O caso do iRiver T10
28 Fevereiro, 2008O mais alardeado princípio do livre mercado é que ele, o mercado, é capaz de se auto regular. E possui essa capacidade porque é formado por agentes, indivíduos, racionais em busca da maximização dos resultados em função dos esforços - aumentar o lucro. Isso também é chamado de “teoria da ação racional” - um agente/indivíduo vai sempre agir de acordo e a partir do cálculo que aponte a melhor escolha numa determinada situação. Assim, o mercado seria como uma máquina de complexas engrenagens governada pela lei da melhor escolha (mesmo que a melhor entre piores, o chamado mal menor) para o maior lucro.
Deixando de lado a questão se esta é ou não a melhor definição de mercado, e tomando as coisas como se assim elas fossem, o mercado tem um problema, uma anomalia, que se faz sentir com maior força em algumas áreas.
É muito curioso que grandes conglomerados, quando são alvo de processos e acusações de concorrência desleal, formação de trust, etc., reajam violentamente levantando em alta voz o velho argumento de que “o mercado deve ser mantido fora do alcance da regulação estatal, vez que é capaz de gerir seus rumos” - ou seja, não se preocupe, ainda que alguma coisa esteja errada, o sistema se repara e segue em frente; e se as coisas vão mal, a intervenção só fará piorar.
É curioso porque a maior parte dessas empresas que defendem a liberdade do mercado são as primeiras a limitar a liberdade de certos agentes - freqüentemente, os consumidores. A restrição da escolha sempre causa situações inusitadas e surreais, como a que aconteceu comigo.
Interessado em adquirir um mp3 player que tocasse formatos abertos, escolhi um iRiver, modelo T10, de 1Gb de capacidade, que além de suportar os formatos proprietários .mp3 e .wma, também supota .ogg, o que muito pesou no meu cálculo, juntamente com uma promoção das Americanas.com, que oferecia o aparelho de R$ 350,00 por R$ 200,00. Então, saquei o cartão, e comprei o negócio.
Alguns dias depois, chega numa caixa bacaninha um aparelho de design audacioso, como vocês podem ver no link acima (embora o meu seja amarelo e preto). Quer dizer, era alguma coisa bem diferente e longe da vulgaridade de um Foston (nada contra, já tive um, inclusive). Mas foi a partir daí que as coisas desandaram na relação de mercado. Pra início de conversa, apesar do T10 suportar .ogg, é um player “for Windows®” e arquitetado para funcionar sobre o WMP®, versão 10, 11 ou o que seja, que sequer suporta .ogg!
Para rodar o programa que acompanha o player ou para fazer atualizações, é preciso usar Windows® e o WMP®. Além disso, os modelos da iRiver usam o Microsoft Media Transfer Protocol - MTP, e se você quiser converter o aparelho para UMS (USB Mass Storage), a iRiver disponibiliza uma atualização do firmware - mas para aplicá-lo é preciso da tralha de Redmond; ou seja, sem Windows em algum momento da história, o uso em Linux fica impedido de ser satisfatório.
Resultado: fiquei com um player que suporta um formato livre, mas que, por conta de um protocolo diferente, punha as músicas fora de ordem e não aceitava as playlists geradas em outro programa que não o que acompanha o produto. Esta, então, seria a incoerência: além de manter o usuário acorrentado a um sistema operacional e um media player que ignora formatos livres, a empresa releva os usuários de GNU/Linux; então qual o apelo de um iRiver?
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Bom, entretanto, contra as incoerências (ou seriam contra-sensos?) do mercado pode haver uma arma. E mesmo um usuário final, meio newbie, pode dela precisar e se valer: a comunidade - ela pode fazer toda a diferença para a manutenção de alguma liberdade nesse lugar que vai mais parecendo uma selva que uma máquina auto gerida. Ainda muito decepcionado com o que constatei, abri o Google e comecei minha jornada que começou solitária mas encontrou outras vozes. Foi só colocar “T10 iRiver Linux” que foram listadas algumas entradas bastante interessantes.
