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Negando o Holocausto [por vias mais sutis]

28 Abril, 2008

Ano passado (’07) um chain mail, uma daquelas correntes de e-mail irritantes, causou problemas ao anunciar que o ensino sobre o Holocausto havia sido banido na Inglaterra, e relembrava o  que disse Eisenhower sobre o risco da tragédia ser esquecida e desacreditada por quem não a viu. Como um retardatário, eu recebi a dita mensagem e, impactado, acrescentei um textinho e compartilhei a “notícia” com amigos mais próximos. Rapidamente, gente atenta entre os destinatários, retornaram apontando que a informação já fora contestada e desmascarada como sendo mais uma lenda na internet.

Contudo, o frisson causado (pelo e-mail, ainda em 2007) foi tamanho, que o governo britânico foi a público para desmentir o boato - a BBC publicou dois artigos sobre o caso (aqui e aqui) e há uma boa entrada na Wikipedia sobre o caso. Mas, curiosamente, a emenda saiu pior que o rasgão: de fato, o boato se alastrou na palha seca de fatos muito desconcertantes. Professores em algumas cidades com grandes comunidades muçulmanas gostariam ou estavam evitando assuntos “emotivos e controversos”, e que feriam as sensibilidades dos alunos anti-sionistas e/ou que não criam na realidade histórica do Holocausto. Para não contrariar o que aprendiam fora da escola, a melhor solução seria não tocar nessas questões.

O problema apareceu primeiro num relatório da Historical Association (a respeito do problema curricular), e sua raiz está na proposta educacional inglesa mais recente baseada numa abordagem que contemplasse mais adequadamente o multiculturalismo presente nas salas de aula. Como nesse caso os temas tratados acirravam os animos políticos e militâncias das comunidades, muitos professores, obviamente, não souberam como realizar a tarefa sem cortar e costurar os tópicos dos programas, principalmente em história.

Mais uma vez aí está ele, o multiculturalismo. Lindo, resplandescente, sofisticado, tolerante, e cheio de corretude política - um típico produto da orgulhosa sociedade plural  Esse despropósito não passa de moralismo, o mais desarranjado, armado por quasi intelectuais cheios de ressentimento contra tudo, mas sobretudo contra si. Ao invés de apresentar os fatos e pontos de vista interpretativos academicamente válidos, a disciplina se tornou palco de defesas ideológicas dogmáticas - são as cotas aplicadas às idéias: vamos ensinar sobre o Holocausto, mas não vamos falar sobre as Cruzadas para dar equilíbrio ao conflito com os muçulmanos… muito esperto.

Don’t folllow the light

9 Abril, 2008

Don\'t follow the light

Outra forca para o Ocidente

25 Março, 2008

Eu tenho um vizinho muçulmano, uma das pessoas mais gentis e cordiais que já conheci. Ele veio da Síria há mais de cinqüenta anos, casou-se com uma católica e teve um filho. Saudamo-nos vez em quando, e ele me trata como “senhor” - eu no alto dos meus vinte e cinco anos! -, e eu, obviamente, retribuo. Ele sempre agradece ao final da breve cerimônia e mesuras. Ouço-o à tardinha em suas rezas entoadas naquela melodia árabe hipnotizante, mas dinâmica - quase sempre paro o que estou fazendo para ouvir.

Não sou muçulmano, e acredito que jamais me tornarei um. Em termos teológicos, acredito que meu vizinho está equivocado. Mas a figura do Sr. Jaber, seu testemunho e simpatia impelem-me a respeitar sua fé e expressão religiosa - mais do que tolerância, penso em convivência. Qual a diferença? Tolerância é uma exceção, um estado de indiferença: “não fale comigo, eu não falarei com você; assim viveremos como se não existíssemos um para o outro, e não precisaremos medir nossas diferenças”. Eu, particularmente, não quero ser tolerado, quero ser respeitado. Não quero ignorar o Sr. Jaber quando cruzo com ele em nossa rua, ou relevar a morte de sua esposa (o que me levou a condoer-me com ele).

Conviver, por outro lado, faz com que compartilhemos o dia-a-dia; o problema é que nossa cultura hipersensível e superficial tem horror a qualquer menção de conflito de posições, idéias ou visão de mundo - e convivência é invariavelmente isso, em algum momento. Tolerância é como café descafeinado, feijoada light e coisas assim: queremos as benesses sem arcar com os custos de sua integralidade. Convivência sem conflito: tolerância pura e simples.

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Liberdade religiosa e de consciência foi, com certeza, um dos grandes desenvolvimentos alcançados pela cultura ocidental. Bem verdade que foi a muito custo, muito sangue e cabeças que estabilizamos esse princípio como cláusula pétrea em nossas sociedades; e ainda assim, sofre constantemente o risco de ser banida, desrespeitada e negada.

Mas a liberdade de consciência conjugada com a idéia distorcida de tolerância transformou nosso tempo num imenso contra-senso: permitimos templos religiosos das mais variadas crenças, cerceamos ao mínimo as restrições às práticas de culto e normas civis internas de minorias, e corremos em socorro da menor ameaça a elas. Todas as tradições religiosas gozam de liberdade ou mesmo incentivo em nosso meio - às vezes mais do que em seu próprio lugar de orgiem. Mas para isso, para ostentar esse grau de liberalidade, os patrulheiros da tolerância cerceiam, censuram e castram as expressões da tradição judaico-cristã, a própria raiz que permitiu a realização do Ocidente.

