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Notas de um usuário final [notebooks]

13 Abril, 2008

Faz tempo que ando pensando numa forma viável de comprar um laptop, e por viável quero dizer encontrar uma máquina honesta na relação custo/benefício - os benefícios de que preciso são os necessários para as tarefas cotidianas de um estudante: editar textos, navegar na web (o que implica wireless), sem obrigatoriamente ser um substituto para o desktop, e, mais importante, que a configuração seja compatível com GNU/Linux. Sendo essas as necessidades, o custo não precisa (nem pode…) ser alto, precisa ser, digamos, mitigado: suaves prestações, afinal, sou estudante.

O fato de primar pela compatibilidade de hardware com Linux me fez pesquisar um bocado na internet e a prestar atenção em coisas absolutamente impensáveis para um jacu. Por exemplo, fiquei assustado com a quantidade de gente que passa um inferno com chipsets VIA, ou com placas wireless Broadcom. Aí quando peço pra ver a configuração das máquinas, mesmo as que vêm com Linux, estão lá os danados. Alguém diz que isso é para cortar custos… bom, não sei dizer, mas é provável.

Até R$ 1.500,00 dá pra encontrar máquinas razoáveis: HP e Semp-Toshiba principalmente (ainda que me pareçam ser mais velhas, ou encalhadas na Americanas.com e Submarino) e coisas que eu não me arrisco comprar, como CCE, ECS, Positivo, etc. O problema é que no site da Dell há o Vostro 1000, sempre flutuando entre R$ 1.400,00 e R$ 1.500,00, em dez vezes sem juros no cartão. Tudo bem, o Vostro não passa no teste de compatibilidade (tudo ATI, AMD e Dell wireless), ainda que o Alfredo diga que tudo funcionou de primeira e redondo (não que eu ache que seja mentira, só que tem gente que dá sorte, diferente de mim) - mas pesa como um parâmetro (um Dell é sempre um Dell).

Pensando nessas coisas e na dificuldade de acertar o orçamento pra dez parcelas de R$ 150,00 (não se esqueça, sou estudante), me aparece a opção do Eee PC 701 da Asus. Conversei um pouco com o André Noel, que está se dando muito bem com o dele, e muita gente também diz o mesmo - e a comunidade trabalhou muito bem para possibilitar a instalação do Ubuntu no lugar do Xandros. A Mania Virtual vende o Eee PC em doze parcelas sem juros (R$ 1.100,00, aproximadamente) - são cerca de R$ 90,00 mensais. E isso pode fazer diferença.

Mas aí aparecem os contras: são apenas 4 gigas de memória, 512 de ram e 7″ de tela… precisaria comprar um pen drive mais generoso ou um cartão SD, o que faria somar mais uns R$ 100,00. Bom, comparando como Vostro (diabo!), fica complicado. Sei que a comparação é inválida, são padrões diferentes, mas o que não quero é comprar gato por lebre, e perder um investimento razoável.

Para complicar a situação, a Asus anuncia o lançamento do Eee PC 900, uma gracinha com tela de 8.9″, 12 giga de “disco” e 1 giga de ram, por €400,00. Com um tio vindo da Europa, quem sabe seja uma possibilidade, afinal, o lançamento do 900 foi antecipado para meados de abril na Ásia e início de maio da Europa. É uma possibilidade…

Mas porque a Asus está antecipando o lançamento? Bem, outras empresas querem, e vão, entrar com peso nesse novo segmento de sub-notes, e os asiáticos não querem perder o mercado já conquistado (saiba mais aqui). E procurando pelos concorrentes da Asus, eis que encontro isso aqui: é o sub-note HP 2133. Essa maravilha tem tela de 8.9″, 1 giga de ram e, pasme, 120 de hd! E custa $600,00 (menos de R$ 1200,00, lá).

O defeito? Bom, wireless Broadcom, vem com Windows Vista® (onde, meudeus, onde?), processador, video e câmera VIA. Bom, parece que ninguém é perfeito. E precisaria que algum amigo comprasse nos EUA e trouxesse pra mim.

A solução? Acho que a Dell passar vender máquinas com Ubuntu por aqui, e rápido; com hardware homologado, qualidade e bom preço - tudo o que ela já oferece lá fora - não pensaria duas vezes. Mas que esse HP é muito sexy, ah, isso é…

ATUALIZAÇÃO: numa outra página no site da HP, o modelo mais básico (1Gb de ram) vem com Linux (provavelmente Suse, segundo o BR-Linux). Isso é um ótimo sinal. Na verdade, isso já era notícia velha… Veja todos os modelos disponíveis à venda aqui. O melhor modelo rodando Suse custa $550.00.

ATUALIZAÇÃO 2: o Cesar Cardoso (Fudeblog) compartilhou uma dica de primeira: Eee PC 701 por 899,00 (até 10x no cartão) no Comprafácil (aparece 999,00, mas no carrinho cai o valor).

Dell e Canonical no Brasil: uma explosão de Linux?

9 Abril, 2008

Procurando por relatos de usuários que instalaram Ubuntu Gutsy em laptops Dell Vostro 1000 (é, estava olhando no site, o preço até quinta-feira é bom, R$ 1.400,00), o Google (oh, oráculo hodierno!) me sugeriu uma notícia interessante: a Canonical e a Dell anunciaram que em breve serão ofertados laptops com Ubuntu pré-instalado, ou seja, OEM, no mercado brasileiro (veja aqui, aqui e aqui). De fato, isso só foi possível porque a Canonical vai dar suporte local no Brasil, assegurando à Dell, e outras empresas, que seus clientes terão cobertura técnica para o Sistema Operacional.

