Posts Tagged ‘legislação’

Dell e Canonical no Brasil: uma explosão de Linux?

9 Abril, 2008

Procurando por relatos de usuários que instalaram Ubuntu Gutsy em laptops Dell Vostro 1000 (é, estava olhando no site, o preço até quinta-feira é bom, R$ 1.400,00), o Google (oh, oráculo hodierno!) me sugeriu uma notícia interessante: a Canonical e a Dell anunciaram que em breve serão ofertados laptops com Ubuntu pré-instalado, ou seja, OEM, no mercado brasileiro (veja aqui, aqui e aqui). De fato, isso só foi possível porque a Canonical vai dar suporte local no Brasil, assegurando à Dell, e outras empresas, que seus clientes terão cobertura técnica para o Sistema Operacional.

Como muita gente comentou na web, o estabelecimento da Canonical no Brasil vem tarde, ainda que muito bem vindo. Nas estatísticas do site, os brasileiros fazem cerca de 50.000 downloads do Ubuntu por mês, o sexto país no rank (isso sem contar com outros tantos linuxers que utilizam outras distros mas se interessariam por uma máquina portando Ubuntu OEM), sem falar no restante da América Latina. Isso me faz lembrar do comentário do Dr. Michel Xhaard (que compilou drivers para mais de 230 câmeras antes não suportadas no Linux), de que a maior parte dos grandes desenvolvedores não está interessada no usuário final, como eu e você (dependendo, claro, de quem você seja). Essa demora em se estabelecer em mercados emergentes e com potencial fora do eixo Japão/Coréia-Europa-EUA/Canadá me assusta: piratear mídias tem jeito, mas suporte, não! A Canonical andou a marcar touca, e o Linux andou em apuros.

Sim, porque na onda do PC para todos e da MP “do bem” muitas empresas passaram a oferecer máquinas rodando Linux e software livre, mas para reduzir custos e contar com os incentivos do Estado. O que eu vejo é um desfile tosco de versões deselegantes (no mínimo) criadas pelas próprias empresas ou parceiros obscuros: um tal Einstein, outro Librix, e “customizações” mal feitas e descontinuadas no desenvolvimento e, como de se esperar, sem suporte adequado. Cheguei a ver um HP rodando Mandriva num shopping em Belo Horizonte, e mesmo Kurumin, o que é um bom sinal, mas não me parece ser a norma. Penso que os fabricantes e montadores percebem o Linux apenas como um modo de baratearem o produto e passarem a responsabilidade de instalar uma cópia pirata do XP® ou Vista® (onde, onde?) para o consumidor classe C ou D, num acordo silencioso do tipo “eu não sei e você não diz”.

O resultado é que para muitas pessoas (justamente as mais pobres e com menor acesso a informações), Linux é “aquele negócio difícil que não funciona” que é substituído pelo Windows® por um primo que “manja de computador”; ou então, para as parcelas das classes A e B que insistem em se manter desinformadas, vira sinônimo de produto desqualificado.

Contudo, uma empresa do porte da Dell, considerada uma grife, oferecendo produtos com qualidade de design e hardware rodando Ubuntu, a situação é muito diferente. Em sociologia temos o conceito de “corrente de imitação” que explica como um comportamento é disseminado num coletivo, e em sociedades de especialistas como a nossa, os não-especialistas (também conhecidos como jacus ou clueless) se fiam no comportamento dos entendedores, no presente caso, geeks e profissionais usuários de tecnologia (como executivos, consultores, designers, publicitários, etc.) para basearem sua escolha. Ora, já é normal ver geeks usando GNU/Linux, mas isso aliado com distros amigáveis, influencia profissionais de outras áreas que querem qualidade, produtividade e segurança, que, por sua vez, influenciam outros usuários.

O suporte da Canonical e a oferta do produto pela Dell são fundamentais para a ampliação desse segundo passo (profissionais » jacus, como eu), e pode abrir um novo mercado para o Linux. Novo mercado porque o Ubuntu 8.04 pode ser um concorrente real em temos mercadológicos para o Windows® (que já está batido tecnicamente), passando a disputar o nicho desktop, muito diferente e mais “enjoado” que o nicho enterprise. Fora que um Inspiron 1525 com Vista custa entre R$ 1.800,00 e R$ 2.000,00 (versão padrão) - com Ubuntu e o mesmo hardware (tudo Intel) pode sair por alguma coisa entre R$ 1.500,00 e R$ 1.800,00, ou ainda menos na linha Vostro. Imagine adquirir um Dell por esse preço! Agora imagine adquirir um Dell a esse preço e rodando Ubuntu… aiai.