Enquanto as mais obscuras práticas e discursos religiosos são caracterizados como “beleza exótica”, “riqueza” e “pluralismo cultural”, doutrinas cristãs e judaicas, construídas e revisadas ao longo de milênios num exercício crítico e de esclarecimento únicos na história das religiões (alguém conhece um muçulmano liberal ou um budista relativista quanto à própria doutrina?), são rotuladas como retrógradas, antiquadas e ideológicas a serviço da dominação.

Militantes feministas que se ofendem ante qualquer manifestação ou posicionamento anti-aborto, ou qualquer militante das liberdades sexuais escandalizados com expressões de censura em relação ao homossexualismo e promiscuidade, ao se encontrarem em países muçulmanos absolutamente fechados em termos de concessões de liberdades, fazem silêncio ou mesmo se “adéquam à cultura local” - como líderes feministas de esquerda vestindo o hijab. Eu nunca vi um militante expressando horror ao que se faz a homossexuais em países muçulmanos ou comunistas - curioso.

Concomitantemente, em países árabes muçulmanos e comunistas, principalmente, é praticamente impossível abrir uma igreja cristã. A Arábia Saudita, por exemplo, condicionou a abertura de igrejas católicas em seu território somente mediante o reconhecimento de Maomé como profeta pelo Vaticano - sem comentários. Ou um, apenas: algum país ocidental de tradição cristã pediu que comunidades islâmicas reconhecessem Cristo como profeta ou filho de D’us para terem direito de culto? Ou Israel pediu o reconhecimento de sua eleição ou da primazia da Torá para que árabes israelenses mantivessem suas mesquitas? Não, definitivamente não.

Ah!, sim: existem entre três e quatro milhões de cristãos na Arábia Saudita que vivem como cidadãos de segunda classe, a começar pelo impedimento da liberdade religiosa e de consciência.

Antes de sujar o ribeirão, rapaz, veja de onde vem a água que você bebe.

Uma noite de novembro… quase 70 anos atrás

9 Novembro, 2007

Há 69 anos, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, as ruas de quase todas as cidades da Alemanha, e de Vienna (Áustria), foram tomadas por uma turba sedenta de violência, numa orgia de atrocidades. Era a Kristallnacht - a Noite dos Cristais. Em 1933 o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, e desde então, a situação dos judeus no país foi se deteriorando metodicamente, num plano bem arquitetado pelos nazistas. Judeus poloneses que vivam na Alemanha foram deportados em outubro de 38 para seu país de origem, que também não os quis receber, fazendo com que 12 mil pessoas fossem pressionadas na fronteira teuto-polaca, sob chuva e frio, sendo admitidas finalmente na Polônia, em terríveis campos de refugiados.

Um parente desses desafortunados, que vivia em Paris, pediu por ajuda ao embaixador alemão na França, vom Rath. Após ser repetidamente ignorado em sua petição, o rapaz judeu assassinou vom Rath. O incidente foi o que o partido nazista, mais especificamente o chefe da propaganda, Goebbels, precisava para uma ação maciça contra os judeus alemães. Um grande levante, que deveria ser tomado por popular e espontâneo, foi perpetrado pelas autoridades do partido, tendo sido levado a cabo pelas tropas nazistas, as SA, as SS, e outros grupos organizados. Seus membros estavam à paisana, confundindo-se e insuflando os civis.

A Kristallnacht tinha objetivos muito claros: banir os judeus da vida econômica alemã e testar o nível de reação da comunidade internacional a uma ação violenta em larga escala contra os judeus alemães. A ação era coordenada e direta: depredar lojas, estabelecimentos comerciais de propriedade judaica, casas e vizinhanças judaicas, sinagogas, e prender o maior número possível de homens judeus. O saque estava proibido, bem como a violência contra estrangeiros (inclusive judeus estrangeiros), e a população alemã deveria ser cuidadosamente poupada de danos acidentais.

As turbas saíram às ruas com machados e marretas e puseram-se a quebrar as vitrines de casas e estabelecimentos judaicos - daí no nome Kristallnacht: a Noite dos Cristais, porque o vidros de vitrines e janelas eram feitos de cristal e muito caros, sendo, de certa forma, símbolo de prosperidade. 8 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram atacados, 30 mil homens judeus presos e enviados a campos de concentração, e 1700 sinagogas foram atacadas, sendo que 270 foram queimadas e destruídas. Judeus foram perseguidos e espancados, entre a noite do ataque e os meses seguintes (nos campos), pelo menos 2 mil pessoas morreram.

Na Áustria os resultados foram proporcionalmente piores - os austríacos agiram com diligência: 191 sinagogas destruídas, sendo 76 delas completamente demolidas; mais de 800 casas comerciais de judeus foram destruídas.

A real participação da população civil é impossível de ser mensurada, sobretudo pelo fato dos membros de tropas de ataque estarem em roupas civis. Mas o ponto é que assim como os alemães, o resto do mundo assistiu à Noite dos Cristais paralizado, sem saber exatamente o que era aquilo e recusando-se a fazer alguma coisa. Muitos países condenaram o ataque, alguns chegaram a romper relações diplomáticas… mas já era tarde. O dia 9 de novembro de 38 foi um ensaio geral para o que estava por vir - não por acaso, alguns consideram a Kristallnacht como o início do Holocausto.

Os Nazistas, como todos os inimigos da liberdade, não precisavam de ajuda ou adesão massiva à sua orgia - precisavam apenas que as pessoas se calassem e virassem seus rostos. Como na frase do Sr. King: “não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. E pouco tempo depois, já não havia como evitar “danos à população alemã”. A guerra foi impiedosa, mas não podemos negar que deu muitos sinais e avisos de que chegava… entrou quase que a convite.