Como muita gente comentou na web, o estabelecimento da Canonical no Brasil vem tarde, ainda que muito bem vindo. Nas estatísticas do site, os brasileiros fazem cerca de 50.000 downloads do Ubuntu por mês, o sexto país no rank (isso sem contar com outros tantos linuxers que utilizam outras distros mas se interessariam por uma máquina portando Ubuntu OEM), sem falar no restante da América Latina. Isso me faz lembrar do comentário do Dr. Michel Xhaard (que compilou drivers para mais de 230 câmeras antes não suportadas no Linux), de que a maior parte dos grandes desenvolvedores não está interessada no usuário final, como eu e você (dependendo, claro, de quem você seja). Essa demora em se estabelecer em mercados emergentes e com potencial fora do eixo Japão/Coréia-Europa-EUA/Canadá me assusta: piratear mídias tem jeito, mas suporte, não! A Canonical andou a marcar touca, e o Linux andou em apuros.

Sim, porque na onda do PC para todos e da MP “do bem” muitas empresas passaram a oferecer máquinas rodando Linux e software livre, mas para reduzir custos e contar com os incentivos do Estado. O que eu vejo é um desfile tosco de versões deselegantes (no mínimo) criadas pelas próprias empresas ou parceiros obscuros: um tal Einstein, outro Librix, e “customizações” mal feitas e descontinuadas no desenvolvimento e, como de se esperar, sem suporte adequado. Cheguei a ver um HP rodando Mandriva num shopping em Belo Horizonte, e mesmo Kurumin, o que é um bom sinal, mas não me parece ser a norma. Penso que os fabricantes e montadores percebem o Linux apenas como um modo de baratearem o produto e passarem a responsabilidade de instalar uma cópia pirata do XP® ou Vista® (onde, onde?) para o consumidor classe C ou D, num acordo silencioso do tipo “eu não sei e você não diz”.

O resultado é que para muitas pessoas (justamente as mais pobres e com menor acesso a informações), Linux é “aquele negócio difícil que não funciona” que é substituído pelo Windows® por um primo que “manja de computador”; ou então, para as parcelas das classes A e B que insistem em se manter desinformadas, vira sinônimo de produto desqualificado.

Contudo, uma empresa do porte da Dell, considerada uma grife, oferecendo produtos com qualidade de design e hardware rodando Ubuntu, a situação é muito diferente. Em sociologia temos o conceito de “corrente de imitação” que explica como um comportamento é disseminado num coletivo, e em sociedades de especialistas como a nossa, os não-especialistas (também conhecidos como jacus ou clueless) se fiam no comportamento dos entendedores, no presente caso, geeks e profissionais usuários de tecnologia (como executivos, consultores, designers, publicitários, etc.) para basearem sua escolha. Ora, já é normal ver geeks usando GNU/Linux, mas isso aliado com distros amigáveis, influencia profissionais de outras áreas que querem qualidade, produtividade e segurança, que, por sua vez, influenciam outros usuários.

O suporte da Canonical e a oferta do produto pela Dell são fundamentais para a ampliação desse segundo passo (profissionais » jacus, como eu), e pode abrir um novo mercado para o Linux. Novo mercado porque o Ubuntu 8.04 pode ser um concorrente real em temos mercadológicos para o Windows® (que já está batido tecnicamente), passando a disputar o nicho desktop, muito diferente e mais “enjoado” que o nicho enterprise. Fora que um Inspiron 1525 com Vista custa entre R$ 1.800,00 e R$ 2.000,00 (versão padrão) - com Ubuntu e o mesmo hardware (tudo Intel) pode sair por alguma coisa entre R$ 1.500,00 e R$ 1.800,00, ou ainda menos na linha Vostro. Imagine adquirir um Dell por esse preço! Agora imagine adquirir um Dell a esse preço e rodando Ubuntu… aiai.

Liguei para o 0800 da Dell no Brasil para saber quando teremos um laptop com Ubuntu, mas ninguém sequer sabia disso… No final, mais do que desejar que aconteça logo, espero que aconteça de fato. Por enquanto vou pensando no meu Eee PC 700, e está de bom tamanho (quer dizer, nem tanto…).

Notas de um usuário final [com direito a imagem]

7 Abril, 2008

Eu escrevi uns cinco ou seis posts nesse blog (e em sua versão anterior no blogger) sobre minha experiência como usuário final de GNU/Linux Ubuntu. Meus grandes problemas foram um cabo ethernet danificado (por isso não conseguia configurar a banda larga), a placa de rede integrada na mobo Asus que não era reconhecida (chipset VIA, acho - dizem que é um problema), e uma placa de video ATI Radeon 9550. Todo leitor desse blog (ou seria brógui?) sabe dessa história, e o pessoal do Planeta GNU/Linux Brasil (onde, por culpa do Og Maciel, eu estou indexado - não ouso dizer que sou um colaborador) já sente náuseas sempre que se depara com o título “notas de um usuário final…” e blábláblá.

