômica alemã e testar o nível de reação da comunidade internacional a uma ação violenta em larga escala contra os judeus alemães. A ação era coordenada e direta: depredar lojas, estabelecimentos comerciais de propriedade judaica, casas e vizinhanças judaicas, sinagogas, e prender o maior número possível de homens judeus. O saque estava proibido, bem como a violência contra estrangeiros (inclusive judeus estrangeiros), e a população alemã deveria ser cuidadosamente poupada de danos acidentais.

As turbas saíram às ruas com machados e marretas e puseram-se a quebrar as vitrines de casas e estabelecimentos judaicos - daí no nome Kristallnacht: a Noite dos Cristais, porque o vidros de vitrines e janelas eram feitos de cristal e muito caros, sendo, de certa forma, símbolo de prosperidade. 8 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram atacados, 30 mil homens judeus presos e enviados a campos de concentração, e 1700 sinagogas foram atacadas, sendo que 270 foram queimadas e destruídas. Judeus foram perseguidos e espancados, entre a noite do ataque e os meses seguintes (nos campos), pelo menos 2 mil pessoas morreram.

Na Áustria os resultados foram proporcionalmente piores - os austríacos agiram com diligência: 191 sinagogas destruídas, sendo 76 delas completamente demolidas; mais de 800 casas comerciais de judeus foram destruídas.

A real participação da população civil é impossível de ser mensurada, sobretudo pelo fato dos membros de tropas de ataque estarem em roupas civis. Mas o ponto é que assim como os alemães, o resto do mundo assistiu à Noite dos Cristais paralizado, sem saber exatamente o que era aquilo e recusando-se a fazer alguma coisa. Muitos países condenaram o ataque, alguns chegaram a romper relações diplomáticas… mas já era tarde. O dia 9 de novembro de 38 foi um ensaio geral para o que estava por vir - não por acaso, alguns consideram a Kristallnacht como o início do Holocausto.

Os Nazistas, como todos os inimigos da liberdade, não precisavam de ajuda ou adesão massiva à sua orgia - precisavam apenas que as pessoas se calassem e virassem seus rostos. Como na frase do Sr. King: “não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. E pouco tempo depois, já não havia como evitar “danos à população alemã”. A guerra foi impiedosa, mas não podemos negar que deu muitos sinais e avisos de que chegava… entrou quase que a convite.

E os judeus? Sobreviveram… foram multados, ao final do levante, em 1 bilhão de marcos por “danos à nação alemã”… e os reparos das janelas quebradas ficou em torno dos 4 milhões de marcos. Muitos que até ali estavam hesitantes, tentaram emigrar. Mas já era tarde também para isso, para muitos. E até hoje, tentamos sobreviver… pagando multas, consertando casas, indo embora, e escrevendo… tentando não deixar que certas coisas se repitam.

De Munique a Pequim

7 Novembro, 2007

Ano que vem, mais uma vez, os olhos do mundo todo se voltarão para a China, para as Olimpíadas de Pequim, ou Beijin. As Olimpíadas modernas, como todos sabem, tal como idealizadas por Pierre Fredy, Barão de Coubertin, têm por princípio a união e confraternização entre os povos, o “fair play“, e essa coisa toda. Mas, para honrar mais uma vez o título desse blog, a realização de uma olimpíada na China é, em todos os sentidos, um contra-senso.

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A China é o país mais populoso do mundo, e detém outros recordes. É o país que, de longe, mais desrespeita e nega direitos básicos aos seus cidadãos - da liberdade de expressão à liberdade econômica, passado pela liberdade religiosa e de consciência. Se você, leitor, achou as fotos de Abu Ghraib um absurdo, nem queira saber o que se passa pelas prisões chinesas. E enquanto no Iraq há um estado de guerra e conflito armado com soldados, exércitos, guerrilheiros, terroristas, etc., na China há um Estado que esmaga seus próprios cidadãos por quererem votar, publicar livros, acessar internet, rezar, ter mais de um filho, etc…

Aliás, você que lê esse blog, saiba que a China exerce um dos mais apertados cercos e censura sobre a internet no mundo (juntamente com o Iran, acho). Não há dados oficiais, obviamente, mas organizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que o país onde mais se tortura e mata jornalistas é a China. Saia da linha, e tome pancada.