E os judeus? Sobreviveram… foram multados, ao final do levante, em 1 bilhão de marcos por “danos à nação alemã”… e os reparos das janelas quebradas ficou em torno dos 4 milhões de marcos. Muitos que até ali estavam hesitantes, tentaram emigrar. Mas já era tarde também para isso, para muitos. E até hoje, tentamos sobreviver… pagando multas, consertando casas, indo embora, e escrevendo… tentando não deixar que certas coisas se repitam.

Considerações sobre a liberdade - por um leigo

8 Novembro, 2007

Liberty is a concept with vast possibilities for imagination

A frase acima é do filósofo russo Lev Navrosov, um dos pensadores mais lúcidos que encontrei nos últimos tempos (não que eu conheça muitos). A liberdade é um dos recursos, uma das características humanas mais temidas e odiadas por seus opressores. Ditadores, regimes totalitários, demagogos e aproveitadores de todos os tipos conseguem “legitimidade” ou permissão para cometer seus crimes depois de extirpar suas vítimas da liberdade. A primeira coisa que precisam fazer é fazer crer que não há nada melhor, mais necessário ou mais adequado do que o que estão propondo ou oferecendo. E como o bandido conhece o mal que perpetra, sabe também que à menor comparação com o que é realmente razoável e realista, será desmascarado. Então, a primeira providência que toma é disciplinar o olhar da presa, estreitar-lhe os horizontes até que creia que seu “mentor” lhe quer o bem e é justamente isso o que oferece.

O pior tipo de supressor de liberdades é uma espécie de esteta, de artista adulterado, corrompido. Pois o artista (verdadeiro) remove e adiciona camadas ao real, rearranja seus elementos para demonstrar a beleza da própria realidade, ou denunciar o horror e a feiúra - mas seu ponto de referência é a realidade: o bem e belo que nela há, e o mal e feio que precisa de conserto. O supressor faz uso das prerrogativas da arte para descolar o olhar da realidade, para virtualizar a experiência; cuidadosamente evita a comparação, a constatação do real que desmascararia sua farsa e livraria o cativo.

Uma vez isso feito, o escravo (quem perdeu a liberdade) é expropriado da “riqueza semântica do real”, como diria meu bom amigo Guilherme de Carvalho, e torna-se prisioneiro numa jaula de fantasias, que não é outra coisa senão a completa distância da realidade. Estética tem a ver com verdade, que tem a ver com real, que tem a ver com liberdade. E liberdade é poder imaginar, é ter possibilidades múltiplas e infindas de comparação e possibilidade. E isso é muito diferente de fantasia.

Esse tipo de escravização é tão terrível, é um tipo tão acabado, tão teleológico de catividade que transcende a coerção e constrangimento físico. É o aprisionamento da mente, do espírito. Temos alguns tantos exemplos e parábolas que descrevem bem essa situação - quem sabe a caverna, de Platão, seja a imagem mais recorrente. Mas para mim, a narrativa do Éden, em Be’reshit (Gênesis) é mais contundente… mas isso é conversa pra outro post.

Os grandes tiranos do século XX, os regimes totalitários, por exemplo, fizeram exatamente isso: trabalharam diligentemente para convencer pessoas de que o que propunham não somente a melhor mas a única solução e redenção possível. Não era apenas a melhor escolha (afinal, escolha é o que o inimigo da liberdade odeia), mas a única alternativa. E não por acaso, Hanna Arendt caracteriza os regimes totalitários do século passado (o nazismo, ao menos) como profundamente estéticos.

A sofisticação dos irados opositores da liberdade, da humanidade, parece não ter fim… ninguém falará mais em cadeias, em algemas. A não ser como parte do espetáculo. Prosseguirão com a desfiguração do real, com a supressão das escolhas pela deterioração da capacidade de discernimento. E o que é discernimento? “Capacidade para distinguir o bem do mal para fazer o que é certo”. Pode chamar de livre arbítrio ou livre agência.

Devoram nossa liberdade restringindo nosso poder de escolha, não por força e constrangimento, mas nos convencendo de que somos inaptos para deliberar e discernir. “Senhores, não sabemos, realmente, como julgar. Não sabemos o que é bom para nós. Portanto, venham, dominem sobre nós, guiem nossas vidas, pois isso nos será coisa melhor”. E então, com nosso consentimento, eles se assentarão no trono feito com os cadáveres de nossa consciência.

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Do que venho acompanhando, a comunidade do software livre/open source vem fazendo um bom trabalho para manter a liberdade sobre a base da possibilidade de imaginar outras possibilidades de escolha. O recente sucesso na defesa do padrão ODF como ISO, contra o OOXML, fui uma prova contundente do presença da comunidade e de quão longe os inimigos da liberdade, mesmo numa questão de mercado, podem ir.

Minha única ressalva, e falo isso reconhecendo meu lugar como leito, é que não devemos repetir os padrões (des)criativos, e nos lembrar, ou melhor, imaginar que “há outras maneiras” que, se não apresentadas até aqui, é porque podem ser ainda melhores… E, sobretudo, é preciso ter (muita) consciência de que o movimento Livre (que não deve ser só software) não é uma mera questão de tecnologia ou informática. É política e filosófica - é moral.

“Free as freedom” parece ser um bordão com mais aplicações e significados do que consideramos (eu, pelo menos) até agora.

De Munique a Pequim

7 Novembro, 2007

Ano que vem, mais uma vez, os olhos do mundo todo se voltarão para a China, para as Olimpíadas de Pequim, ou Beijin. As Olimpíadas modernas, como todos sabem, tal como idealizadas por Pierre Fredy, Barão de Coubertin, têm por princípio a união e confraternização entre os povos, o “fair play“, e essa coisa toda. Mas, para honrar mais uma vez o título desse blog, a realização de uma olimpíada na China é, em todos os sentidos, um contra-senso.