Pois é. Mas foi isso mesmo: quando comecei a usar Linux, com o simpático Kurimin, tinha uma ATI Radeon 7000, que não era suportada de modo nenhum. O jeito foi ficar sem aceleração gráfica (e eu doido pra saber como eram os joguinhos…), até que eu juntei uma grana e comprei a tal ATI Radeon 9550. E é aqui que esse post se presta a contribuir com alguma coisa: o que me rendeu dor de cabeça foi a jucuzisse (qualidade de jacu - nome nativo para clueless) e um certo emaranhado de discussões técnicas tipicos da nerdisse (qualidade de nerd). Jacuzisse porque comprei a placa sem fuçar o suficiente e descobrir o que usuários dessa placa reportam; por outro lado, me fiei na existência de guias como o Unofficial ATI Linux Driver Wiki. No final, baixando drivers, seguindo tutoriais e editando configurações completamente alienígenas para mim, e nada dando certo, fiquei com uma placa de R$ 250,00 completamente inútil. E, convenhamos, é deprimente ter uma placa de 256Mb rodando drivers vesa e travando Armagetron. Pois é…

Então, como eu resolvi o problema da ATI Radeon 9550 no Ubuntu? Arranjei uma GeForce 6200! Pronto. Como num passe de mágica, meu deskop agora exibe todas aquelas futilidades pirotécnicas: cansei de tanto “girar o cubo” (ô rapaz, sem trocadilhos…) e agora consigo saber o que um Linux é capaz em joguinhos.

Placas ATI funcionam? Sim, funcionam. Um amigo roda Ubuntu numa 9600 (para meu desespero) macio, macio. No meu caso, por culpa de algum carma cabalístico, não deu. Sou o único? Não - muita gente em fóruns reclama de não conseguir habilitar a placa (e não raro, depois de baixar pacote, editar configurações e rezar muito, terminam com uma tela preta ou com o X pedindo arrego). Comprar outro hardware foi a solução também no caso da placa ethernet - a integrada na placa mãe simplesmente não é reconhecida; comprei uma Encore (chipset Realtek) e tudo passou a correr bem (com a troca do cabo ethernet).

Gostaria de agradecer aqui ao Luti pela gentileza de me ceder a placa.

Cubo com Skydome ativado e animado

The times they are a-changin’

26 Março, 2008

Gandhi dizia que quando os fracos começam a se posicionar e agir de alguma forma contra tiranos e opressores, primeiro eles te ignoram, depois riem de tí, quando passam a levar-te a sério, então… tu os vence. É a lógica da resistência pacífica, ou de David (contra Golias).

Pois bem, os Estados Unidos tem um órgão chamado Security and Exchange Commission, ou SEC, que é alguma coisa como o nosso CADE - Comitê Administrativo de Defesa Econômica, que tem por função garantir o cumprimento das lei e regulamentos que regem o mercado e a indústria, pra que se garanta os princípios de competição (minimamente) justa. A Microsoft®, por conta da Lei Anti-Trust (americana) está sob intervenção do SEC (mas toda empresa de determinado porte fica sob supervisão desse orgão).

Anualmente a empresa tem que emitir um documento que descreve minuciosa e claramente suas atividades, chamado 10-k. E no 10-k da Microsoft desse ano há algumas passagens muito, mas muito interessantes. Gostaria de apresentar alguns excertos escolhidos e apresentados por Larry Cafiero (onde fiquei sabendo do acontecido). Vejamos:

Our business model has been based upon customers paying a fee to license software that we developed and distributed . . . . In recent years, certain “open source” software business models have evolved into a growing challenge to our license-based software model.

Open source commonly refers to software whose source code is subject to a license allowing it to be modified, combined with other software and redistributed, subject to restrictions set forth in the license. [...] A prominent example of open source software is the Linux operating system.

Although we believe our products provide customers with significant advantages in security, productivity and total cost of ownership (emphasis added to highlight both the audacity and humor of this clause), the popularization of the open source software model continues to pose a significant challenge to our business model…

…including continuing efforts by proponents of open source software to convince governments worldwide to mandate the use of open source software in their purchase and deployment of software products.

To the extent open source software gains increasing market acceptance, sales of our products may decline, we may have to reduce the prices we charge for our products, and revenue and operating margins may consequently decline.

Tradução meia-boca:

Nosso modelo de negócio é baseado em consumidores pagando uma taxa pela licença de uso do software que nós desenvolvemos e distribuímos… Nos últimos anos, certos modelos de negócios de software open source se tornaram um crescente desavio para nosso modelo baseado em licenças de software.

Open source refere-se àqueles softwares cujo código está sujeito a uma licença que permite que seja modificado, combinado com outros softwares e redistribuído, sujeito às restrições descritas na licença… Um exemplo proeminente de software open source é o sistema operacional Linux.

Embora nós creiamos que nossos produtos forneçam a nossos clientes significantes vantagens em segurança, produtividade e o custo total de propriedade, a popularização do modelo de software livre apresentou um desafio significante para nosso modelo de negócio…

…incluindo esforços contínuos dos defensores/promotores do software livre para convencer governos em todo o mundo a obrigar/exigir o uso de software open souce em suas aquisições e distribuição(?) de produtos de software.

Na medida em que o software open souce ganha aceitação crescente do mercado, as vendas de nosso produtos caem, e nós temos que reduzir os preços que cobramos por nosso produtos, e o lucro e margens operacionais conseqüentemente também diminuirão.