Liguei para o 0800 da Dell no Brasil para saber quando teremos um laptop com Ubuntu, mas ninguém sequer sabia disso… No final, mais do que desejar que aconteça logo, espero que aconteça de fato. Por enquanto vou pensando no meu Eee PC 700, e está de bom tamanho (quer dizer, nem tanto…).

The times they are a-changin’

26 Março, 2008

Gandhi dizia que quando os fracos começam a se posicionar e agir de alguma forma contra tiranos e opressores, primeiro eles te ignoram, depois riem de tí, quando passam a levar-te a sério, então… tu os vence. É a lógica da resistência pacífica, ou de David (contra Golias).

Pois bem, os Estados Unidos tem um órgão chamado Security and Exchange Commission, ou SEC, que é alguma coisa como o nosso CADE - Comitê Administrativo de Defesa Econômica, que tem por função garantir o cumprimento das lei e regulamentos que regem o mercado e a indústria, pra que se garanta os princípios de competição (minimamente) justa. A Microsoft®, por conta da Lei Anti-Trust (americana) está sob intervenção do SEC (mas toda empresa de determinado porte fica sob supervisão desse orgão).

Anualmente a empresa tem que emitir um documento que descreve minuciosa e claramente suas atividades, chamado 10-k. E no 10-k da Microsoft desse ano há algumas passagens muito, mas muito interessantes. Gostaria de apresentar alguns excertos escolhidos e apresentados por Larry Cafiero (onde fiquei sabendo do acontecido). Vejamos:

Our business model has been based upon customers paying a fee to license software that we developed and distributed . . . . In recent years, certain “open source” software business models have evolved into a growing challenge to our license-based software model.

Open source commonly refers to software whose source code is subject to a license allowing it to be modified, combined with other software and redistributed, subject to restrictions set forth in the license. [...] A prominent example of open source software is the Linux operating system.

Although we believe our products provide customers with significant advantages in security, productivity and total cost of ownership (emphasis added to highlight both the audacity and humor of this clause), the popularization of the open source software model continues to pose a significant challenge to our business model…

…including continuing efforts by proponents of open source software to convince governments worldwide to mandate the use of open source software in their purchase and deployment of software products.

To the extent open source software gains increasing market acceptance, sales of our products may decline, we may have to reduce the prices we charge for our products, and revenue and operating margins may consequently decline.

Tradução meia-boca:

Nosso modelo de negócio é baseado em consumidores pagando uma taxa pela licença de uso do software que nós desenvolvemos e distribuímos… Nos últimos anos, certos modelos de negócios de software open source se tornaram um crescente desavio para nosso modelo baseado em licenças de software.

Open source refere-se àqueles softwares cujo código está sujeito a uma licença que permite que seja modificado, combinado com outros softwares e redistribuído, sujeito às restrições descritas na licença… Um exemplo proeminente de software open source é o sistema operacional Linux.

Embora nós creiamos que nossos produtos forneçam a nossos clientes significantes vantagens em segurança, produtividade e o custo total de propriedade, a popularização do modelo de software livre apresentou um desafio significante para nosso modelo de negócio…

…incluindo esforços contínuos dos defensores/promotores do software livre para convencer governos em todo o mundo a obrigar/exigir o uso de software open souce em suas aquisições e distribuição(?) de produtos de software.

Na medida em que o software open souce ganha aceitação crescente do mercado, as vendas de nosso produtos caem, e nós temos que reduzir os preços que cobramos por nosso produtos, e o lucro e margens operacionais conseqüentemente também diminuirão.

É isso aí, meninos e meninas, hoje aprendemos que o crime não compensa, ops! ;)

A Microsoft teve que reconhecer que que o modelo livre é melhor e mais eficiente. Demorou, mas está lá. Vida longa ao Linux!

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

«»

Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

«»

Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

«»

Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

«»

O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

«»

Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?

