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Para inglês ver: o diálogo inter-religioso do Rei Abdullah

27 Março, 2008

Desde o surgimento do fenômeno do nacionalismo árabe, sobretudo depois da Segunda Gerra Mundial, o maior prejudicado tem sido o povo árabe e os muçulmanos. No Egito, Nasser empurrou a nação para uma série de conflitos catastróficos como a Crise de Suez (1956) e a Guerra dos Seis Dias (1967), preparando o caminho para a Guerra de Yom Kippur (1973) - e todo o investimento egípcio para se tornar uma moderna potência militar local (apoiada pela União Soviética, fornecedora de armamentos, equipamento e treinamento) foi inutilizado no esforço inútil de tentar varrer Israel do mapa. Por que a insistência? Porque quem derrotasse o “Estado Sionista” daria cabo no que é considerado um insulto ao mundo árabe, e demonstraria a insurgência e desafio à influência das antigas potências inglesa e francesa na região.

Nesse plano foram arrastadas a Jordânia, que havia cedido seu bem treinado exército ao comando egípcio, que foi dizimado na tentativa de romper Israel ao meio na altura de Jerusalém; e a Síria. O rei Houssein da Jordânia compreendeu cedo (’67) que lutar contra Israel era um equívoco, fez um tratado de paz com os israelenses, e tratou de se preocupar com os refugiados palestinos em seu território, que a partir daí passaram a lhe dar muito trabalho. Humilhado em três guerras, que lhe custou qualquer crédito no mundo árabe, ao Egito restou assinar um tratado de paz com Israel (1978/79), em troca da devolução da Península do Sinai, capturada e ocupada pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias e Yom Kippur.

A Síria nunca abandonou seus sonhos de gradeza voltando a ser a Grade Síria, o que inclui a retomada do Líbano e toda a Palestina. Ou seja, a existência de um Estado independente no Líbano, de Israel e mesmo a pretensão a um Estado Palestino vão de encontro aos interesses e ambições sírios. A derrota em ‘67 e ‘73 resultaram na perda das Colinas de Golan, que deveriam ter sido devolvidas numa manobra diplomática com Israel, similar àquela feita com o Egito, mas Damasco se recusa a oferecer trégua. Como Golan é de valor estratégico e militar inestimável (do alto de suas colinas vê-se as regiões baixas do vale de Hula e da Galiléia), Israel não pode devolvê-la sem sólidas garantias de segurança. Recentemente, Bashar al-Assad (presidente da Síria) mencionou a possibilidade de paz em troca da devolução das colinas.

Fracassadas as tentativas militares “convencionais” de destruir Israel e ganhar influência no mundo árabe, a Síria se voltou para o Líbano. Profundamente influenciado pelo ocidente, sobretudo pela cultura francesa (Beirute era conhecida como a Paris do Oriente), o Líbano era um oásis de convivência pacífica de uma miríade de religiões: cristãos gregos ortodoxos e sírios, católicos romanos, drusos e muçulmanos conviviam em certa estabilidade mantida por um relativamente complicado arranjo político de partilha do governo. O Líbano tornou-se um barril de pólvora, e para isto bastou a pressão síria e as levas de refugiados palestinos resultantes das guerras árabe-israelenses. Nos campos de refugiados no sul, organizou-se a OLP de Arafat, que havia fugido da Jordânia, onde Houssein se recusou a tolerá-lo.

No início da década de 80 o Líbano foi tragado para uma violenta guerra civil, onde lutavam inúmeras facções e influências diversas. Por fim, os sírios conseguiram o que precisavam: a retirada americana, que lhe cedeu espaço para intervir e ocupar o Líbano, sobre o qual exerce influência política e militar até hoje (vide a Segunda Guerra do Líbano). Até hoje o Líbano é instável, ameaçando sempre a estourar em violência.

Os palestinos passaram a ser usados como massa de manobra e motivo para os países árabes acusarem e denegrirem Israel. O curioso é que lhes seja negado quaisquer direitos ou auxílio nos países em que se encontram refugiados - curiosamente, palestinos vivem melhor em territórios ocupados por Israel do que em territórios árabes; a não ser, obviamente, dinheiro e armas para aterrorizar os israelenses.