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A China é o país mais populoso do mundo, e detém outros recordes. É o país que, de longe, mais desrespeita e nega direitos básicos aos seus cidadãos - da liberdade de expressão à liberdade econômica, passado pela liberdade religiosa e de consciência. Se você, leitor, achou as fotos de Abu Ghraib um absurdo, nem queira saber o que se passa pelas prisões chinesas. E enquanto no Iraq há um estado de guerra e conflito armado com soldados, exércitos, guerrilheiros, terroristas, etc., na China há um Estado que esmaga seus próprios cidadãos por quererem votar, publicar livros, acessar internet, rezar, ter mais de um filho, etc…

Aliás, você que lê esse blog, saiba que a China exerce um dos mais apertados cercos e censura sobre a internet no mundo (juntamente com o Iran, acho). Não há dados oficiais, obviamente, mas organizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que o país onde mais se tortura e mata jornalistas é a China. Saia da linha, e tome pancada.

Os católicos chineses não podem ser católicos… é, o dogma central do catolicismo, que é a representatividade de D’us na Terra pela figura do Papa, é proibido, e a Igreja Católica na China é submetida ao Estado Chinês - do contrário, estaria submissa a um país estrangeiro… afinal o Papa é estrangeiro, e chefe do Vaticano… As igrejas protestantes na China são menos evidentes em termos oficiais; crescem como redes, com reuniões e núcleos domésticos clandestinos, se reúnem também em salões subterrâneos, lugares ermos - catacumbas. O número de religiosos perseguidos e mortos também assusta. Caso você leia jornal no Brasil, sempre que ler uma notinha como “grupo de rebeldes é preso no interior da China” ou coisa parecida, dê um pulinho no site A voz dos mártires e saiba uma outra versão (no mínimo) do ocorrido.

E não se iluda: não são meia dúzia de cristãos na China. Por baixo, calcula-se que haja 90 milhões de cristãos, o que faz do país a nação com o maior número de cristãos no mundo - mais até que os EUA. Só isso.

Mas para aqueles que acham que com cristãos tudo pode ser feito, vejam a ocupação chinesa no Tibet. São 50 anos de invasão que já custou a vida de mais de um milhão de tibetados, e o exílio do Dalai Lama como resultado da pressão insuportável sobre a religião budista. Os chineses mulçumanos, zoroastristas, minorias não chinesas, animistas, etc., também sofrem o diabo na mão do Estado que não quer outra coisa senão o lugar exclusivo de divindade única.

A China tem o infanticídio e o aborto como política de controle de natalidade e crescimento populacional. Eu mesmo conheci um casal que trabalha em Hong Kong recolhendo bebês (meninas) das latas de lixo e sarjetas da cidade. E sempre há bebês descartados. Sempre. E o cinismo ocidental diz que “a China precisa parar sua bomba populacional, não importa como”. Não há sequer projeções da extensão da violência contra a mulher chinesa…

A China e o país com o maior número de execuções de pena capital no mundo - a maioria dos executados cometeram crimes políticos (leia-se contra o regime). Em 2005, foram pelo menos 1.700 execuções (algumas fontes acusam 8.000 execuções), enquanto nos EUA, país democrático com o maior número de execuções, elas não chegaram a 70. De cada 10 aplicações de pena capital, 9 acontecem na China - pelo menos.

No segundo semestre de 2007, a China tornou-se o maior emissor de carbono do mundo, superando os EUA.

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Bom, a essa altura os garotos revoltados, esquerdistas, libertários e toda sorte de bandido e corruptores do bom raciocínio devem estar bastante raivosos. Mas vou insistir um pouco mais. Realizar uma Olimpíada na China é um erro. Apoiá-la é um crime. Crime de cumplicidade a toda injustiça e violência cometida pelo Estado Chinês contra a humanidade. Todo atleta, delegação, país que participar futuramente se envergonhará profundamente, e restará aquele pedido de desculpas aterradoramente inútil ante a atrocidade perpetrada.

Delírio? Pode ser. Mas o Mundo (minimamente) livre cometeu um erro desse mesmo tipo ao realizar e participar das Olimpíadas de Munique, na Alemanha de Hitler, em 1936. A Olimpíada que deveria celebrar a “paz” com a Alemanha Nazista, e a hegemonia suprema da raça ariana. Pouco tempo depois, a Polônia era invadida, e os fornos queimavam judeus, cristãos, ciganos, etc…

Tudo bem, a história nunca se repete. Quando retoma um padrão, não repete - porque o erro repetido é sempre ainda mais horrendo, maligno e abissal. Que será do ano de 2011?

Uma forca para o Ocidente

28 Setembro, 2007

Anda em voga nos países pós-industriais do Ocidente a aplicação fundamentalista do método construtivista no ensino. O construtivismo parte, grosso modo, do pressuposto de que o indivíduo é fundamentalmente bom e que pode se auto-educar, construindo o conhecimento do mundo com o mínimo de mediação por parte de instrutores (pais, professores, enfim, o ambiente cultural que o cerca). Partindo daí, o que distorce a criança são os limites e restrições socio-culturais operados pelos mediadores, as figuras de autoridade. O construtivismo é, da raiz à ponta, moderno, iluminista, doutrinado no culto da razão humana como instância máxima e privilegiada para o conhecimento da realidade - tudo o mais categorizado como irracioanal é um obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades da razão, e como tais devem ser demolidos: tradição, religião, costumes, ou seja, tudo o que não tenha um fundamento racional demonstrável.