A entrada mais importante, útil e esclarecedora foi esta aqui, que me fez informado da maioria das coisas (e críticas) que apresento neste post. Eu nem sequer sabia que havia uma diferença de protocolo de transferência de arquivos no Windows® e no Linux… quanto mais que haveria uma forma “lateral” de superar o problema da desordem das músicas e da impossibilidade de importar playlists. Não só fiquei sabendo como obtive uma solução - um python script. A única coisa que eu sei sobre isso é que python é uma linguagem elegante (!) de programação e que um script é um conjunto de ordens para um programa executar (e essa pode não ser a melhor definição).
A primeira barreira foi o receio de colocar um script na raiz do aparelho, por que sempre dizem pra ter cuidado ao mexer nessas coisas que podem inutilizar o aparelho. Bom, mas o “tutorial” dizia que isso era very simple, e não trazia nenhum aviso aterrador. Depois foi entender como é que eu fazia pra utilizar o comando… o que está escrito no blog não funcionou… Bom, não sei por que motivo, lembrei-me que em alguns tutoriais fala-se sempre de “tornar o arquivo executável” - bom, deve ser isso, pensei. Então, toca pra /media/disk e então: sudo chmod 777 script.py - e agora?, isso não é bastante, já que o comando script.py não existe…
Quebrando a cabeça, lembrei-me (!) que quando eu clico duas vezes num script escrito num editor comum (gedit, por exemplo) aparece uma caixa de diálogo perguntando se eu quero “executar em terminal”, “exibir” ou outra coisa. Bingo! É isso aí. Sai do diretório em que o script estava, voltei (não sei bem o porquê) e cliquei duas vezes no danado - funcionou! Tinha playlists dos álbuns presentes, mesmo desordenados, com um simples duplo clic! Bom, fiquei alegre como uma criança - claro, meu brinquedo estava funcionando.
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Uma outra experiência que tive foi com meu celular, um Motorola C650 (coisa de um passado mais ou menos remoto). Por conta do cabo USB do T10, o uso do celular como câmera foi ressuscitado, mas ele não era reconhecido pelo Ubuntu. Bom, na dúvida, Google - “Motorola c650 linux”. Bingo! outra vez: no Viva o Linux, dessa vez. E daí a pouco estava eu usando o MotoLin pra acessar os dados e fotos no celular.
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Há duas ou três coisas importantes aqui. Primeiro, o mercado pode ser burro. Ou agir de acordo com parâmetros muito diferentes do que os defensores de um certo liberalismo pregam. Antes que alguém me acuse eu digo: não, eu não estou fazendo crítica à teoria econômica ou à liberdade do mercado só com base nesses exemplos pontuais. São apenas reflexões que saltam desse negócio complicado que é o mundo da vida, das coisas reais. Mas voltando, o mercado pode ser burro - segundo li aqui, há mais de 3 milhões de hits no Google com “iriver linux” (quando fiz a pesquisa, havia 654 mil para “iriver linux”, e mais de 81 mil para “iriver linux t10). Como o blogueiro adverte, é um grande mercado, pra não dizer enorme, sendo miseravelmente ignorado. Que agente racional querendo maximizar seus lucros deixaria na mão alguma coisa por volta de 500 mil interessados?
Bom, alguns dizem que a iRiver recebe incentivos da Microsoft® para “forçar” o WMP® como plataforma. Bom, isso caracteriza concorrência desleal e ingerência de uma gigante no bom andamento do mercado… ora, ora…
Segundo, a comunidade foi vital nesse caso. E em muitos outros. A informática vai abrindo caminhos e construindo espaços fora do espaço - é impossível que o Estado ou qualquer burocracia por si só mantenha o controle, sem se tornar ele mesmo um impedimento. A maneira de manter “vigilância sob a liberdade” é o conhecimento e a cooperação. E isso só é possível pelo senso de compartilhamento - e isso não é só uma noção racional, um cálculo da melhor ação, mas uma moral.
Terceiro, não é bom se manter na condição de newbie. Isso está na mesma relação, eu diria, que saber apenas assinar o nome - é impraticável. Nesses tempos de virtualidade, a questão não é apenas técnica, é também política: saber para escolher, e escolher para ser livre me parece ser uma relação presente em todo lugar nas relações humanas. Nem sempre a gente sabe tudo, nem escolhe certo, e nem é livre em algumas questões - mas naquilo que nos for possível, ficar encostado é que não pode.