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Sobre Persépolis

14 Abril, 2008

Nas primeiras décadas do século XX a historiografia positivista estava claramente desancada: a história oficial calava as vozes de agentes “marginais” de uma época, dissimulando as complexidades dos acontecimentos e desenvolvimentos sociais e culturais de um período. Em resposta ao modelo vigente apresentou-se, entre outras possibilidades, a École des Annales, que fez, grosso modo, inverter o lugar dos textos (oficiais) e as notas de rodapé - muito mais do que datas, lugares, personalidades e cargos, o que faz a história são os detalhes cotidianos onde as transformações e tendências vão solapando a ordem vigente. Num exemplo, para compreender a Revolução Francesa não basta cobrir os fatos da década de 1780 e 1790, mas é preciso saber o que mudou na mentalidade e sociedade francesa ao longo dos últimos séculos, rastrear na “longa duração” como se chegou àquele momento de “curta duração”. Ou pra entender o Brasil Império é mais importante conhecer as revoltas do que as crônicas palacianas.

Em termos metodológicos, a École iniciou a “história da pessoa, das coisas e dos hábitos”, ao invés da biografia e documentação oficial; assim Georges Duby, por exemplo, pode apresentar uma série de características intrincadamente conectadas sobre a Era Medieval num quase romance como “Guilherme Marechal”, ou “O Ano Mil”. Nesse mesmo paradigma temos a “história da vida privada”, e toda a “narrativa lenta” já utilizadas por Gilberto Freyre (que para mim é um antecipador da École). Se me for permitida uma metáfora, a diferença representada seria entre uma foto oficial e um instantâneo congelado por um fotojornalista.

Uma das grandes virtudes da História Nova, então, é nos apresentar um quadro mais verossímil e humano do que se passou numa determinada época ou evento, sobretudo porque consegue estabelecer empatia, identificação - o que nos fornece parâmetros muito mais qualificados para avaliação e conhecimento, é informação com carga de humanidade, mais do que dados cronológicos e estatísticos, e localizações geográficas.

Acredito que é justamente por isso que Persépolis (França, 2007) é tão impactante. Da minha infância recordo que os nomes Iran e Iraque estavam associados como gêmeos antagônicos e violentos, ou como Caim e Abel, engalfinhados numa briga ferrenha e meio sem sentido. Sem sentido porque não enxergava motivos possíveis representados na imagem de um tanque no deserto disparando seu canhão em meio a uma densa nuvem de poeira e fumaça - atirando para onde meudeus? Eram como duas entidades etéreas lutando, como nuvens de uma tempestade furiosa, e aqueles soldados (mais sombras que homens), com os rostos cobertos por máscaras de gás (desfeitos de identidade) eram com extensões impessoais, como meus bonequinhos de America’s Army. A Revolução Islâmica e o Aiatolá Khomeini eram alguma coisa incompreensível e assustadora - homens austeros e mal-humorados de longas barbas e turbantes negros, mulheres sem sorriso cobertas por um xale também negro.

Contudo, Marjane Satrapi nos ofereceu um retrato avassalador do que aconteceu com o Iran, contando como isso afetou sua vida. Tal como Anne Frank, ela foi apanhada em sua infância por uma onda de transformações que afetaram profundamente sua família - o que situa sua biografia como um local privilegiado para compreender o momento. Não vou refazer aqui o que está feito no filme, nem recontar o que ele conta; no entanto, vale a pena pensar em algumas coisas.

Primeiro, me impressionou muito a forma como o Iran foi afetado pela introdução de idéias desenvolvidas em lugares muito distantes, tanto geográfica como culturalmente (a Europa Ocidental) por meio de agente individuais ou grupos que formaram, auto incumbidos de transformar e redirecionar a nação por meio de alguma revolução - que é patente na dinastia Pahlevi, sinônimo de ocidentalização e industrialização com algum apoio externo, e que terminou inevitavelmente num regime totalitário. O germe revolucionário estava incrustado em solo iraniano.

Os oponentes do regime Pahlevi, segundo narra Marjane, eram profundamente influenciados pelos comunistas russos, e compromissados com a mesma premissa de transformação da sociedade, trazendo justiça e harmonia por meio de movimento radical de transformação - sim, porque o comunismo também era alienígena ao palco cultural iraniano. Na esteira da derrocada de Reza Pahlevi e seu regime, vieram a “abertura” e as eleições livres. E o que acontece? O partido radical islâmico toma o poder com maioria esmagadora dos votos. Estava feita a Revolução Islâmica. Toda a transformação do Iran aos moldes das narrativas libertárias ocidentais foi solapada, e em seu lugar foi posto um regime teocrático regido por clérigos - quer coisa mais reacionária do que esse retorno à fusão entre Estado e Igreja, ou melhor, Mesquita? O mais irônico é que o caminho foi pavimentado pelos modernos revolucionários comunistas e secularistas.