O Iraque baath meteu-se em uma guerra sanguinária e inconclusiva com o Iran, onde pelo menos 700.000 iranianos e 500.000 iraquianos perderam a vida, fora os curdos. O que é estranhamente silenciado é o fato de que mais que Israel, a nação mais ameaçada pelo “Iran Nuclear” é o Iraque - que agora é o palco das disputas do mundo islâmico, onde a contagem dos mortos é de 600.000, no total.

Em meio a toda essa confusão e esquecidos pelo mundo, e sobretudo pela imprensa tão sensível à situação palestina, estão os curdos, que tiveram seu país, o Curdistão, retalhado entre Turquia, Síria, Iran e Iraque; e são sistematicamente perseguidos e mortos em cada um desses países (um dos motivos da Turquia não ser aceita na UE, é a situação dos curdos em seu território). Recentemente os maiores flagelos do mundo árabe são os próprios árabes em lutas internas: vide as rusgas entre Hamas e Fatah nos territórios ocupados na Palestina.

Devido a toda a dificuldade em manter conflitos convencionais entre Estados (o que criteriosamente não existe por ali), o uso de facções, organizações para-militares, milícias, grupos terroristas está na ordem do dia: Al-Qaeda, Hizbollah, Fatah, Hamas, Al-Aqsa, etc… Afora o que se passa na Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, na África, e Paquistão (vide os massacres em Bangladesh), Afeganistão, Indonésia (vide as atrocidades cometidas em Timor Leste, por exemplo) e Chechênia.

Toda essa tragédia vai desmoralizando o mundo árabe e mesmo o Islam. E com certeza há gente que perde muito e não anda satisfeita. Um deles, quem sabe entre os principais, é o Rei Abdullah, da Arábia Saudita. Numa manobra muito oportunista, os Saud estão propondo um fórum de diálogo entre religiões monoteístas que anteciparia a possibilidade de (alguma) abertura religiosa em países muçulmanos. A prática de outros cultos e fé nesses países é praticamente nula, está banida - incluindo a própria Arábia, onde impera o wahhabismo, uma doutrina de interpretação “purista” do Islam (já falei sobre isso aqui)

Que significa isso? Que de repente uma nação árabe haverá de fazer uma revisão num dos pontos mais críticos de sua organização religiosa, política e cultural? Afinal, permitir outras religiões em território do Islam é permitir a existência de infiéis, de hereges em solo muçulmano - uma afronta ao profeta e aos mártires. Recentemente, Abdullah visitou o papa Bento XVI, um encontro histórico, e isso provocou ira e suspeitas. Quando questionados sobre a abertura religiosa, os membros do conselho saudita responderam que “somente se o Vaticano reconhecer Maomé como profeta, será possível haver igrejas na Arábia” (veja o comentário de Daniel Pipes aqui e aqui).

E o que me irrita, me irrita profundamente, é que representantes cristãos e judeus convocados pela iniciativa de Abdullah estejam “otimistas” quanto aos resultados do diálogo! Primeiro: não creio que haverá diálogo no sentido próprio do termo. Segundo: não acredito que os cristãos na Arábia (seis milhões) gozarão de plena cidadania (hoje, são cidadãos de segunda categoria). Terceiro: o restante do mundo árabe/muçulmano não se convencerá/seguirá o “exemplo” saudita. O mais provável é que uma onda anti-saudita de eleve no Oriente Médio, e os americanos percam seu mais valiosos aliado.

Como disse McCain (pré-candidato Republicano), aliados do ocidente entre os árabes são tiranos autocratas, sanguinários exploradores e concentradores da riquezas de seus países, que não representam sequer minimamente a opinião de seus “súditos” - não são confiáveis. O fato, me parece, é que se não há sequer respeito entre árabes, que dirá respeito da parte desses grupos para com os não árabes e não muçulmanos. Podem me chamar de louco, descompensado, ignorante e sem senso de realidade, mas minha opinião (seguindo Paul Johnson) é de que o Islam precisa de uma reforma, tal como sofreu o Cristianismo (séc. XVI) e o Judaísmo (séc. XVIII). É preciso que se transformem certas estruturas culturais que são “reféns” de certas doutrinas religiosas.

A iniciativa de saudita é, até aqui, para inglês ver. E francês escutar.