A vertente norte-americana do construtivismo, largamente disseminada, tem uma forte influência dos chamados filósofos pragmatistas, como John Dewey e William James. Vandalizando o pragmatismo pela precariedade deste blog, direi que o pragmatismo tem duas bases fundamentais: visto que o programa moderno do conhecimento e domínio do mundo pela razão humana dera errado, (i) o conhecimento real e objetivo da realidade é impossíve, portanto, (ii) a verdade é consensual e pragmática - se socialmente funciona, cumpre o papel de consenso, é verdade. Vejam bem: verdade é igual ao maior consenso.

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Não me espanta o fato da República Islâmica do Iran, através de seu presidente, negue o Holocausto, pregue a aniquilação do Estado de Israel e financie grupos terroristas como o Hezbollah. Não me espanta também que mantenha um forte esquema de censura (incluindo o bloqueio ao conteúdo e monitoramento de usuários da internet no país), restrições de direitos de minorias (veja as condições a que são submetidos zoroastristas/maniqueístas e cristõas no Iran), e a completa indistinção entre “Mesquita” (”igreja”) e Estado (não tenho qualquer problema com a relação religião e política; mas a mistura de papéis institucionais e de funções é absolutamente prejudicial).

Não me espanta que um país bastante distante do palco de atrocidades que foi a Europa (e o Pacífico) na II Guerra tenha poucos tremores e temores ao caracterizar como falso o massacre sistemático de 6 milhões de judeus.

A propósito, negar a morte de 6 milhões de judeus pela máquina de morte nazista, é negar conjuntamente a morte de 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, 2 mil clérigos católicos, outros tantos pastores protestantes, ciganos, Testemunhas de Jeová, gays, comunistas/socialistas/anarquistas, deficientes físicos e mentais e demais “indesejáveis”.

Mas num país em que a profissão de outra fé que não o Islam deve legalmente restringir-se à esfera doméstica e vetada à atividade proselitista, e que impede que os judeus-persas migrem para Israel, isso não é surpresa.

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Supreendente é o que acaba de acontecer, nesse ano de 2007, menos de 70 anos depois do fim da II Guerra: o governo inglês retirou do programa pedagógico escolar todas as referências ao Holocausto e às Cruzadas - o que significa que estes assuntos não serão mais obrigatoriamente contemplados pelo currículo escolar - devido ao receio dos educadores em ferir os sentimentos da comunidade islâmica do Reino Unido, que negam a existência do Holocausto. Sim, é isso mesmo. E isso não é o Iran. É na Inglaterra de Churchill, da RAF e da resistência implacável. Na Inglaterra das liberdade civis, que não precisa de constituição nem de registro e cidadãos; a Inglaterra em que um policial não pode revistar você sem um mandato judicial…

Professores, políticos, burocratas e demais maricas pós-modernóides de politicamente corretos temem que os conteúdos das disciplinas regulares entrem em choque com o que é ensinado nas mesquitas e provoquem a comunidade do Islam ao ódio e ressentimento. E não basta as provas incontestes do massacre industrial de judeus pelos nazistas, não basta as pesadas perdas e baixas entre os europeus, asiaticos, etc., não basta milhões de testemunhas desses fatos históricos… não, senhores, não basta. Porque a verdade, bom… a verdade é uma ficção coletiva, que se presta a manter um grupo unido. É uma questão de consenso… e querer opor os fatos históricos e memória de um povo nativo e presente aos mesmo ao de outro povo ausente noutras épocas é impossível: não há que se contrapor narrativas, visto que não há fatos enquanto verdade.

[Para saber mais, veja aqui e aqui.]

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O Reino Unido tem 60 milhões de habitantes. Há pelo menos 1,7 milhão de mulçumanos, e 1% (16 mil) destes se dizem dispostos a “cometer atos de violência com o fim de destruir a ‘licenciosa e decadente’ sociedade ocidental. Veja os dados sobre o “problema do Londonistão” em inglês e em português.

Há cerca de 250.000 judeus vivendo na Inglaterra, e a presença judaica emancipada na ilha conta 200 anos.

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Quem defenderá as sociedades abertas de seus inimigos?

Posts de blog velho

12 Setembro, 2007

Hoje tive um surpresa - fui “indexado” no Planeta GNU/Linux Brasil. Na seção “sobre mim” estava o convite do Og Maciel, que me deixou muito contente. Bom, eu estou indo para o Encontro Nacional da RENAS (Rede Nacional de Ação Social), e fico fora (e incomunicável) até segunda-feira, 17.

Deixo aqui então, dois texto “velhos”, mas que podem ser de alguma valia, publicados no blog antigo em 20 de março e 19 de janeiro desse ano. Boa leitura!

Estética da empulhação

O diretor de desenvolvimento da Micro$oft® Brasil foi entrevistado pela rádio CBN por ocasião do lançamento do Windows Vista®. Era um entrevista de estúdio. O âncora, não me lembro se era o Sardenberg, soltou de cara: quais são as novidades no Vista®? E a resposta veio rápida e seca: temos uma nova interface gráfica… [silêncio]. Segunda tentativa: sim, mas quais são as novidades, as novas ferramentas? (…)bom, as novidades são tantas que só experimentando é que o usuário saberá. [silêncio constrangedor, fim da entrevista].

Isso aconteceu, e posso ter me esquecido de algum detalhe (como dizia o Glauber, a memória é uma ilha de edição). Ok, eu não vou falar sobre software livre, ou GNU/Linux, ou descer o cacete no Windows® ou na Micro$oft®. Já não preciso fazer isso. O fato é simplesmente ilustrativo - e se aconteceu com um executivo da empresa do Bill, que farei eu?