Posts de blog velho

12 Setembro, 2007

Hoje tive um surpresa - fui “indexado” no Planeta GNU/Linux Brasil. Na seção “sobre mim” estava o convite do Og Maciel, que me deixou muito contente. Bom, eu estou indo para o Encontro Nacional da RENAS (Rede Nacional de Ação Social), e fico fora (e incomunicável) até segunda-feira, 17.

Deixo aqui então, dois texto “velhos”, mas que podem ser de alguma valia, publicados no blog antigo em 20 de março e 19 de janeiro desse ano. Boa leitura!

Estética da empulhação

O diretor de desenvolvimento da Micro$oft® Brasil foi entrevistado pela rádio CBN por ocasião do lançamento do Windows Vista®. Era um entrevista de estúdio. O âncora, não me lembro se era o Sardenberg, soltou de cara: quais são as novidades no Vista®? E a resposta veio rápida e seca: temos uma nova interface gráfica… [silêncio]. Segunda tentativa: sim, mas quais são as novidades, as novas ferramentas? (…)bom, as novidades são tantas que só experimentando é que o usuário saberá. [silêncio constrangedor, fim da entrevista].

Isso aconteceu, e posso ter me esquecido de algum detalhe (como dizia o Glauber, a memória é uma ilha de edição). Ok, eu não vou falar sobre software livre, ou GNU/Linux, ou descer o cacete no Windows® ou na Micro$oft®. Já não preciso fazer isso. O fato é simplesmente ilustrativo - e se aconteceu com um executivo da empresa do Bill, que farei eu?

Mas é isso, em maior ou menor grau, o que acontece em nossos dias. Num sistema social em que todas as disputas importantes são decididas por uma tecnocracia pretensamente isenta, em processos cada vez mais ocultados dos cidadãos, não há que se saber como as coisas funcionam, quem controla as catracas e onde os esqueletos são guardados: o que todo mundo quer saber é se o resultado é bonitinho. Leia-se politicamente correto. E uma ocupação cada vez mais requisitada por aí é o maquiador de resultados.

A coisa funciona mais ou menos assim: toma-se um tema que já está presente e altamente considerado pelas pessoas - como uma política social de inclusão. Apresenta-se o diagnóstico, problemas e desafios, segue-se a exposição do projeto, metodologia, metas, benefícios. Posteriormente, editam-se gráficos, books, filmes e vídeos belos e empolgantes de como a comunidade ou segmentos foram transformados.

Correto em todos os pontos: motivação, projeto, método, execução e resultados. Tudo bonitinho.

E ninguém, obviamente, sabe como as coisas funcionam. Quem alimenta o esquema, quem o orienta, o corpo de executores, a propriedade e pertinência… e questionar qualquer desses pontos é imoral, deplorável e criminoso. Como se o motivo a tudo justificasse e redimisse quaisquer erro ou descaminho.

Acredito que o leitor já reconhece o esquema em sua expressão real.

Como no caso dos sistemas operacionais computacionais, desinformação associada com um julgamento por critérios estéticos, de gosto - subjetivos, pessoais e “intraduzíveis” - resultam em vulnerabilidade, poderes ocultos, desrespeito, medo, cerceamento de liberdades e ineficiência.

Saber como as coisas funcionam significa conhecer as entranhas, as sujeiras, viscosidades, odores e coisas dessa espécie; significa expor. Da mesma forma que ninguém em sã consciência prefere cobrir um ferimento com bandagens, cremes e maquiagens para recompor o aspecto sadio ao invés de tratamento médico com seus bisturis, iodo, agulhas tesouras e pontos, a atitude de relegar o que importa a não se sabe quem e apenas requerer as amenidades decorativas é um descaminho, imbecilidade.

Que bombas que nada! Para destruir o mundo basta transformar tudo em entretenimento: apazíguam a alma e desligam a mente.

… cuja altura era de sessenta côvados II

Eu uso GNU/Linux Ubuntu. Quem lê esse blog sabe disso; mas pode não saber que eu não sou um geek, na verdade sei poucas coisas sobre computadores - se levar em conta o montante de coisas sobre computadores que há para se saber. Tudo que sei sobre computadores, sobre software e software livre, é por conta de uma posição moral, ética - é axiomático, é por conta do que creio ser o certo. E não é uma questão de ortodoxia, mas de ortopatia. Vou explicar.