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

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Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Sobre Alatriste

25 Março, 2008

Fiquei curioso por conta de uma nota no Rua da Judiaria sobre o filme Alatriste, produção espanhola estrelada por Viggo “Aragorn” Mortensen [nota: esse sujeito fez um dos diabos mais interessantes do cinema em Anjos Rebeldes (The Prophecy), longe do estereótipo do demônio libidinoso; sua primeira fala nesse filme, quando um personagem pergunta "você é Deus?", é: "Se eu sou Deus? Deus é amor, e eu não amo você". E vai levar tempo para que deixe de ser Aragorn - uma das escolhas mais acertadas de Peter Jackson para a trilogia "O Senhor dos Anéis"; e não é muito difícil de perceber alguma similaridade entre os personagens que interpretou em Hidalgo e Marcas da Violência e Aragorn: todos eles guardam uma dignidade tímida, resistente, que fica ainda mais acentuada em sua caracterização do capitão Diego Alatriste].

Apesar de Viggo Mortensen não ser a preocupação desse post, ele é importante porque seu personagem representa muito bem o declínio do Império Espanhol e sua agonia ainda no século XVII. Os reis católicos de Espanha depredaram as bases que os ergueram à altura de senhores da Europa e de boa parte do mundo, que havia se desdobrado em nova extensão: expulsaram os judeus em 1492, o mesmo ano em que um provável judeu espanhol radicado numa república italiana chegava à América (sim, Colombo - não se iluda com o nome Cristóvão) e se engajaram em guerras de religião. Forçou que Portugal, que recebera os judeus banidos, também os expulsasse ou os forçasse o batismo. Muitos forçados deram origem à tragédia dos cristãos-novos e marranos (cripto-judeus), outros tantos se dirigiram a outras paragens, como Holanda, Alemanha, Polônia e Lituânia.

Os judeus portugueses, apesar de tudo, prosperaram em outras terras, encontrando mais tolerância em “terras hereges”, como se referiam os espanhóis aos países protestantes, como a Holanda. E é curioso que dominando das Filipinas ao Chile, passando pela África, os espanhóis tenham encontrado a mais ferrenha resistência no Flandres, onde católicos e protestantes se engalfinharam em meio a sangue e lama: ali começa a derrocada de Espanha e de um certo mundo católico na Europa.

Alatriste dá um bom panorama da época, a partir do ponto de vista peculiar de um soldado/mercenário cheio de honra e altivez, mas plebeu e pobre, a mercê das vagas de poderes muito maiores que ele. Igreja, nobreza, Coroa, côrte: tudo tão complicado, melindroso, alheio ao mundo ordinário… demais para um homem com o mínimo de princípios, mesmo não sendo um santo.

Um ponto em particular, pontual mas emocionante para quem conhece a história, são as menções aos portugueses no século XVII: todos “meio judeus”. O personagem Luiz Pereira é um português cuja família é presa pela Inquisição enquanto ele lutava pela Espanha Católica em Breda. Aterrorizado, Luiz prefere a morte aos flagelos e interrogatórios do Tribunal do Santo Ofício.

Jom Tov Azulay (irmão do Daniel Azualy, que ensinava desenhos na televisão) dirigiu o belíssimo “o Judeu”, que conta a história de Antônio José da Silva, cristão-novo português nascido no Brasil e supliciado em Lisboa no século XVIII. Um filme inteiro sobre isso que Alatriste menciona.

[nota: esse post está mal escrito, desestruturado e confuso não por acasa, foi escrito na madrugada gotejando sono - queria manter o compromisso de um artigo(zinho) ou nota por dia. Deu no que deu...]

Gospel Star é coisa do capeta*

31 Agosto, 2007

Eu não sei nada sobre hinologia, mas a coisa que eu sei remonta àquelas memórias de infância ou da tenra juventude que grudam naquelas partes mais profundas da mente, funcionando como um filtro ou seletor afetivo e poderoso. Lembro-me de folhear um livreto de Gérson Rocha, alguma coisa sobre como esses são tempos terríveis e de como se comportaria a igreja verdadeiramente fiel. Bom, depois de falar de doutrina e ortodoxia, o autor debandou a falar sobre a invasão da “música de satã” dentro das igrejas, que deveriam preservar a “santa música” (leia-se Cantor Cristão e similares). Música de satã era o rock, o samba, o foró e toda e qualquer manifetação rastreável e viva na cultura popular. Música santa, ou sacra, eram os bons e velhos hinários que remontavam à época dos reformadores - sem paralelo no universo dito secular.