Mas é isso, em maior ou menor grau, o que acontece em nossos dias. Num sistema social em que todas as disputas importantes são decididas por uma tecnocracia pretensamente isenta, em processos cada vez mais ocultados dos cidadãos, não há que se saber como as coisas funcionam, quem controla as catracas e onde os esqueletos são guardados: o que todo mundo quer saber é se o resultado é bonitinho. Leia-se politicamente correto. E uma ocupação cada vez mais requisitada por aí é o maquiador de resultados.

A coisa funciona mais ou menos assim: toma-se um tema que já está presente e altamente considerado pelas pessoas - como uma política social de inclusão. Apresenta-se o diagnóstico, problemas e desafios, segue-se a exposição do projeto, metodologia, metas, benefícios. Posteriormente, editam-se gráficos, books, filmes e vídeos belos e empolgantes de como a comunidade ou segmentos foram transformados.

Correto em todos os pontos: motivação, projeto, método, execução e resultados. Tudo bonitinho.

E ninguém, obviamente, sabe como as coisas funcionam. Quem alimenta o esquema, quem o orienta, o corpo de executores, a propriedade e pertinência… e questionar qualquer desses pontos é imoral, deplorável e criminoso. Como se o motivo a tudo justificasse e redimisse quaisquer erro ou descaminho.

Acredito que o leitor já reconhece o esquema em sua expressão real.

Como no caso dos sistemas operacionais computacionais, desinformação associada com um julgamento por critérios estéticos, de gosto - subjetivos, pessoais e “intraduzíveis” - resultam em vulnerabilidade, poderes ocultos, desrespeito, medo, cerceamento de liberdades e ineficiência.

Saber como as coisas funcionam significa conhecer as entranhas, as sujeiras, viscosidades, odores e coisas dessa espécie; significa expor. Da mesma forma que ninguém em sã consciência prefere cobrir um ferimento com bandagens, cremes e maquiagens para recompor o aspecto sadio ao invés de tratamento médico com seus bisturis, iodo, agulhas tesouras e pontos, a atitude de relegar o que importa a não se sabe quem e apenas requerer as amenidades decorativas é um descaminho, imbecilidade.

Que bombas que nada! Para destruir o mundo basta transformar tudo em entretenimento: apazíguam a alma e desligam a mente.

… cuja altura era de sessenta côvados II

Eu uso GNU/Linux Ubuntu. Quem lê esse blog sabe disso; mas pode não saber que eu não sou um geek, na verdade sei poucas coisas sobre computadores - se levar em conta o montante de coisas sobre computadores que há para se saber. Tudo que sei sobre computadores, sobre software e software livre, é por conta de uma posição moral, ética - é axiomático, é por conta do que creio ser o certo. E não é uma questão de ortodoxia, mas de ortopatia. Vou explicar.

Usar software livre é tornar o poder e a confiabilidade dos processos para o usuário, ao componente humano, que, ao contrário do que querem nos fazer crer, é o mais confiável por ser o elemento criativo e realmente inteligente. É retomar o conceito da produção colaborativa e cooperativa, o que está muito distante da noção de inteligência coletiva, massificada e consensual da cultura de hive mind.

A noção de copyleft é uma perturbação no sistema demoníaco de restrições à difusão de inovações e participação e usufruto dos resultados (não, isso não é coletivização no sentido comunista - mas “free as freedom” como diz Richard Stallman). Divulgar e colaborar com cultura livre é lutar pela liberdade criativa do homem, assegurada na antropologia bíblica. Qualquer um que se queira coerente com uma visão bíblica de desenvolvimento, acho, percebe o valor de um princípio tal como formulado por iniciativas como copyleft.

Por isso, para mim, esse tema evoca princípios, e pede status de ortodoxia e ortopatia.

E não são apenas confessores de credos reformados que pensam assim, tenham certeza. Qualquer programador hoje em dia, sabe que Sistemas Operacionais livres são consideravelmente mais confiáveis, e uma prova disso é o fato de os principais servidores, dataservers e backbones do mundo rodarem alguma variação de SO livre.

Mas o mundo é caído - e os homens também. Depois das conquistas da cultura livre, sobretudo no que tange à web e à transmissão de dados, os poderes estão preparando seu contra-ataque. Uma vez que parecem ter perdido a batalha no campo dos grandes servidores e máquinas, e, por enquanto, na garantia da liberdade da internet, arquitetam um duro golpe contra nós, usuários comuns.

A idéia é que, da mesma forma que softwares proprietários (copyright) tomam decisões pelo usuário e impedem a interferência deste, agora as novas restrições serão asseguradas pelo hardware. Isso mesmo. Como o software proprietário é bastante ineficiente em garantir facilidade e segurança para o usuário e a integridade dos direitos, muitos usuários estão migrando para alternativas livres. E exige uma resposta da indústria de software. E ela vem na forma de uma conspiração maligna (no sentido de mal).

Um consórcio formado pelo esforço conjunto entre a indústria fonográfica, cinematográfica, de software e hardware e certos Estados lançou a noção de computador confiável, ou, em sua sigla inglesa Trusted Computing. Bom, isso é, a princípio, interessante. Usar computadores, que cada vez mais participam de processos vitais para a manutenção da sociedade global, de maneira confiável é consenso. O problema começa aqui: confiável para quem? O verdadeiro intento do TC é impedir a livre disseminação de conteúdos - protegendo certos agentes do mercado e certos interesses políticos /ideológicos.