É isso aí, meninos e meninas, hoje aprendemos que o crime não compensa, ops! ;)

A Microsoft teve que reconhecer que que o modelo livre é melhor e mais eficiente. Demorou, mas está lá. Vida longa ao Linux!

Mancos, mas rápidos

20 Março, 2008
NOTA: posso ter errado em metade das questões técnicas que trato aqui… mas tenham paciência, me corrijam, e vejam se alguma coisa faz sentido ;).

Um dos termos que mais me chamou a atenção em computação foi o plug and play - alguma coisa como “conecta e funciona”, isso ainda no tempo em que eu usava Windows® e achava que Linux era uma tela preta e linhas de comando cabalísticas. Sem considerar os aspectos mais técnicos, o princípio é que qualquer hardware ou gadget conectado no computador seja reconhecido pelo sistema operacional e funcione sem complicadas manobras e configurações, que não aquelas referentes aos hábitos e preferências do usuário ou administrador.

Se entendo bem, isso depende de duas coisas: um sistema operacional (daqui pra frente SO) versátil, ou seja, capaz de reconhecer funcionalmente a adição; e hardware inteligente, desenvolvido a partir do bom conhecimento dos sistemas operacionais a que se destina. A Microsoft® prometia esse conceito para o Windows®, mas (que coisa!) mantinha um contra-senso: o SO não é versátil, nem os desenvolvedores tinham acesso adequado à arquitetura do SO para “compor” drivers compatíveis (quer dizer: tudo, menos aquela tela azul…).

Depois de conhecer o Linux, há uns três anos, via Kurumin (que agora será um flavour do Kubuntu, não? Kurumin NG, acho), e soube que havia vida para além das janelas - e que havia muito mais que prompts de comando - me deparei com um SO versátil, robusto (quando necessário), confiável e, principalmente, aberto. A primeira característica cobre o primeiro requisito do plug and play, e é o principal passo para garantir que o segundo seja possível e bem sucedido - afinal o desenvolvedor do hardware e dos drivers têm, literalmente, o livro aberto diante de si.

Entretanto, para minha surpresa, isso parece não interessar aos fabricantes de hardware… É quase previsível que não esteja de acordo com as intenções mercadológicas das gigantes desenvolvedoras de SO (num cálculo equivocado, a meu ver); mas é impressionante que fabricantes de hardware não se valham abusivamente dessa vantagem. Provavelmente levantariam o argumento que precisam desenvolver drivers proprietários para resguardar seus investimentos; mas isso não resiste a duas considerações: primeiro, drivers proprietários parcialmente funcionais não são interessantes na medida em que dificultam a vida do usuário/consumidor/cliente; e, segundo, drivers abertos aumentam a participação e formação de uma comunidade de usuários que divulgam o produto e ajudam em seu desenvolvimento - o que, imagine, pode proteger a marca.

Para um mundo um pouco melhor, bastava que empresas desenvolvessem produtos arquitetados segundo padrões abertos, para Linux (ou *nix) - e isso não melhoraria nem pioraria seus produtos para Windows®, a não ser, claro que Redmond usasse de práticas desonestas, como “sabotar” produtos amigos do pingüim com “minas” de incompatibilidade, ou fazer o que fizeram com a iRiver: essa empresa produz tocadores digitais (tá, digital playersmp3 players, como quiser) que suportam (e bem) formatos livres como .ogg. Eu adquiri um modelo (T10, de 1Gb), e fiquei satisfeito quanto à reprodução do formato. Contudo, a Microsoft® firmou (ou comprou?) um acordo com a empresa para que usasse MTP® (Microsoft Transfer Protocol), protocolo proprietário que torna o WMP® irrevogável para transferir arquivos e gerenciar o tocador, ao invés de UMS (USB Mass Storage), bem suportado pelo Linux e aberto(?).

Por algum motivo (qual $erá?), a iRiver aceitou. Relatei em outro post como lidei com o problema. O fato é: a comunidade, só com uma parte da solução, o SO aberto e confiável, consegue façanhas. Se houvesse boa vontade dos produtores de hardware… teríamos grandes passos em direção a mais e mais facilidades plug and play. E nesse estado de “meio caminho andado”, ando tendo boas experiências com o Amarok - com certeza o melhor media player para Linux; quase “conecta e funciona”.

Riso cismado

29 Fevereiro, 2008

O Brasil é um pais peculiar, cheio de piadas prontas - na política, na economia, no futebol, na vida de suas celebridades… fica fácil (ou muito difícil) ser humorista por aqui. Na verdade, parece que é impossível fazer uma análise séria, fria, da nação, esquadrinhá-la com parâmetros civilizacionais ordinários. As coisas aqui seguem a regra da inconstância e inconsistência - se a pós-modernidade são os sólidos se dissolvendo no ar, a definição não vale para o Brasil: sempre fomos líqüidos, fluidos.

Não é à toa que temos uma profusão de bons cartunistas. Já no Império as contradições políticas eram denunciadas por esse meio de adequação quase exclusiva. Mais tarde, temos Péricles de Andrade Maranhão, que criou o impagável Amigo da Onça. Curiosamente, Péricles suicidou-se em 1961, com gás de cozinha, mas não sem fazer uma espécie de última piada: deixou um bilhete avisando “não risquem fósforos”

Com a ditadura, AI-5, repressão, etc., o humor se tornou campo de resistência e militância. O Pasquim foi a publicação de vanguarda, lançando muitos chargistas e tecendo críticas ferrenhas ao regime dos generais, inteligentemente camufladas pela máscara do riso. Ziraldo, Laerte, Angeli, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Millôr Fernandes (essas espécie de cartucronista), o saudoso Henfile vamos longe nessa lista, são exemplos dessa geração.