Usar software livre é tornar o poder e a confiabilidade dos processos para o usuário, ao componente humano, que, ao contrário do que querem nos fazer crer, é o mais confiável por ser o elemento criativo e realmente inteligente. É retomar o conceito da produção colaborativa e cooperativa, o que está muito distante da noção de inteligência coletiva, massificada e consensual da cultura de hive mind.

A noção de copyleft é uma perturbação no sistema demoníaco de restrições à difusão de inovações e participação e usufruto dos resultados (não, isso não é coletivização no sentido comunista - mas “free as freedom” como diz Richard Stallman). Divulgar e colaborar com cultura livre é lutar pela liberdade criativa do homem, assegurada na antropologia bíblica. Qualquer um que se queira coerente com uma visão bíblica de desenvolvimento, acho, percebe o valor de um princípio tal como formulado por iniciativas como copyleft.

Por isso, para mim, esse tema evoca princípios, e pede status de ortodoxia e ortopatia.

E não são apenas confessores de credos reformados que pensam assim, tenham certeza. Qualquer programador hoje em dia, sabe que Sistemas Operacionais livres são consideravelmente mais confiáveis, e uma prova disso é o fato de os principais servidores, dataservers e backbones do mundo rodarem alguma variação de SO livre.

Mas o mundo é caído - e os homens também. Depois das conquistas da cultura livre, sobretudo no que tange à web e à transmissão de dados, os poderes estão preparando seu contra-ataque. Uma vez que parecem ter perdido a batalha no campo dos grandes servidores e máquinas, e, por enquanto, na garantia da liberdade da internet, arquitetam um duro golpe contra nós, usuários comuns.

A idéia é que, da mesma forma que softwares proprietários (copyright) tomam decisões pelo usuário e impedem a interferência deste, agora as novas restrições serão asseguradas pelo hardware. Isso mesmo. Como o software proprietário é bastante ineficiente em garantir facilidade e segurança para o usuário e a integridade dos direitos, muitos usuários estão migrando para alternativas livres. E exige uma resposta da indústria de software. E ela vem na forma de uma conspiração maligna (no sentido de mal).

Um consórcio formado pelo esforço conjunto entre a indústria fonográfica, cinematográfica, de software e hardware e certos Estados lançou a noção de computador confiável, ou, em sua sigla inglesa Trusted Computing. Bom, isso é, a princípio, interessante. Usar computadores, que cada vez mais participam de processos vitais para a manutenção da sociedade global, de maneira confiável é consenso. O problema começa aqui: confiável para quem? O verdadeiro intento do TC é impedir a livre disseminação de conteúdos - protegendo certos agentes do mercado e certos interesses políticos /ideológicos.

Agora, os processadores, presentes em cada vez mais aparelhos além dos computadores pessoais ou servidores, serão programados para permitir que o usuário rode apenas determinados conteúdos ou programas, obviamente, de acordo com os interesses do consórcio. E, senhores, isso não é teoria da conspiração. Na verdade, já começou: por exemplo, se vc comprar um video-game de uma certa gigante do segmento de informática que recentemente entrou no mercado de consoles, você, consumidor, não é seu. Trocando em miúdos, o que você comprou não foi o video-game, foi o seu uso segundo determinadas condições. Francamente…

Uma vez que isso é legal (a quebra das regras do licenciamento constitui-se num crime ou contravenção), é perfeitamente plausível que a indústria de software se una à de hardware pra assegurar que os usuários não farão nada fora do contrato.

Qual a solução? Bom, primeiro, resistência. Como eu já falei em outros posts, use e incentive o uso de software livre em sua casa, trabalho, comunidade, igreja, escola, clube, etc. Procure quem sabe alguma coisa de software livre e que possa introduzi-lo no assunto; pesquise na internet. Se realmente entende o problema, procure uma escola de informática que dê formação em GNU/Linux. Se você acha isso exagerado, pense em alguém que saia por aí dirigindo um carro sem saber como fazê-lo… é quase a mesma coisa com um computador… e as conseqüência do mau uso podem ser piores, pode acreditar…

Segundo, use seu poder como consumidor. Da mesma forma que muita gente boicota produtos de empresas que usam mão-de-obra escrava ou infantil, ou que causam sérios impactos ambientais, da mesma forma que você procura alimentos livres de transgênicos ou de gorduras trans, procure comprar produtos e serviços licenciados por alguma licença livre, como GLP, Criative Commons ou outra. Quando for compra seu próximo computador ou laptop, prefira processadores AMD ao invés de Intel (você já sabe por quê).