Pior que a repressão dos Pahlevi foi o controle muçulmano, que além de caçar ameaças políticas, vê em tudo o que for ocidental um perigo a ser aniquilado. Tudo aquilo que vimos e que foi bem desenvolvido em regimes totalitários secularizados, como a Alemanha Nazista ou os Comunistas onde quer que tenham alcançado o poder, foi utilizado pela Revolução Islâmica: polícia política, polícia cultural, monitoramento, vigilância, moral revolucionária que permite virtualmente qualquer atrocidade e supressão de valores, direitos e dignidades.

E, finalmente, veio a guerra com o Iraque de Saddam. Nela quase 1.000.000 (sim, um milhão) de iranianos perderam suas vidas, a maioria esmagadora eram jovens, e 600,000 (seiscentos mil) iraquianos morreram. Quer dizer, num único conflito com menos de dez anos de duração e sem um vencedor, muçulmanos revolucionários islâmicos persas e muçulmanos revolucionários comunistas/secularistas árabes mataram 1.500.000, um milhão e quinhentas mil pessoas - motivados, entre outras coisas, pela liderança do mundo islâmico.

O sangue nas mãos dos dirigentes da Revolução não os incriminou ou enfraqueceu; antes, clamando pelo sangue dos mártires, fizeram dele motivos ainda mais fortes para o comprometimento e sacrifício do Iran. Não era à toa que minha inocência infantil enxergava os soldados como bonecos de plástico verde… tudo agora eram peças à disposição da Revolução.

Segundo, e mais subjetivo, é a razão pela qual Satrapi nomeou sua biografia com o nome da antiga capital do Império Persa: Persépolis. Pode haver motivos externados pela autora, que eu desconheço, mas particularmente acho que há aí uma referência ao antigo explendor da Pérsia da Antigüidade, de Ciro e Dario, quando era o centro do Mundo e vanguarda cultural. O Iran de Marjane era muito mais a Persépolis Clássica que a Teeran dos Aiatolás. E como a cidade antiga, está em ruínas.

Notas sobre a questão agrária - por um leigo

3 Setembro, 2007

Um dos problemas dos movimentos de esquerda (ou, afinal, das grandes correntes e movimentos políticos) é sua tendência de criação de grandes propostas e agremiações totalizantes, que querem reunir sobre si todos os elementos interessados em certa questão, criando a ilusão que todos os componentes e agentes formam uma grande massa monolítica de opinião uniforme. Para tanto, é preciso subsumir as clivagens, as preferências discordantes, os grupos dentro do grupo, calar as alternativas e criar a noção e sensação em cada componente de que a única forma viável, correta e possível e a que lhes é apresentada (ou imposta) por uma “ala majoritária” (não creio foi sem propósito que José Dirceu e os seus tenham escolhido - ou ganhado - essa designação dentro do PT).

Apesar de crer que em certos momentos a coesão é necessária para a sobrevivência ou superação de um certo momento histórico ou questão crucial - como aconteceu nos governos de coalizão para momentos críticos na Inglaterra -, isso não tira o direito do cidadão de discordar, avaliar e expressar posição contrária. É inadmissível que se silencie grupos, preferências, e opiniões numa caudalosa e barulhenta propaganda e mecanismos de isolamento (não é à toa que tanto se ouve falar de personagens da esquerda que, em dado momento da “revolução”, são ostracizados, caindo no limbo). A estratégia do cinto ideológico que reúne os indivíduos, usurpando-lhes a iniciativa e agência, para a formação de um leviatã supra e super pessoal é a pior alternativa, se não a mias demoníaca.

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A questão agrária no Brasil, ao que me parece, padece do mesmo problema. Perceba que não quis me valer de pronto do termo reforma agrária exatamente pelo fato da questão agrária não se limitar a reformas e compartilhamento ou redistribuição de terras. Dentro do movimento, que, como tentei prefaciar, não é uno, único, e coerente (ou seja, unívoco) existem questões de regularização agrária, resolução de conflitos, questões de ordem trabalhista e, claro, reforma.

Existem milhões de posseiros e colonos no Brasil que cultivam e trabalham em terra a várias gerações das quais não são legalmente proprietários, nem delas podem dispor e têm seu futuro atrelado à incerteza da vontade de uma figura cada vez ausente - o latifundiário que por agora pensa nos muitos cifrões do agronegócio e nas chamadas opções verdes de combustível.