E essa riqueza é proporcional à falta de seriedade tupiniquim? Não, creio que não. O humorista é, no fundo, um moralista - é o sujeito que faz a crônica dos costumes, da prática mais doméstica, a crítica familiar, de si mesmo. É um denunciante que apontando para si, desnudando a todos - isso quando não aponta para todos e qualquer um mesmo… O humor e a qualidade do humor tem a ver com a carga de moralidade de uma comunidade, e se engana quem pensa que o Brasil é hedonista, amoral. Pode ser imoral, mas esse defeito está relacionado, deve sua presença, a um espectro contrário e contrastante, referencial, ou seja, alguma moralidade.

Por muito tempo, o jornal foi a mídia das tirinhas. Minha avó cresceu lendo quadrinhos em jornais, e eu mesmo os conheci ali. Mas como tudo o mais, o cartum (vou usar essa forma aportuguesada mesmo) ganhou novos nomes e lugar na Internet. A maioria dos chargistas e quadrinistas que citei aqui, e outros mais, publicam seu repertório e disponibilizam seu acervo na web. Mas, mais que gente feita no jornal migrando para novas mídias, há agora gente que se faz na rede, eventualmente caindo nas graças da turma do papel.

O melhor exemplo para mim, é o Galvão. Ele publica tirinhas quase diária em seu site, e, para mim, é um gênio. O cara é um artista plástico, para início de conversa - é só ver as pinturas e quadros (também no site). Mas nos quadrinhos temos um traço todo peculiar, curioso e um conteúdo dos melhores. Galvão consegue despejar baldes de um humor ácido, às vezes melancólico, em três quadros… aliás, cartuns não seriam uma forma aparentada ao haiku, ou haikai no renga?! Contar uma história completa em três cenas, e pronto. É… pode ser.

Mas voltando ao Galvão: religião, sexo, moda, política, otimismo, solidão - principalmente a solidão - são alvos metralhados (entre outros) pelo pincel desse sujeito. Faz rir… mas às vezes saio taciturno do site. Com freqüência, na verdade. Acredito que seja um daqueles tipos de apontam para si, e aí atira no mundo (tá, menos exagero - no leitor). Muito do que vi em Gilles Lipovetsky, Pascal Bruckner, Zygmunt Bauman, Anthony Giddens, e essa conversa toda sobre individualidade/pessoalidade, vida afetiva, laços sociais, identidade na hipermodernidade, ou pós-modernidade, está lá em forma concentrada, espontânea - os famosos “instantâneos da vida”.

Bom, não sou um crítico - portanto vou parando por aqui, se não, fica parecendo puxação. E não é. Então, olhem lá - www.vidabesta.com.

O caso do iRiver T10

28 Fevereiro, 2008

O mais alardeado princípio do livre mercado é que ele, o mercado, é capaz de se auto regular. E possui essa capacidade porque é formado por agentes, indivíduos, racionais em busca da maximização dos resultados em função dos esforços - aumentar o lucro. Isso também é chamado de “teoria da ação racional” - um agente/indivíduo vai sempre agir de acordo e a partir do cálculo que aponte a melhor escolha numa determinada situação. Assim, o mercado seria como uma máquina de complexas engrenagens governada pela lei da melhor escolha (mesmo que a melhor entre piores, o chamado mal menor) para o maior lucro.

Deixando de lado a questão se esta é ou não a melhor definição de mercado, e tomando as coisas como se assim elas fossem, o mercado tem um problema, uma anomalia, que se faz sentir com maior força em algumas áreas.

É muito curioso que grandes conglomerados, quando são alvo de processos e acusações de concorrência desleal, formação de trust, etc., reajam violentamente levantando em alta voz o velho argumento de que “o mercado deve ser mantido fora do alcance da regulação estatal, vez que é capaz de gerir seus rumos” - ou seja, não se preocupe, ainda que alguma coisa esteja errada, o sistema se repara e segue em frente; e se as coisas vão mal, a intervenção só fará piorar.

É curioso porque a maior parte dessas empresas que defendem a liberdade do mercado são as primeiras a limitar a liberdade de certos agentes - freqüentemente, os consumidores. A restrição da escolha sempre causa situações inusitadas e surreais, como a que aconteceu comigo.

Interessado em adquirir um mp3 player que tocasse formatos abertos, escolhi um iRiver, modelo T10, de 1Gb de capacidade, que além de suportar os formatos proprietários .mp3 e .wma, também supota .ogg, o que muito pesou no meu cálculo, juntamente com uma promoção das Americanas.com, que oferecia o aparelho de R$ 350,00 por R$ 200,00. Então, saquei o cartão, e comprei o negócio.

Alguns dias depois, chega numa caixa bacaninha um aparelho de design audacioso, como vocês podem ver no link acima (embora o meu seja amarelo e preto). Quer dizer, era alguma coisa bem diferente e longe da vulgaridade de um Foston (nada contra, já tive um, inclusive). Mas foi a partir daí que as coisas desandaram na relação de mercado. Pra início de conversa, apesar do T10 suportar .ogg, é um player “for Windows®” e arquitetado para funcionar sobre o WMP®, versão 10, 11 ou o que seja, que sequer suporta .ogg!

