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Purim

21 Março, 2008

Hoje é dia 21 de março; para os cristãos, sexta-feira santa, Páscoa cristã. Para nós, judeus, ainda não é Páscoa - nossos calendários são diferentes (o cristão gregoriano é solar, o judaico é lunisolar). Mas essa data é importante para nós, é Purim. Purim não é uma das grandes festas do Judaísmo, não é como Rosh haShaná (ano novo), não é como Yom Kippur (dia do perdão), não está na lista de Levítico 23; mas é uma festa e tanto! Ganhou importância quanto mais se tornou emblemática, assim como Chanuká, a festa das luzes: são festas de livramento do povo judeu.

No ano de 586 a.E.C., aproximadamente, o Reino de Judá, ou Reino do Sul (de Israel), foi invadido pelos exércitos babilônicos, e os habitantes de Judá, ou judeus, foram deportados, exilados para a região que chamamos Mesopotâmia, hoje Iraque. Foi um duro golpe na história de Israel, porque o Templo de Salomão foi destruído e o orgulho da nação foi quebrado. Apesar do exílio ter terminado com o retorno dos seguidores de Neemias para Jerusalém, a diáspora judaica que se iniciou aí perdura até hoje (intensificada, claro, pela expulsão romana em 70 e 135 E.C.).

Quando Babilônia foi conquistada pelo império Persa, o rei Assuerus, ou Xerxes (aquele mesmo que aparece, figurado, em 300 de Esparta) nomeou como vizir (primeiro-ministro) um tal Haman, que tinha fortes ambições de glória. Haman se irou com um certo guarda das portas reais, chamado Mordechai (pronuncia-se Morderrái) que se recusou a bajulá-lo. Haman descobriu que Mordechai era judeu e decidiu se vingar matando não apenas o porteiro, como a todos os judeus - e para isso armou um plano que obteve aprovação do rei, onde mataria todos os judeus do império; e lançou sorte para saber em que dia deveria executar a ação - 13 de Adar.

Mordechai soube do plano (afinal, ele ficava o dia inteiro nas portas da cidade - ouvia de tudo), e avisou sua sobrinha, que fora feita rainha, esposa do rei Assuerus, sem que este soubesse de sua origem judaica. Ester era seu nome Ester. Ela, sabendo dos plano de Haman, conclamou todos os judeus a jejuarem e orarem com ela por três dias, e ao final desse período ela se apresentou ao rei, revelando sua origem judaica e o plano de Haman para aniquilar seu povo. Haman foi morto, mas o decreto que ordenava os ataques aos judeus nas cidades em que habitavam não podia ser revogado; então Assuero ordenou que fosse dada permissão aos judeus para que se defendessem dos ataques, e assim fizeram no dia 13 de Adar. O dia 14, portanto, foi um dia de festa e alegria pelo livramento.

Porque Haman lançou sorte, do acadiano pûrú, deriva o nome hebraico Purim. E isso tem alguns significados. Primeiro, para o pensamento hebraico, não existem coincidências, acaso; assim, em Purim a sorte foi decidida num ato oculto de intervenção divina: a eleição de Ester como rainha da Pérsia e os momentos em que Mordechai ouviu falar da conspiração contra o povo. Também significa que a sorte do povo judeu não está nas mãos de qualquer homem, muito menos Haman ou mesmo Xerxes/Assuerus. Apesar de nenhuma vez o nome de D’us ser citado em Ester, sua presença e intervenção são óbvias.

Essa história se tornou emblemática da condição hebraica, judaica, no exílio: há muitos Hamans que por mesquinharias e rancor pessoal (inveja e raiva) decidem eliminar todo o povo judeu, ou o máximo que conseguirem. Hoje, curiosamente, temos um Haman persa e primeiro-ministro outra vez: Ahmadinejad, presidente do Iran, antiga Pérsia. E essa nova forma de anti-semitismo, o anti-sionismo, vai conseguindo apoio e decretos reais por todo o mundo. E os judeus em todo o mundo estão apreensivos, temerosos de que o pior possa acontecer.