Terceiro, converse com seus amigos e divulgue a questão. Esse é um problema que mais cedo ou mais tarde afetará a vida de todos: se a TC acontecer, alguém poderá “desligar” todos os computadores do mundo e de todo mundo. Arbitrariamente. Imagine isso acontecendo agora mesmo, enquanto você lê essas linhas.

Por fim, agradeço ao André Noel pela dica no Planeta Ubuntu.

Boa porte desse post está baseado nas informações contidas nesse artigo do Prof. Diego Saraiva, no Com Ciência (por favor, leia).

Abraço.

Amazônia: muito além da questão ambiental

2 Setembro, 2007

No Planeta Ubuntu Brasil, foi postado pelo Og Maciel um vídeo do Greenpeace, hospedado no YouTube, sobre o problema da revisão da demarcação das terras para o povo Enawene Nawe (demarcação que subtraiu importantes sítios religiosos e de subsistência da tribo) no norte do Mato Grosso. Em vista da possibilidade de revisão e ampliação das terras Enawene, fazendeiros da região acudiram em ocupar as áreas e iniciar atividades do agro-negócio alí. Os índios pediram apoio à OPAN (Operação Amazônia Nativa), que enviou um grupo de consultores e jornalistas para avaliar a situação e divulgar o problema.

Contudo, os fazendeiros, ao saberem da presença de ambientalistas e jornalistas que iriam se encontrar com os Enawene, ameaçaram e intimidaram o grupo, e, juntamente com o prefeito e a Câmara Municipal de Juína, impediram a visita prometendo, inclusive, fechar a estrada ou recorrerem a meios piores. A equipe teve, então, que cancelar o encontro e deixar Juína.

O que inacreditável é a forma como fazendeiros invasores de terras, legisladores e governantes violam todos os direitos de liberdade (de imprensa, de ir de vir, etc.) e da integridade física e moral, e agem conjunta e criminosamente em nome de interesses sabidamente ilegais - e sem qualquer dissimulação.

Enfim, assista o vídeo. Divulgue, ainda que você seja um desconfiado de instituições como o Greenpeace e OPAN, porque o que está em jogo são procedimentos e direitos democráticos. O caso da Amazônia se situa, faz tempo, num lugar muito além da questão meramente ambiental.

Veja no YouTube, ou na reportagem do Greenpeace.

Atualização - quem comentou:

Luiz Carlos Azenha (Globo)

Conor Foley (The Gardian)

(valeu, Guilherme!)

Por uma internet livre - Petição ao Senado contra a PL de Azeredo

31 Agosto, 2007

O Senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) apresentou no Congresso um projeto de lei (PL) que aglutina outros 3 projetos que tipificam condutas de uso de meios de comunicação ou sistemas informáticos a partir de um marco regulatório criminal, ou seja, com fins de controle dos usuários brasileiros da Internet.

O problema não é a regulamentação, ao contrário, é preciso garantir a liberdade da e na Internet por meio da regulamentação civil. Aprovar a regulamentação criminal antes da civil, no entanto, seria definir crimes e proibições antes de estabelecer direitos constitucionais para a atividade (ok, ok… não ou advogado, e posso estar cometendo algum deslize, mas não deve ser grande a ponto de invalidar totalmente a explicação - e se alguém puder corrigir, por favor, faça-o, e eu altero o post imediatamente).

Por conta desse projeto de lei, que já foi aprovado pela Comissão de Educação do Senado (em 20/06/2006, quando foi trazido a público) e agora está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), a comunidade de usuários e gente séria está colhendo assinaturas para uma petição ao Senado Federal para a realização de audiências públicas para ouvir a sociedade sobre o caso e realizar as alterações no texto da PL.

Para assinar a petição, clique aqui.

Para se informar sobre o andamento do projeto, clique aqui.

Para ajudar a divulgar a petição, clique aqui.