Para rodar o programa que acompanha o player ou para fazer atualizações, é preciso usar Windows® e o WMP®. Além disso, os modelos da iRiver usam o Microsoft Media Transfer Protocol - MTP, e se você quiser converter o aparelho para UMS (USB Mass Storage), a iRiver disponibiliza uma atualização do firmware - mas para aplicá-lo é preciso da tralha de Redmond; ou seja, sem Windows em algum momento da história, o uso em Linux fica impedido de ser satisfatório.

Resultado: fiquei com um player que suporta um formato livre, mas que, por conta de um protocolo diferente, punha as músicas fora de ordem e não aceitava as playlists geradas em outro programa que não o que acompanha o produto. Esta, então, seria a incoerência: além de manter o usuário acorrentado a um sistema operacional e um media player que ignora formatos livres, a empresa releva os usuários de GNU/Linux; então qual o apelo de um iRiver?

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Bom, entretanto, contra as incoerências (ou seriam contra-sensos?) do mercado pode haver uma arma. E mesmo um usuário final, meio newbie, pode dela precisar e se valer: a comunidade - ela pode fazer toda a diferença para a manutenção de alguma liberdade nesse lugar que vai mais parecendo uma selva que uma máquina auto gerida. Ainda muito decepcionado com o que constatei, abri o Google e comecei minha jornada que começou solitária mas encontrou outras vozes. Foi só colocar “T10 iRiver Linux” que foram listadas algumas entradas bastante interessantes.

A entrada mais importante, útil e esclarecedora foi esta aqui, que me fez informado da maioria das coisas (e críticas) que apresento neste post. Eu nem sequer sabia que havia uma diferença de protocolo de transferência de arquivos no Windows® e no Linux… quanto mais que haveria uma forma “lateral” de superar o problema da desordem das músicas e da impossibilidade de importar playlists. Não só fiquei sabendo como obtive uma solução - um python script. A única coisa que eu sei sobre isso é que python é uma linguagem elegante (!) de programação e que um script é um conjunto de ordens para um programa executar (e essa pode não ser a melhor definição).

A primeira barreira foi o receio de colocar um script na raiz do aparelho, por que sempre dizem pra ter cuidado ao mexer nessas coisas que podem inutilizar o aparelho. Bom, mas o “tutorial” dizia que isso era very simple, e não trazia nenhum aviso aterrador. Depois foi entender como é que eu fazia pra utilizar o comando… o que está escrito no blog não funcionou… Bom, não sei por que motivo, lembrei-me que em alguns tutoriais fala-se sempre de “tornar o arquivo executável” - bom, deve ser isso, pensei. Então, toca pra /media/disk e então: sudo chmod 777 script.py - e agora?, isso não é bastante, já que o comando script.py não existe…

Quebrando a cabeça, lembrei-me (!) que quando eu clico duas vezes num script escrito num editor comum (gedit, por exemplo) aparece uma caixa de diálogo perguntando se eu quero “executar em terminal”, “exibir” ou outra coisa. Bingo! É isso aí. Sai do diretório em que o script estava, voltei (não sei bem o porquê) e cliquei duas vezes no danado - funcionou! Tinha playlists dos álbuns presentes, mesmo desordenados, com um simples duplo clic! Bom, fiquei alegre como uma criança - claro, meu brinquedo estava funcionando.

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Uma outra experiência que tive foi com meu celular, um Motorola C650 (coisa de um passado mais ou menos remoto). Por conta do cabo USB do T10, o uso do celular como câmera foi ressuscitado, mas ele não era reconhecido pelo Ubuntu. Bom, na dúvida, Google - “Motorola c650 linux”. Bingo! outra vez: no Viva o Linux, dessa vez. E daí a pouco estava eu usando o MotoLin pra acessar os dados e fotos no celular.

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Há duas ou três coisas importantes aqui. Primeiro, o mercado pode ser burro. Ou agir de acordo com parâmetros muito diferentes do que os defensores de um certo liberalismo pregam. Antes que alguém me acuse eu digo: não, eu não estou fazendo crítica à teoria econômica ou à liberdade do mercado só com base nesses exemplos pontuais. São apenas reflexões que saltam desse negócio complicado que é o mundo da vida, das coisas reais. Mas voltando, o mercado pode ser burro - segundo li aqui, há mais de 3 milhões de hits no Google com “iriver linux” (quando fiz a pesquisa, havia 654 mil para “iriver linux”, e mais de 81 mil para “iriver linux t10). Como o blogueiro adverte, é um grande mercado, pra não dizer enorme, sendo miseravelmente ignorado. Que agente racional querendo maximizar seus lucros deixaria na mão alguma coisa por volta de 500 mil interessados?

Bom, alguns dizem que a iRiver recebe incentivos da Microsoft® para “forçar” o WMP® como plataforma. Bom, isso caracteriza concorrência desleal e ingerência de uma gigante no bom andamento do mercado… ora, ora…

Segundo, a comunidade foi vital nesse caso. E em muitos outros. A informática vai abrindo caminhos e construindo espaços fora do espaço - é impossível que o Estado ou qualquer burocracia por si só mantenha o controle, sem se tornar ele mesmo um impedimento. A maneira de manter “vigilância sob a liberdade” é o conhecimento e a cooperação. E isso só é possível pelo senso de compartilhamento - e isso não é só uma noção racional, um cálculo da melhor ação, mas uma moral.