Existem milhares (se não, novamente, milhões) de agricultores que ocupam terras das quais não possuem títulos de posse e sofrem pressões e ameaças de grileiros e esperam pela justiça que lhe entregaria as escrituras. Trabalhadores do campo que não recebem seus direitos trabalhistas, e nós os vemos vez em quando nos telejornais quando algum fiscal do Ministério do Trabalho faz seu trabalho, flagra e autua fazendeiros que se valem da exploração de trabalho semi-escravo.

Nas cidades e em suas favelas, outra miríade originária do campo, personagem do êxodo rural brasileiro (um dos maiores da história) se amontoam na semi-urbanidade, desiludidos do sonho industrial e citadino, a quem se apresenta a possibilidade de retornar para o interior.

Para essas tragédias, que são diversas e de natureza distintas, não há uma solução única. Há questões e características regionais, econômicas, políticas e morais que fragmentam esse falso monolito e exigem tratamento diferenciado. Como tudo por aqui, no Brasil, que seja mais complicado que um binômio é esquecido na máquina burocrática atolada na lama da má vontade política, a solução do super-funcionário brasiliense é tomar o gigante verde-louro como igual em tudo e todos os lugares, propondo uma solução que só dá certo no Reino da Sandice (não muito longe de Inverídia).

Por outro lado, movimentos da esquerda revolucionária sem tanta sofisticação gramsciana solapam e fagocitam os movimentos regionais, menores e atentos às especificidades locais, reunindo toda a massa em torno de usa bandeira, hasteada no poste mais alto e tomada por única existente e possível. E isso transcende a realidade e consciência dos agentes envolvidos diretamente na questão: na cidadão comum, que assiste ao Jornal Nacional, a questão agrária se confunde com reforma agrária e seu representante único é o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A unificação dos discursos é a condição necessária para a polarização binária do conflito, para o acirramento das preferências que leva ao inevitável conflito. Sendo que o pequeno burguês geralmente é um otário sonâmbulo que cede sua liberdade a um governo totalitário desde que prometa livrá-lo das ameaças, e o pobre camponês foi a classe (num sentido menos marxista, substitua “classe” por “tipo”, se quiser, que a gente se entende) mais sofrida com a revolução industrial (o trabalhador industrial urbano obteve melhorias se tomarmos períodos maiores, e a constatação estatística do aumento da renda do operário foi um problema que Marx contornou com a fraude dos dados expostos n’O Capital), não me parece fortuito o fato dos países com maior população rural do mundo terem instalado regimes comunistas (Rússia e China), enquanto os países industrializados, com sindicatos mais atentos e politizados (com aquele tipo interessante, o burocrata do partido ou do sindicato que se enquadrou na cultura pequeno burguesa) conseguiram equalizar diferenças salariais e melhorias sem abrir mão da economia de mercado e da democracia multi-partidária.

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É preciso estilhaçar os monolitos, esses construtos ideológicos irreais e mentirosos, demonstrar os diferentes ambientes e problemas para desmontar o uso desse problema real e urgente de justiça para projetos partidários, revolucionários ou que quer que sejam.

Sobretudo, acredito na opção pelo pobre, e por uma questão de justiça, é preciso um esforço político e moral para solucionar o problema da questão agrária, sem recorrer à vitimização, mas sem esconder ou minorar os fatos de opressão, violência e demais tragédias, com adequação econômica, mas sem esquecer a justa medida e solidariedade com o fraco (sim, eles existem).

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Este post foi motivado pelo filme (não creio que possa chamá-lo de documentário, por questões técnicas) de Tetê Moraes, “O sonho de Rose” (Brasil, 1996/2000), tratando dos desdobramentos do caso de Rose, sem-terra (casada, mãe de três filhos) que morreu atropelada (supostamente morta intencionalmente) durante a luta de acampados do MST na fazenda Annonni, no Rio Grande do Sul, em 1985 - em 87, Moraes dirigiu “Terra para Rose”, sobre a ocupação, o confronto com a polícia e a morte de Rose.

Em entrevistas muito interessantes com a família de Rose, sua situação dez anos depois da tragédia, e com as lideranças do movimento, antigos companheiros de ocupação, que são confrontados com suas afirmações anteriores e atual condição. Sem querer antecipar o filme, creio que muitos aspectos e contradições da questão agrária e do MST (e outros movimentos atuantes no campo) ficam muito claros.

O filme foi exibido ontem (Domingo) no programa Cadernos de Cinema, da TVE. Mesmo não sendo uma obra-prima do cinema, proporciona boas reflexões, como espero ter sido o caso aqui. Se puder, assista.