Agora, os processadores, presentes em cada vez mais aparelhos além dos computadores pessoais ou servidores, serão programados para permitir que o usuário rode apenas determinados conteúdos ou programas, obviamente, de acordo com os interesses do consórcio. E, senhores, isso não é teoria da conspiração. Na verdade, já começou: por exemplo, se vc comprar um video-game de uma certa gigante do segmento de informática que recentemente entrou no mercado de consoles, você, consumidor, não é seu. Trocando em miúdos, o que você comprou não foi o video-game, foi o seu uso segundo determinadas condições. Francamente…

Uma vez que isso é legal (a quebra das regras do licenciamento constitui-se num crime ou contravenção), é perfeitamente plausível que a indústria de software se una à de hardware pra assegurar que os usuários não farão nada fora do contrato.

Qual a solução? Bom, primeiro, resistência. Como eu já falei em outros posts, use e incentive o uso de software livre em sua casa, trabalho, comunidade, igreja, escola, clube, etc. Procure quem sabe alguma coisa de software livre e que possa introduzi-lo no assunto; pesquise na internet. Se realmente entende o problema, procure uma escola de informática que dê formação em GNU/Linux. Se você acha isso exagerado, pense em alguém que saia por aí dirigindo um carro sem saber como fazê-lo… é quase a mesma coisa com um computador… e as conseqüência do mau uso podem ser piores, pode acreditar…

Segundo, use seu poder como consumidor. Da mesma forma que muita gente boicota produtos de empresas que usam mão-de-obra escrava ou infantil, ou que causam sérios impactos ambientais, da mesma forma que você procura alimentos livres de transgênicos ou de gorduras trans, procure comprar produtos e serviços licenciados por alguma licença livre, como GLP, Criative Commons ou outra. Quando for compra seu próximo computador ou laptop, prefira processadores AMD ao invés de Intel (você já sabe por quê).

Terceiro, converse com seus amigos e divulgue a questão. Esse é um problema que mais cedo ou mais tarde afetará a vida de todos: se a TC acontecer, alguém poderá “desligar” todos os computadores do mundo e de todo mundo. Arbitrariamente. Imagine isso acontecendo agora mesmo, enquanto você lê essas linhas.

Por fim, agradeço ao André Noel pela dica no Planeta Ubuntu.

Boa porte desse post está baseado nas informações contidas nesse artigo do Prof. Diego Saraiva, no Com Ciência (por favor, leia).

Abraço.

Notas sobre a questão agrária - por um leigo

3 Setembro, 2007

Um dos problemas dos movimentos de esquerda (ou, afinal, das grandes correntes e movimentos políticos) é sua tendência de criação de grandes propostas e agremiações totalizantes, que querem reunir sobre si todos os elementos interessados em certa questão, criando a ilusão que todos os componentes e agentes formam uma grande massa monolítica de opinião uniforme. Para tanto, é preciso subsumir as clivagens, as preferências discordantes, os grupos dentro do grupo, calar as alternativas e criar a noção e sensação em cada componente de que a única forma viável, correta e possível e a que lhes é apresentada (ou imposta) por uma “ala majoritária” (não creio foi sem propósito que José Dirceu e os seus tenham escolhido - ou ganhado - essa designação dentro do PT).

Apesar de crer que em certos momentos a coesão é necessária para a sobrevivência ou superação de um certo momento histórico ou questão crucial - como aconteceu nos governos de coalizão para momentos críticos na Inglaterra -, isso não tira o direito do cidadão de discordar, avaliar e expressar posição contrária. É inadmissível que se silencie grupos, preferências, e opiniões numa caudalosa e barulhenta propaganda e mecanismos de isolamento (não é à toa que tanto se ouve falar de personagens da esquerda que, em dado momento da “revolução”, são ostracizados, caindo no limbo). A estratégia do cinto ideológico que reúne os indivíduos, usurpando-lhes a iniciativa e agência, para a formação de um leviatã supra e super pessoal é a pior alternativa, se não a mias demoníaca.

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A questão agrária no Brasil, ao que me parece, padece do mesmo problema. Perceba que não quis me valer de pronto do termo reforma agrária exatamente pelo fato da questão agrária não se limitar a reformas e compartilhamento ou redistribuição de terras. Dentro do movimento, que, como tentei prefaciar, não é uno, único, e coerente (ou seja, unívoco) existem questões de regularização agrária, resolução de conflitos, questões de ordem trabalhista e, claro, reforma.

Existem milhões de posseiros e colonos no Brasil que cultivam e trabalham em terra a várias gerações das quais não são legalmente proprietários, nem delas podem dispor e têm seu futuro atrelado à incerteza da vontade de uma figura cada vez ausente - o latifundiário que por agora pensa nos muitos cifrões do agronegócio e nas chamadas opções verdes de combustível.

Existem milhares (se não, novamente, milhões) de agricultores que ocupam terras das quais não possuem títulos de posse e sofrem pressões e ameaças de grileiros e esperam pela justiça que lhe entregaria as escrituras. Trabalhadores do campo que não recebem seus direitos trabalhistas, e nós os vemos vez em quando nos telejornais quando algum fiscal do Ministério do Trabalho faz seu trabalho, flagra e autua fazendeiros que se valem da exploração de trabalho semi-escravo.

Nas cidades e em suas favelas, outra miríade originária do campo, personagem do êxodo rural brasileiro (um dos maiores da história) se amontoam na semi-urbanidade, desiludidos do sonho industrial e citadino, a quem se apresenta a possibilidade de retornar para o interior.