Terceiro, não é bom se manter na condição de newbie. Isso está na mesma relação, eu diria, que saber apenas assinar o nome - é impraticável. Nesses tempos de virtualidade, a questão não é apenas técnica, é também política: saber para escolher, e escolher para ser livre me parece ser uma relação presente em todo lugar nas relações humanas. Nem sempre a gente sabe tudo, nem escolhe certo, e nem é livre em algumas questões - mas naquilo que nos for possível, ficar encostado é que não pode.

Um exercício pós-moderno de interpretação… a neo-pop-parábola

12 Novembro, 2007

“Hey, Bobby Marley, sing something good to me…

this world go crazy: it’s an emergency”

(Manu Chao)

Don’t worry… be happy

(Bobby Marley)

Numa leitura bem pós-moderna da letra da música Mr. Bobby, de Manu Chao, achei uma coisa engraçada, no mínimo, e curiosa, no máximo. Quem sabe possa ser mais que isso, mas não vou me exceder, até porque já corro riscos demais me permitindo fazer uma exegese pós-pós… Mas leiam a letra como se ex-Mano Negra estivesse falando da internet e de uma visão bastante pessimista de qualquer redenção integradora, promotora de diálogo pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação (não vou repetir o refrão, obviamente):

Sometimes I dream about reality
Sometimes I feel so gone
Sometimes I dream about a wild wild world
Sometimes I feel so lonesome

Hey Bobby Marley
Sing something good to me
This world go crazy
It’s an emergency

Tonight I dream about fraternity
TONIGHT I say: one day!
One day my dreams will be reality
Like Bobby said to me

[...]

Tonight I watch through my window
And I can’t see no lights
Tonight I watch through my window
And I can’t see no rights

Distância da realidade, descolamento, virtualização, solidão… realmente quantos não acharam, e ainda acham, que a “rede que tem o tamanho do mundo” terminou por ser uma armadilha (rede, também) tão grande que é capaz de tudo aprisionar, e aí resta a wild, wild world (outra possibilidade semântica para www…). Das nossas “janelas” (quem lê, entenda) não vemos luzes de liberdade e fraternidade, mas apenas o cerceamento das liberdades e da fraternidade, seja pela restrição imposta ou o fim da liberdade pelo próprio alargamento da consciência do que vai pelo mundo. Quem não se desespera, fugindo, virtualizando, ao invés de solidarizar-se?…

De nossos monitores (que também podem ser as “janelas”), vemos o mundo ser encaixotado… Manu Chao não pode chamar um técnico, um burocrata… pra dar jeito no mundo, só quem propuser uma moral e modelo ético consistente. Apesar de eu não concordar com a escolha que fez, Mr. Bobby não deixa de ser uma figura messiânica (veja que Marley era rastafari).

Ok, continuemos sonhando com fraternidade. Essa noite podemos pensar: um dia! Num mundo louco, sonhar é o princípio da redenção, porque, como dizem nosso rabinos: o sonho é uma porção da profecia… e as profecias mudam o mundo porque disseminam esperança.

Sempre poderia ser mais fácil…

9 Novembro, 2007

Nos painéis do wordpress que me contam os detalhes de bastidores do meu blog (hehehe), apareceu nos “temos do motor de busca” que alguém chegou até o “contra-senso” procurando por “driver ati 9550 ubuntu”. Bateu-me um desespero. É, eu uso uma placa dessas e comentei seus problemas na instalação do Ubuntu 7.10. Tudo por aqui anda bem, a não ser por essa aquisição desastrosa que foi essa placa de vídeo. Já voodoozei a configuração de vídeo e segui tutoriais que me levaram a lugares sombrios e bizarros (leia-se, tela preta e 600X400). O André Gondim alertou do bug nos drivers ATI, mas o newbie aqui insistiu em habilitar os drivers restritos, e depois uma reza ingênua para o Envy resolver meu problema… aiai… vida dura essa de usuário final.

Como bem disse o Ricárdo Bánffy, “o mundo é dos sempistas” [clueless]. E por ser dos sempistas, é dos espertos… que deles se aproveitam. O que me deixa atormentado é esse negócio de ficar nas mãos da decisão das empresas: quando comprei a placa, a ATI era bem vista, quer dizer, tinha bons drivers livres, e a as placas GeForce eram “fechadas”. Algum tempo depois, se eu estiver certo, a AMD comprou a ATI e fechou o desenvolvimento dos drivers. Cumpri bem meu papel de usuário final bem intencionado, mas trouxa.

[Thadeu Penna corrigiu uma injustiça, e convém publicar seu comentário - só uma correção: não foi a AMD que fechou o desenvolvimento do driver da ATI, pelo contrário. O que acontece é que os drivers ATI feitos pela comunidade (ati) são melhores que os NVidia (nv), e feitos sem nenhuma ajuda da ATI. No entanto, os drivers proprietários da NVidia (nvidia) são melhores que os da ATI (fglrx). Recentemente a AMD liberou alguns drivers como open-source mas apenas para placas mais recentes. Obrigado, Thadeu. Peço desculpas a todos pelo erro na informação. Mea culpa, mea culpa...]