Mas houve providência - Ester. Outra haverá, sempre houve.

Aliás, Purim é a festa que honra as mulheres no Judaísmo. Sempre femininas, sempre fortes, sempre sabendo o que fazer quando qualquer homem desmaiaria de terror. Oculta, astuta e corajosa, derrotou Haman em toda sua força e poder. Assim também fizeram as mães marranas, descendentes dos judeus forçados a se converterem ao cristianismo em Espanha e Portugal no século XVI e XVII, que mantinham em casa, escondidas, as tradições e as ensinavam a seus filhos e filhas, resistindo à aniquilação perpetrada pelo inimigos de Israel - não por acaso que se identificavam com a rainha da Pérsia.

Shaná tová u’metuká - Um ano bom e doce

12 Setembro, 2007

Hoje é 29 de Elul, o sexto mês do calendário hebreu, e marca a véspera de Rosh Hashaná, o ano novo judaico - 1ᵒ de Tishri. Pode parecer estranho que o ano novo seja comemorado entre o sexto e sétimo mês do calendário - é que Rosh Hashaná é o ano novo litúrgico, quando o ciclo de leitura das 54 porções da Torá é concluído. Em termos bíblicos, a data tem outro nome, Yom Teruá (Levítico 23:24), ou “O dia de tocar a shofar”, ou festa das trombetas.

Yom Teruá, ou Rosh Hashaná, marca, também, o início dos dias de arrependimento, ou os “dez dias terríveis” - Yomim Noraim - que culminam com o Yom Kipur, o Dia da Expiação (ou do perdão). Diz a tradição judaica que em Rosh Hashaná, D’us se assenta num trono e os livros contendo os feitos de todas as pessoas são repassados e julgados - daí um outro nome para a festa: Yom haDin, ou Dia do Julgamento. Também foi dessa tradição que temos a idéia do Livro da Vida, tão presente no Novo Testamento.

O ano novo é marcado pela noção de justiça e prestação de contas, de rememoração do povo sobre seus atos, conduta, e reflexão sobre a justiça e retidão de seus caminhos. D’us continua assentando em Seu Trono, e julga Soberano sobre todas as coisas - e nada haverá de lhe escapar, seja ao juízo, seja ao perdão.

Os dias terríveis não são meramente para uma reflexão pessoal, para uma moral individual (apesar de isso ser importante e estar presente na festa). São dias de responsabilidade coletiva, é o povo pedindo perdão pelo povo; é onde cada um é responsável pelos atos de todos, porque toda a Terra sofre com a injustiça e com o pecado. É profundamente corporativo e comunitário: o indivíduo pede perdão e acerta seus erros todos os dias com Seu D’us e com o próximo, mas nesses dias, somos todos e cada um diante de D’us.

Rosh Hashaná também é um dia de pedir a D’us que faça juízo, que guarde o fraco, o oprimido, o pobre e o injustiçado - que livre Israel de seus inimigos. Justiça, para a Torá, para o judaísmo, é também misericórdia, é verdade e socorro.

Temos muito a refletir, muito a considerar. Muito da misericórdia de D’us é preciso, e de sua justiça, portanto, também. Oremos e peçamos ao Eterno, que renove nossos dias, e que tenhamos, em 5768, um ano bom e doce - com atos próprios para aqueles que estão inscritos no Livro da Vida pelo sangue do Messias.

Calvino e os Judeus - I

30 Agosto, 2007

A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os shtetl) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.

Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios - e como tudo o que é “os outros” é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a “questão judaica”. Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos - vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.

Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois “tipos”: os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha - a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado… o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de Dos judeus e suas mentiras.

O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.

Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus - estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da “reformada” Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.

A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse “insumos empíricos”. Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com “gramatical” e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão… Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.

Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à “teimosia talmúdica”. Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.

Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica - um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.

Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: Calvinus Judaizans. Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.

*BARON, Salo. João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu. 1974. São Paulo: Editora Perspectiva.