Os católicos chineses não podem ser católicos… é, o dogma central do catolicismo, que é a representatividade de D’us na Terra pela figura do Papa, é proibido, e a Igreja Católica na China é submetida ao Estado Chinês - do contrário, estaria submissa a um país estrangeiro… afinal o Papa é estrangeiro, e chefe do Vaticano… As igrejas protestantes na China são menos evidentes em termos oficiais; crescem como redes, com reuniões e núcleos domésticos clandestinos, se reúnem também em salões subterrâneos, lugares ermos - catacumbas. O número de religiosos perseguidos e mortos também assusta. Caso você leia jornal no Brasil, sempre que ler uma notinha como “grupo de rebeldes é preso no interior da China” ou coisa parecida, dê um pulinho no site A voz dos mártires e saiba uma outra versão (no mínimo) do ocorrido.

E não se iluda: não são meia dúzia de cristãos na China. Por baixo, calcula-se que haja 90 milhões de cristãos, o que faz do país a nação com o maior número de cristãos no mundo - mais até que os EUA. Só isso.

Mas para aqueles que acham que com cristãos tudo pode ser feito, vejam a ocupação chinesa no Tibet. São 50 anos de invasão que já custou a vida de mais de um milhão de tibetados, e o exílio do Dalai Lama como resultado da pressão insuportável sobre a religião budista. Os chineses mulçumanos, zoroastristas, minorias não chinesas, animistas, etc., também sofrem o diabo na mão do Estado que não quer outra coisa senão o lugar exclusivo de divindade única.

A China tem o infanticídio e o aborto como política de controle de natalidade e crescimento populacional. Eu mesmo conheci um casal que trabalha em Hong Kong recolhendo bebês (meninas) das latas de lixo e sarjetas da cidade. E sempre há bebês descartados. Sempre. E o cinismo ocidental diz que “a China precisa parar sua bomba populacional, não importa como”. Não há sequer projeções da extensão da violência contra a mulher chinesa…

A China e o país com o maior número de execuções de pena capital no mundo - a maioria dos executados cometeram crimes políticos (leia-se contra o regime). Em 2005, foram pelo menos 1.700 execuções (algumas fontes acusam 8.000 execuções), enquanto nos EUA, país democrático com o maior número de execuções, elas não chegaram a 70. De cada 10 aplicações de pena capital, 9 acontecem na China - pelo menos.

No segundo semestre de 2007, a China tornou-se o maior emissor de carbono do mundo, superando os EUA.

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Bom, a essa altura os garotos revoltados, esquerdistas, libertários e toda sorte de bandido e corruptores do bom raciocínio devem estar bastante raivosos. Mas vou insistir um pouco mais. Realizar uma Olimpíada na China é um erro. Apoiá-la é um crime. Crime de cumplicidade a toda injustiça e violência cometida pelo Estado Chinês contra a humanidade. Todo atleta, delegação, país que participar futuramente se envergonhará profundamente, e restará aquele pedido de desculpas aterradoramente inútil ante a atrocidade perpetrada.

Delírio? Pode ser. Mas o Mundo (minimamente) livre cometeu um erro desse mesmo tipo ao realizar e participar das Olimpíadas de Munique, na Alemanha de Hitler, em 1936. A Olimpíada que deveria celebrar a “paz” com a Alemanha Nazista, e a hegemonia suprema da raça ariana. Pouco tempo depois, a Polônia era invadida, e os fornos queimavam judeus, cristãos, ciganos, etc…

Tudo bem, a história nunca se repete. Quando retoma um padrão, não repete - porque o erro repetido é sempre ainda mais horrendo, maligno e abissal. Que será do ano de 2011?

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

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Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

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Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

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O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

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Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?