Lembro-me do comentário de meu pai: Gérson Rocha parece não saber, mas tenho certeza que sabia, que as músicas dos reformados eram melodias populares, de taverna, usadas para fixar o sermão e a catequese na mente dos fiéis que compareciam aos serviços. Pela lógica do Gérson, era a mais pura música de satã, tanto que algum príncipe ou princesa pediu que Lutero e sua música de buteco fossem silenciados. O problema de Gérson Rocha, compartilhado pelo evangelicalismo brasileiro, é o horror à identificação com a na cultura contemporânea, em seus próprios dias. É um fruto menor (essa coisa da música), mas não menos perverso, de uma certa atitude cristã negadora de sua inserção no mundo, de seu papel que, grosso modo, é estar presente, fazer-se presente e testemunhar no presente.

C. S. Lewis diz, por meio de Screwtape, nas Cartas do Diabo a seu aprendiz, que os homens têm um defeito muito importante, que deve ser muito bem explorado: pensam apenas no futuro. Ignoram ou desprezam o presente, esse ponto de contato com a Eternidade e com as coisas Eternas (verdade que o passado é importante, porque é uma instância das coisas “já eternizadas, porque feitas”, mas mesmo ele vai sendo esquecido… resta o futuro, onde cabem todas as fantasias e blasfêmias da pretensa autonomia humana e seus delírios contra a Soberania - esta é minha interpretação do que Lewis diz).

Pela categorização do Lewis, o Gérson Rocha (e similares), são de um tipo melhorzinho, entretanto. São cheios de fobia pelo presente, mas ainda buscam alguma coisa no passado… ainda que sem muito senso crítico e auto-consciência. Se reconhecessem a origem de suas música e a atitude para com o presente, por assim dizer, da maior parte dos reformados, sua postura diante da cultura de seus dias seria menos infantil (francamente, música de satã é dureza…) e sua influência, de maior escopo.

O pior tipo, a meu ver, é esse limbo atual. Limbo por falta de palavra melhor agora: não é o presente, de modo algum, pois padece do mesmo horror, e não é uma forma de ligação a um passado “editado” e fictício como o de Gérson Rocha. Parte do evangelicalismo atual se isola e se esquiva cuidadosamente do diálogo crítico com a cultura e sociedade em que está inserido em nome de um papel futuro, mas completamente nebuloso, e desconhece completamente sua origem, seu passado e a genealogia de sua crença - que passa então a ser uma infinidade de recortes teológicos ou quasi teológicos ad hoc. É sem passado, não é presente, e vai perdendo mesmo até o contato com o futuro… é uma grande fantasia, um simulacro.

E o limbo, me parece, é isso: a recusa do diálogo crítico, da presença (testemunho) no presente, e a inserção sonâmbula. Sumiu-se com o rótulo “música de satã”, o que aparentemente é bom; entretanto, incorporam um atitude inerte - zumbis que agem como o século quer, incapazes que são de transformá-lo ou confrontá-lo.

Então, proliferam os Gospel Stars, os famosos evangélicos, as feiras de mídia e produção - a linguagem para as massas. Acabam produzindo “música de satã”, não pela música, mas porque deixamos Screwtape e seus asseclas utilizarem bem sua fraqueza.

*Essa expressão é, originalmente, de Riverson Silva, estudante de Letras, professor de literatura brasileira e intelectual picareta (ele assim o quis!).

Calvino e os Judeus - I

30 Agosto, 2007

A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os shtetl) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.

Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios - e como tudo o que é “os outros” é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a “questão judaica”. Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos - vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.

Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois “tipos”: os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha - a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado… o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de Dos judeus e suas mentiras.

O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.

Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus - estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da “reformada” Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.

A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse “insumos empíricos”. Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com “gramatical” e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão… Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.

Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à “teimosia talmúdica”. Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.

Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica - um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.

Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: Calvinus Judaizans. Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.

*BARON, Salo. João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu. 1974. São Paulo: Editora Perspectiva.