Para essas tragédias, que são diversas e de natureza distintas, não há uma solução única. Há questões e características regionais, econômicas, políticas e morais que fragmentam esse falso monolito e exigem tratamento diferenciado. Como tudo por aqui, no Brasil, que seja mais complicado que um binômio é esquecido na máquina burocrática atolada na lama da má vontade política, a solução do super-funcionário brasiliense é tomar o gigante verde-louro como igual em tudo e todos os lugares, propondo uma solução que só dá certo no Reino da Sandice (não muito longe de Inverídia).

Por outro lado, movimentos da esquerda revolucionária sem tanta sofisticação gramsciana solapam e fagocitam os movimentos regionais, menores e atentos às especificidades locais, reunindo toda a massa em torno de usa bandeira, hasteada no poste mais alto e tomada por única existente e possível. E isso transcende a realidade e consciência dos agentes envolvidos diretamente na questão: na cidadão comum, que assiste ao Jornal Nacional, a questão agrária se confunde com reforma agrária e seu representante único é o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A unificação dos discursos é a condição necessária para a polarização binária do conflito, para o acirramento das preferências que leva ao inevitável conflito. Sendo que o pequeno burguês geralmente é um otário sonâmbulo que cede sua liberdade a um governo totalitário desde que prometa livrá-lo das ameaças, e o pobre camponês foi a classe (num sentido menos marxista, substitua “classe” por “tipo”, se quiser, que a gente se entende) mais sofrida com a revolução industrial (o trabalhador industrial urbano obteve melhorias se tomarmos períodos maiores, e a constatação estatística do aumento da renda do operário foi um problema que Marx contornou com a fraude dos dados expostos n’O Capital), não me parece fortuito o fato dos países com maior população rural do mundo terem instalado regimes comunistas (Rússia e China), enquanto os países industrializados, com sindicatos mais atentos e politizados (com aquele tipo interessante, o burocrata do partido ou do sindicato que se enquadrou na cultura pequeno burguesa) conseguiram equalizar diferenças salariais e melhorias sem abrir mão da economia de mercado e da democracia multi-partidária.

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É preciso estilhaçar os monolitos, esses construtos ideológicos irreais e mentirosos, demonstrar os diferentes ambientes e problemas para desmontar o uso desse problema real e urgente de justiça para projetos partidários, revolucionários ou que quer que sejam.

Sobretudo, acredito na opção pelo pobre, e por uma questão de justiça, é preciso um esforço político e moral para solucionar o problema da questão agrária, sem recorrer à vitimização, mas sem esconder ou minorar os fatos de opressão, violência e demais tragédias, com adequação econômica, mas sem esquecer a justa medida e solidariedade com o fraco (sim, eles existem).

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Este post foi motivado pelo filme (não creio que possa chamá-lo de documentário, por questões técnicas) de Tetê Moraes, “O sonho de Rose” (Brasil, 1996/2000), tratando dos desdobramentos do caso de Rose, sem-terra (casada, mãe de três filhos) que morreu atropelada (supostamente morta intencionalmente) durante a luta de acampados do MST na fazenda Annonni, no Rio Grande do Sul, em 1985 - em 87, Moraes dirigiu “Terra para Rose”, sobre a ocupação, o confronto com a polícia e a morte de Rose.

Em entrevistas muito interessantes com a família de Rose, sua situação dez anos depois da tragédia, e com as lideranças do movimento, antigos companheiros de ocupação, que são confrontados com suas afirmações anteriores e atual condição. Sem querer antecipar o filme, creio que muitos aspectos e contradições da questão agrária e do MST (e outros movimentos atuantes no campo) ficam muito claros.

O filme foi exibido ontem (Domingo) no programa Cadernos de Cinema, da TVE. Mesmo não sendo uma obra-prima do cinema, proporciona boas reflexões, como espero ter sido o caso aqui. Se puder, assista.

Amazônia: muito além da questão ambiental

2 Setembro, 2007

No Planeta Ubuntu Brasil, foi postado pelo Og Maciel um vídeo do Greenpeace, hospedado no YouTube, sobre o problema da revisão da demarcação das terras para o povo Enawene Nawe (demarcação que subtraiu importantes sítios religiosos e de subsistência da tribo) no norte do Mato Grosso. Em vista da possibilidade de revisão e ampliação das terras Enawene, fazendeiros da região acudiram em ocupar as áreas e iniciar atividades do agro-negócio alí. Os índios pediram apoio à OPAN (Operação Amazônia Nativa), que enviou um grupo de consultores e jornalistas para avaliar a situação e divulgar o problema.

Contudo, os fazendeiros, ao saberem da presença de ambientalistas e jornalistas que iriam se encontrar com os Enawene, ameaçaram e intimidaram o grupo, e, juntamente com o prefeito e a Câmara Municipal de Juína, impediram a visita prometendo, inclusive, fechar a estrada ou recorrerem a meios piores. A equipe teve, então, que cancelar o encontro e deixar Juína.

O que inacreditável é a forma como fazendeiros invasores de terras, legisladores e governantes violam todos os direitos de liberdade (de imprensa, de ir de vir, etc.) e da integridade física e moral, e agem conjunta e criminosamente em nome de interesses sabidamente ilegais - e sem qualquer dissimulação.

Enfim, assista o vídeo. Divulgue, ainda que você seja um desconfiado de instituições como o Greenpeace e OPAN, porque o que está em jogo são procedimentos e direitos democráticos. O caso da Amazônia se situa, faz tempo, num lugar muito além da questão meramente ambiental.

Veja no YouTube, ou na reportagem do Greenpeace.

Atualização - quem comentou:

Luiz Carlos Azenha (Globo)

Conor Foley (The Gardian)

(valeu, Guilherme!)