O meu notebook velhinho tem uma Radeon 9200, o compiz só roda com o driver livre (ati) mas jogos 3D são melhores com o driver proprietário (fglrx).

Apesar de iniciativas notáveis como a lista de hardware compatível com GNU/Linux, as coisas ainda não são assim tão fáceis. Não estou negando que o Linux seja uma SO maduro para desktop, de modo algum! É que na hora que bate a vontade de jogar alguma coisinha em 3d dá uma tristeza… ;)

Considerações sobre a liberdade - por um leigo

8 Novembro, 2007

Liberty is a concept with vast possibilities for imagination

A frase acima é do filósofo russo Lev Navrosov, um dos pensadores mais lúcidos que encontrei nos últimos tempos (não que eu conheça muitos). A liberdade é um dos recursos, uma das características humanas mais temidas e odiadas por seus opressores. Ditadores, regimes totalitários, demagogos e aproveitadores de todos os tipos conseguem “legitimidade” ou permissão para cometer seus crimes depois de extirpar suas vítimas da liberdade. A primeira coisa que precisam fazer é fazer crer que não há nada melhor, mais necessário ou mais adequado do que o que estão propondo ou oferecendo. E como o bandido conhece o mal que perpetra, sabe também que à menor comparação com o que é realmente razoável e realista, será desmascarado. Então, a primeira providência que toma é disciplinar o olhar da presa, estreitar-lhe os horizontes até que creia que seu “mentor” lhe quer o bem e é justamente isso o que oferece.

O pior tipo de supressor de liberdades é uma espécie de esteta, de artista adulterado, corrompido. Pois o artista (verdadeiro) remove e adiciona camadas ao real, rearranja seus elementos para demonstrar a beleza da própria realidade, ou denunciar o horror e a feiúra - mas seu ponto de referência é a realidade: o bem e belo que nela há, e o mal e feio que precisa de conserto. O supressor faz uso das prerrogativas da arte para descolar o olhar da realidade, para virtualizar a experiência; cuidadosamente evita a comparação, a constatação do real que desmascararia sua farsa e livraria o cativo.

Uma vez isso feito, o escravo (quem perdeu a liberdade) é expropriado da “riqueza semântica do real”, como diria meu bom amigo Guilherme de Carvalho, e torna-se prisioneiro numa jaula de fantasias, que não é outra coisa senão a completa distância da realidade. Estética tem a ver com verdade, que tem a ver com real, que tem a ver com liberdade. E liberdade é poder imaginar, é ter possibilidades múltiplas e infindas de comparação e possibilidade. E isso é muito diferente de fantasia.

Esse tipo de escravização é tão terrível, é um tipo tão acabado, tão teleológico de catividade que transcende a coerção e constrangimento físico. É o aprisionamento da mente, do espírito. Temos alguns tantos exemplos e parábolas que descrevem bem essa situação - quem sabe a caverna, de Platão, seja a imagem mais recorrente. Mas para mim, a narrativa do Éden, em Be’reshit (Gênesis) é mais contundente… mas isso é conversa pra outro post.

Os grandes tiranos do século XX, os regimes totalitários, por exemplo, fizeram exatamente isso: trabalharam diligentemente para convencer pessoas de que o que propunham não somente a melhor mas a única solução e redenção possível. Não era apenas a melhor escolha (afinal, escolha é o que o inimigo da liberdade odeia), mas a única alternativa. E não por acaso, Hanna Arendt caracteriza os regimes totalitários do século passado (o nazismo, ao menos) como profundamente estéticos.

A sofisticação dos irados opositores da liberdade, da humanidade, parece não ter fim… ninguém falará mais em cadeias, em algemas. A não ser como parte do espetáculo. Prosseguirão com a desfiguração do real, com a supressão das escolhas pela deterioração da capacidade de discernimento. E o que é discernimento? “Capacidade para distinguir o bem do mal para fazer o que é certo”. Pode chamar de livre arbítrio ou livre agência.

Devoram nossa liberdade restringindo nosso poder de escolha, não por força e constrangimento, mas nos convencendo de que somos inaptos para deliberar e discernir. “Senhores, não sabemos, realmente, como julgar. Não sabemos o que é bom para nós. Portanto, venham, dominem sobre nós, guiem nossas vidas, pois isso nos será coisa melhor”. E então, com nosso consentimento, eles se assentarão no trono feito com os cadáveres de nossa consciência.

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Do que venho acompanhando, a comunidade do software livre/open source vem fazendo um bom trabalho para manter a liberdade sobre a base da possibilidade de imaginar outras possibilidades de escolha. O recente sucesso na defesa do padrão ODF como ISO, contra o OOXML, fui uma prova contundente do presença da comunidade e de quão longe os inimigos da liberdade, mesmo numa questão de mercado, podem ir.

Minha única ressalva, e falo isso reconhecendo meu lugar como leito, é que não devemos repetir os padrões (des)criativos, e nos lembrar, ou melhor, imaginar que “há outras maneiras” que, se não apresentadas até aqui, é porque podem ser ainda melhores… E, sobretudo, é preciso ter (muita) consciência de que o movimento Livre (que não deve ser só software) não é uma mera questão de tecnologia ou informática. É política e filosófica - é moral.

“Free as freedom” parece ser um bordão com mais aplicações e significados do que consideramos (eu, pelo menos) até agora.